Ressaca do amor

2 Capítulo II - A terceira garota


Notas iniciais
Yeeeaaap! A terceira garota lhes espera, boa leitura mores!! :D

— Você sabia, é claro. Por isso ficou rindo, reconheceu o nome, sabia que estaria aqui.....que eu estaria também. E que nos encontraríamos e....ai que vergonhoso. Não acredito nisso.

Falava apressada, andando de um lado ao outro do quarto com as mãos no rosto. Queria me socar, ou soca-la, ainda não havia decidido.

Depois daquele ‘encontro’ e nossa pequena troca de olhares arrastei Clarisse para o quarto gritando somente um adeus a vovó e impedindo que ela sequer cumprimentasse os amigos dela.

E agora estava ali, reclamando e esperando por sua explicação.

— Ei, você já tinha feito tudo, qualquer coisa que eu dissesse não mudaria isso. – Ela deu de ombros, esparramada na cama que ela já havia dominado. A de cima do beliche. – Mas a surpresa me animaria, então fiquei quieta. – Sorriu perversa. Normalmente eu adorava aquele humor macabro dela, mas naquela ocasião só aumentou minha recém-descoberta sede por sangue.

— Isso vai ter vingança. – Falei exasperada. Aquelas fotos seriam só o começo, disso tinha certeza. – Como vocês..?

— Nos conhecemos? Todos aqui se conhecem. Crescemos praticamente juntos, mesma escola, mesma sala, quase a mesma rua na verdade. Uma cidade pequena não é só forma de dizer sabe. E ainda tem o fato de ser Jason....ele é bem popular por aqui. Ele e a irmã Thalia, o pai é o ‘dono’ da cidade, todos os respeitam demais.

— Dono da cidade? O filho dele? Ai meu deus. – E lá se foi o plano de evitar qualquer resquício da chama grotesca da atenção. Eu estava no mínimo indignada com minha sorte. Clarisse não escondia o fato de estar se divertindo bastante as minhas custas. – A irmã dele seria a morena do lado então? Ela tava na festa também, junto com o menino...eu lembro vagamente deles.

— Bem vagamente mesmo né? Aposto que estava mais ocupada olhando pra outro lugar. – Ela riu de novo, se deliciando. Rosnei. – Isso mesmo, a morena que não tem nada haver com ele é a Thalia, sua irmã mais velha. E o moreno com eles é o fedelho do Percy. São primos. – Ela fez uma careta horrível enquanto falava sobre o último ser. Estou sentindo que nos daremos muito bem então. – Tivemos nossas brigas. – Clarisse explicou em resposta a minha cara.

“Nossas brigas” certeza que quem começou foi ela, e da forma que não curtia aquilo ela tinha perdido. Fiquei surpresa.

— Explique melhor. – Pedi. Tentei ocultar a provocação em meu tom de voz.

— Ele não nasceu aqui ok? Então como novato tinha de passar por uma iniciação. Mas isso era quando éramos bem pequenos e eu acabei tomando banho em uma poça de água suja, satisfeita?

Gargalhei muito. Senti a tensão dos últimos minutos se esvaziando do meu peito enquanto imaginava uma mini Clarisse, os músculos estranhos para o corpo de uma garota e toda a marra, sendo derrubada em uma poça na rua. E então comecei a imaginar toda uma cena do pai dela, um cara extremamente assustador, perseguindo um pirralho que tinha maltratado sua “princesinha”, e aumentei a loucura tentando pensar na possibilidade insana de Clarisse ter chorado.

Divagações eram o meu ponto forte, acredito que tenha dado para perceber.

Enquanto tentava recuperar o fôlego, as lagrimas brotando nos meus olhos, Clarisse me agrediu com seu travesseiro até que eu despencasse no chão.

— Eu preciso conhecer esse garoto. – Exclamei animada demais para uma pessoa que ainda apanhava.

— Posso saber que garoto? – Uma voz vinda do além retumbou pelo quarto. Era tão grave que quase fiz os símbolos antigos do meu avô pra afastar assombração.

— Chris!- Clarisse descabelada tentou se virar enquanto de uma forma totalmente desengonçada eu segurava seu pescoço, já que ela finalmente baixara a guarda, e impedia com toda minha graça seu momento clichê de se jogar nos braços do namorado fortão que a esperava na porta do quarto.

A criatura nem mesmo batera na porta, abriu, invadiu, e agora ta rindo da cena obscena que se instalara no local. Quando o tom mudou um pouco percebi que tinha mais gente atrás dele. Mais gente rindo da gente, rindo de mim.

Ok, a situação era inusitada, um tanto peculiar e talvez com uma pitada de graça, mas aquilo era exagero. As penas do travesseiro na minha boca era um detalhe a parte e minha mão sendo mordida por Clarisse também...afinal, quem ligava para o fato do meu sapato ter aparecido misteriosamente dentro da blusa que ela usava?

