Retirando-se da competição
1 Prólogo
O ofício de ser o melhor amigo de alguém é bastante ingrato. Somos pressionados a cooperar com certos planos mesmo quando insistimos que não gostamos, e isso acaba inevitavelmente nos colocando em maus lençóis. Pelo menos era assim que eu me sentia quando a garota que rejeitei de forma pouco conscienciosa me humilhou com a sugestão mais mordaz nunca antes vista: enrolado como um trouxa em uma trouxa de lençóis de camelô.
Para esclarecer melhor a história, preciso voltar ao princípio do grande mal entendido e reproduzir toda a situação outra vez.
Bingley e eu somos melhores amigos desde que o ensino médio começou. Nós dois estudamos na Escola Meryton, uma instituição interna de prestígio em Hertfordshire, no leste da Inglaterra, e pertencemos aos 95% da elite matriculada. Viemos de famílias fidalgas com importantes papéis políticos em Londres e éramos os reis do internato, os melhores jogadores de lacrosse, com uma reputação e popularidade inquestionáveis.
Honestamente, nunca me importei com as opiniões. Eu era seguro do trabalho que realizava como jogador e aluno e consciente do posto de primeiro lugar nada-ameaçado que ostentava. Bingley é quem julgava necessário manter o status quo, e acho que é por isso que todos o consideram tão agradável – o cara é o retrato perfeito de uma celebridade. Ele é a princesa Diana com barba e testículos.
Mas voltando àquela coisa que eu estava contando no primeiro parágrafo, que envolve rejeição e contra-rejeição, Meryton oferece tradicionalmente um pequeno baile de boas-vindas no início do ano letivo. A intenção é fazer com que os alunos, veteranos e calouros, interajam antes de suas vidas serem consumidas pelo estudo compulsório a ponto de todos nos tornarmos andarilhos que recitam Lord Byron enquanto fazem cálculos de matemática avançada.
Bingley, como de costume, já começava a procurar uma vítima. Era só uma questão de tempo até que ele tivesse um par e começasse a me importunar para levar alguém também. E, como o bom amigo que é, tomar inclusive a liberdade de escolher por mim. Se isso ainda não te deu uma ideia do que pode ter acontecido, vou prosseguir com a minha narrativa.
Todo ano a escola reserva ¼ das vagas para pessoas que não têm condições de arcar com as despesas de um ingresso em Meryton. São os bolsistas, presentes em quase todas as instituições particulares da Inglaterra, e secretamente abominados por mim. Geralmente, são pessoas sem classe nem elegância, que se acham os maiorais com um discurso ensaiado de “tudo que conquistei foi por mérito, sem as comodidades de uma fortuna”.
Meu amigo não tem o mesmo preconceito que eu, e por esse motivo ele escolheu uma caloura bolsista no jantar da recepção oficial dos novos alunos para acompanha-lo.
— Vamos, Darcy, dê uma chance para as novatas – ele me provocou, sorrindo de forma estúpida.
— Você sabe que desteto bailes e estranhos.
— Ah, qual é! Garanto que nunca conheci tantas garotas lindas como nesta noite.
— A única garota nova bonita é o seu par – Charlotte Lucas, a dita cuja, era uma loira com rosto marcante e sorriso angelical, mas quando olhava para ela só conseguia pensar em quanto tempo levaria para se transformar em uma meritocrata emproada com síndrome de coitadinha.
— Ah! – Bingley exclamou com um sorriso de satisfação. — Um anjo! E ela tem uma amiga que, devo dizer, é bem bonita. Está sentada atrás de você, dê uma olhada, mas seja discreto, Darcy, você se entrega com facilidade às vezes.
Não era uma questão de disfarce mal sucedido, eu só não me importava mesmo de ser pego encarando. Por isso girei o torso para trás na cadeira e dei uma boa olhada na moça que me estava sendo oferecida.
— Bonitinha, mas não corre nenhum risco de ser convidada por mim. E não estou com humor para amigas menos desejadas. É melhor você não perder seu tempo comigo – disse friamente, tentando cessar aquele assunto de baile e convites.
Bingley se levantou da cadeira, apoiou a mão em meu ombro e inclinou-se para sussurrar uma coisa no meu ouvido que me deixou profundamente incomodado.
— Tente não morrer sozinho – ele disse e saiu do salão.
Nesse momento, a amiga da Charlotte passou por mim, dirigindo-me um olhar divertido. Ela foi até a Lucas e cochichou algo que fez as duas rirem. Se antes a minha perturbação não era completa, agora era. Levantei-me também e saí, porque não precisava que rissem de mim fosse pelo o que fosse. Nenhuma garota ria de mim, no mínimo riam para mim; para me agradar.
Fui para o meu quarto. No dia seguinte, começariam as aulas, e se eu soubesse que seria tão humilhante quanto foi teria gasto minhas horas me preparando para o impacto psicológico, “malhando meu ego”, como diria Bingley, ao invés de escrever e-mails tranquilizando os meus pais e saudando minha irmã. Mas eu não poderia prever que a classe que nos esperava era uma verdadeira pista de esgrima, e que meu orgulho seria ferido por muito mais do que a ponta de um florete. Nem que algumas pessoas pudessem ser mais interessantes do que as aparências e o preconceito inicial me fizeram crer. Nunca passou pela minha cabeça que a rebeldia fosse, talvez, atraente em uma garota.
Só que o que Elizabeth Bennet possui de ardil em gênio, eu possuo em competição.
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