Respostas Absurdas
1 Capitulo 1 - Palácio das Maravilhas.
Notas iniciais
Zona sul do Rio de Janeiro, conhecida como área nobre. Bairro de Ipanema.
Um dos mais belos recantos da cidade por conta de sua paisagem paradisíaca, seu clima tropical e seus prédios. Belíssimos. Considerados por muitos os mais belos da cidade. Facilmente comparados com os antigos casarões de nobres aristocratas. Muitos destes edifícios foram erguidos nos tempos do império, e de fato pertenciam a aristocracia.
Não bastasse sua beleza natural e arquitetônica, faz também fronteira com o mar. O gracioso oceano atlântico. Com seu azul forte refletindo a cor do céu, cria um cenário digno de ser imortalizado nas telas dos artistas e nos cartões postais de visitantes. Não é surpresa que esta é uma das áreas turísticas mais movimentados de todo o Brasil. Junto com o Leblon e Copacabana, bairros com quem faz divisa. E o turismo estava muito mais movimentado que o habitual.
Era tempo de olimpíadas.
Com a chegada dos jogos, como era de se esperar, os hotéis estavam lotados.
A cidade estava saturada de pessoas vindas de todos os cantos para assistir ao maior festival esportivo do mundo. Sediado este ano no Rio de Janeiro.
As olimpíadas eram ponto de ignição para uma fértil colheita comercial. Principalmente para agentes de viagem, atendentes de lojinhas e donos de hotel.
A exorbitante quantidade de pessoas vindas de todo o globo apreciar o espetáculo sinalizava para os empresários um período em que tanto suas suítes de luxo quanto seus bolsos ficariam abarrotados.
De hospedes e dinheiro.
Dinheiro suficiente para que pudessem deixar de lado qualquer preocupação em relação a quedas lucrativas pelos próximos três anos.
Os hotéis, especialmente os da zona sul, estavam com o triplo do movimento de costume. Quartos lotados; desde os mais baratos nos andares inferiores, até as luxuosas coberturas com vista para o mar.
Era a época dos proprietários rasgarem seus boletos, ofenderem seus banqueiros e mergulharem em piscinas de dinheiro.
Se embriagando de lucros e abandonando irritações cotidianas.
Era o que faria Renato Monteiro.
Jovem empresário, proprietário do famoso Castelo das Maravilhas. Um dos mais bem-conceituados hotéis em Ipanema.
Fundado em 1950 por seu avô, também chamado Renato Monteiro, que junto de dois amigos e um embriagado doador anônimo, ergueu seu hotel quase que do nada.
Em atividade até os dias de hoje, com mais de sessenta anos de funcionamento.
Renato herdou de seu avô não apenas o nome, mas também seu negócio milionário.
Tão apreciado pela crítica e pelo público, rivaliza com outros nomes de peso como; o Copacabana Palace, Miramar Hotel ou Hotel Vermont. O Castelo das Maravilhas, nome este dado em homenagem ao Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, era uma construção imponente, construído na imagem e semelhança de um antigo Castelo Helênico.
Erguia-se até mais de cinquenta andares em direção ao céu.
Sendo possível ver o mar a partir do terceiro andar, uma vez que o edifício é localizado defronte à praia do Arpoador.
Recebendo turistas de todo o mundo.
Da exótica Paris até a não muito conhecida Ostrava.
Desde sua fundação, o Castelo tem a fama de atrair todos os tipos de hospedes.
De todos os tipos mesmo.
Recebendo em suas suítes; estrelas do cinema, supermodelos, até mesmo pessoas mais discretas com os bolsos fornidos.
E esses nem eram os mais interessantes.
Cada hospede mais absurdo que outro. Inútil seria tentar descrever todas as pitorescas figuras que ali já se hospedaram.
Renato era o dono e o acionista majoritário. Mas na verdade, pouco participava da administração.
Ainda gozando da juventude, não se interessava em perder seu tempo trabalhando.