— Então você é o namorado? – Perguntei. Com um esforço desesperado consegui me soltar do monstro que praticamente rosnava tentando se recompor o suficiente para parecer apresentável ao namorado que não via a uns bons meses, e sem um dos sapatos me aproximei do individuo lhe estendendo a mão para um cumprimento. Ainda não tinha coragem de olhar para as outras pessoas, mas sabia que ainda se divertiam com a situação.

—Em carne e osso finalmente. – Ele correspondeu ao aperto de mãos rindo com a formalidade daquela apresentação. Mantive o tom sério e a expressão carrancuda só pra sacanear. – E você é a Rainha da beleza anh? – Ele devolveu.

Fiz uma careta com o apelido, o que pareceu despertar sua vontade de rir as minhas custas de novo.

— Leo idiota. – Bufei revirando os olhos e me envolvendo em sua risada junto com Clarisse que finalmente parecia ter conseguido se arrumar. Os amigos atrás concordaram animadamente com minha frase.

Leo era o diabo em pessoa. Um ser que tinha sérios problemas de TDAH e que apareceu em uma das videoconferências que o casal purpurina decidira fazer na minha casa. No começo da conversa ele parecia legal, me ajudou a não me sentir uma completa vela naquele momento de matar as saudades que os dois usufruíram, e até mesmo descontraiu o clima com piadas idiotas sobre Clarisse que só podia bufar de raiva graças aos quilômetros de distancia que garantiam a segurança de Leo. Mas isso foi até a brincadeira virar para o meu lado e ele me apelidar, do nada, com aquele nome escroto.

Clarisse não me deixou esquecê-lo e parecia que ele não sumiria tão cedo. Choraminguei interiormente, era o que faltava ser conhecida como Rainha da beleza.

— De qualquer forma, apesar de ter relembrando esse fato – Acenei com desgosto demonstrando estar falando do apelido mencionado. Um pequeno drama que gerou algumas risadas. Uma boa primeira impressão era sempre o melhor. – Eu serei uma pessoa legal e te darei um presente. – Dei uma piscadela em sua direção e procurei pelo meu celular.

Ele e Clarisse pareceram ficar confusos com a minha fala, tanto que ela até esqueceu-se de se enroscar no pescoço dele agora que eu finalmente tinha lhe dado a oportunidade. Coloquei na foto tirada no outro dia, a dormindo, e ri antes de lhe entregar o aparelho.

— O meu deus, você precisa me mandar isso agora. – Ele gargalhou alto olhando a imagem e ao mesmo tempo tentando manter o aparelho longe da namorada. Ela me olhava raivosa e meio envergonhada depois de sua tentativa frustrada de arrebatar o celular e estraçalha-lo com os dedos.

— A doce vingança. – Musiquei as palavras com o sorriso mais sádico que consegui arranjar no momento, o que deve ter sido sinistro e feio. Ela bufou uma ultima vez antes de se virar e começar a tentar arrasta-lo para fora, talvez para enfim conseguirem matar a saudades em um lugar com menos plateia e com certeza de um jeito bem inapropriado. A minha morte ficaria no aguardo em sua agenda pelo visto.

— Depois a gente resolve isso, você será uma ótima aliada. – Chris disse ainda gargalhando com a situação, tacando o celular em minha direção e enfim se deixando ser levado.

— Foi um prazer conhecê-lo também. – Brinquei uma ultima vez com a situação, sem muito entender o lance da aliança.

As pessoas que sobraram eram os amigos que haviam vindo junto com ele. Dois meninos idênticos e uma menina que me cumprimentaram amigavelmente com a cabeça e sorrisos, se apresentando e então explicando que precisavam ir para o próprio quarto arrumar suas coisas. Chris os arrastara ali para ser mais gente na procura pelo quarto em que ficaríamos. Algo como “estava morrendo de saudades daquele monstro” de acordo com as palavras do menino mais alto.

Esse era Travis, o menor era Connor e a menina era Katie. Decorei rapidinho feliz com o acolhimento que recebi. Eles pareciam legais e gentis. E pareciam ter um ligeiro medo de Clarisse o que era divertido a meu ver.

Quando se foram, adentrei o quarto novamente e comecei a arrumar as coisas, desta vez garantindo que a porta estivesse trancada para só receber visitas de alguém que morasse naquele quarto. Então me senti a vontade o suficiente para ficar somente com uma camiseta longa enquanto trabalhava.

Fiquei tão compenetrada na tarefa, que quando terminei de separar as minhas coisas certinho e organiza-las em meu espaço, escolhendo a cama embaixo a de Clarisse, animei-me o suficiente para arrumar as dela também. Quem sabe com aquilo conseguisse trégua o suficiente até o resto do dia? Até porque seria um primeiro dia cansativo de adaptação.

