Rest in Peace

2 Todo mundo é suspeito - Parte 1


08:00 – 12/09/2016 – Weekstreet – Casa de Miguel

Novamente o barulho angustiante do despertador que sempre tocava ás oito horas, mas hoje nem era tão preciso assim considerando que Miguel já estava arrumado e disposto para aquele dia, que por semanas ficara sôfrego ao pensar que tinha chegado a tal ponto na qual iria ficar sentado na mesma mesa reunido com os presidentes dos países possuintes dos mais altos índices de produto interno bruto e de desenvolvimento humano. E quem dirá que algum dia seu nome iria ser conhecido e ter o reconhecimento que ele tanto cobiçava, não havia um país sequer no planeta que não ouvira falar deste nome, Miguel Ferreira, responsável pelo crescimento absurdo do capital da empresa.

Em cada estado de todo mundo era impossível não encontrar sequer um laboratório MOON, mesmo nos países mais pobres tinham acesso a tal farmácias e rede de laboratórios. A rede de Weekstreet, a mais famosa por abranger o nome de uma descoberta formosa, agora não era tão endividada e sua credibilidade também crescera junto aos resultados positivos nas pesquisas em animais e novos passos estavam se dando naquele dia, doze de setembro de dois mil e dezesseis.

A esperança, era assim conhecido o doutor e mesmo os mais leigos sem informações ou que nem tivera acesso a uma escola ou mesmo uma educação que pudesse ensiná-los ler, sabia pronunciar aquele nome. A humanidade estava prestes a dar um passo muito importante, não seriam os humanos imortais, mas talvez indestrutíveis por doenças tão raras ou deformidades que poderia prolongar a vida com conforto por mais décadas, a velhice seria como uma juventude esticada por uma vacina conhecida como Teleopódio. Claro, essa descoberta era vista com maus olhos por outros laboratórios que produziam remédios e tiveram seus brilhos ofuscados por tal lua, seria a extinção dos xaropes e comprimidos e também de algumas profissões do ramo da saúde.

Já estava arrumado, derramado o seu perfume, comido uma deliciosa omelete típica de suas manhãs e com a TV ligada passando uma cobertura sobre a chegada dos presidentes em Weekstreet e uma pequena aglomeração de jornalistas em frente ao laboratório. Pegou as chaves do carro, sua maleta com a papelada, um beijo rápido em sua esposa, não queria chegar atrasado para não causar má impressão. No carro, com seu rádio ligado, pode ouvir o final do pronunciamento do prefeito que com o assunto monótono, batia na mesma tecla com suas falas ensaiadas.

“CIDADÃOS DE WEEKSTREET, VIVEREMOS NOVOS TEMPOS. TEMPOS EM QUE VOLTAREMOS A SORRIR, TEMPOS EM QUE OS PARQUES ESTARÃO CHEIOS DE ALEGRIA, CHEIOS DE PROSPERIDADE.”

Depois de encerrar sua entrevista numa de estações de rádio locais mais famosas, o senhor prefeito cuja nuca calva, pôs um chapéu e saiu pelos corredores meio vazios da estação até se encontrar com uma bela morena. Parou por ali mesmo no justo segundo que seu olho fitou-a enquanto a mulher se distraía com uma caderneta de capa dura, deveria ela estar lendo alguma de suas anotações, o prefeito Harry Brown parou e desviou-se por um corredor vazio a fim de não ser visto por ela. Mas eis que em tão fleumático e ás vezes assustador corredor, um passo além dos seus foram ouvidos caminhando atrás dele, tentou acelerar a caminhada, porém uma voz feminina o fez parar, parecia em seu tom, muito firme.

– Prefeito Harry Brown, não fuja da verdade! – era Emily Devis, a repórter.

Seus passos cessaram e um suspiro veio depois, virou-se e sorriu embora não estivesse contente com o que vinha em sua direção.

– Emily Devis, grande repórter! – exclamou o prefeito.

– Mas você é um sem vergonha mesmo, Harry. – disse Emily séria – Enganar o povo dessa maneira... Não entendo como você pode pensar em que as pessoas irão acreditar naquelas baboseiras.

Harry Brown riu jogando o pescoço para trás:

– Pobre Emily, ainda não entendeu como funciona a política. – afirmou enquanto abanava a cabeça negativamente – As pessoas estão cegas pela cura, digo, estão felizes de mais para se preocupar com coisas tão fúteis como a precariedade da cidade... Ah, tudo está saindo tão bem...

