Rest in Peace

4 Primeiros ataques


Notas iniciais
Bom capítulo, quase todo o capítulo foi editado!

14:00 – 14/09/2016 – Weekstreet – Laboratório MOON

Depois daquela noite exaustiva e doida, Pablo voltou e concertou toda a bagunça. O vigia noturno acordou já na sala de monitoramento, não se lembrava da noite passada. Se ele deixasse vivas as cobaias, certamente iriam ver o jeito de que elas estavam. Decidiu mata-los com uma facada na região de trás da cabeça e deixa-los deitado sobre a cama.

– Tem certeza que está tudo bem com eles, Pablo? – perguntou Miguel.

– Sim, sim. Dei uma olhada agora mesmo, estão repousando em paz. – respondeu Pablo.

– Mas porque eu não posso ir lá em cima ver?

– Quem disse que não pode? Poder até pode... Mas... O senhor Yashe, o fundador do laboratório MOON, estará aqui no laboratório daqui a pouco para conversar com você. Quer mesmo perder seu tempo lá em cima?

– Ah, é! Tinha me esquecido. Obrigado por lembrar, estou na minha sala finalizando os projetos. Qualquer coisa só bater na porta se precisar – de perto.

– Mas é claro... Senhor. – disse Pablo enquanto Miguel ia para seu escritório.

Ficou quase uma hora finalizando todos os projetos da empresa e treinando como iria falar com Yashe, o fundador sul-coreano. Essa seria a segunda vez que Yashe iria fazer uma visita naquele laboratório em dez anos. Batem a porta, era Pablo, é claro:

– Senhor, o doutor Yashe, aquele japon...

– Coreano, ele é CO-RE-ANO!

– Sim senhor... Está lhe esperando na recepção, lá no primeiro andar. – disse Pablo. – E as barras de ferro que o senhor encomendou também chegaram.

– Hm... Tudo bem. Já, já irei ver essas situações. – disse Miguel. – Agora pode se retirar?

– Por que não? – sussurrou para si mesmo.

Retirou-se, o assistente, fechando a porta com calma e logo depois a luz tinha ficado fraca por um momento até cair. Miguel tinha levado um susto naquela hora, jurava ter ouvido um barulho alto, como se fosse um tiro. Não passava de sua imaginação fértil misturada do seu medo de escuro. Mexeu nos interruptores a fim de ligar a luz, sem sucesso. Abriu as gavetas e pegou uma lanterna, estava sem pilha. Resolveu sair de seu escritório e sem movimento por ali estava.

Alô? – gritou Miguel.

O eco lhe devolveu o “alô”. Como poderia um lugar que contava com mais de quinhentos cientistas estava vazio agora, pensava Miguel. Em passos lentos e aterrorizados com a situação resolveu andar pelos corredores mais escuros iluminados pelos poucos raios de sol daquele dia nublado.

Estava certo que o elevador não viria então não tentou. Um grito vinha do andar de baixo, o térreo. O grito agudo de dor deixou o dedo mínimo do pé de Miguel congelado. Seguiu pelas escadas até o primeiro andar. A porta estava aberta.

“Graças a Deus, sem eletricidade ficaria preso aqui pra todo o sempre” pensou ele, já que era preciso digitar a senha para liberar a passagem.

Um gemido de dor era possível ouvir. Procurava em todas as direções de onde ouvia aqueles gritos de angústia. Um homem rastejava pelo chão tentando alcançar a saída. À medida que andava, sangue saia pela sua boca. Miguel foi correndo prestar ajuda sem ter noção de alguma forma de perigo.

– Senhor Yashe! O que houve com você?

Ele virou o rosto para o doutor Miguel, tentou falar algo, mas não saia nada. Abriu a boca, sua língua tinha sido cortada. Ele estava sem forças, falecendo lentamente. Já sem mais dúvidas, Miguel viu que algo estava acontecendo. Gritou por socorro. Então uma voz masculina respondeu no fundo do corredor, perto das escadarias:

– Doutor Miguel? – perguntou Pablo assustado.

– Pablo! Ah, Pablo! Ainda bem que está aqui. – disse Miguel correndo em direção a ele.

– Meu Deus, doutor! Você fez isso com ele?

– Claro que não... Eu encontrei ele assim já! – disse Miguel aterrorizado com os pelos de todo o corpo arrepiados — Você sabe o que houve? — Não e você? Sabe de algo? Sabe onde estão as outras pessoas?

– Pra falar a verdade... Sei, sei sim. – disse Pablo sorrindo.

– O que aconteceu? Precisamos resolver isso, já.

– O que aconteceu? Aconteceu que você, Miguel, você matou o meu filho e outros nove pacientes com sua vacina idiota. E onde estão as outras pessoas? Bem, algumas se jogaram da janela, tentaram lutar comigo... Olha isso vai causar um belo prejuízo. Você tem que ver o que essas pessoas fizeram... Mas enfim esse é o ponto final, seu ponto final. – disse Pablo tirando uma faca de vinte centímetros de seu jaleco.

– Como assim? Para de brincadeiras, isso não é hora. – disse Miguel com os olhos arregalados.