Afinal, não importava se comparecia ou não.
Os sócios e funcionários manteriam o negócio funcionando, e todo mês ele teria rios de dinheiro entrando em sua conta. Dinheiro este que gastaria com os prazeres efêmeros do Rio de Janeiro.
Não era má pessoa. Teimoso, inconsequente, irresponsável e amava a vida na gandaia. Um clássico boêmio.
Sendo alvo de polemicas e fofocas em toda cidade.
Mesmo assim haviam pessoas ao seu redor que realmente se importavam com ele.
Poucas.
Talvez na empresa houvesse dois ou três sócios que gostavam dele, como pessoa.
Sua namorada também lhe era apegada. Mas de todos, aquele que por ele nutria um carinho maior, era a sua irmã mais nova.
Laís Monteiro; uma moça de 21 anos, que cursa jornalismo em Minas Gerais. Na cidade de Belo Horizonte.
Decidiu passar as férias de verão em sua cidade natal.
O Rio de Janeiro.
Assistiria as olimpíadas junto com o irmão, que era sua única família, desde a morte de seu avô e de seus pais.
Laís era uma menina miúda, de físico esguio. Facilmente confundida com uma colegial. De cabelos pardos que mantinha cortados até a altura da orelha e olhos castanhos da cor da terra, que pareciam prestar atenção em todos os mínimos detalhes. Característica que a induziu a largar o ramo da hotelaria e estudar jornalismo.
Sendo ainda muito jovem quando seus pais e seu avô faleceram, se tornou reclusa.
Não tinha muitos amigos na faculdade e nunca conseguia manter um relacionamento amoroso por muito tempo.
Seu vínculo mais forte era com seu irmão.
Chegou ao Rio um dia antes da abertura dos jogos olímpicos.
Veio com apenas com uma mala. Usava um casaco vermelho que retirou e amarrou na cintura assim que pôs os pés para fora do avião, calças justas e uma camisa regata branca.
Apesar de rica, não era dada a joias caras ou ornamentos luxuosos.
O único utensílio a enfeitar seu pescoço era um terço de madeira. Herdado de sua mãe. Uma mulher extremamente devota.
Laís, apesar de crente, não tinha a mesma paixão religiosa da genitora. Carregava consigo o terço, mais por ser a última lembrança de sua mãe do que por fé. Apesar de sua falecida mãezinha a ter feito ler a bíblia quase toda.
No aeroporto, esperando o irmão chegar, parou em frente a uma banca de jornal, algo havia chamado a sua atenção. Era um dicionário de muitos idiomas.
Todos os idiomas ditos na Europa.
Estava com vontade de levar. Teriam muitos turistas no hotel e não queria parecer boba se algum deles viesse falar com ela.
Talvez dona Larissa estivesse lá, seria bom conversar com uma velha conhecida e a impressionar conhecendo algumas palavras em sua língua nativa.
Antes de decidir se o compraria ou não, sentiu um golpe potente a retirar de seus devaneios. Um esbarrão forçava em seu ombro, lhe retirando de seu eixo de equilíbrio. Algum apressado inconsequente, aparentemente não reparou ela parada bem na sua frente.
Caiu de cócoras no chão, sentindo um arrepio subir de forma agressiva pela espinha.
Um lapso de dor. Instantâneo e fugidio.
Dissipou-se rápido e, depois do baque, ela pode prestar bem atenção ao desatento.
O apressado, era claramente um homem de posses.
Reparou nisso por causa das roupas que usava.
Um blazer mais caro que apartamento que ela alugava em Belo Horizonte.
Um apartamento muito bom.
Uma camisa cor de marfim, feita de algodão, e, calças desdobradas de tecido respirável.
Enfeitando sua cabeça, um chapéu de abas largas, com uma pena amarrada no lado direito.
Por último, os sapatos.
Esportivos, requintados, feitos a sob medida.
Nas laterais, estava escrito; "Wings".
