Restless Hearts
23 Agora a diversão vai começar
Notas iniciais
— Spencer. – Chamei a atenção de Nicholas Spencer assim que entrei no local.
— Queen. – Ele estendeu a mão para mim, que espelhei o gesto. Apertamos as mãos e soltamos em seguida. – Você daria um ótimo agente.
— Você nem imagina o quão bom ele poderia ser. – Me virei em direção a voz e sorri.
— Michael O’Conner. – Estendi a mão para o homem e ele apertou a minha. – Não tinha ideia de que o diretor da CIA ia descer para o parquinho.
— Para ver você brincar? Sempre. – Ele entrou na brincadeira. Mas logo voltou a sua postura e expressão séria. – Agente Especial Spencer. – Sua atenção estava agora direcionada à Nicholas. – A Agência está trabalhando com o FBI nessa investigação. Nos oferecemos para conduzir o interrogatório, seu diretor está de acordo, mas se quiser, pode validar essa informação.
Nicholas prontamente se afastou, puxando o celular do bolso. Imagino que para entrar em contato com seu diretor e validar a informação que acabara de receber. Aproveitei a oportunidade para falar com o diretor da CIA:
— Mike, por um acaso você tem algo em mente para o interrogatório do filho da puta que não só sequestrou minha irmã e minha mulher, mas também teve a audácia de estuprar a MINHA mulher? – Joguei a pergunta de forma irônica, mas tentando forçar um tom de inocência. Vi o sorriso crescer, malicioso e cumplice.
— Como eu disse, hoje eu vim para ver Oliver Queen brincar.
[...]
Oliver Queen
Poucos minutos de conversa entre Nicholas e Mike deixaram claro que a CIA participaria ativamente no caso em colaboração com o FBI e que teriam apoio da NSA, que enviou um analista chamado Daniel Black, para auxiliar na coleta e interpretação de dados e informações e apoiar também com a tecnologia e sistemas disponíveis entre as três agências.
Normalmente, ver a CIA se interessando por um caso que teoricamente é jurisdição do FBI, me faria questionar absolutamente todos os fatos do caso em questão e verificar com que tipo de ameaça estrangeira estaríamos lidando.
Ter na minha frente um agente especial do FBI, o diretor da CIA e um analista da NSA, em um black site (locais secretos mantidos pelas agências federais), geralmente faria minha mente disparar com a possibilidade de um ato de terrorismo, algo relacionado com a Segurança Nacional.
Mas não nesse caso. Não quando minha irmã e minha mulher foram sequestradas, não quando minha mulher foi vítima de agressão sexual.
Nesse caso, a presença da CIA e da NSA simplesmente significam que eu vou poder usar métodos não convencionais e politicamente incorretos para descontar minha raiva ao mesmo tempo que extraio informações do filho da puta que teve a audácia de meter com minhas garotas.
“Eu vim para ver Oliver Queen brincar”, foi o que Mike disse. Naquele momento eu soube que eu teria autorização para fazer o que eu quisesse, carta branca.
— Oliver. – Mike chamou minha atenção. – Arquivo dele. – Estendeu a mão, me entregando a pasta de arquivos, que eu prontamente aceitei. – Ele será processado agora.
Abri a pasta em minhas mãos e corri os olhos por ela.
David Bass. Associação com KM. Aspectos físicos. Contas bancárias no exterior. Lista de propriedades.
Tsc. Nada que eu já não soubesse. Felicity já conseguira todas essas informações antes. Nada novo.
— Mike. – Ergui os olhos e devolvi a pasta para ele – Tenho que me certificar que minhas meninas estão bem antes de começar. Mas... – Após uma pausa dramática, abri um sorriso de lado, malicioso. – Quero preparar o filho da puta para seu encontro comigo. – Meu sorriso mudou, se abriu mais, e eu tentei, em vão, forçar uma expressão inocente. Mike sorriu.
— O que quer que eu faça? – Perguntou ele, com o mesmo sorriso de lado no rosto. Com gestos exagerados, quase teatrais, ele abriu um bloco de notas e posicionou uma caneta ali, esperando como se quisesse anotar meu pedido.
[...]
Voltei para o hospital, segurando um papel dobrado, pronto para usá-lo para que ninguém tivesse autorização para interrogar minha mulher ou minha irmã. E pelo jeito, cheguei no momento certo.
— Já foram encaminhadas para os quartos. – Disse o médico.
— Vamos ter que fazer algumas perguntas sobre o que aconteceu. – Informou Diggle ao médico. – Podemos vê-las agora?
— Na verdade... – Interferi antes que o médico dissesse alguma coisa. – Vocês podem vê-las, mas não as questionar. – Estendi a mão, entregando o documento assinado pelo diretor da CIA. – Desculpa, Dig. Quentin. – Me dirigi aos dois homens que me encaravam incrédulos. – Mas converso com vocês quando houver autorização da Agência para isso.
