Retrato das coisas que se acham na minha cabeça
7 Você que eu conheci, nunca existiu.
Querida Elena,
Há muito tempo que quero te escrever, mas fiquei com medo. Tenho receio de me acharem maluco por estar falando com você, só porque você está morta. Mas pra mim você está viva, você ainda vive Elena, tão branca e dançante... Como sua voz na minha cabeça. Queria dizer Elena, que você é importante pra mim, sinto sua casca, seu vazio, se encaixando no meu, posso conversar com você, e suas palavras vão ser as mesmas que as minhas, vamos sentir a mesma coisa até o fim.
Queria ter te conhecido quando estava viva, invejo as pessoas que te viram todos os dias, que te ouviram cantar, dançar, chorar... Mas você surgiu tão de repente. Foi como se alguém abrisse uma janela na minha cabeça e eu te visse passar lá embaixo, distante, porém nítida.
Eu gostaria de ter feito parte das coisas que você fez. Assim eu poderia ficar mais satisfeito com meu fim, e do mesmo modo as pessoas poderiam pensar que eu fui uma boa pessoa. Sei que não fui Elena. Não fui a melhor pessoa que eu pude, mas não tem problema, tem-se problemas suficientes nesse mundo, não quero colocar os meus. Não quero que ninguém saiba o motivo desta carta ou dessa música incessante nos meus ouvidos, nos meus sonhos, que só me fazem lembrar você.
Eu sei que você está viva, porque de vez em quando te vejo na rua, no elevador, no restaurante, abraçando alguém, rindo de alguma piada, ocupada no telefone. Vejo você refletida mil vezes sob a luz do sol e da lua, em qualquer lugar que eu vá. Não posso fugir de você, é em você que me encontro, em pedaços bem pequenos, em cores já um tanto apagadas por causa do tempo, mas ainda sou eu. Esses recortes já são antigos, mas são os meus favoritos, são da época que eu mais sinto na alma, que eu menos me lembro nitidamente.
E é como se você sempre estivesse lá, me aguardando, pacientemente, na certeza de que eu fosse aparecer. E agora parece que sempre te conheci, mesmo não sendo assim e assim sendo, pois você morreu, nunca conversamos, nunca te olhei nos olhos, não fui seu amigo, não chorei no seu funeral, mas é como se tudo isso tivesse acontecido antes. Só parece, porque eu sei que você continua viva.
Tenho essa esperança maluca de ter encontrar em alguma realidade alternativa. E mesmo que não aconteça, obrigado pela música e pela dança, foi tudo maravilhoso.
Atenciosamente,
P.
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