– Brincadeiras? – andou um pouco até ficar bem próximo do doutor. – Você acha que eu estou de brincadeiras?

Miguel recebeu uma facada no ombro. Gritou um pouco, o resto do grito foi tampado com a mão de Pablo sussurrando em seu ouvido enquanto retirava a faca do ombro:

– Isso foi por você me menosprezar tanto. – agora lhe enfiou a faca nas costas perfurando seu pulmão.

– Isso foi pelos nove dos pacientes que você matou.

O doutor já tinha dificuldade de respirar. Mas ainda estava vivo. Pablo deixou com que caísse no chão melado de sangue. Já não tinha mais forças para gritar, mas se esforçou em dizer:

– Me... Desculpa... Desculpa-me...

– É claro, é claro que desculpo. Mas agora peça desculpas pelo meu filho... E essa daqui, será por ele. – disse Pablo atravessando a faca em seu coração.

Injetou rápido em Miguel uma substância e depois o levou para a porta do terceiro andar. Ligou as luzes novamente, digitou a senha para desbloquear a porta e abriu-a. Corpos e mais corpos empilhados e jogados pelo andar. Pablo observou fixamente para aqueles corpos e depois jogou Miguel com os outros corpos podres e insignificantes.

Uma mulher então com uma aparência atraente sai das escadarias e vem andando bem rápido. Puxou a mão de Pablo e disse:

– Vamos logo embora daqui.

– Calma aí, Jéssica! Tenho que ligar para o chefe. – disse Pablo.

– Eu não sou mais Jéssica. Eu era, quando casada com Miguel. Me chame de Esther, certo? – disse a ex-mulher de doutor Miguel.

– Tanto faz. Mesmo assim tenho que esperar a ligação dele...

Seu celular tocou:

– Chefe? – perguntou Pablo amedrontado.

– Como foi? – disse a voz ríspida do outro lado da linha.

– Tudo perfeito. Todos mortos, alguns se suicidaram se jogando da janela, mas já tinha injetado o Teleopódio. Enfim, estou indo agora para o helicóptero.

– Ótimo, ele está à sua espera na mata, Esther vai te levar até lá. – disse a voz no telefone móvel.

– Certo. Quantas pessoas novas já foram recrutadas? – perguntou Pablo descendo as escadas.

– 97 novas pessoas, agora têm 121 recrutados. Se todos colaborarem, tudo irá fluir bem. Boa sorte!

23:11 – 15/09/2016 – Weekstreet – Fazenda dos Clarks – 13km do Laboratório MOON

A grande parte de Weekstreet era ocupada por fazendeiros e pescadores que não deviam nunca sequer ter pisado os pés lá, considerando que tal cidade fora planejada apenas para todos os funcionários que pretendiam e que trabalhavam em tal laboratório MOON que apresentava alguns riscos biológicos, portanto, sua restrição era um tanto quanto essencial para a segurança dos cidadãos norte-americanos o que gerou uma pequena rivalidade entre as classes sociais e um leve preconceito entre os que moravam de um lado ou de outro do monte, os fazendeiros e pescadores contra os doutores e milionários.

Tal monte que tinha altura de um quilômetro e meio, habitado por árvores e pequenas casas irregulares de pescadores que formavam uma pequena vila ao pé do monte, era ele o responsável pela grande seca que já durava sete sofridos anos para os fazendeiros, mas não atingia tanto os pescadores e os que não eram nem um pouco afetados eram os tão sortudos doutores. Maldita seca, pensava Mike Clark, um fazendeiro dono de uma grande terra que já estava perdida e a única coisa que crescia nesta eram os capins com a única utilidade de alimentar as duas fracas vaquinhas de posse do homem.

Na maioria das vezes a família Clark se encontrava em uma miséria onde nem mesmo farinha de trigo se encontrava em suas dispensas empoeiradas que só serviam-lhe de um lugar escuro para habitat das aranhas e suas teias, sua geladeira valia mais se ficasse desligada economizando eletricidade e raramente, por um milagre divino, eles tomavam um simples café-da-manhã ou almoço baseado em um bom leite puro e ovos fritos e frescos vindo do galinheiro. Tão cansado estava o pai Clark, deitado no sofá esticando seus quase dois metros de esqueleto pelo estofado mofado e rasgado, desgastado pelo tempo e a cada movimento parecia quebra-lo e fazer no chão um ruído, assistia à televisão, talvez, sua única distração e esta não podia ser diferente dos outros móveis: antiga.

Suas crianças já estavam dormindo à essa hora, talvez seu filho caçula tivesse com seus olhos cansados depois de passar o dia praticando sua leitura e estudando em casa mesmo já que a escola de ensino fundamental ficava muito longe e sua filha mais velha que conseguiu acabar o ensino médio com muito sacrifício e também passava horas de seus dias lendo as dezenas de livros que seu pai havia herdado.

Enquanto o bom Mike passava parte de seu dia cobrando seus compradores de ovos tão caloteiros e só trazia alguns pães para casa quando trazia algo, esse dia havia sido cansativo e Alice, sua esposa que ainda estava acordada e o observava no canto da sala agora decidira se aproximar com seus passos leves, ela estica os cotovelos por cima do encosto do sofá e vê seu marido trocando um olhar cansado.