Eu esperava uma resistência muito maior da parte deles. Mas Diggle pareceu entender que não havia nada que ele poderia fazer, e Quentin simplesmente respirou fundo, olhou diretamente em meus olhos e disse:
— Só pegue esses filhos da puta.
Sorri de lado.
— Pode comigo. – Garanti. – Vou ter que vê-las primeiro, com licença.
Fui primeiro até o quarto onde estava Thea.
Minha irmã estava assustada, mas, no geral, estava bem. Ela me contou com detalhes tudo que aconteceu com ela, o que viu de Felicity, tudo. Tive de respirar fundo e usar, mais uma vez, todo meu autocontrole para manter a calma. Confortei minha irmã, disse que ela não precisava se preocupar, que ficaria tudo bem. Informei Thea de que ela não deveria dizer nada a ninguém além de mim e ela disse que não queria falar nunca mais sobre o que aconteceu. Esperei com ela até que se acalmasse e deixei que ela descansasse.
Agora estava na hora de ver minha mulher.
Eu já sabia o que tinha acontecido e a raiva crescia dentro de mim a cada minuto que passava, mas eu estava no controle, eu estava “calmo”, ou pelo menos, era isso que eu estava transparecendo. Por saber o que aconteceu, através de Thea, eu não precisaria pressionar Felicity a falar. Era a última coisa que ela precisava de mim agora, pressão.
Respirei fundo uma última vez antes de entrar no quarto de Felicity.
Assim que entrei, vi que ela estava dormindo. Fechei a porta devagar e me aproximei da cama, tomando o cuidado de não fazer barulho para não a acordar. Me sentei na cadeira que ficava bem ao lado da cama e estendi a mão para segurar a mão da minha loira. Acariciava sua mão delicadamente enquanto olhava para cada detalhe de seu rosto. Poucos minutos depois, ela abriu os olhos devagar, e eu me levantei, me aproximando um pouco mais.
— Hey... – Meu tom de voz era suave. Quem visse de fora, não podia imaginar o tamanho da raiva que crescia dentro de mim.
— Oli..Oliver. – Sua voz era baixa, fraca. Assim que seus olhos se fixaram em mim, se encheram de lágrimas.
— Amor... – Apertei levemente sua mão enquanto levei minha mão livre ao alto de sua cabeça e acariciei. – Está tudo bem. Você está a salvo agora, ninguém mais vai te fazer mal. Eu estou aqui com você.
Minha loira suspirou audivelmente e seguiu chorando por mais alguns minutos. Eu apenas seguia com o carinho e murmurava que ficaria tudo bem, que agora eu estava ali com ela.
— Imagino que a polícia queira falar comigo. – Felicity começou, assim que recuperou um pouco da calma.
— Não se preocupe com isso. – Garanti. – Você não vai precisar falar nada, com ninguém além de mim. – Suspirei discretamente. – Não vou te pedir para me contar o que aconteceu lá, eu já sei. Mas preciso perguntar... – Após uma pausa, continuei: — Tem alguma coisa que eu precise saber para encerrar esse caso?
Felicity me olhava com atenção. Eu tinha certeza de que sua mente já estava trabalhando intensamente.
— David foi mandado atrás mim. Sua missão era simples. Descobrir o que a polícia e principalmente o FBI sabem sobre a KM e depois me levar até o Nate. – Felicity disse de uma vez.
— OK. Só isso que eu precisava saber. – Respondi. Me abaixei e beijei sua testa.
— Não vou perguntar o que você vai fazer, mas...
— Mas..? – A incentivei a continuar quando a vi hesitar.
— Só tome cuidado e pegue o desgraçado. – Sorri ao ouvir sua voz agora um pouco mais firme.
— Deixa comigo, amor. – Olhei diretamente em seus olhos. – Você nunca mais vai passar por algo assim. Eu vou cuidar de você. – A vi sorrir e me inclinei sobre ela. Deixei meu rosto próximo ao dela e esperei até que ela erguesse o seu e tocasse nossos lábios, só então, dei um beijo rápido em minha mulher. Eu ainda não sabia o quão profundamente ela estava abalada e não queria forçar nenhuma situação que pudesse ser desconfortável para ela. Eu sabia que levaria um tempo até que todo o desconforto, o medo e todo o sentimento ruim originado dessa experiência se dissipasse.
Passados alguns minutos, o médico entrou no quarto e pediu para conversar comigo.
Ele me explicou que Thea só sofrera alguns ferimentos superficiais e que só precisaríamos limpar os ferimentos. Ela levaria alguns analgésicos para casa, caso ela sentisse alguma dor.