Tanto o Blazer quanto a calça e o chapéu eram escuros.
Só não mais que os óculos cobrindo os seus olhos.
De rosto era jovial, ele era dono de uma expressão debochada e um físico atlético, cujas as roupas serviam muito bem para mostrar. Na mão esquerda, carregava o motivo de não a ter visto.
Seu celular, aberto na página de mensagens.
— Deuses, — disse ele surpreso, oferecendo a mão para ajudá-la a se erguer. — Desculpe, desculpe mesmo. Eu não vi você aí — mesmo com desculpas, era impossível não reparar aquele sutil sarcasmo. — São os sapatos, sabe? — Disse debochado. — Perco o controle da corrida quando estou com eles.
— Os sapatos — resmungou ela recusando sua ajuda e se levantando sozinha. — E esse celular aí na sua mão — fitou o aparelho. — É muita irresponsabilidade correr em um aeroporto sem olhar por onde anda. Pode se machucar, ou pior ainda, machucar alguém.
— Nossa, as vezes eu esqueço, como vocês são sensíveis — ele tinha um sotaque bem carregado. Laís achou familiar, mas não lembrou de onde. Só conseguiu perceber que não era de nenhum lugar do Brasil.
— Eu vou chamar a segurança — disse já procurando um guarda.
Não, — interrompeu ele. — não, por favor — a palavra por favor parecia veneno para aquele homem — Olha, eu não venho ao Brasil já tem muitos anos. Vim de férias, visitar velhos amigos, ficar longe da família e assistir aos jogos. Acompanho o evento desde que ele começou. Sou um grande fã, e não ia pegar bem se meus amigos descobrissem que eu já cheguei arrumando problemas. Olha, são mensagens do trabalho — disse guardando o aparelho no bolso. — Não vai mais se repetir.
Ela não acreditava nisso. Ele tinha jeito de mentiroso.
— Onde estão os guardas? — Questionou vasculhando os arredores, ignorando as lamurias do turista.
— Espera, espera — continuava insistindo, sem perder o tom debochado. —, reparei que você estava namorando aquele dicionário ali na banca. Se eu pegar ele para você, você me deixa ir?
Aquela proposta a fez pensar.
— Talvez — respondeu sem alterar o tom. Ela realmente queria o dicionário.
O estranho entrou na banca de forma ligeira, e saiu no mesmo pique. Estava com o livro em mãos e o entrega para Laís.
— Foi bem rápido — disse ela guardando o dicionário na mala.
— Tudo perdoado? Eu aprendi a lição e você ganhou um livro novo. Que tal me deixar ir embora e esquecer essa história de chamar os guardas?
Ela deu ombros.
— Você tem cinco minutos — avisou firme. — Em cinco minutos eu vou chamar o primeiro guarda que eu ver.
Ela pode jurar que viu os olhos dele se arregalarem dentro daqueles óculos.
— Mas você... — começou.
— Eu disse talvez, lembra? — Interrompeu ela com um meio sorriso no rosto.
Ela esperava que o estranho ficasse enraivecido e fosse embora irritado por ter sido ludibriado. Mas não foi o que aconteceu.
Na verdade, ele achou cômico.
Tanto que desabou em risos.
— É por isso que eu adoro o Rio de Janeiro —
disse se afogando na própria gargalhada. — Garota, eu gostei de você!!
Tão de repente quanto surgiu, ele sumiu.
Tornando-se apenas mais uma silhueta na multidão.
Seu plano, de contar o ocorrido ao primeiro guarda que visse não mudou.
Mas ao sentir o bolso tremer, soube que deveria deixá-lo de lado.
Era seu celular. Seu irmão estava ligando.
Ela atendeu.
Ele avisou que a aguardava com o carro no lado de fora.
Em Belo Horizonte, Laís dirigia um palio. Um veículo excelente na opinião dela. Rápido, fácil de manobrar, e não chamava muita atenção.
Laís não gostava de ostentação.