– Vamos dormir, Mai? – convidou Alice chamando-o pelo apelido carinhoso.

– Logo agora que a TV decidiu pegar com uma boa imagem? – brincou Mike e depois passou a mão em sua barba rasteira um pouco pensativo sem desgrudar os olhos da direção da televisão.

Alice sorriu, dos sorrisos mais bobos e orgulhosos pelo simples fato de ter um homem tão dedicado na sua vida, ajeitou seus cabelos dourados para trás da orelha e percebeu o cansaço nas linhas de expressões de seu marido:

– Vamos, Mike, sei que tem sido meses muito difíceis para você... – disse Alice e parou um pouco, prosseguiu depois de um curto pensamento – Mas vai passar, eu sei que vai e nós ainda estaremos com você... Eu, o Matheus e a July sempre estaremos com você te apoiando nisso, você sabe disso não sabe?

As três últimas palavras de Alice foram cortadas pela trilha sonora do plantão da emissora que passava no momento, os ombros de Mike se sentiram meio incomodados e seus olhos brilharam e uma leve preocupação veio em mente quando ele viu o lugar que se passava tal notícia.

–- Olá, eu sou Emily Devis e estou enfrente ao laboratório MOON – dizia a repórter – há boatos dos moradores que acercam o tão grande laboratório de violentos gritos e grunhidos, outros boatos que estão rolando é de que – um chuvisco começou a cair sobre a antiga televisão – malucos estão rodeando o local e Weekstreet atacando alguns cidadãos que estão desparecidos, já são sete casos similares e estamos aqui com um morador que presenciou – um chiado começou a atacar a imagem que ficou destorcida e esticada até no final desaparecer e encerrar a transmissão, a TV foi desligada em seguida.

Mike olhou para o alto, tinha sido sua esposa a autora do ato:

– E agora, podemos dormir em paz? – perguntou Alice num ar desafiador.

– Não vejo outra escolha... – murmurou Mike.

04:32 – 16/09/2016 – Weekstreet – Fazenda dos Clarks – 13km do Laboratório MOON

Desde aquela notícia tão mal dada e interrompida pelo péssimo sinal da TV, seus olhos só conseguiram pregar e se apegar ao sono por minutos curtos e interruptos pela inquietude de Mike que admirava tanto o laboratório, sempre que ia à cidade tentar vender os ovos excedentes passava por aquela construção tão grandiosa que ali fora fundada desde 1984 e continuava com um constante movimento e agora parecia tão calmo e obscuro, algo não estava certo para ele que de barriga para cima, coberto por um lençol fino, olhava para o teto refletindo aos sons dos grilos e das cigarras, inventando hipóteses do que afinal havia acontecido.

Desaparecimentos, loucos e um morador cujo seu rosto representava pavor, mas não pudera Mike tirar mais conclusões com tal transmissão cortada. Começava a lembrar dos livros de romances policiais, ficção científica e tudo mais que já tinha lido e tentava conectar ao caso que ele tinha visto, mas aquilo era tão diferente... Um laboratório que contava com tantas pessoas agora estar sendo vítima de boatos, logo em seu auge? E os presidentes? Não se proclamaram diante de tal situação?

Em meio de seus mais pensamentos, um barulho o distrai, pareceu ouvir algum tipo de graveto se quebrar e alguns passos fazendo com que as folhas secas se estalassem e que o capim alto se movesse, a primeira coisa que veio em sua mente fora que os barulhos eram apenas frutos de sua imaginação influenciada pelo medo e então seus ombros se sentiram menos tensos, mas depois voltaram a se contrair quando as galinhas cacarejaram e gradativamente mudava o tom de seus cocorocós desesperados e amedrontados.

– Raposas – resmungou Mike e rolou da cama de casal na qual as molas estalaram em seus movimentos inquietos e seus passos o levavam até o pequeno guarda roupa onde vestiu uma blusa de manga quadriculada por cima de sua regata e uma jeans um pouco desgastada.

Alice acordou com os ruídos que faziam os móveis e os pisos:

– Mai? – disse ela meio grogue – O que está fazendo? Que horas são?

– Alice, as raposas estão atacando o galinheiro – disse Mike carregando sua espingarda de cano duplo com um cartucho em cada e colocara outros seis em seu bolso direito, já que tal arma só comportava uma bala em cada cano – e eu vou lá para ver o que está acontecendo, isso não vai poder ficar assim, os ovos e leites estão sendo nossos únicos alimentos e se perdermos estes, poderemos ficar de mãos vazias por um longo tempo e nós não temos a quem recorrer.

– Mas você viu aquela notícia... E se for um chupa-cabra, Mike? – disse Alice com medo e seriedade nas palavras.

– Se for... – disse Mike se virando com sua blusa quadriculada desabotoada e com a espingarda pronta para o tiro e na boca uma farpa que ele mastigava como o de costume, continuou falando com o canto da boca – É melhor ele sair correndo, e você dama, pegue as crianças e se tranque aqui no quarto.