No meio da tarefa, quando as roupas já dobradas estavam espalhadas pelo chão prontas para serem guardadas, a porta foi destrancada e uma menina loira adentrou o cômodo. Devo ter soltado uma exclamação um tanto quanto alta porque ela logo me encarou. A expressão que tinha quando entrou era tão séria que por um momento havia me assustado, agora me observava um tanto confusa.

Tentei colocar um sorriso no rosto pra ser receptiva. O fato de ela ter entrado ali só podia significar que tinha uma chave, o que também queria dizer que era provavelmente a minha terceira colega de quarto. As primeiras impressões tinham de ser boas, pensei novamente. Quase ouvi a voz da minha mãe murmurando isso na minha cabeça. Senti um calafrio na espinha e balancei a cabeça tentando afastar a sensação.

Ouvi a risada abafada da moça, ela ainda me observava e minha sequencia de movimentos deve ter sido bem engraçada porque conseguiu amenizar o clima em volta dela. Ela era intimidante, mas linda.

A loira caminhou em minha direção e sentou ao meu lado no chão, o sorriso já calmo enfeitava seu rosto. Ela trazia uma sensação boa, quase inacreditável levando em conta como tinha chegado ali. Aquele dia seria cheio de surpresas mesmo.

Eu parecia uma menina apaixonada narrando em meus pensamentos as atitudes daquela menina misteriosa. Senti a vontade repentina de gargalhar de mim mesma, só pra terminar de me tachar como louca.

— Você faz careta enquanto pensa, é bem engraçado. – Ela riu de leve. – Me lembra um amigo. – Vi um vislumbre de carinho naquele comentário...um carinho picante nas palavras que minha mãe usaria. Quem seria o boy em? – Você deve ser a Piper não? Eu sou Annabeth, prazer. – Ela lançou um ultimo sorriso na minha direção.

— Agora eu entendo porque gostei tanto de você de cara. – Disse já animada. Talvez a empolgação fosse tanto que essas palavras tenham sido gritadas um pouco. Queria ser amiga dela e queria agora – Você é a menina que tira a Clarisse do sério. Meu mais completo respeito por você vossa majestade. – Fiz uma reverencia completamente exagerada, muito parecida com as fãs que se aproximavam do meu pai na rua antes de se agarrarem ao seu pescoço.

Annabeth gargalhou e fez um sinal com as mãos como se aceitando a reverencia para que eu pudesse me ajeitar. Ri junto.

— Ela me contou como vocês se davam mal e acabaram se tornando amigas suportáveis com o tempo. Mas que ainda sente vontade de te esmagar com um piano. – Acrescentei com um sorriso grande demais. Reconheci o sentimento inicial como admiração já.

De acordo com a história de Clarisse, Annabeth era uma das únicas meninas com coragem para desafia-la ali naquela cidade, até porque minha querida amiga tinha uma bela reputação a manter através do medo alheio. E ela era alguém que até Clarisse acabou respeitando com o tempo e poderia ser considerada uma amiga.

— Mas como sabe o meu nome em? – Perguntei. Só agora tinha percebido que ela chegou já sabendo demais.

— Minha mãe faz parte do corpo diretivo do colégio, eu vi a lista dos quartos. – Annabeth balançou os ombros com displicência. – Quer ajuda? – apontou para a pilha ainda não guardada.

— Claro. Já aproveitamos pra arrumar as suas e tirar o dia de folga. – Enfiei a primeira pilha de roupas. – As aulas só começam amanhã né? – Perguntei com um quase desespero.

— Yeah. – Não soube identificar se ela estava entusiasmada ou em crise com o início do ano letivo e não me senti na intimidade de perguntar, então continuamos a arrumar.

Em algum momento Annabeth levantou e colocou uma música no rádio, e nos distraímos conversando trivialidades. Eu quase me distrai o suficiente para não notar um fato importantíssimo...Quase.

Annabeth disse que viu meu nome na lista, uma lista pertencente à mãe dela que pertence ao corpo diretivo que possui todos os meus dados, inclusive meu sobrenome. E quem sabe meu sobrenome, sem querer ser prepotente, mas conhece o meu pai e consequentemente me conhece.

E ela não comentou NADA. Na verdade, não parecia nem um pouco interessada em algo que não fosse o espaço disponível para seus livros e a história fascinante do novo que ela estava lendo. Sério, é duro admitir, mas minha mãe tem razão. Primeira impressão é tudo, e só isso foi o suficiente para que eu confiasse nela.

Quando terminamos, as luzes do quarto já se faziam necessárias por conta da escuridão, não que estivesse tão tarde, mas o tempo tinha se fechado e cairia uma bela tempestade.