Seu irmão por outro lado, esperava ela em frente ao aeroporto com um sedan prateado de última geração.
Nem era o mesmo carro de quando ela o visitou da última vez.
Na verdade, conhecendo Renato, as chances de ele ter comprado aquele automóvel só para recebê-la eram enormes.
Infelizmente para ela, o irmão não fora buscá-la sozinho.
Natalia estava com ele. Namorada de Renato.
Uma mulher de corpo galante e moreno de modelo, um jeito de atriz e a suavidade de uma dançarina. De cabelos loiros, que desciam como cascatas onduladas pelos seus ombros, olhos verdes que eram como a mais límpida e brilhante esmeralda e lábios carnudos e vermelhos como sangue.
Laís não entendia como uma agente de viagens conseguia manter um corpo daquele.
Usava uma calça jeans que descia somente até acima dos joelhos e uma camisa cinza justa de manga curta com uma estampa escrita; A favor da Mata Atlântica.
Laís não gostava dela. Natalia havia demonstrado ser uma mulher volátil em muitos assuntos.
Sempre mudando de opinião sobre tudo.
Gosta de algo na segunda e, na terça, o amor virou ódio.
Inconstante como o fogo.
As únicas coisas fixas em sua mente volúvel eram; seu relacionamento com Renato, e o seu amor não saudável por causas ambientais.
Apesar de apoiar seu fervor pela causa ecológica, não conseguia ser amiga de alguém tão aleatória.
Ela esperava do lado de fora do carro, encostada na porta.
Vendo que Laís se aproximava, ela foi cumprimentá-la.
Agora ela estava sendo simpática.
Laís sentiu um calor repentino.
Sempre parecia mais quente com Natalia estava por perto.
Antes de abraçá-la, vislumbrou de relance seus os olhos da cunhada. Que eram verdes como esmeraldas. Seu instinto de jornalista em desenvolvimento apitou.
Tinha uma forte impressão de que havia algo errado em relação a Natalia.
Mas desde que começara os estudos tinha essa impressão sobre todos, então nem deu atenção a isso.
Renato sai do carro.
Estava do jeito que Laís lembrava dele.
Um jovem bem-apessoado, com a musculatura definida de alguém que malha todas as manhãs, pele corada, obtida a partir de muitas corridas pela orla. O cabelo que era da mesma cor que o da irmã, estava penteado para a frente, formando um topete.
Vestia uma camisa polo purpura com as golas abotoadas. Calças justas e sapatos caros.
Nada inovador, fora o relógio em seu pulso, que fora presente de aniversário, dado pela irmã quando ela tinha quinze anos.
Sempre andava com ele.
Na pulseira, uma frase escrita em letras prateadas; "irmãos Monteiro para sempre". No dial, havia uma foto dos dois ainda crianças.
— Irmã — cumprimentou Renato. — Desculpe a demora. Eu saí tarde de casa porque pensei que o voo ia atrasar como sempre.
Ele a abraçou forte, poderia esmagar as costelas da pequena.
— Cunhada — começou Natalia. Toda aquela simpatia da hora do abraço havia sumido de sua voz, dando lugar a um sorriso cínico. — Teve uma boa viagem? — Perguntou em um tom não muito honesto.
— Sim — respondeu Laís, no mesmo tom. —
A melhor de todas — mentira. Ela odiou.
Renato, como muitos antes dele, não percebeu que sua irmã e sua cunhada estavam em uma guerra secreta e sombria que só mulheres sabiam travar.
Depois dos cumprimentos, os três entram no sedan e Renato dirige até o hotel.
Durante o trajeto, Laís e Natalia pareciam ter virado amigas, e, segundos depois Natalia decidiu que nunca poderia ser amiga dela. Ainda naquele minuto já estava mudando de ideia.
Instável como o vento.
Quando os três chegam no hotel, ela estava agarrada na cunhada.
Depois resolveu ir ao banheiro lavar as mãos.
Laís nunca deixava de se impressionar com a majestade do estabelecimento.
