Retidão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Padre Garcia é o padre preferido de boa parte dos frequentadores da igreja Santa Terezinha, localizada no famoso e tão cantado bairro do Jaçanã, na periferia da Zona Norte de São Paulo, SP. Exemplo de retidão, temor à Deus, louvor à Cristo e fervor ao Espírito Santo, diziam as boas línguas — estas que também reparavam no modo de andar leve, rosto sempre sereno e voz acolhedora de homem tão jovem.
No confessionário da igreja, faltando poucos minutos para o local fechar, um homem confessava seus pecares para o sacerdote:
— Padre, confesso que eu tenho pensamentos impuros com uma colega do meu serviço, mesmo amando muito a minha esposa e está cada vez mais difícil resistir a outra. Ontem, após o serviço, ela se declarou pra mim e eu fugi, porque não consegui falar pra ela que sou casado. Que é que eu faço?
O Padre, baseado em passagens bíblicas, aconselhou o rapaz com palavras duras, porém sinceras ao confortar a mente agitada do rapaz, que agradeceu o vigário chorando de alívio e saiu.
Igreja fechada, de banho tomado, vestido com um elegante terno preto e uma maleta preta, Padre Garcia seguiu sua rotina de dar uma caminhada pelo bairro, para admirar o quão maravilhoso é esse mundo que Deus criou.
Durante a caminhada, passando por uma praça pequena, Garcia avistou um carrinho de bebê. Aproximou-se do objeto e lá viu um bebê encantador, a inocência simbolizada no ser humano. Em seguida, deu uma olhada ao redor do local e percebeu duas mulheres conversando, provavelmente a mãe da criança mais uma amiga. Depois, acarinhou o rosto do bebê, deu-lhe um tenro beijo na testa, abençoou a criança e com um sorriso no rosto, retirou uma minipistola do bolso da calça, atirou na cabeça do bebê para, por fim, sair de cena de forma sorrateira; somente algum tempo depois a mãe, desesperada, chorava a vida perdida do filho de apenas um mês de vida.
Um tempo curto depois, Garcia estava deitado no parapeito de um prédio da região. Mirou o rifle para longas distâncias em um casal homossexual, que andava tranquilamente na rua de mãos dadas, e matou os dois com um tiro na cabeça cada, de forma rápida e certeira. Após terminar o ato, Garcia colocou o rifle de volta à maleta, levantou-se e passou a caminhar de volta para o interior do prédio. No local, moravam familiares do homem, por isso tinha acesso livre ao local.
De volta a rua escura e vazia, afinal eram 23:20h e todo o comércio ali estava fechado, Garcia passou por uma mulher. Retirou a minipistola do bolso, atirou na cabeça da mulher e 100 metros depois atirou na cabeça de um homem que também apenas teve a triste coincidência de cruzar seu caminho com o de Garcia.
Vinte minutos depois, já de volta à igreja e dentro da saleta de recreação do coral, com TV e vários quitutes, Padre Garcia assistia ao principal noticiário noturno, com o apresentador informando o seguinte ocorrido:
— Cinco pessoas morreram no bairro do Jaçanã, São Paulo, capital, todas com um tiro na cabeça. Uma das vítimas era um recém-nascido de apenas um mês...
Após o anúncio, o noticiário passou uma reportagem sobre o “Matador das Onze”, o matador em série que aterrorizava o bairro há um mês e, até aquele momento, fez 25 vítimas. Todos mortos da mesma maneira: um tiro letal na cabeça.
O pároco riu durante a reportagem inteira e depois do término dela, desligou a televisão, fez suas atividades noturnas, cantarolou hinários cristãos durante o banho, enxugou-se após o banho, trocou de roupa e dormiu tranquilamente para encarar mais um dia de retidão, servidão e amor em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
“(...) Posso ter nascido doente, mas adoro isso (...)”
(Take Me To Church — Hozier)
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