E assim ela iria fazer enquanto Mike descia as escadas com a espingarda entre a lateral do peito e o cotovelo, a mão esquerda servia de apoio e a direita estava grudada nos dois gatilhos e só bastaria um único deslize nestes para que os tiros fossem disparados e foi nesta posição, com um dos olhos fechados para ter uma melhor mira e logo já estava lá fora onde o escuro ainda reinava. Cuspiu a farpa, e seus olhos deslizaram sobre o cenário acompanhado pela espingarda, o galinheiro estava entreaberto e duas galinhas se viam livres cacarejando perto da velha caminhonete azul que estava num raio de cem metros da porta de casa, um suspiro veio depois, não tinham raposas algumas.

Talvez ele deixara o trinco um pouco aberto, e deve ter ventado bastante até que esse fosse aberto, assim pensava tentando acalmar seus nervos enquanto pendurava sua arma com a faixa de couro que abrangeu seu peitoral e o cano ficara apontado para o céu em suas costas e lá fora Mike prender de volta as galinhas, algo que não durou menos de cinco minutos e desta vez teve certeza que havia fechado bem o trinco e quando virara para seguir em direção da casa viu que uma brecha na porta estava bem estampado ali e a tão frágil balançava seguindo o zéfiro montanhoso e rugia orquestrando junto à um grito fino que fez sua espinha gelar, sentiu cada vértebra ficar imóvel não permitindo nenhum movimento, seus músculos se atrofiaram deixando-o boquiaberta.

Jurava ter fechado a porta.

Mais um grito e este te despertou do susto, olhou para os dois lados até que seu senso de localização voltou e seu tendão o impulsionou à uma corrida enquanto desprendia sua espingarda num rápido movimento, destravava a mesma no mesmo tempo que fazia os degraus da escada rilharem em seus passos pesados de sua bota de cadarços desamarrados até chegar ao quarto deslizando com suas veias pulsando para fora de si e a espingarda na mesma posição.

As luzes estavam apagadas, mas o brilho da lua crescente iluminava através das janelas um corpo de um homem gordo que se vestia de jaleco e usava um óculos com lentes retangulares cuja uma delas estava quebrada e cravada dentro de seu olho, parecia este um louco na qual tentava atacar Alice a todo custo que não dava bandeira branca ao homem e segurava suas mãos ao ar, outro corpo também estava jogado ali, de uma mulher magrela que parecia desmaiada ou mesmo morta.

– Saia de cima dela cabra-macho! – gritou Mike.

– Me ajuda, Mike – suplicou Alice com dificuldades tendo a vista de uma boca com restos de carnes.

Mike avançou alguns passos para perto do homem e voltou a berrar:

– Saia de cima dela, agora!

Agora sim ele parecia ouvir e virou-se, uma baba longa e viscosa escorria pelo canto de sua boca e aos poucos mancava para longe de Alice e suas mãos tremiam numa envergadura anormal como fosse um gato prestes a arranhar, assim ele caminhava estropiado batendo os dentes um ao outro deixando Mike espavorido numa ruga em seu rosto estranhando tal atitude e no momento as únicas coisas que vieram pela sua mente era a tal repórter que falava no plantão... Os ataques...Foi nesse simples pensar que o fez desligar e quando voltara a realidade e no instante uma mão pálida vinha cortando ao ar num tapa, sua reação maquinal foi se tacar no chão como estivesse num queimado e se esquivara de um tapa, não tinha ele a coragem de puxar o gatilho e matar tal homem, mas eis que um a base de um abajur acerta a nuca de tal que cai no chão desmaiado.

Alice salvara sua vida naquele momento.

– Cadê as crianças? – perguntou Mike ainda jogado no chão.

– Foi tudo muito rápido, logo assim que você saiu aqueles dois homens entraram eles atacaram o Matheus e então eu tentei defende-lo e... Meu Deus... Eu acho que eles estão mortos, e agora? – dizia desesperadamente em estado de choque ao olhar os dois corpos imóveis no chão – Eu sou uma criminosa – falou Alice com o cenho fechado entre seus cabelos.

Mike levantara:

– Fique calma, tudo bem, foi legítima defesa – acalmou Mike – agora me diga onde estão as crianças.

Não fora preciso a resposta de Alice, uma voz feminina cortou o ar como um relâmpago que atingira as rochas, exclamava desesperada a alta loira que saía do banheiro da suíte com uma criança em seus braços ensanguentados:

– Pai! – era July Clark, a filha mais velha.

– July, o que houve com Matheus? – perguntou Mike com uma mão cobrindo parte do rosto ao ver o braço do garoto pendurado como se estivesse levado uma mordida de um tubarão e parecia que tal membro começava a ganhar um tom arroxeado e pálido aos arredores.

– Essa mordida... Nós temos que leva-lo ao hospital West, pobrezinho ele desmaiou de dor enquanto eu lavava o ferimento, vamos rápido!

– Mas o hospital West fica a duas horas daqui, chegaríamos apenas ao amanhecer e sabe se lá o que deram para esses loucos ficarem deste jeito veja só eles me atacaram! – indignou-se Alice.

O braço estava tão machucado, tinha sido tamanha crueldade o que fizeram com o pequeno Matheus que agora corria graves riscos de perder seu braço e os pontos começavam a se conectar na cabeça de Mike, este ataque contra seu filho poderia sim estar relacionado aos ataques dos vizinhos do laboratório e uma reflexão veio em mente:

“No laboratório também tinha hospício?” – se questionava Mike.

