Ressentimento

1 Capítulo 1 - Thor


Kyle acordou com os raios do Sol batendo forte em seu rosto. Sentou-se em sua cama e olhou para a janela.

“Estranho, está calor hoje”, pensou.

Era muito inabitual fazer Sol nesta área. Normalmente fazia frio e descia uma leve neblina que ficava se esgueirando pelas árvores até de noite. Notou um peso sobre suas pernas. Era Thor, seu cachorro; de raça totalmente dócil, labrador. Já tinha ele há três anos, presente de um amigo da família. Para falar a verdade, amava seu cachorro mais do que qualquer outra coisa – era o seu melhor amigo.

Levantou-se, arrumou sua cama e saiu do quarto, sempre com Thor entre suas pernas. Desceu as escadas devagar e viu sua mãe preparando o café.

— Oi mãe... – interrompeu-se. – Oi Jack, o que está fazendo aqui?

— Hoje é feriado moleque. Esqueceu-se? – disse de modo debochado.

Kyle ficou pensativo, odiava aquele homem mais do que tudo. O único momento de paz que tinha era quando ele estava fora, trabalhando, e hoje não seria um dia desses. Sentou-se à mesa e mandou Thor sair – Jack o odiava.

— Quero que você vá cortar lenha hoje! E que apare a grama lá fora – ordenou. – E faça isso logo após o café da manhã, vou dar um churrasco hoje na hora do almoço.

— Tudo bem – falou Kyle desanimado.

Comeu rapidamente e em silêncio, odiaria ter que discutir com Jack hoje. Mal acabou de comer e saiu. Estava um dia lindo, apesar de morar na parte pobre da cidade. A única coisa em vista que tinha sido construído pelo ser humano era um antigo ferro-velho, agora abandonado. Encaminhou-se para uma pequena barraca, onde os materiais eram guardados, e pegou o cortador de grama – era bem velha e toda hora travava. Demorou quase duas horas para fazer o serviço inteiro.

Neste meio tempo, ficou apreciando Thor brincando ao longe, correndo atrás de alguns insetos voadores, como abelhas e borboletas. Kyle se lembrou de que, devido a essa curiosidade, às vezes ele arranjava confusão com um guaxinim da vizinhança e chegava em casa com o focinho arranhado. Essa lembrança conseguiu arrancar algumas risadas do garoto.

Juntou todo o lixo e guardou o cortador de grama, era hora de cortar a lenha. Pegou o machado, que ainda estava em bom estado, e começou seu trabalho. Estava na segunda tora quando Jack apareceu.

— Aí moleque! Está fazendo um belo trabalho, se continuar assim vai ganhar um pouco de carne – exclamou enquanto tomava um gole de sua cerveja.

— Ok – falou Kyle, empolgando-se um pouco.

Estava tão concentrado no seu trabalho que não viu quando Thor sumiu. Apenas notou isso depois de alguns minutos sem ouvir seu latido. Não deu atenção, ele costumava se enfiar no mato de vez em quando.

Já estava quase no final do trabalho quando ouviu um pequeno choro, muito parecido com o de Thor, vindo de dentro de sua casa. Parou um pouco, tentando escutar mais alguma coisa, mas o único som que vinha de lá eram as risadas altas de Jack.

“Deve ser a televisão”, pensou.

Acabou de cortar as toras alguns minutos depois. Juntou a lenha e as guardou na barraca, junto com o machado. Passou pela portinha de madeira e viu Jack carregando algumas sacolas, todas pretas, e gritou:

— Vem cá, rapaz! Jogue isto no lixo!

Obedeceu sem protestos, mesmo já estando cansado. Estranhou quando se virou e ouviu Jack dizer:

— Limpa logo esta merda, mulher!

Algo estranho jazia naquela sacola, parecia ser algum tipo de pele. Moscas já se aglomeravam ao redor de Kyle quando ele largou-as no lixão. Enquanto voltava para casa se lembrou de Thor.

— THOR! – gritou. –VENHA CÁ, RAPAZ! THOR!

Ficou alguns minutos o chamando, mas foi em vão. Voltou para casa e foi deitar um pouco. Acabou adormecendo.

Mais tarde, na hora do almoço

Acordou com as risadas exageradas dos amigos de Jack lá fora. Foi olhar pela janela e lá estavam eles, sujando todo o quintal. Desceu e viu sua mãe, agindo feita maluca, tentando carregar seis cervejas de uma só vez. Quando viu Kyle disse:

— Oi amorzinho. Ajude-me, por favor.

— Claro – e adiantou-se a ajudá-la.

Saíram de casa e caminharam até a bagunça. Notou que Thor ainda não tinha aparecido.

— Olha quem acordou. A menininha da casa! – disse Jack dando uma sonora gargalhada.

Todos ficaram rindo, com a mão estendida esperando a cerveja, enquanto Mary os servia.

— Tome aqui garoto – disse Jack dando-lhe um pedaço de carne.

— Obrigado.

Sem resposta. Já estava acostumado com isso. Olhou ao redor e viu que tinha mais carne do que de costume. Sentiu um nó na barriga.

“E se...”, não conseguiu completar a frase em seus pensamentos.

— Jack, você viu o Thor? – perguntou Kyle.

Todos olharam para Jack e soltaram uma longa gargalhada. Isso assustou Kyle, que começou a tremer.

— É. Sabe como que é! – disse rindo. – Aconteceu um acidente com ele.

— C-como assim... um acidente? –gaguejou Kyle.

— Acho que seu bastão de beisebol caiu em cima dele sem querer – falou abrindo um largo sorriso. – Acho que ele não sobreviveu.

— P-para de b-brincar.

Kyle tremia de medo. Não houve resposta, apenas mais risadas debochadas. Começou a ficar tonto.

— Olha a cara do garoto! – disse um deles meio impressionado.

— Realmente, — comentavam. — é um fresco.

— Pera aí, isso é mesmo carne de cachorro? Pensei que estavam brincando! – falou um gordinho. – Não tem nenhum problema?

— Não, na China eles comem gatos e cachorros todo dia – falou Jack rindo. – Quer mais um pouco, Kyle?

Seu coração estava muito acelerado, dando-lhe a sensação que saltaria de sua garganta a qualquer momento. Olhou esperançoso para sua mãe, que disse:

— Desculpe filho. Não pude fazer nada... – falou enquanto voltava para casa, provavelmente para pegar mais algumas cervejas.

Então era verdade, Thor tinha sido morto! Como ele poderia ter feito algo assim? E porque sua mãe não fizera nada? Não podia acreditar nisto. Dor interior, foi tudo o que sentiu naquele momento. Tentou caminhar de volta para casa, mas acabou desmaiando no meio do caminho.