Construído para se parecer com um antigo palácio helenista, também pegou emprestado muito da arquitetura romana. Para a decoração, usava elementos de muitas culturas diferentes. Amuletos celtas, carrancas astecas, escudos nórdicos pendurados nas paredes e, não podia faltar é claro, muito da cultura indígena brasileira.
— Eu vou ter com o gerente — disse Renato. — Vou ver se o seu quarto já está pronto irmã. Me espere aqui rapidinho. Daqui a pouco a Natalia sai do banheiro e você vai conversando com ela
— Não acho que isso...
Renato não esperou a irmã terminar de falar e foi embora.
Sem mais opções, Laís fez o que foi pedido. Aguardou no saguão.
Natalia com certeza já havia saído do banheiro, mas não a procurou. Provavelmente foi direto atrás de Renato.
Ela agradecia por isso. Quanto menos tivesse de lidar com a cabeça de vento de Natalia, melhor.
Ela já estava ficando entediada quando sentiu alguém lhe cutucar.
Se virou, mas não viu nada.
Teria sido imaginação?
— Olhe para baixo por favor — disse uma voz rouca e rude, mas que era conhecida e muito querida.
Ela baixa a cabeça e o vê.
Orgulhoso possuidor de uma careca luminosa. Dono da barba ruiva mais bem penteada do mundo, que descia até os seus joelhos. Com braços e pernas fortes, proporcionais e bem definidos apesar do pouco tamanho. Podia carregar mais peso que muitos halterofilistas. Quase não cabia no terno que usava de tão parrudo. Seu nariz aparentava ter sido quebrado muitas vezes, batia na altura do umbigo da jovem. Olhos afiados de quem já foi marinheiro, Laís tinha certeza de que ele podia ver uma agulha em um palheiro. No escuro.
Brincava de esconde-esconde com ele quando era criança e seu avô era vivo, nunca venceu. Tinha jeito bruto de minerador. Mas apesar da rigidez, olhava para Laís docemente como se ela ainda fosse uma criança. Semblante profundo de quem passava as madrugadas observando o mar. Era o principal sócio do seu irmão, que também havia sido sócio do seu avô. Minear Bjeder. Um dinamarquês que a muitas décadas vivia no Brasil. Sempre que fica no hotel se hospedava numa suíte da cobertura com vista para a Pedra do Arpoador. Sempre a mesma suíte. Era pequeno, mas odiava de ser chamado de "pessoa pequena", preferia se apresentar pura e simplesmente como um anão.
— Senhor Minear — disse Laís se abaixando para abraçá-lo. — A quanto tempo! — Disse nostálgica — Não sabia que estava por aqui.
— Eu e o Knuser resolvemos tirar férias — disse ele.
— Vieram resolver problemas com o meu irmão? — Laís não era boba. Minear não era o tipo de homem que tirava férias. Ainda mais se Knuser estava junto. O advogado da família, também dinamarquês.
— Eu realmente vim tirar férias — jurou com aquele sotaque forte de nórdico. Nunca se deu ao trabalho de tentar disfarçá-lo. — Um velho conhecido meu e do Knuser veio para o Brasil, e nós o chamamos para assistir as olimpíadas conosco. Decidimos ficar no hotel porque aqui a vista é boa e, bem, eu não preciso justificar o motivo de me hospedar no hotel que sou sócio, não é?
Ela não se convenceu, mas decidiu não insistir.
— Imagino que não.
— Viu só, não é bom quando uma resposta faz sentido. — falou descontraído.
— Eu, honestamente, prefiro respostas absurdas que não fazem sentido nenhum — disse uma voz familiar carregada de sotaque atrás de Laís.
Ela pulou de susto.
— Messenger — recriminou o pequeno homem. — pare de palhaçadas
Era o homem que Laís havia conhecido no aeroporto. O apressado.
