Resumption
2 Mirrors
Notas iniciais
Mirrors
Desceu do templo de Atena ainda tentando raciocinar o que tinha acontecido ali, sua mente vagava longe e seus olhos pareciam fixos em outro universo, desde a notícia, não tinha prestado atenção em absolutamente nada do que a deusa explicou e acreditava que Saga estivesse na mesma situação. Suspirou longamente tentando reorganizar os pensamentos, as frases voavam em sua cabeça sem sentido algum e por vezes se beliscou imaginando que talvez tudo pudesse ser um sonho, doce ilusão, aquela era sua nova realidade e a percepção do que estava para acontecer o amedrontava mais do que gostaria.
–E aí?!
A voz de Milo ecoou pelos seus ouvido e fechar a expressão foi mais do que um instinto, fez um bico mal humorado já imaginando o que o fofoqueiro oficial do santuário queria ao permanecer em sua casa.
–Maria futriqueira... -O provocou cruzando ambos os braços e baixando os olhos para o aparelho eletrônico nas mãos do grego, não pode deixar de sorrir ao imaginar com quem o escorpiano pudesse estar falando. -E aí, o que?
–Como foi com a deusa?
–Uma merda. Como você é curioso, Milo, cruzes... -Se aproximou sorrateiro fingindo inocência porém com o olhar fixo no telefone alheio. -O que quer saber, para espalhar aos quatro ventos?
–Credo, Afrodite, quem vê pensa que eu sou uma be-...Hei! -Exclamou ao ter o celular puxado de sua mão e vendo o sueco correr para o outro lado do templo com um sorriso vitorioso nos lábios e uma expressão travessa. -Afrodite de Peixes, me devolva esse celular!
–Não seja chato, Milo, como se eu já não soubesse... -Revirou os olhos dando de ombros e rindo das mensagens que estavam ali e não eram um exemplo de... Castidade e inocência, além é claro, de um excesso de açúcar que somente o escorpiano conseguia distribuir quando estava encantado com alguém. -O Camus já sabe?
–Não e não vai ficar sabendo.
–Oh, não vai?
–Afrodite! Se... Se você contar...
–Começou o tom de ameaça... -Revirou os olhos acenando negativamente e prendendo o celular entre as mãos, para que o grego sequer pensasse em tomá-lo de volta, se aproximou com um meio sorriso, mas quando menos percebeu, este sorriso morreu em seus lábios.
–Peixes?
–Eu e o Saga seremos punidos... -Desabafou caindo sentado no chão sem ter forças para ficar em pé, olhou para cima vendo a feição confusa do colega que oscilava entre concordar com a decisão da deusa ou tentar defender os colegas de batalha pela primeira vez.
–Hm... Punidos? -Sentou-se também, curioso para que o mais velho continuasse a conversa, de preferência, contando todos os detalhes.
–É, tem uma conversa estranha de que eu e o Saga estamos "desarmonizando o santuário", isso é ridículo! A única coisa que desarmoniza esse lugar são as reclamações do Aiolia! Desde quando eu e o Saga desarmonizamos alguma coisa?
–Desde que vocês não conseguem ficar cinco minutos um ao lado do outro sem discutir? E que de algum modo, isso sempre acaba em xingamentos e trocas de olhares com mais significados e intenções escondidas do que Poseidon quando pediu a Saori em casamento?!
–Ora isso é... -Calou-se por um instante bufando e cruzando os braços em uma expressão infantil, estava revoltado, e daí se ele e Gêmeos não se davam bem? Tinha seus motivos e não queria, de modo algum ter que cuidar de uma criança com aquele pedaço de... Bufou contendo o pensamento e aumentando ainda mais o bico nos lábios. -Que seja.
–Qual foi a punição, afinal?
–Você não está se aguentando de curiosidade.... Descarado.
–Eu nem vou negar suas palavras, peixinho, então, vamos, adiante meu lado que eu estou com pressa.
–Idiota... Eu não vou te falar nada! -Jogou o celular nas mãos do grego se levantando com raiva e o puxando para fora de sua casa. -Você está ocupado, não?! Tem um encontro com uma certa pessoa... Some logo da minha vista antes que eu comece a fazer um escândalo e meu adorável vizinho ouça!
–Tsc, quieto Afrodite! -Pediu com a voz em um sussurro se dando por vencido, acenou negativamente virando parcialmente o corpo para a saída. -Não sei por que ainda tento ser legal com você. -Disse um tanto amargurado dando as costas para o loiro que ainda ameaçou o xingar, mas recuou, apenas observando o moreno descer as escadas.