– Temos que ir imediatamente – concluiu Mike.

– Temos que ligar é para o hospício, para a polícia local! – retrucou Alice.

– Não, a vida de nosso filho é mais importante e isso está me parecendo muito grave, não podemos mais perder tempo – depois se dirigiu à July – o hospital West tem um péssimo atendimento, pegue uma mochila, coloque alguns biscoitos, frutas, água e garrafas de suco, há possibilidades de Matheus ficar internado.

July não hesitou, diferente de sua mãe que ficava preocupada com tal atitude, Matheus foi deixado encima da cama do casal onde Mike fez um curativo com os panos de rosto do banheiro para estancar o sangue tão claro que escorria. Depois sua filha já estava com a mochila pronta e com seu coque frouxo típico e tal bolsa fora posta nas costas de sua mãe enquanto July carregaria Matheus e a espingarda nas mãos de Mike.

– Para que levar uma arma para o hospital? – perguntou Alice.

Mike fez um sinal de silêncio e eles puderam escutar, ainda do quarto, passos vindo debaixo da casa junto à um respirar ofegante e furioso, deveria ser outro louco. Os Clarks começaram a caminhar com a ponta do calcanhar amaciando o piso para não fazer um ruído sequer, o homem da casa ia na frente com a arma em alerta, começaram a descer as escadas quando viram tal figura que perambulava na sala. Não poderia mata-lo, era uma pessoa, mas estava louca e era um risco para sua família.

As mulheres ficaram para trás abaixadas e olhando através do corrimão o que ele iria fazer, à espreita com os mesmos passos silenciosos, Mike chegava perto do homem baixinho que parecia farejar o sofá sem nem descortinar a silhueta do alto fazendeiro que ao invés de deixar os canos virado para frente, era a coronha que estava apontada para o sujeito que invadira sua casa, continuava andando meio curvado e um de seus pisos de madeira fez o favor de chamar a atenção do louco que ao ver o homem fez o que tinha que fazer, atacou-o, porém num brusco movimento Mike usou tal coronha para golpear sua barriga com tamanha força. O demente se curvou um pouco e o Clark parou para observar com um pouco de piedade, mas tal maluco traiçoeiro voltou para a posição ereta e tentou ataca-lo novamente, desta vez levou uma forte pancada na cabeça com a coronha.

Logo em seguida que o corpo do alienado caiu, vieram as mulheres preocupadas com o estado em que Matheus se encontrava com um roxo mais forte que antes apenas ocupava aquela parte do machucado no braço, agora parecia se espelhar aos poucos como uma infecção, e se fosse isso, o controle de July, tão apegada irmã, iria se perder ao ar.

– Você também o matou?! – perguntou Alice.

– Eu não sei, nem temos tempo para saber, agora vamos logo sair desta casa – disse Mike.

– O quanto antes, a chave está encima da televisão, seja rápido, pai! – disse July enquanto espiava pela janela, quando Mike pegara as chaves, a surpresa veio primeiro aos olhos de sua filha – Oh, droga... – virou-se para seus pais – Tem vários chupa-cabras vindo detrás das árvores, não vai dar pra chegar ao carro sem nenhuma marca de mordida pelo corpo desse jeito!

Eles se aglomeraram na janela, a árvore posta bem afrente deles, atrapalhava um pouco a visão daquela noite, principalmente quando uma espécie de névoa se formava, mas não era um nevoeiro em si, mas sim, uma cortina de areia levantada pelos sopros fortes dos ventos e dos passos daquelas pessoas tão estranhas que era preciso uma boa pancada para que ficassem quietas, desacordadas, como estivessem domando algum animal feroz que era exatamente o que pareciam. A última coisa que Mike Clark poderia ser xingado era de burro, isso era uma coisa que ele não estava nem perto de ser, era um homem bondoso também e nunca disparara um tiro sequer contra um humano e não seria naquela noite, mesmo com tantos assassinos querendo atacar sua família, que ele dispararia algum.

– Eles gostam de morder coisas vivas – dizia o mesmo enquanto pegava a espingarda e caminhava depressa para o outro lado da sala – eles queriam nossas galinhas – resmungou enquanto abria a janela e preparava a espingarda para um tiro – eles queriam minha família... Entre um e outro, eu dou as galinhas – e então atirou as duas balas que acertaram no trinco da porta do celeiro onde se abriu um buraco e começou as galinhas de plumagem branca, assustadas, corriam desesperadas ciscando o chão.

– Eles estão vindo! – disse July.

– Vem, se escondam aqui atrás do sofá! – disse Mike.

Puxou a espingarda e se deitou atrás – o que na verdade seria a frente, mas na visão de quem entrava, seria atrás – e logo as duas moças vieram, July apenas se agachou em formato de concha protegendo seu irmão enquanto seu pai carregava a arma silenciosamente, suava o homenzarrão, a tensão era intensa, principalmente quando três sombras diferentes se estenderam até a televisão e a porta pareceu ser chutada com força. As galinhas pareciam estarem tendo uma morte dolorosa, mas Mike não parecia se preocupar tanto com elas quanto se preocupava com sua família e suas mãos iam trêmula pegando um cartucho de seu bolso e inserindo num dos canos até que carregara finalmente. Olhou por debaixo do sofá, os pés pareciam caminhar para a cozinha da casa e tinha um bom espaço livre para uma boa corrida até o carro.