Já Felicity passara por uma série de exames para garantir que não havia lesões internas. Para os ferimentos superficiais, o tratamento seria o mesmo que o de Thea. Ela havia recebido um coquetel de medicamentos que tratariam também qualquer DST caso o agressor fosse portador de alguma. Fora isso, era sofrera alguns ferimentos na região interna da vagina e no colo do útero. Levaria um tempo para tratar esses ferimentos, mas não era nada que fosse permanente. O médico me informou, também, que não foi encontrado sêmen, mas que o ideal é que Felicity repetisse os exames dentro de um mês.
Tanto Thea quanto Felicity já estavam liberadas para ir para casa.
As duas ficaram na mansão Queen acompanhadas de minha mãe e Donna, além de Quentin, Diggle, minha equipe de segurança e alguns agentes concedidos pelo FBI.
Após acomodar Felicity em meu antigo quarto, perguntei.
— Precisa de alguma coisa?
— Não. – Sua voz já era mais firme e ela parecia estar um pouco mais calma. – Só quero descansar um pouco, os remédios me deixaram com sono.
— Dorme, amor. – Beijei sua testa e a vi erguer o rosto em minha direção. Sorri e beijei seus lábios delicadamente.
— Precisa ir? – Seu olhar queimava no meu.
— Preciso. – Suspirei. – Volto assim que der.
— Sem pressa. – Ela ergueu as mãos e as levou ao meu rosto, olhou diretamente em meus olhos. – Só acabe logo com isso.
— Eu vou. Não se preocupe. – Sorri para ela e ela ergueu o rosto para unir nossos lábios em mais um beijo.
[...]
Quando voltei ao black site já passavam das 8:00 p.m., era para eu estar cansado depois do dia intenso que tivemos. Mas não. A raiva e a adrenalina trabalhavam forte, me deixando alerta, disposto e pronto para trabalhar.
— Mike. – Chamei a atenção do diretor da CIA enquanto me aproximava.
— Oliver. – Apertamos as mãos. Em seguida apertei a mão de Nicholas, que observava tudo em silêncio.
— Como estamos? – Questionei.
— Do jeitinho que você pediu. – O tom casual e descontraído de Mike era bem-vindo. Não precisava de julgamentos ou lições de moral agora. Eu precisava deixar que minha raiva saísse, e precisava usar isso ao meu favor, para pegar o filho da puta que estava atrás da minha mulher. – David Bass foi levado a uma sala vazia, escura, sem roupas e foi privado de sono, usamos uma música de rock repetidamente e em volume máximo. Também o privamos de alimentação. Tudo que ele ingeriu foram alguns biscoitos e água enquanto estava sendo processado.
Perturbação dos sentidos, estresse e falta de energia.
Ótimo.
— Agora a diversão vai começar. – Anunciei, deixando com que meu sorriso se abrisse.
Mike me levou até a sala onde David estava sendo mantido. Nós fomos acompanhados por dois de seus agentes, que já disseram estar ali à minha disposição.
— Preparem a mangueira. – Mandei. – Assim que entrarmos, é hora do banho de água gelada.
Ah, sim. Água gelada em forte pressão.
Nenhuma das técnicas usadas até o momento causavam dor. Mas o deixavam em um estado um pouco mais vulnerável. A água gelada, nesse momento, era para “despertar” seus sentidos, já confusos devidos às técnicas anteriores.
Um dos agentes preparou a mangueira e abriu a porta, o segundo abriu o registro.
Ouvi os resmungos de David e até mesmo tosse quando a água o atingiu no rosto.
Após 2 minutos, calculados no relógio, eu dei a ordem para parar.
Registro fechado, o agente saindo com a mangueira na mão.
Mike entregou uma calça de moletom para um dos agentes, que prontamente a pegou e entrou na sala, ajudando David a vestir a calça.
As mãos de David estavam presas por algemas a frente de seu corpo e, depois de vestido, ele foi posicionado em uma cadeira de madeira posicionada bem no meio da sala. As luzes, agora, estavam acessas e a música fora desligada.
Entreguei minha carteira, celular e chaves para Mike, que rapidamente pegou meus pertences e colocou nos bolsos do blazer que vestia.
— Agora a diversão vai começar. – Repeti antes de entrar na sala.
— Vou facilitar as coisas para você. – Disse Mike, se posicionando bem a frente de David. Me mantive alguns passos atrás dele. – Não tem muita informação que você pode nos passar que possa ser útil para nós. – Pausa dramática. – Só queremos saber onde está Nathaniel O’brien. – Mais uma pausa dramática. – Você tem duas opções: Ou você me diz, agora, onde encontrar Nathaniel ou você pode conversar diretamente com meu amigo aqui atrás.
