Ressentimento

5 Capítulo 5 - Premonição ou Brincadeira da Mente?


Meses depois do aborto

Cansaço. Era só o que Kyle sentia naquele momento enquanto subia as escadas, dirigindo-se ao seu quarto. Sua mãe estava acabada, sofria de depressão e com ataques de pânico diários.

Seu ódio por Jack estava aumentando cada vez mais. Aquele desgraçado estava descontando tudo em cima do rapaz – ele era o culpado, mas o bêbado não sabia disso e mesmo assim o maltratava –, fazendo-o trabalhar o dobro do tempo.

Abriu a porta do quarto e observou o seu refúgio. Não tinha nada atual nele, apenas alguns brinquedos quebrados jogados em um canto e móveis velhos e ferrados. Usava roupa doada pelos outros desde a sua infância. Resumindo: ninguém se importava com ele.

Foi e deitou-se em sua cama. Milhares de pensamentos passavam por sua cabeça. Ainda estava incomodado com o aborto da criança, não acreditava muito no que aquela sombra havia lhe dito, sobre o motivo do feto ter saído vivo. Pesquisou sobre a erva e descobriu que seu efeito real não era aquele. Ela apenas matava a criança, sem mexer no útero e no metabolismo.

Mas outra coisa o incomodava mais do que isso. Os vultos. Já era habitual ele ver silhuetas paradas ao redor da cama de noite, ou ver borrões negros passando por ele. Estava começando a ficar perturbado. Sua calma estava começando a sumir e uma preocupante irritação começou a ocupar seu lugar.

Tantos pensamentos, no qual a maioria eram perguntas sem respostas. Uma forte dormência o dominou, fazendo-o adormecer.

???

Kyle abriu seus olhos. Ele estava em uma pequena sala. Não tardou a reconhecê-la como um dos centros médicos de Silent Hill. Caminhou um pouco pela sala, que era da emergência, e notou que todas as portas estavam fechadas; exceto uma, que levava a um enorme corredor. Como não havia escolha, entrou nele.

Por mais que Kyle caminhasse, o corredor parecia não acabar.

AAAAAHHH!

Gritos vinham de todas as direções, deixando o rapaz confuso e desesperado. Logo um longo estrondo preencheu o local e tudo ficou escuro.

Agora Kyle estava em sua casa, exatamente no meio da sala. No sofá havia uma criança, ela tinha síndrome de Down. O rapaz tentou falar algo, mas não tinha voz. Ao ver isso, a criança soltou uma grande gargalhada. Apontou o dedo para ele e sumiu. Outro estrondo e mais escuridão.

Agora estava na clareira da floresta. Thor estava sentado na frente de seu túmulo. Ele olhou no fundo dos olhos de Kyle e disse:

— Você não poderia ter me salvado. Não há porque se lamentar por tanto tempo por mim, sou apenas um cachorro. Mas eu sei por que lamenta tanto. Porque você é um fraco.

— Como assim? – disse Kyle assustado, recuperando sua voz.

— FRACO! FRACO! FRACO! VINGANÇA É PARA OS FRACOS!

— NÃO! – gritou o rapaz. – Por que você diz isso?

— Você poderia superar tudo isso e crescer na vida, mas isso não irá acontecer. Você jogará sua vida fora por causa de um cachorro. IDIOTA!

POOOOOWWW!

E mais uma vez escuridão.

Agora estava em um ferro-velho. Vários carros enferrujados e empilhados davam a aparência de um cemitério automobilístico. Uma silhueta feminina passou correndo por Kyle gritando:

— NÃO! PELO AMOR DE DEUS, NÃO! – gritava ela.

Outro estrondo entrou pelo ouvido do rapaz.

Depois da escuridão, ele se viu no meio da floresta. Havia muito sangue no local, parecia a cena de um crime. Foi quando ele viu a cabeça de alguém conhecido. A de Jack. Ela abriu os olhos e gritou:

- PORQUE VOCÊ FEZ ISSO COMIGO? – gritou. – EU SÓ QUERIA SER UM PAI PARA VOCÊ!

— Eu? – falou Kyle baixinho, mostrando o medo que sentia. – Eu não fiz nada...

— NÃO ME ENGANE, SEU BOSTA!

Outro estrondo e, de novo, escuridão. Mas dessa vez, ele não foi para lugar algum, apenas ficou ali, naquele vácuo.

Uma voz começou a ecoar pela vastidão:

— Tanto potencial que está sendo jogado fora. Dá vontade de chorar — disse em tom choroso.

— Quem está aí? – perguntou Kyle.

— Apenas uma alma solitária, como a sua. Você viu seu futuro?

— Aquilo era meu futuro?

— Sim, é claro que ele pode ser mudado, mas será muito difícil. Tudo depende de você – falou, já prevendo a futura pergunta que o garoto poderia fazer.

— Não acredito em você – replicou o garoto.

— Tanto faz, você não é meu amigo mesmo. Apenas fica uma dica: questione tudo. Esse sonho e até seu amigo vingativo. Acreditar simplesmente por acreditar é no mínimo idiota – falou aquela estranha voz. – Agora vá. Deixe-me sozinho aqui, na minha amada escuridão.

No quarto, de noite

Kyle acordou. Estava tudo muito confuso e ele continuava a ouvir vozes.

“Não pode ser. Não posso deixar isso acontecer, aquele espírito desgraçado mexeu com sua mente. Não, não vou me estressar. Vou recuperar minha credibilidade.”

Ao lado da cama estava ela, a já conhecida sombra.

— Oi, amigo. Pronto para o próximo passo?