– É questão de tempo para as pessoas perceberem a verdade que há anos tem sido varrida de baixo para o tapete – disse Emily andando mais para perto de Harry com um ar ameaçador de ser.

O prefeito emburrou os músculos e deu uma risada sem abrir a boca:

– Enquanto tivermos shows, enquanto o mercado de trabalho estiver de portas abertas, as crianças estudando... Ah, política? Quem você acha que vai ligar, com tanta coisa acontecendo no mundo, para uma cidade pequena e sem importância...

Emily o interrompe:

– Eu ligo – disse avançando mais um passo – e enquanto eu ligar o seu mandato estará correndo risco.

O seu andar batia firme contra o piso, e assim seguiu para o corredor até virar à um outro deixando um sorriso frio com olhar estreito em Harry que ainda fez o favor de gritar mesmo imaginando que ela iria ouvir.

– Apenas confie em quem você elegeu!

Só bastou isso para a mulher voltar:

– Eu não votei em você, Harry Brown.

08:12 – 12/09/2016 – Weekstreet – Laboratório MOON

A vida de Miguel Ferreira passara por uma incrível metamorfose, com tudo indo de bem a melhor, não podia ser diferente. Algumas coisas realmente não mudaram, disso digo de sua arrogância e aversão à imprensa, assistentes e secretárias, entretanto, tais jeitos inadmissíveis para uma pessoa que carregava um título tão grandioso como ele, eram dissimulados na maior parte do tempo. Máscaras são precisas, e agora como uma figura pública, o seu eu anterior havia desaparecido e uma máscara deveria ser usada agora quando chegava com o carro e o estacionava enfrente ao laboratório.

Isso porque a imprensa estava bem ali e não era o grupinho de vinte estagiários do jornalismo local, até mesmo estrangeiros de outros continentes de emissoras com nome tão estapafúrdias aos seus olhos. Não se dava ao luxo de ter um segurança particular sequer, decidido por si próprio e o motivo não era a falta de dinheiro, mas uma imagem de uma pessoa humilde, amigo do povo que ele queria ser. Um deus sem glória que não precisava de súditos e nem estatuetas – mesmo que esse fosse seu real desejo.

E como parte de sua rotina, fora atacado pelos jornalistas. Os flashes penetravam pelo vidro com o insulfilm mais escuro, dentro do carro se ouvia algumas batidas dos microfones e as vozes que tentavam lhe tirar alguma informação, a maioria delas nem mesmo ele sabia. Não era dia de coletiva de imprensa ou algo do tipo, mas o motivo era lógico, quatro presidentes estavam ali o esperando na sala de reuniões e ansiava por um passo mais longo, deixa-los esperar não era melhor das ideias.

A porta do carro foi aberta com cuidado para não bater nas pessoas envolta. Duas dúzias de microfone cercaram seu campo de visão, câmeras de tudo quanto é tipo, algumas do tamanho de satélites – no modo mais exagerado de dizer – tudo para conseguir a imagem da Esperança que deixou de ser um substantivo abstrato e se concretizou ilustrado por um simples e sorridente infectologista.

Era como uma forma de respeito abrir ala ao homem como se fosse rei, mas também eles tinham também a função de saber algo. Quando viram que Miguel, prestes a entrar decidiu falar no momento que não era mais sufocado, seu braço subiu no alto e o silêncio foi súbito e absoluto e fez questão de anunciar com orgulho.

– Hoje terei uma breve conversa com quatro presidentes de grandes países, entraremos em um possível acordo e a vacina começará a ser produzida e comercializada, farei o possível para que todos nós saíamos favorecidos – e entrou pela porta.

Um par de seguranças começaram a conter a multidão inconcessos, mas que mesmo assim desvelavam a entrar frustrados pelo fracasso de não conseguir. O caminho até a sala de reunião não era lá curto, ficava no maior prédio de seis andares. As pessoas que em seu caminho estavam o apressavam, estavam todos felizes, mas também bastantes tensos, podia ser um decisão que iria levantar a empresa ou afundar em tudo aquilo gastado em tal descoberta. Pensou em pegar o elevador, mas não tinha tempo e as escadas pareciam uma ótima opção, era apenas no terceiro andar, nem era tanto. Passou o crachá no identificador das escadarias que se destrancou num estrondo e assim subiu, gastando os músculos da coxa.