– July – sussurrou Mike, sua voz saíra tão baixo que quase não saiu – me dê o Matheus, segure a espingarda.

E assim foi feito, a garota segurou a espingarda carregada enquanto o pai acomodava seu filho com cuidado eu seus braços convulsos de medo, não só ele como sua filha e esposa também estavam assim, principalmente quando ouviam um berro das galinhas, eles tinham que ir para um lugar com pessoas que pudessem acudi-los o quanto antes. Mike fazia sinais com os olhos e com as cabeças, algo que dizia a elas que era hora de ir, que senão agora, nunca mais. Se levantaram e correram para fora da casa, em movimentos lentos os loucos só perceberam minutos depois e só então começaram a andar para onde os passos dos Clarks iam.

Tais malucos estavam distraídos com as galinhas, mas retorciam seus pescoços e olhavam com as bocas meladas de sangue cuja as penas grudavam em tal e eram soprados pelos seus bafos, largaram os corpos das galinhas e a mancada em busca de um banquete maior começou incessante. July ficava para trás, tropeçando em sua própria bota e quase caindo ás vezes, seu rosto era atraído para sua retaguarda que era ameaçada pelos homens canibais, chupa cabras ou seja lá o que eram, queriam sua vida.

– Pai! – gritou July com um soluço de medo – Eles estão atrás de nós, vão me pegar!

– Atira pra assustar eles! Atira! – gritou Mike correndo.

July parou um pouco para mirar enquanto seus pais corriam, já estavam enfrente ao corro, Mike abria a porta de sua caminhonete um pouco enferrujada tentando equilibrar os braços e pernas de Matheus em seus braços.

– July, não atira neles, são pessoas! Atira no chão! – disse Alice.

O cano da arma desceu um pouco para o chão, ela esperou um pouco até que estivessem mais perto e o tiro acabou pegando nos pés de um dos canibais ao invés do chão, talvez na hora que seu dedo puxara o gatilho, seus pensamentos congelaram um pouco, algo natural em resposta ao medo e reação quando devemos tomar uma decisão tão importante e então o pé de tal homem aterrorizante estourou e fora para fora de sua perna, mas não demonstrou dor, quem mais pareceu sentir foi July que assustado recuou um passo e botou as mãos sobre a boca entreaberta, sua respiração foi cortada e tal canibal continuou andando em direção assim como a dúzia que o cercava e mancava aos grunhidos sofridos para a caminhonete onde Mike tentava puxar July que parecia estar em estado de choque, nunca havia disparado um tiro em sua vida antes.

Ela acabou por entrar com sua face parcialmente congelada, parecia travar com aqueles olhos arregalados olhando através dos vidros uma paisagem escura que vinha acercar a fazenda com as árvores de, em sua maioria, folhas e galhos tão secos e pálidos como a pele daqueles que agora faziam de tudo para tentar quebrar o vidro do carro, não poderia deixar que seus convidados para o jantar – ou melhor, a janta – fossem embora desse jeito. Por mais forte que girasse a chave, parecia que o motor não queria pegar, já era sua quarta tentativa e só escutava um ronco no motor e nem mesmo a bateria parecia ligar direito ao ponto de ligar os faróis, Alice começou a rezar num sussurro baixo enquanto seu esposo se estressava tentando ligar o carro onde o vidro da frente já tinha uma rachadura que marcava de ponta-a-ponta e a janela de July começava a se partir quando o carro já estava pronto para sair daquela fazenda e ir ao hospital deixando uns loucos correndo e caindo para trás. O vidro de July acabou explodindo em seu rosto num último soco dado por um dos esfomeados o que fez a jovem acordar de um choque quando ouvira sua mãe clamar pelo nome de Deus e seu pai a cutucava perguntando se tudo estava bem, ela olhou para suas vestes e para seu corpo, depois olhou o vidro todo quebrado e a herança disto eram os cacos que se encontravam por sua poltrona:

– Estou... Estou bem sim, pai – disse acalmando-o.

– Mas o que está acontecendo? – resmungou Mike ligando o rádio e passando as estações procurando algo que lhe fosse útil, que não fosse música pop – A seca deixou as pessoas com tanta fome ao ponto de se tornarem canibais? – ele continuava passando as estações até achar uma que realmente prestasse.

– Há um engarrafamento na estrada 214 que interliga Weekstreet à Tolopólis, o motivo do grande tumulto seria o tombamento de uma carga de um caminhão, também estamos recebendo a notícia de que as estradas estão sendo fechadas.

–- Parece que há uma boa quantidade de pessoas, cidadãos de Weekstreet, indo em direção de Tolopólis, estou certo disto? – a voz dos repórteres alternavam.