Voltou para dentro do templo refletindo sobre o que faria, em um suspiro de derrota, jogou o corpo na pilastra mais próxima, batendo de leve a cabeça no mármore como se assim pudesse causar algum tipo de amnésia que o internasse pelos próximos dez anos. "Seria uma punição melhor...".
–Eu não quero fazer isso... Eu não posso... -A voz embargava aos pouco e os olhos antes revoltos e frios, agora lacrimejavam com a inundação de memórias que consumiam a mente do pisciano, passou as mãos pelos olhos tentando conter tudo que tentava evitar desde que chegou ao santuário. Mentiu para si mesmo por tanto tempo, e agora que era obrigado a encarar a verdade novamente, ela lhe vinha com facas em mãos lhe ferindo aos poucos.
–Podemos falar com Atena se quiser. -Deu um pulo ao ouvir a voz rouca e levemente grossa do cavaleiro de Gêmeos, um calafrio subiu por sua coluna e virou o rosto aos poucos, engolindo em seco ao encarar as orbes verdes do mais velho. Endireitou a postura torcendo para que o outro não notasse seus olhos avermelhados.
–Não adianta. -Respondeu com frieza sem encarar diretamente o protetor da terceira casa zodiacal. -Isso não vai mudar nada, Saga.
–Podemos parar com essa ideia estúpida. Nós, cuidando de uma criança? Que deus sem coração sugeriu esse absurdo?
–Talvez o mesmo que tenha montado seus genes... -Respondeu com um sorriso cínico vendo o olhar afiado do moreno. -Oh, desculpe, te ofendi? Não foi minha intenção...
–Não seja irônico, Peixes, esse papel não lhe cai bem.
–Em compensação, você é um ótimo ator, não?! De papinho com Atena, se passando pelo cavaleiro arrependido que faria de tudo pela deusa que tanto ama!
–Eu a amo sim, sou devoto a ela!
–Não me faça rir, Saga! -Provocou revirando os olhos em um falsa risada. -Você é tão devoto a Atena quanto o Shaka é devoto a Baco. Que piada.
–Peixes, meça suas palavras... Não sou um qualquer.
–Meça você! -Ameaçou dando alguns passos para frente.- Está na minha casa, no meu templo!
–E em nenhum momento o ofendi. -Respondeu vendo os olhos do sueco se arregalarem e os lábios crisparem em um movimento de auto proteção; naquele momento, Saga soube que havia ganho aquela discussão. Controlou o sorriso de vitória se aproximando do pisciano de modo cauteloso e com uma áurea gentil (e por que não dizer, superior). -Eu estou dizendo isso para o nosso próprio bem estar, Peixes.
Abriu e fechou a boca sem ter argumentos contra aquilo, estava irritado, tinha ódio e rancor do geminiano o suficiente para alimentar o coração de Hades e queria se vingar de tudo que Saga tinha lhe feito, mas faltava coragem, forças... E o pior, vontade. Por mais que tivesse muitas coisas guardadas contra o geminiano em seu coração, quando observava aqueles olhos verdes tão sérios e maduros, sentia suas pernas tremerem e como se tivesse seus dozes anos, admirando aquele poderoso homem (porém tão cruel...). -Eu te odeio.
–Eu sei. -Suspirou longamente erguendo a mão para tocar a cabeça de Peixes, mas, diferente do que esperava, levou um tapa na mão, enquanto o loiro o encarava felinamente.
–Não me trate como criança, Saga.
–Afrod-...
–Já chega. -Estabeleceu dando um passo para o lado e liberando a passagem para o mais velho. -Vá embora, nós não temos mais o que conversar, vamos cumprir essa merda e depois, paramos de nos falar. Você não tem que conviver comigo, isso seria perfeito não?! -Mandou uma pergunta carregada de magoas, mas não esperou pela resposta, virou o corpo caminhando na direção contrária do geminiano, indo para a parte residencial de seu templo e o deixando sozinho.
Saga observou a retirada do sueco com um aperto em seu coração, suspirou longamente baixando o olhar para a mão que fora estapeada, a fechando em seguida, uniu os lábios um tanto perdido sobre o que fazer. Em um suspiro longo e um tanto pesaroso, deixou o templo a passos lentos e silenciosos, lamentando algo que sequer sabia o que era.
Antes de entrar no templo de Aquário, virou o rosto para a décima segunda casa, vendo o longo corredor de rosas que levavam até o grande mestre, estas brilhavam com intensidade, exalando todo seu perfume pelas doze casas, o recordando constantemente quem estava ali. Sorriu levemente...
–Você sempre será uma criança, Afrodite...
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