Retrato das coisas que se acham na minha cabeça
8 Dias tardios.
Por alguns segundos imaginei que ele pudesse sentir toda aquela tensão passando pelo meu corpo, era de certa forma anormal, caótica e boa e triste. E já fazia algum tempo que eu me questionava quanto a relevância de sentimento (ou seria sentimentos?) tão fortes e diferentes... Talvez não “fortes”, acho que melhor seria “presentes”, esses sentimentos tão presentes nessas horas. Eles só me confundem, então pra que existem? Porque eu sinto essa náusea e meu cérebro parece girar? E a cada coisa que ele fala, a cada olhar que eu não consigo evitar, me sinto mais fundo, mais triste e mais com aquela sensação de “okay, eu já sabia que isso aconteceria”.
Estávamos levemente bêbados, ou “altos” se preferir, andando sem propósito pra qualquer lugar, só pela conversa, só pela companhia, só pela risada. A noite era a mesma na cidade, mas em mim já não era e depois também, nunca foi. Ouvíamos as conversas fervorosas dos bares, a mistura dos cheiros e víamos os que entravam e saiam, o teto do céu parecia baixo e o sangue pulsava nas orelhas como sussurro. Na caminhada diversas vezes chegava muito próximo de mim, me abraçava e falava alguma coisa ao ouvido, e com isso fui recalculando todos aqueles dias, os últimos. A partir dali só seriamos eternos para o passado, aliás, nunca seriamos eternos, acho que não, já que sempre pressenti o fim das coisas...
“pressenti”?
Esperei. Sempre esperei. Aprendi, muito antes dele, a esperar coisas boas e coisas terríveis, sendo as terríveis mais comuns do que eu desejava. Dito isto, posso afirmar agora, sempre aguardei sua partida... De forma meio insensível confesso, mas aí eu senti, quando chegamos na praça vazia e nos sentamos num dos bancos. Deitei e apoiei minha cabeça numa de suas pernas, então ele olhou pra mim e ouvi a sinfonia tocar, uma música bela, porém triste, que contava a história de um tal desventurado jovem que viajou o mundo procurando conhecer a si mesmo. Minha mão passou por debaixo da sua camisa e ficou passeando por suas costas, e eu ri, porque queria chorar, e se chorasse possivelmente não iria parar facilmente e ele me acharia fraco, não queria que achasse isso naquele momento, quando eu fazia todo o esforço do mundo para rir do seu sorriso e não chorar pensando que dali a alguns segundos tudo teria sido.
Ele continuou falando, como sempre falava, como sempre sorria e olhava pra mim da mesma forma de sempre, o que era bom, significava que ele não sabia o que passava em mim, toda a minha confusão e a mudança repentina de humor, meu frio na barriga, me senti grato por ele não notar nada disso. Senti cada osso de sua coluna, sua pele e o seu cheiro. Queria me aconchegar no seu peito e dizer que meu coração disparava, mas tinha medo e não podia, nem devia, seria injusto, seria como manchar tudo, distorcer, seria tão incompreensível para ele quanto era pra mim.
Me sentei, permaneci ao seu lado de cabeça baixa, mas ainda atento a tudo que ele dizia, tentando responder de maneira igualmente descontraída e feliz, mas a noite tinha esfriado e agora o peso das horas fazia o chão mais negro e o caminho até em casa mais longo. Até que me levantei de repente, apenas como um choque, uma reação do subconsciente, ele parou e me olhou, então se levantou também, ficou diante de mim, como se esperasse que eu fizesse alguma coisa. Não pude me conter e o abracei, o abracei porque queria; queria pensar que uma vez ele me abraçou. Senti suas batidas nas minhas costelas, sua respiração na minha nuca, meus sonhos sendo moldados no infinito de possibilidades daquela cena, no que poderia ser depois, no que eu queria que fosse depois, que o depois fosse pra sempre, sempre qualquer coisa boa com nós dois, mesmo que nós dois não fossemos pra sempre... E sabia que não seriamos. Mas esse é o problema, mesmo que eu desejasse as melhores coisas pra ele, isso não significava que elas fossem acontecer. Suas mãos acariciaram meus cabelos e me senti acolhido, nossos corpos se afastaram um pouco, nossos olhares se fixaram e os narizes se encostaram, logo então depois foram os lábios. Nos envolvemos no prazer fugaz, fluido e efêmero que um beijo é, como duas crianças inocentes, duas bocas desajeitadas tentando dizer uma a outra que não queriam partir, que não queriam deixar, mas aquilo era o Destino. E o tempo. O tempo para, enquanto as carícias se traduzem, o tempo não passa, mas as batidas se aceleram e são de forma tão delicada que parecem flutuar, fazendo o barulho do vento nas folhas das árvores.
Minha mão segurou o rosto dele, logo beijei a única lágrima que escorreu do seu olho. Até hoje não sei porque ela caiu, se foi por causa da saudade, da confusão no coração humano, do infalível Destino ou se era somente sono.
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