–- Certamente Saulo Boechat, também há indícios de tumultos em hospitais e o hospital West parece lotado com um grande grupo de pessoas até mesmo no estacionamento – enfatizou – de tal, é uma penas que tenhamos um péssimo atendimento para essas horas.

–- Muito obrigado – disse o suposto Saulo Boechat – vamos ficar agora com a sessão country, quaisquer novidades interromperemos a programação para informar nossos ouvintes.

As mãos de July se esfregavam passando uma tensão uma para a outra, estavam estas suadas devido à intensa aventura que acabara passando, os olhares eram sendo trocados, não sabiam eles o que iriam fazer e agora que a estrada 214 estava fechada, ir ao hospital demoraria bem mais e talvez o pequeno Matheus não tivesse o tempo que era preciso para chegar ao destino e a aflição de Mike também elevava e ele segurava com força no volante quase que quebrando os ossos de tanta força que fazia.

A caminhonete não chegava a mais que sessenta quilômetros por hora e como um de seus faróis estavam quebrados e a estrada de terra onde a poeira era levantada pelos frescores, a cautela deveria ser intensa e a metade da velocidade máxima que tal veículo conseguia era usada naquele momento onde July fechou os braços enquanto se via resfriada pelo vento que abafava o clima tropical de Weekstreet, Alice estava bastante preocupada e acariciava o cabelo curto de Matheus quando a família fora surpreendido por um soco no vidro de Mike enquanto passavam em frente à um minifúndio, um homem que ofegava começou a bater no vidro com força e seguia o carro mesmo que um pouco rápido ainda socando o vidro, parecia querer falar algo, mas sua língua travara num estado de choque.

– Por favor, me ajuda! – gritava o homem – Eles atacaram minha família, não me deixe morrer!

Isso não fez com que Mike prestasse socorro, só fez com que o pé do homem pesasse no acelerador, o desconhecido tentou ainda correr atrás do carro, sua mão suja de sangue ficara marcada no vidro e pelo retrovisor se via um pequeno grupo de pessoas que agrediam-no com muita violência e se ouviam os gritos mesmo de longe. Antes que o Mike acelerasse abandonando-o, foi xingado de desgraçado e então o terror dominou e eles se aquietaram sem entender.

– Não sei o que está acontecendo, – disse Mike – mas isso é bem mais que um chupa-cabra.

– O jeito que ele atacou Matheus, pai, foi muito estranho! – depois July disse um pouco baixo – Estou começando a achar que sim.

– Sim o quê? – perguntou Alice.

July virou o rosto para a mãe:

– Chupa-cabra existe!

06:00 – 16/09/2016 – Weekstreet – Fazenda dos Clarks – 4km do Hospital West

O rádio ainda tocava com sua programação de música country num volume grave no entanto que o ronco do motor emugrecido e até mesmo o andar das rodas sobre a estrada esburacada, sobressaía ao som tão suave da viola e da sanfona. E a areia, como fumaça, subia formando uma cortina e atrapalhando a visão de Mike, era preciso estreitar os olhos já que parte de tal terra entrava pela janela quebrada do banco do copiloto.

Os raios de sol já alumbravam o céu com nuvens rasas e espalhadas, a noite tinha sido difícil para os Clarks, mas já estavam quase em seu destino onde iriam então cuidar do miúdo do braço devorado que cochilava desmaiado junto à mãe que há pouco tempo entrava num sono leve que seu corpo pedia depois de tanto horror que haviam passado, mas o Mike ainda vivia um grande medo e acabava por compartilhar tal com sua filha que se mantinha acordada tendo arranjar, de alguma maneira, uma explicação lógica daquelas pessoas estarem tão estranhas e o porquê de terem sido eles o alvo, logo seu pai que não fizera nada a ninguém, isso só podia ser algo sobrenatural, pensava July.

– Sabe July... – começou Mike com um breve diálogo – Eu estou com bastante medo do futuro de seu irmão, eu não sei o que deu naquelas pessoas, mas veja o estado dele... Com febre, pálido e o braço parece estar com uma infecção...

– Talvez seja alguma doença, eles podem ter adquirido raiva de algum cachorro, talvez – July tentava criar uma hipótese.

– Se o seu irmão tiver que amputar o braço por uma infecção, não iremos ter dinheiro para poder comprar uma prótese ou qualquer outra coisa do tipo, vai ser muito difícil pra ele viver sem algum membro do corpo, é só uma criança!

A criança que começava a se mexer com algumas tremedeiras, por mais mínimo que fora o movimento de Matheus, quase imperceptível, fora o estopim do fim do sono de sua mãe que acordara então num estalo e sussurrou para si mesmo que ele estava voltando a ficar consciente. Passou a mão em seu rostinho pálido e sentiu sua temperatura anormal, minutos atrás estava o garoto com uma febre nefasta e transpirava tudo o que bebera desde que estava se formando no útero de sua mãe, mas agora estava bem diferente, estava álgido como um picolé o que a fez estranhar. Matheus tentava falar algo baixinho, com as sobrancelhas arqueadas, Alice curvou um pouco sua cabeça para ouvir o sussurro de seu filho e a surpresa veio depois.

Não era um sussurro, mas sim, um grunhido.

