Reticências

1 ...Único...


Notas iniciais
A história a seguir é uma história de fundo para a primeira música de minha banda, espero que a encontrem por aí daqui algum tempo!

O sol da tarde se despedia com suas últimas cores alaranjadas, meu quarto parecia ecoar todo o silêncio daquele momento. Minha cama estava desconfortável e não queria me acolher ou consolar. Me levanto vagarosamente e começo a andar pelo pequeno espaço com passos soturnos, arrumando pouco a pouco a bagunça que aquele adeus fez. Passo pela cozinha arrastando minha mão pelos balcões chegando rapidamente até a sala, onde minhas almofadas estavam jogadas no chão, a televisão antiquada sobre o hack refletia minha imagem e me concedi um tempo para observar a mim mesma. Tento falhamente limpar a maquiagem que se borrou com as lágrimas, amarro meu cabelo que baguncei em frustração. Por um momento tento confortar meu reflexo colocando minha mão sobre o mesmo, deixo a ideia tola de lado e volto a organizar. Olhei para o móvel da sala e peguei todos os porta-retratos que me provocavam colocando na caixa de sapato mais próxima.

Volto passando pela cozinha até meu quarto. Minha casa não possuía portas ou portais, era apenas um cômodo. Uma cozinha que é separada de meu quarto por uma estante de livros, e a cozinha que se separa da sala por uma mesa de madeira rabiscada por meus desenhos matinais. Tudo que me fazia feliz naquele recinto ativava lembranças alegres, e a nostalgia mórbida apenas me roubava prantos não sorrisos como antes.

Peguei os casacos dela e os comprimi na caixa, abri a terceira porta do armário que na verdade era uma passagem para um banheiro pequeno. Entro lá e vejo aquele perfume em um frasco irônico em formato de uma granada. Ignoro meu retrato refletido no espelho e me permito aplicar o perfume em meu pulso. O aroma me abraçou, mas era algo tão bom, memória tão alegres e que jamais teria novamente, e aquele abraço começou a me enforcar até todas as lágrimas contidas escaparem de meu controle rolando por meu rosto. Coloquei aquela colônia na caixa assim como as escovas de dentes que ela sempre esquecia, e acabava trazendo outra, e mais outra... Rio e fecho a caixa.

Empurro tudo aquilo para os fundos do meu armário, na prateleira mais distante, a qual nem eu consigo alcançar. Agora aquela caixa de sapato seria o esqueleto, o cadáver que escondo em meu guarda-roupas.

Os instrumentos espalhados pela casa me tentavam a toca-los e cantar com eles notas melancólicas.

A abertura da porta mal fechada me desafiava, ela fez questão de sair e deixar os rastros daquela terrível despedida. Encarava intensamente a saída entreaberta. Minha mão em um ato involuntário de desolação se esticou tentando alcançar a mão daquele que já me deixara.

Observei aquele ato de pesar, minha mão levantada. Senti aquela sensação antiga correr entre meus dedos. Horas fluindo por minha palma, nas extremidades de meu palmo o tempo se tornava maleável a meu favor. Eu deveria?

Eu queria vê-la de novo. Eu podia.

Segurei com firmeza a realidade e a girei contra o relógio. A força das camadas da linha do tempo recuando atingiu meu corpo, fazendo meu cabelo voar atrás de mim, meus membros se contraiam em combate a minha vontade.

A cena daquela partida começou a rebobinar, apartamento começou a bagunçar-se por si só, meu ser saiu de mim e começou a colocar as coisas fora do lugar novamente. Eu observava o eu miserável que começava a reviver os momentos que eu forçava a se repetir. Continuei, e vi ela entrar de volta depois de sua última saída por aquela porta, não parei. Agora estava eu segurando com força a raiz de meu cabelo em uma expressão incrédula contendo as lágrimas perguntando-me como e perguntando-a por que. Ali parei o momento para poder admirá-la.

Seus cabelos curtos e castanhos cobrindo suas sobrancelhas franzidas, a jaqueta militar favorita que usava o tempo todo. A saia estava amassada como o vento que batia em seu caminho para cá, ela fechava os punhos ao lado de seu corpo. Naquele momento, não só os saltos altos que usava, me faziam sentir inferior a sua figura. A facilidade que tinha para destruir qualquer estrutura que eu poderia vir a ter me fazia sentir menor e menor.

Me preparei para ouvir novamente as palavras que me machucaram, e tento me proteger contra elas novamente. A cena prosseguiu ao meu comando. "E eu ainda estou com você porque queria tentar te ajudar! Eu estava com pena de ti. Eu sentia muita pena de você, e quando eu sair por aquela porta você só vai continuar chorando que nem a fraca que você é. " Ela gesticulava em movimentos travados, ela queria dizer aquilo. Engoli novamente essas palavras e vi meu ser passado fechar o rosto e afastar as lágrimas. Eu a olhei nos olhos. "A quanto tempo..." Eu funguei e me pus de pé, tentando não desabar. "A quanto tempo cada eu te amo não foi sincero?"

Ela virou o rosto impaciente.

Ser agora observadora era uma tortura, eu não podia interferir, e não sabia se queria. Lembro de no momento querer que o fim não acabasse, deixasse aquele período em uma eterna reticências. Só ainda falar com ela, ainda poder chama-la de amada... Mas eu ainda a amava na hora? Nem sei dizer se ainda amo. "Eu... To tão mal..." eu disse em um sorriso sobreposto por olhos dolorosos e um choro que escorria dos mesmos "Eu nem sei se quero te abraçar... o que eu faço agora?"

Ela cravou seu olhar para mim com suas íris verdes com uma emoção que não pude ler. Talvez fosse a falta dela, ou também apenas impaciência..." Eu deveria tê-la esperado voltar. Nunca ter falado contigo."

Só a encarei em olhar desolado tentando não transbordar toda a mágoa que se eu lutava para esconder. Ela se virou e encostou a porta atrás de si, ainda podia ouvir os passos de suas botas batendo no chão. Cada passo era uma batida do meu coração que se enfraquecia, me permiti desabar na cama atrás de mim.

Pausei novamente os atos que prosseguiam.

Me sentei ao lado da minha própria figura que se afogava em seus soluços solitários.

Eu deveria ama-la? Lembro-me das noites que me deixou em claro, com preocupações sobre seu bem-estar. Todas as vezes que a consolei. Ela estava mais quebrada do que eu poderia estar... em teoria.

Com um gesto, todo o tempo que regrediu voltou a hora que deveria estar sem minha interferência. Em uma ação sem pensar, fui olhar o sol pela vidraça e admirar sua paleta de cores pintando o céu.

Era quieto.

A janela me convidava.

A altura me desafiava.

A gravidade e minha vontade me puxavam.

Passei minhas pernas pela moldura e lá sentei olhando para baixo, vendo o chão que esperava me abraçar.

Me despeço desses pensamentos tolos e puxo da cigarreira o longilíneo veneno e o acendo em minha boca pra traga-lo. Respiro a fumaça que acalmava todo o reboliço de meus sentimentos, encobrindo a nó que vazia dentro de mim com a nicotina maldita.

Fito o ditante chão novamente...

...

...

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