Chegou ao terceiro andar e teve que passar o crachá novamente para sair daquela escada de emergência com alguns sensores de presença estragados já que algumas luzes não acendiam, a porta abriu e quando saiu deu de cara com Pablo, sua bochecha enrugou, mas era um dia incrível e um assistente não podia estraga-lo.

– Bom dia, senhor! – disse Pablo.

– Ótimo dia, Pablo – disse Miguel sorrindo e passando por ele sem olhar para trás.

E logo estava a centímetros da porta onde entraria à sala de reunião, ajeitou o terno, a gravata, sacudiu a poeira da calça, vestia seu conjunto predileto. Contraiu os ombros e depois relaxou-os, treinou seu sorriso, os olhares, limpou o rosto liso sem um pelo que indiciasse alguma barba e só então entrou. Os presidentes que antes sentados, dois em cada lado, se levantaram arrastando as cadeiras e formaram uma fila.

Cada um deles apertaram as mãos de Miguel e o chacoalhou com firmeza. Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, essa era a lista dos países que em sua sala estavam sendo representados pelos seus governantes que pareciam mais se orgulhar de ter apertado a mão do doutor, do que ele apertado a mão de quatro presidentes. Depois disso Miguel se sentou a cabeceira da mesa para só então eles se acomodarem.

– Bom dia, Miguel. Bem, como sabe, estamos aqui por nada mais, nada menos que sua vacina. Mas só temos informações básicas que você anunciava na entrevista, por isso viemos aqui, antes de fazer uma encomenda, queremos saber um pouco mais sobre essa vacina – começou o presidente dos EUA.

– Nunca vi intervenção mais justa – respondeu Miguel – é só perguntar que lhes responderei com clareza.

O presidente do Japão pôs se a falar:

– Funcionamento, contraindicação e efeitos colaterais, nos explique mais sobre.

– Pôs bem... A vacina contém uma espécie de glóbulo de defesa artificial, criada por mim acidentalmente, é o Teliozoliomonis. O Telmônio, assim chamado popularmente, é uma célula de defesa com informações de como combater vírus e doenças. Existem dois tipos de vacinas o Teleopódio é para imunização de doenças e o Teleopodiolênio é para curar doenças que até agora não teve cura, como o câncer. Como essas duas vacinas levam uma quantidade elevada de adrenalina, portanto idosos e pessoas com deficiências cardíacas ou respiratórias não poderão ser vacinados – sua longa fala é interrompida pelo governante da Alemanha.

– Como assim? Nosso público alvo são os idosos! Queremos aumentar a expectativa de vida! – disse ele indignado.

– Permita-me continuar. – pausa – Pois bem, tendo base nisso criei o Teleopódio II que é para a população com esse tipo de deficiência ou que não suportaria. Ela terá um efeito mais demorado que o normal já que é a adrenalina que estimula a reprodução dos Telmônios. Os efeitos colaterais são muitos, mas não graves, são comuns. Dores de cabeça, tonteira e vômito. Também pode acontecer queda do cabelo, mesmo de maneira leve, pois a substância é forte, isso será um risco a correr. Terá de informar à população que irão ficar de repouso por três dias sem fazer esforço físico e mental além de que não poderão tomar remédios, se tomarem algum tipo de outro remédio, poderá acabar com o efeito da vacina.

Um leve pigarreio vindo do presidente do Reino Unido:

– A credibilidade na vacina é alta, recebemos os relatórios das pesquisas e exames em animais, porém todos sabemos que o organismo é um pouco diferente dos humanos, mesmo que isso não venha ao caso acho que é bom esperar os testes nos humanos, quando começa, doutor?

Essa era um tipo de pergunta que ele não esperava, Miguel iria sim realizar novos testes em humanos entretanto essa era uma etapa a ser executada em uma cronologia um pouco mais demorada segundo os planos do doutor e eis que a resposta saiu por seus lábios num mero improviso, não podia decepcionar:

– Amanhã – com certeza foi respondido.

– Ótimo – disse o presidente do EUA – não devemos mais enrolar senhores, soubemos que todos as fábricas dos laboratórios MOON iriam se empenhar na produção em massa dessa vacina, vamos começar encomendando três bilhões de fracos, calculamos que parte deste iria estar pronto em três semanas ou menos, confere?

