Retrato das coisas que se acham na minha cabeça
4 Com outras coisas na cabeça
Às vezes você me procura por aí, mas eu não tô. Eu sou um só. Mas você está em todo lugar, como pode isso? Você é qualquer um nessa cidade, andando nessas ruas, sem rumo, nem esperança. Agarrado na terra, feito um fantasma sem passagem, uma música perdida no meio da noite, tão pesado. Se penso muito em você? Acho que o suficiente. Não adianta pensar em alguém que parece sempre presente, alguém que está e não está, existe e não existe. Você é meu deus particular, minha divindade, e queria que você não causasse tanta confusão dentro de mim, você me faz pensar em tantas coisas que não devia.
Sinto que você embrulhou meu passado todo dentro de você e aos poucos eu vou redescobrindo minhas próprias coisas, enquanto eu descubro você, descubro você... Des-cubro você. Então anoitece, como se nunca mais fosse nascer outro dia. Nas luzes da cidade lá atrás, que recortam os galhos secos das árvores, eu vou sumindo na revolta do tempo, com cada instante que não será recuperado. Por que? O tempo não se cura, ele só leva, aliás, ele nos obriga a deixar e nós é que vamos, feito andarilhos. Nada tem retorno, existe pouco a se lembrar, carregar, a se cansar. Pouca coisa vale a pena.
Então parece que eu vivo pra você e você morreu pra mim. Os vivos são temporários, os mortos são eternos e a vida continua. No veneno que corre nas veias, na poeira que eu coloco dentro dos pulmões, no peso que todo mundo carrega. Do que jeito que você me destrói e me esquece, logo estarei morto. Isso me faz perguntar: eu vou ser eterno ou só virar pó e desaparecer?
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