David olhava para chão durante todo o discurso de Mike. Ao final do discurso, ele ergueu a cabeça lentamente, seu olhar parou em Mike por apenas alguns segundos antes de se direcionar para mim. Assim que seu olhar fixou em mim, ele sorriu. Apertei as mãos em punho, apenas esperando pelo momento certo. Voltou sua atenção para Mike e cuspiu em sua direção.
Era minha deixa.
Mike imediatamente deu um passo para o lado, enquanto eu rompia a distância a passos largos. Assim que estava perto o suficiente, ergui o braço direito, a mão fechada em punho, e desferi um soco, com toda a minha força, na altura do nariz de David. O impacto fora tão grande, que a cadeira de madeira quebrou e tombou, fazendo com que David caísse sobre o ombro esquerdo, deslocando o mesmo.
Seu grito de dor ecoou pelo quarto.
— Bom, vou deixar vocês conversarem. – Disse Mike, descontraído. E saiu da sala.
Parei em frente ao corpo caído de David.
— Isso vai ser divertido. – Disparei no tom mais ácido que pude.
O que aconteceu naquela sala foi a aplicação de várias técnicas não convencionais e politicamente incorretas de interrogatório:
Antes mesmo que eu entrasse já havia utilizado técnicas como privação de sono, ambiente estressante causado pela falta de luz e música alta e repetida, manipulação dietética e nudez.
Tudo isso, somado ao banho de água gelada em uma pressão forte, desconfortável, tinha o intuito de perturbar os sentidos e levar sua mente a um nível de estresse e desorientação considerável.
Depois que eu entrei na sala, as técnicas se tornaram mais... agressivas.
Espancamento. Clássico.
Posições de estresse. Bom, esse era apenas para causar estresse, mas eu me empolguei um pouco e além de um ombro deslocado, agora ele estava com uma torção no braço.
Waterboarding. Simulação de afogamento. Esse método produz a sensação de sufocamento e princípio de pânico, ou seja, a percepção de um afogamento. E é incrivelmente simples: um pano foi colocado sobre o rosto dele, basicamente com a intenção de ficar sobre o nariz e a boca e água contínua foi aplicada sobre esse pano. A sensação de afogamento é imediatamente aliviada pela remoção do pano. Mas eu não ia facilitar as coisas para ele. Assim que eu o via respirar três ou quatro vezes, eu voltava a posicionar o pano e repetir o método.
Quatro horas.
Quatro horas fazendo perguntas, quatro horas utilizando métodos que assustariam qualquer pessoa em sã consciência.
Depois de quatro horas, ele finalmente cedeu.
Quando saí da sala, minha roupa estava molhada e suja de sangue. O suor escorria pelo meu rosto, pescoço e braços. Os nós dos meus dedos e minhas mãos, estavam marcadas por pequenos ferimentos e sangue. Sangue meu. Sangue de David.
Assim que saí da sala, estralei o pescoço e olhei para um dos agentes que esperavam do lado de fora.
— Todo seu. – Eu disse apenas e os dois agentes entraram, acompanhados de uma equipe médica, que prestaria socorro a David antes de processá-lo e encaminhá-lo para uma cela mantida no mesmo black site.
— Interrogatório produtivo? – Perguntou Mike enquanto se aproximava.
— Interrogatório divertido. – Rebati. Mike riu. Ao lado da porta, havia um “espelho espião”, então eu sabia que Mike assistira a maior parte.
— Sempre divertido assistir Oliver Queen brincar. – Dissera ele, parecendo saber o que eu estava pensando. – Temos uma troca de roupa preparada para você. Depois vamos conversar sobre os próximos passos.
Aceitei, de bom grado, que um agente me guiasse até o corredor dos dormitórios. Fui guiado até um dos quartos, onde havia uma troca de roupas para mim sobre a cama, uma toalha e meus pertences, que foram deixados com Mike mais cedo. Agradeci o agente e entrei, fechando a porta atrás de mim.
Peguei a toalha sobre a cama e me direcionei para o banheiro. Retirei toda a roupa, a descartando de qualquer jeito no chão e entrei no chuveiro.
Queria ter tempo para um banho demorado, mas teria de esperar para poder relaxar. Ainda tinha trabalho a ser feito.
Fiquei no chuveiro por tempo suficiente apenas para retirar todo o resquício de sangue e suor.
Me sequei e voltei ao quarto para vestir as roupas que foram separadas para mim: calça tática camuflada do exército americano, uma camiseta branca e coturno. Me vesti e coloquei meu celular, carteira e chaves nos bolsos da calça.
Agora eu precisava conversar com a CIA, o FBI e a NSA para definir o que seria feito a seguir.
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