– Até menos, talvez – disse Miguel.

Um cochicho rolou entre os governantes de Alemanha e Japão que sentavam no mesmo lado da mesa, a curta conversa foi observada pelo estreito dos olhos atentos de Miguel:

– Tudo bem, Miguel, precisamos que assine esse contrato e o dinheiro já irá ser transferido para sua conta logo mais – disse o presidente de seu país lhe empurrando duas folhas com um documento impresso, coisa rápida de se ler. Miguel começou a ler quando ouviu dizer-lhe – Ah, claro, o preço que será atribuído a tais serviços será de quatro trilhões de dólares.

Os olhos da Esperança pararam de receber informações depois de ouvir tal valor que sua mente mal conseguira calcular quantos zeros iria aparecer na sua conta em poucos dias e em momentos estaria fora da cidade, provavelmente irá se demitir e se dedicar a uma vida mais favorável ao seu ego, mas ele não falou nada, não queria parecer bobo de tão contente que estava, apenas congelou um pouco e voltou a ler o contrato depois, linha por linha, as assinaturas dos presidentes já estavam ali, só faltava a dele e depois de ter lido tudo, assinou.

– Lembre-se Miguel, o sigilo do preço é absoluto! – disse o governante dos EUA.

O presidente dos EUA recolheu o documento original e pôs dentro da pasta, eles se levantaram, a conversa já tinha terminado e como dito seria bastante breve, direto ao ponto e foi o que acontecera. Ao se despedirem, voltaram ao aperto de mãos, várias pessoas fingiam catar papéis no chão, beber água ou fazer qualquer coisa que seja para parar justo naquele corredor do terceiro andar para poder ver os presidentes saírem pelo elevador com suas dúzias de seguranças. Depois disto todas as pessoas entraram na sala onde Miguel estava de cabeça abaixada, encolhida em seus braços e logo fez as pessoas pensarem que o pior havia acontecido e anos de pesquisas tinham sido em vão.

– O que aconteceu? Encomendaram? Deram uma proposta? – perguntavam os funcionários curiosos.

Miguel levantou a cabeça sorrindo e só bastou aquilo para dizer-lhes o que havia acontecido e a festa começou ali com alguns copos sendo jogados ao ar junto a papéis e até mesmo jalecos. Um grupo enorme de pessoas parabenizou o doutor, que merecia, e estava orgulhoso de si mesmo. Enquanto Pablo apenas observava, do canto da sala, sendo excluídos por doutores mais ricos de cargos melhores, porque afinal ele só era um assistente que há anos teve que suportar os chiliques do doutor que hoje se encontrava no topo do mundo.

21:26 – 12/09/2016 – Weekstreet – Laboratório MOON – Escritório de Miguel

O doutor estava jubiloso e não era para menos. Passou uma pequena parcela da tarde planejando alguns projetos para sua vida e outros para empresa, a maior dela foi ocupada por organizar os funcionários e encher seu pobre assistente de ordens que até então não conseguira dizer um sequer parabéns ao homem tão arrogante com Pablo, tão carente e sofrido funcionário era ele. A porta bate, era seu assistente, um leve arrependimento de gritar entra bateu em seus pensamentos.

– Eu vim lhe dar os parabéns, já deu minha hora de ir embora, terminei os relatórios da empresa e tudo mais – disse Pablo.

Miguel resmungou sem tirar os olhos do notebook:

– Obrigado.

O modo em que foi falado tal palavra ilustrava para Pablo justo ao contrário, uma sensação de que estava ele sendo desprezado por Miguel, para variar, mas desta vez não pagou de bobo idiota que ficava correndo atrás implorando por atenção, apenas ajeitou seus óculos de lentes retangulares e saiu da sala. E quando ouviu gritar seu nome, voltou num salto um pouco feliz e também surpreso.

– Pablo, eu estou escolhendo dez pacientes com câncer, sei que não nos damos muito bem e tudo mais, mas acho que você merece algo legal porque sempre esteve me ajudando nas pesquisas – disse Miguel, desta vez olhando para Pablo. – eu quero que seu filho seja um dos dez primeiros a receber a vacina.

As sobrancelhas de Pablo levantaram e seu queixo caiu um pouco dando um leve espaço entre um lábio e outro. Sua língua tremeu um pouco, as palavras de repente se perderam ao ar:

– Isso é sério?

