Retrato
1 Azulejo
Notas iniciais
Me deem uma chance, essa história já está completa! Atualização: Segunda e quinta(excepcionalmente estou postando num sábado)
Os tempestuosos acontecimentos dos últimos dias me despertaram o desejo de ter um refúgio. As pessoas pareciam estranhamente ineficientes. Talvez até queriam estar presentes, mas minha necessidade de “abrigo” parecia não tocá-las, o que era frustrante. Então, surtos nostálgicos começaram a conduzir-me para antigos afazeres prazerosos, na esperança de afugentar as amarguras dos dias vigentes e descansar um pouco das batalhas diárias. Bom, tinha mesmo a esperança de que tudo corresse bem e eu sentiria a mesma satisfação de quando mais jovem. Ledo engano.
Revirei a internet e um canal voltado para adolescente na tv a cabo, para achar uma série que assistia quando tinha 16 anos. Hoje beiro os 20. Achei, assisti. Não foi a mesma coisa, nem de longe. Minha admiração aos personagens permanecia, mas alguns diálogos pareciam rasos e sem sentido, me fazendo ficar um pouco entediada em certos momentos. Não posso dizer que foi uma decepção total, afinal de contas, passei a notar coisas que não notava antes o que me rendeu boas risadas, já que aparecerem os mais variados absurdos. No fim, não tive sorte e não terminei de ver as temporadas porque só achei em outro idioma. Falhado este hobbie, passei para um esporte que me fazia sentir a sereia de todas as águas: Natação.
Aprendi a nadar na escola em que fiz o fundamental, aos 8 anos. Eu nunca faltava e adorava os 10 minutos de liberdade que tínhamos no fim. Eu mergulhava, treinava as cambalhotas debaixo d’água e costumava admirar meus reflexos nos azulejos da borda da piscina. E tinha também um amigo meu que tinha 14 anos e gostava de “implicar” comigo, mas no fim sempre conversávamos e acho que posso considera-lo como uma amizade, já que a escola sempre foi meio solitária. Fiz a matrícula, fui todos os dias propostos. Estranhei muito. O professor era muito rígido, praticamente não conversava com os alunos, só ditava os movimentos. Obviamente, meu amigo incomum não estava lá e não havia ninguém meramente parecido com ele, os azulejos da piscina estavam gastos e arranhados, os olhos que refletiam tinham olheiras cansadas e não eram mais grandes bolas escuras curiosas e vívidas. De todo, também não foi assim amargo, já que a sensação da água chocando-se em meu corpo era refrescante e me fazia sentir bem.
Foi com certo pesar que percebi, dias depois, que o sorriso em meus lábios referente a todos esses passatempos era de sarcasmo e não de prazer, como antes. A vida adulta podia funcionar como uma castração constante. Eu sorria de sarcasmo porque, na verdade, sabia que eu já não era mais uma garotinha, portanto não aproveitava as coisas da mesma forma. Não vivia as coisas do mesmo jeito. E a maior ironia em tudo isso era que a maturidade que refletia nos azulejos velhos da piscina por vezes ainda era insuficiente para resolver os meus impasses.
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