— Perdão, Minear — falou com ar debochado. —
É que, veja que resposta absurda! Eu conheci essa mocinha no aeroporto, e você também a conhece? Não é coincidência demais para ser mero acaso?
— Se conhecem? — Perguntou Minear.
— Sim — respondeu Laís contrariada. Não esperava ver aquele homem de novo. — Nos esbarramos no aeroporto. Messenger? Esse é seu nome?
O homem fez gestos teatrais com a mão.
— Nomes são muito confusos — começou a dramatizar. — Tem uma importância tão grande em nossas vidas, mas são tradados de formas levianas. Ainda mais aqui em sua terra. Roberto vira Beto, Gabriel vira Biel, Daniel vira Dani. Tentativas fúteis de enfeitar o que já é belo, mas que pela repetição se torna enfadonho. Por isso, sim, eu tenho um nome. Um nome curto e chamativo, mas se dito nesse momento, para alguém como a senhorita, ele tende a tornar-se ridículo e até mesmo satírico para com minha pessoa. Então não me chame por um nome banal, faça como meu amigo Minear e me evoque por um de meus inúmeros títulos. Obtidos nas abundantes terras que visitei, em minhas viagens de outrora. Tantos títulos, todos com um mesmo significado.
Laís não entendia nada.
Mas tinha certeza que ele era totalmente insano.
Ele retira o chapéu, revelando cabelos castanhos e faz uma mesura cortes.
— Pode me chamar de Angeliofóros.
— Tudo bem... — ela se esforçou para dizer algo, mas a voz não saia. — Sou Laís. Laís Monteiro.
Ele apertou sua mão em cumprimento.
— Um nome digno de uma rainha — adicionou. — Laís, que significa a popular, a venerada.
Ela semicerrou os olhos, já deram em cima dela com aquele papo furado de nome antes.
— Laís a entediada também.
Ele riu.
Minear cobria face. Provavelmente envergonhado.
— Venha, Messenger — disse o pequeno. — Tenho te atualizar de algumas coisas
O estranho voltou-se para o companheiro.
— Ah sim, meu quarto de sempre está arrumado?
— Isso é uma delas.
Os dois se despediram da menina e se dirigiram até as escadas.
O elevador estava ocupado.
Laís nada tinha a fazer além de prestar atenção no que os dois conversavam enquanto subiam.
— Como foi a viagem, Messenger? — Perguntou Minear bem-humorado. — Muitas empusas causando o terror lá na sua terra?
— Sabe como é essa praga, sempre tem uma onde você menos espera. E elas sempre ferram com tudo. Mas chega de falar das pragas da minha terra. Eu quero saber do Brasil. Li muito sobre folclore daqui durante a viajem. Fale-me sobre esse tal Curupira, sobre Saçi, Boi-Tá-Tá, o famoso Boto, que se daria muito bem com meu pai diga-se de passagem. E sobre esse estranho ser, como é mesmo nome? Anhanga? É verdade que seus olhos emitem uma chama esmeralda?
— Anhanga? Não é muito difícil de achar um se souber aonde procurar. Costumam ficar no mato, sempre no maldito mato. Mas tem alguns poucos na cidade.
— E aquilo sobre o meu quarto? Que tem ele?
Essa foi a última frase que ela conseguiu ouvir antes dos dois sumirem escadas acima.
Seu irmão não demorou a chegar depois disso.
Toda a burocracia relacionada ao quarto que ele reservou para ela já havia sido resolvida.
Natalia não estava com ele.
Será que ela realmente ainda não tinha saído do banheiro?
A resposta para essa pergunta veio antes do elevador chegar.
Natalia apareceu, acompanhada de uma velha conhecida.
Dona Larissa.
Uma esbelta mulher com um jeito provocante e sensual. De vestido branco com bordados, possuía olhos da cor do céu noturno. Seu rosto era um molde delicado e bem esculpido.
Cabelos negros que caiam como cascatas encaracoladas até sua cintura.
Seios fartos e firmes, com quadris largos e chamativos.