– Seríssimo – respondeu Miguel.

– Ah, obrigado... – Pablo inclinou o corpo para abraça-lo e achou exagerado, apenas deu um aperto de mão – Obrigado, Miguel... Muito obrigado!

– Certo, agora vá para a casa, dê essa notícia. Esteja amanhã ás duas horas da tarde aqui sem atrasos – disse Miguel.

O sorriso de Pablo ficou estampado no seu rosto há tempos, desde o momento da notícia até quando chegara ao seu apartamento. Não tinha carro, pegava transporte coletivo, na maioria das vezes um metrô, mas desta vez tinha sido de ônibus. Quando chegou em casa, Lorena e Daniel estavam no sofá assistindo a um filme, tudo parecia muito parado.

Seu filho veio ao encontro de seu abraço, mas quando o abraçou, Pablo não o levantou no teto como o de costume, mas se ajoelhou e começou a chorar lavando as lentes do óculos com suas digitais. Uma criança não entenderia nada, isso é óbvio, nem mesmo Lorena entendeu o motivo do choro. Continuavam abraçados, Daniel sentia a mão de seu pai acariciando sua nuca enquanto ele dizia num tom fanho:

– Seu cabelo vai crescer de novo, Daniel...

Lorena virou o corpo para trás e inclinou-o para frente:

– Do que você está falando?

Pablo levantou um pouco a cabeça cabisbaixa encostada aos ombros finos de Daniel:

– O doutor Miguel, ele dará uma dose a vacina para o Daniel...

Sua esposa teve a mesma reação que Pablo havia tido no escritório de Miguel.

– Chega de dor, Daniel, chega de dor – completou Pablo.

13:40 – 13/09/2016 – Weekstreet – Apartamento de Pablo

– Estou pronto, papai – disse Daniel ajeitando sua blusa do batman, seu herói favorito.

A noite na casa foi um tanto quanto agitada, a ansiedade de Daniel fez com que dormisse apenas pela madrugada e sua olheira dominava o rosto. Aos bocejos o menino andava pela casa procurando pelo pai, a campainha toca, ele atende e lá estava aquela figura tão ativa embora tão enrugada pela ação do tempo que entrava ajoelhando para abraçar e dar um beijo a testa do menino.

– Senhora Foster, você vai ver meu cabelo crescer de novo?! – exclamou Daniel surpreso e feliz.

– Vou sim meu filho, o seu pai acha que vai ter que ficar observando o paciente então qualquer coisa eu volto para casa e quem sabe eu levo você junto para ficarmos nos divertindo? – sugeriu Cláudia.

– Seria demais, aí a gente poderia fazer uns penteados no meu cabelo, um moicano muito maneiro...

Cláudia ri da imaginação do menino que pensava que seu cabelo iria crescer tão rápido desta maneira. Ouve-se passos no corredor, o pequeno estica o pescoço e vê uma silhueta vestida com jaleco branco no meio da escura passagem, era seu pai que com as chaves do carro vinha em sua direção.

– Olá, senhora Foster, estamos todos prontos? – eles abanaram a cabeça afirmativamente – Ótimo, vamos, não podemos chegar atrasados.

O carro era da tão generosa Cláudia Foster que na maior parte do tempo passava nas mãos de Pablo Heirot que usava-o apenas para necessidades, como o trabalho e por isso tinha uma chave reserva consigo. Caminharam ao estacionamento no subsolo, Daniel cantarolava com aquele sorriso estampado no rosto e o trajeto até o laboratório seguiu marcado pelas músicas alegres colocados pelo tão contente menino. Chegaram ao laboratório ao mesmo tempo em que Miguel. As pessoas curiosas por informação e querendo uma dose daquela vacina que antes eram muito agora são muito mais. Eram centenas de segurança fazendo barreiras para normalizar a situação. Eles entraram depressa, antes que fossem atropelados pela multidão.

– Bom dia, Dr. Miguel. – disse Pablo.

– Bom dia, Pablo. Esse é seu pequeno não é? Como cresceu! – disse Miguel enquanto caminhava depressa para o laboratório.

– Ah e como. Antes que eu me esqueça, Miguel essa é Cláudia Foster e Cláudia com certeza já conhece essa figura. – disse Pablo.

– Que honra prazer em conhecê-lo.