— Então Annabeth, aqui é só uma classe? Quero dizer, para cada ano? Na minha antiga escola era tanta gente que costumava se dividir em três ou quatro salas. – Puxei assunto quando deitamos exaustas no chão ao som de Ed Sheeran, tornando impossível não pensar que eu estava protagonizando uma cena romântica logo no meu primeiro dia. Eu precisava seriamente controlar os meus pensamentos. – Seria legal ficarmos na mesma sala.

— É só uma classe pra cada ano sim, mas é impossível ficarmos juntas. – Ela sorriu gentil. – Eu estou no segundo ano.

— Segundo ano? – Repeti surpresa. – Mas só existe essa escola aqui, o que significa que você estudava aqui ano passado, então não seria mais lógico que você continuasse no dormitório do ano passado e o novo fosse preenchido com gente do primeiro ano? — Perguntei esperando que minhas palavras tivessem feito o mesmo sentido que em meus pensamentos e que ela entendesse.

— Exato. Essa lógica era usada até ano passado. Cada dormitório tinha gente do mesmo ano, consequentemente da mesma sala, as pessoas que ingressavam no ensino médio acabavam juntas e as que entrassem adiantadas eram realocadas para quartos que tivessem lugar, respectivos ao seu ano. O problema é que esse ano apareceu alguém com uma ótima lábia e mudou tudo. – Ela piscou pra mim. – Sua mãe convenceu o conselho que era melhor misturar tudo para que fosse mais fácil fazer amizades com pessoas de fora sabe. Do seu círculo de amigos. Amizade entre salas.

— Você ta dizendo que minha mãe mudou...

— As regras do colégio? Estou. – Ela riu de leve. – Chegar a convencer a minha mãe...ela é realmente admirável. De qualquer forma, ela conseguiu a realocação dos quartos e como agradecimento pela “ideia maravilhosa”, nas palavras do diretor, você e a Clarisse ficaram juntas.

— Inacreditável. – Resmunguei. Eu deveria ser a única pessoal no mundo que conseguia negar algo a ela. Até porque, se não fosse assim eu teria me tornado sua Barbie favorita aos treze anos de idade.

— A tia sempre foi uma pessoa impossível de lidar. – Clarisse adentrou o quarto me dando um leve susto. Ela estava encharcada e foi quando percebi que a chuva lá fora tava botando pra quebrar. – Essa chuva maldita adiantou o toque de recolher, tão mandando ficar no quarto descansando até a hora da janta e então voltar pra dormir logo em seguida. – Clarisse disse frustrada.

— Faz umas duas horas que você saiu, ainda não deu tempo de matar essa saudade? – Perguntei sorrindo sacana. Ela me ignorou usando o momento pra finalmente cumprimentar Annabeth. Elas se abraçaram de um jeito desengonçado, mas ainda assim foi mais do que eu esperava ver. Clarisse não era alguém calorosa quando a outra pessoa não era o Chris.

— Bom Annabeth, como vamos dividir o quarto acho melhor nos tornamos intimas logo de início, pra não ficar estranho como costumava ser antes de eu ir embora e ser justo pra ela que é nova aqui. – Clarisse piscou pra mim ainda de pé, o que me deu um calafrio. Eu tinha que parar de ser tão inocente ao ponto de achar que algumas roupas dobradas acabariam com a sua ira por ter dado uma arma contra ela para o namorado. Aquele nosso jogo de disputar quem da um show melhor não acabaria bem. – Que tal contarmos algumas histórias? Sabe, nossa pequena Piper aqui já é bem amiga do nosso querido...

Pulei nas costas dela tampando sua boca com uma maestria tão imperfeita que nos levou ao chão pela segunda vez naquele dia. Como ela teve tempo de pensar naquele plano diabólico enquanto aproveitava o namorado? Ela nem se deixou abater por ser Annabeth a dona da cama que sobrava, o que me fez pensar na possibilidade de que ela contaria aquilo pra quem quer que acabasse por ser nossa colega.

— Se você abrir a boca eu vou mostrar não só a sua foto dormindo, mas uma do amor fraterno que você e seu papai compartilharam ontem. – Sussurrei em seu ouvido, rezando pra que ela considerasse aquela ameaça o suficiente pra calar a boca.

Inocente.

— ...amiga do nosso querido Jason. – Clarisse completou, provavelmente calculando que valia o risco. – É uma história bem engraçada na verdade. Acho que conta-la é um bom jeito de nos aproximarmos. As desgraças unem as pessoas. – Ela sorriu maligna e Annabeth pareceu começar a entender onde aquilo nos levaria.

Ao meu abismo particular da vergonha.

Notas finais
Gente, fiquei tão confusa na hora de escrever sobre o Chris, mas acho que me sai bem né? Annabeth é meu amor e ela definitivamente não poderia faltar, então aqui está a terceira garota!! o Espero que tenham gostado, me contem ai o que acharam! Beijooos e até o próximo xD