Até seu caminhar era sedutor.
Era uma socialite grega, muito rica.
Sempre que vinha ao Brasil escolhia as suítes mais caras, e, sempre ficava no Castelo.
Era amiga de Natalia, e de Laís. A jovem a conheceu em uma festa de seu irmão no ano retrasado.
Ela foi a única convidada que demostrou alguma simpatia por ela, uma vez que a universitária não tinha os dotes sociais para se enturmar nas comemorações espalhafatosas do irmão.
Conversaram e beberam muito naquele dia.
Dona Larissa era muito resistente ao álcool, diferente de Laís.
Ficaram amigas, uma vez que quase todas as férias que Laís passou no Rio, Larissa estava no Brasil.
Renato não pareceu feliz ao vê-la.
— Olhe quem eu achei no saguão — disse Natalia apontando para a amiga com os olhos.
— Dona Larissa — falou Laís já a abraçando.
— Já disse da última vez que nos vimos Laís — respondeu a grega, com seu sotaque disfarçado — dona é a minha mãe. Você pode me chamar de Larissa
— Desculpe, Larissa
— Está desculpada — garantiu. — Nossa, você cresceu! A Natalia me disse que você não tinha mudado nada! Que mentirosa!
— Sou obrigada a concordar com ela dessa vez — disse Laís. — Fora o penteado, eu não mudei nada.
— Está alguns centímetros maior eu garanto — comentou com gentileza, depois direcionou sua atenção para Renato. — Renato, a quanto tempo.
— Então você vai se hospedar aqui? — Perguntou desanimado.
— Sempre fico aqui quando venho para o Brasil. Saberia se administrasse o próprio hotel.
Silencio.
— Tanto faz, Larissa — disse ele apertando o botão do elevador. — Eu vou levar Laís para o quarto dela.
Laís despede-se da amiga e entra no elevador com o irmão.
— Eu falo com você mais tarde — disse Natalia seguindo os irmãos.
— Ei, Renato — falou Larissa antes das portas do elevador se fecharem. — Lembra daquilo que conversamos?
A porta se fechou, e o elevador começou a subir.
— Gregas — bufou Renato. — Não sei como vocês duas gostam dela.
— Não gosta da dona Larissa? — Perguntou Laís.
— Eles se desentenderam com relação a um negócio que o Renato não quis fechar — respondeu Natalia. — Desde então, fica esse clima estranho perto dos dois.
— Que negócio era esse?
— Nada de importante, irmã — garantiu ele. — Nada de importante mesmo.
Renato havia reservado uma das suítes presidências na cobertura para a irmã. Com todo o luxo que um hotel cinco estrelas podia oferecer; um sofá de quatro pessoas, uma cama enorme de frente para uma janela ainda maior com vista para a Pedra do Arpoador. Uma TV 4k de 120 polegadas na sala e o mais importante no verão, um ar-condicionado potente.
Os três passaram a tarde colocando o papo em dia. Laís contava histórias da faculdade: provas, relacionamentos falidos e professores chatos. Renato contava sobre todas as peripécias que aprontava, tudo que um respeitável proprietário de hotel não deveria fazer. E Natalia compartilhava seus causos, principalmente os que envolviam causas ambientais. Luta pela mata atlântica, pela Amazônia, e, ocasionalmente, falava sobre a agência em que trabalhava.
Mesmo com o ar-condicionado ligado, Laís não deixou de sentir aquele calor natural que Natalia parecia emanar.
Já era noite quando os três resolveram olhar o relógio. Conversaram muito. Natalia saiu para ver Larissa, como havia prometido mais cedo. Laís decidiu que visitaria Larissa só no dia seguinte. Estava cansada. Seus olhos faziam esforço para permaneceram abertos.
— Fiquei sabendo que não acontece muita coisa lá em BH — comentou o irmão.
— É por isso que fui para lá. Todas as vantagens de uma cidade grande, com a calmaria de uma cidade pequena — respondeu Laís bocejando.