– O prazer é todo meu. – disse Miguel sorrindo.

Eles quatro entraram juntos. Entraram no elevador e se dirigiram ao sexto andar onde era a sala de testes. Ao chegar, nove pessoas estavam sentadas à espera de Miguel. Eram eles três homens, um menino, quatro mulheres e uma garota. O garoto e a idosa sentaram-se a eles, como instruiu Pablo.

– Bom dia! – disse Miguel posicionado à frente de todos juntamente a Pablo.

Eles responderam, acenaram e sorriram.

– Eu posso ver a alegria em cada um de vocês, né? – pausa – Pois é gente, hoje é o dia! Enfim, vou explicar como vai acontecer: vocês vão tomar a vacina e ficaram de repouso naquelas macas. O Pablo, meu assistente, ficará vigiando vocês vinte quatro horas, ou seja, vocês só serão liberados amanhã. Terão direito à comida, é claro. É bem simples, apenas isso e nada mais.

Enquanto Miguel falava, uma garotinha de aparentemente oito anos sentada perto de Daniel perguntou para ele com uma voz baixinha e amedrontada:

– Você acha que vai doer?

– Não sei, acho que não. Mas o que importa? Melhor assim, nosso cabelo vai crescer de novo! – sussurrou Daniel.

Entraram na sala de vidro, cada um tomou sua vacina e deitou-se à confortável cama hospitalar. Daniel foi o último. A senhora Foster ficava do lado de fora da cabine de vidro reforçado enquanto tomavam a vacina. Assim que Daniel tomou sua dose, seu pai pegou em suas mãos com carinho e levou até Cláudia. Entregou a ela as chaves do carro e pediu:

– Cláudia, tome conta dessa minha joia rara e qualquer coisa que acontecer me ligue que eu irei lá na hora.

– Não se preocupe, meu jovem. Sua raridade está em boas mãos. – disse Cláudia.

– E enquanto você, seu danado, se comporte, ok? – falou Pablo para Daniel.

– Claro que sim, papai!

O homem se despediu da criança com um forte abraço e um beijo em sua bochecha e outro na sua testa. Assim que se foram, Pablo retornou à sala onde Miguel lhe chamava para dar as últimas ordens:

– Preciso que fique bem atento a eles. Como hoje é domingo, não tem muitas pessoas trabalhando aqui, estou confiando em você, qualquer coisa me liga. – sussurrou Miguel.

– Certo, e se acontecer algo... Algo... Algo anormal com eles? – perguntou Pablo com um ar de medo.

– Nada vai acontecer, mas se algo acontecer tem sonífero na segunda gaveta do armário.

– Obrigado, vou trata-los como fossem meus filhos. – disse Pablo.

Então Miguel foi embora. Alguns deles conversavam sobre coisas que fariam quando fossem curados do câncer, Pablo pensava o mesmo de seu filho. O assistente sentado a uma poltrona aconchegante apenas observava-os. Cansado ele estava, tinha ido dormir era três da manhã. A ansiedade não deixava que fechasse os olhos naquela noite. Mas agora um leve sono ia tomando conta de seus pensamentos, até que adormeceu.

20:57 – 13/09/2016 – Weekstreet – Laboratório MOON (Sala de Testes)

Atrapalhando seu sono em mero trabalho, Heirot sente um pesado tapa atingir seu rosto, sua cabeça recai para baixo e se desiquilibra do pufe caindo ao chão, num susto se levanta sem entender o que acontecia, sua visão turva o atrapalhava, tateia o piso até achar os seus óculos e os coloca procurando quem tinha sido o autor daquele golpe. A sua visão focava até ver um homem meio zonzo tentando falar algo enquanto outra mulher tremia no chão e parecia com frio, Pablo gruda no vidro no mesmo momento.

– Nos... Ajude... – disse o homem que teria sido o autor do tapa.

Um pavor o atingia, no momento saiu da sala rapidamente e deixou o vidro trancado. Ficou observando um pouco do lado de fora, o laboratório parecia vazio e estava tudo escuro, iniciou uma rápida corrida até o elevador até sentir algo em seu bolso, seu celular, e em plena tela inicial pode ver algo que o deixou em pânico.

“CASA: 9 CHAMADAS NÃO ATENDIDAS”

Se a vacina está deixando as pessoas deste jeito...

– DANIEL!