Os olhos do garoto se abriram, sua íris estava amarelada preenchendo o castanho feito uma camada de pus e as veias que normalmente eram presente nos cantos dos olhos estavam bem dilatadas com Matheus estivesse chorado muito há alguns momentos, mas não estavam vermelhas ou num tom de rosa, estava azul, roxo, como se o fluxo sanguíneo de uma hora para outra fosse trancado. Farejou o rosto de sua mãe e suas mãos se envolveram no pescoço de Alice como quisesse ele dar um abraço nesta, ela claro, não recusou um abraço sendo uma mãe totalmente carinhosa e Mike que notava o conjecturado abraço pelo retrovisor abriu um pequeno sorriso visto que seu filho já estava um pouco melhor, e o mesmo desapareceu quando viu o filho abrindo a boca feito um daqueles canibais loucos e abocanhando o ombro de Alice que gritou assustada e empurrou o garoto:

– Matheus! – disse Alice colocando a mão sobre a leve ferida que arrancara a penas um pedaço de seu ombro e mal sangrara direito – Você está louco?

July virou seu pescoço para trás e viu como o garoto estava, sedento por sangue e carne, olhava para sua mãe como se fosse uma inimiga, uma presa que se grudava na porta do carro do lado de Mike e Matheus se encontrava na outra ponto:

– Matheus, você está bem? – perguntou Mike.

O grunhido veio como resposta em seguida de um sobressalto para cima de sua mãe, abocanhou no mesmo lugar, desta vez com muito mais força que ele pôde provar a carne daquela que por quase um ano carregara por sua barriga, mastigou um pouco e ingeriu aos gritos e depois uma mordida mais rápida acertara ao pescoço de sua presa. Mike não teve outra reação senão dar uma longa freada, o carro passara por um grande buraco que alavancou os corpos para frente, July se jogou do carro ainda em movimento e sentiu seu corpo rolando pela terra enquanto seu pai ainda ficava ali dentro, mas logo que o carro já estava parado ele saíra correndo um pouco desequilibrado e tropeçou caindo de cara ao chão e o carro continuou andando apenas no embalo herdado, Alice ainda gritava fino por socorro.

Não podia ficar só no chão olhando toda a merda acontecer, no desespero alguém aumentara o volume que, no máximo, abafava o som dos berros. A primeira coisa a fazer em sua corrida um pouco grogue, fora ver se seu pai estava bem, ele parecia desesperado, em choque e com os olhos molhados e seu rosto empoeirado sendo quase lavado pelas lágrimas de horror, aparentava uma criança agonizada, traumatizada por ver um monstro em seu armário. Sabendo que nada ele iria falar por agora, July correu até o carro e abriu a porto traseira onde sua mãe estava e tudo o que ela via era seu irmão, feito um cirurgião, abrindo e a barriga e devorando os órgãos de Alice... Como um porco que se divertia na lama de sangue daquela que trocara sua fralda, sua língua, como a de uma cobra, lambeu os próprios dedos e depois voltou a devorar seu lanche. Mike vinha atrás querendo saber o que acontecera e novamente entrara em choque.

Sentiu seus joelhos enfraquecerem, seu crânio pesou tanto naquele momento que se dobrara diante a porta sobre a terra, sua boca abriu e seus músculos dos lábios tremeram e depois foram mordidos com forças e suas lágrimas escorriam em sincronia com o rio de sangue que escorria do pescoço para o rosto de Alice, deitada, sendo devorada, e com sua voz roufenha e sem forças tentava falar socorro e suas lágrimas escorreram pelos pés-de-galinha do olho esticado e se misturou com o sangue. A música da sessão country tocava, era Precious Memories que era reproduzido naquele momento quando Mike viu com sua visão embaçada pelas lágrimas, sua filha, passar com a espingarda e se preparar para um tiro que acertara seu irmão e a outra bala, depois de muito pensar em sua mãe e tudo que já passaram, abriu uma cratera na cabeça de Alice assim como na cabeça de Matheus e ali morrera metade da família Clark. A espingarda se encontrou com o chão depois que July percebeu o que teria feito, se juntou aos soluços do pai que via o cenário em sua frente de maneira confusa e soluçava feito uma criança e de tanta fraqueza deitou olhando para o céu que sumia em seu choro de tantos litros, se perguntava o porquê de ser com ele, sentiu uma mão enxugar suas lágrimas, virou-se para onde vinha o toque e enxergou a silhueta de July que também se deitou ao lado dele e ao som da música e aos prantos, contemplaram o céu com as mãos entrelaçadas com força não acreditando na perde que tinha acontecido naquele momento.

Mike se virou e seu longo braço envolveu todo o comprimento da garota que com a outra mão também agarrou em seu braço ainda com a outra mão entrelaçada e o céu que naquele momento já estava claro por completo, iluminou uma cena de drama e uma perda fatal que cortara corações naquele dia e a mente de pai e filha mudaria totalmente de rumo.

Notas finais
A primeira cena (a única que eu não editei, isso explica porque está ruim) era para estar junto com o outro capítulo, mas eu acabei cortando. Espero que gostem, fiquem atento nas datas. AHHHH o contador do Nyah está errado, no Word diz que foram 6867 palavras, podem contar se quiser KKK