— Chaaaatoooo — debochou Renato se jogando no sofá.
— Desculpe senhor milionário dono de hotel que vive a vida loucamente no Rio de Janeiro, fazendo tudo, menos trabalhar — retrucou ela.
— Pelo menos eu estou aqui — rebateu ele. — perto do legado do nosso avô. Tocando o negócio da família. Da minha forma. E eu queria você aqui também.
— Primeiro; nós dois sabemos que o senhor Minear é quem faz quase todo o trabalho de verdade. Segundo; sabe que eu odeio administração.
— E acha que eu gosto? — Perguntou em rebate — Não é administração que você odeia, são relações sociais. Você odeia relações sociais. Por isso você quase não tem amigos, e por isso que seus namoros nunca dão certo.
— Tudo bem, Renato — disse magoada. — já disse o que queria, e passou dos limites.
O mais velho percebeu que cruzou uma linha perigosa.
—Desculpe, — pediu — eu não queria magoar você
— E o que você queria? Que eu ficasse no Rio com você? Garanto que a melhor forma de me convencer realmente é me magoando e atirando na minha cara que eu tenho dificuldade de me socializar.
Renato ficou quieto.
— Eu vou dar uma volta na praia — disse se levantando.
— A essa hora da madrugada? — Perguntou a mais nova incrédula.
— Sim, eu vou e volto rapidinho. Nem vai sentir minha falta.
— Andar sozinho por ai de noite é perigoso.
Renato toca o relógio no pulso.
— Não vou perder a hora. Volto antes de ficar muito tarde.
— Pelo menos chama alguém para ir com você.
— Você é minha irmã caçula ou minha mãe?
Em outras circunstâncias, ela insistiria mais para que ele desistisse dessa ideia, mas ela estava cansada demais para discutir. E depois de tudo que ele havia dito, ela bem que podia descansar um pouco sozinha.
— Tanto faz — respondeu Laís fingindo indiferença. — Só não para pra ficar bebendo, — pediu ela, já sentindo o sono lhe acossar. — Você sabe como você fica quando bebe.
Renato não respondeu. Simplesmente saiu.
Laís foi para a cama, deitou-se. Sem energias.
O sono lhe acometia de tal maneira, nem lembrou de fechar as cortinas.
Teve um vislumbre da praia noturna pela janela.
Escuro.
Não dava para enxergar quase nada, os postes estavam quase todos apagados.
O breu foi a sua última visão antes de adormecer.
Susto.
Não sabia dizer o que havia a desperto de seus sonhos.
A luz matinal invadindo seu quarto janela adentro, perturbando seus olhos, ou as fortes pancadas vindas da porta, perturbando seus ouvidos.
Alguém, aparentemente, não foi informado sobre invenção da campainha.
As pancadas se intensificam, ficando cada vez mais fortes. Para quem havia acabado de acordar, cada batida era como uma martelada.
E as pancadas não paravam.
— Já vou, já vou! — Gritou impaciente, fazendo sua voz ecoar por toda a suíte.
As batidas param.
Suspira aliviada.
Se levanta e troca de roupa; botando uma camisa amarela e uma calça que descia até a canela. Fez as higienes matinais e então resolveu atender o mal-educado que agredia sua porta. E seus ouvidos.
Tremenda foi a surpresa ao deparar-se com um policial. O oficial tinha uma das mãos fechada, segurava algo pequeno. E a outra já se preparava para bater de novo a droga da porta.
— Me mandaram procurar nessa suíte. — Disse o homem — Laís Monteiro?
Cansada demais para responder com palavras, só confirmou com a cabeça.
O policial grunhiu. Não era preciso nenhum instinto de jornalista para perceber que algo grave havia ocorrido.
A mão fechada se abre. Revelando um relógio. Que continha uma frase carinhosa escrita na pulseira, e uma foto de duas crianças no dial.
— É sobre seu irmão — ele começa. — Ele está morto.
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