Respeito
3 Simpatia Pelo Clone
Perfuma estava seguindo à risca o plano de Mermista. Sua missão era distrair Entrapta arrastando-a, digo, afastando-a de Hordak, de modo que ela não ouvisse os sons da luta (se tivesse havido luta). E, se possível, tentar fazê-la perceber o erro que estava cometendo — novamente. Depois disso, Perfuma estaria livre para voltar ao lado de Scorpia, de onde nunca deveria ter saído! E tudo ficaria bem.
Um cutucão e a voz aguda de Entrapta a acordaram de seus devaneios:
—Tem certeza que este é o lugar certo pra uma conversa particular?
— Como assim? — a loura indagou, de má-vontade.
— Estamos de volta à ravina onde deixamos o pessoal. Embora eu não esteja vendo ninguém.
Perfuma parou, tão repentinamente que Entrapta teve de se apoiar no cabelo para não esbarrar nela. Olharam em torno: de fato, estavam de volta ao local da última batalha contra a Horda Galática, e onde haviam deixado seus amigos. Só que o lugar agora estava deserto.
Ouviram a voz de Micah ao longe, chamando por Glimmer. Outras vozes se seguiram, chamando o nome dela, depois os de Adora, Bow e Swift Wind. Scorpia chamou por Catra duas vezes, num tom particularmente aflito. As duas mulheres se entreolharam.
Perfuma sentia-se gelar por dentro. Mermista decidira prosseguir com seu plano sem consultar Glimmer e Adora porque Sea Hawk não as encontrara. Haviam pensado que fora por incompetência dele, mas se elas e o resto da turminha ainda não haviam aparecido, devia ter acontecido alguma coisa séria.
— Vamos ter que deixar nossa conversa para depois — concedeu a princesa das flores.
— Por quê? —Entrapta pareceu confusa — Podemos conversar agora mesmo!
Perfuma não acreditou no que acabara de ouvir:
— Como pode dizer isso?! Não está ouvindo o rei Micah chamando pela filha dele?! Até você deve ter um pouquinho de sensibilidade!
— Claro que eu tenho!— a inventora estava claramente ofendida, o que surpreendeu ainda mais a outra princesa, porque Entrapta nunca parecia se ofender com coisa alguma — Por isso quero resolver esse assunto agora, pra gente poder se concentrar em ajudar o Micah! Enquanto você me arrastava pra cá, eu estava tentando te dizer que já sei o que você quer me falar.
— Já sabe?
O queixo de Perfuma caiu. Quer dizer que Entrapta sabia que Hordak seria capturado? Teria levado ele para conversar quando na verdade queria distraí-lo, sabendo que os amigos dela iriam pegá-lo? Isso era incrível!
— Claro que sei, é tão simples! De nada!
— De nada? Pelo quê? — Perfuma ainda estava agarrada à ilusão da Entrapta conspiradora... que a própria se encarregou de desmanchar de vez:
— Ué, você não queria me agradecer por eu ter libertado a Scorpia e o mundo inteiro da mente coletiva? Não precisa, foi um prazer! — deu uns tapinhas com uma mecha de cabelo na cabeça de Perfuma e saiu correndo.
— Não! Não era isso que eu queria dizer! — Perfuma ainda estendeu um braço para detê-la, mas a inventora havia formado pernas com os cabelos e sumiu aos pulos atrás de um rochedo de onde vinham as vozes.
A pacífica princesa de Plumeria soltou um “aaaaaaaargh!” que teria feito Mermista morrer de inveja. Cada vez mais entendia porque sua colega era tão rabugenta e negativa! Bom, ela não se deixaria vencer assim tão fácil, concluiu, pisando duro.
Os membros restantes da Rebelião – Scorpia, Hordak Errado, Castaspella, Micah, Spinnerella e Netossa – estavam espalhados ali perto, fuçando arbustos, olhando atrás de pedras e chamando os desaparecidos. Entrapta rapidamente juntou-se a eles, embora parecesse mais interessada em atazanar Spinnerella do que procurar. Perfuma, apesar do discurso de há pouco, não tinha coragem de se aproximar. Sentia uma culpa horrível. Por que sempre se deixava levar pelos planos dos outros? Devia ter batido o pé e insistido com Mermista para não fazerem nada até que encontrassem Glimmer! E isso tinha que acontecer justo agora, quando todos ainda estavam se recuperando de terem sido separados de seus entes queridos...
Naquele momento, Micah a avistou e veio correndo, seguido pela irmã:
— Por onde vocês andaram? Algum sinal de Glimmer e dos outros?
— Não. Também estávamos procurando por eles. Sea Hawk nos disse que haviam sumido, e Mermista organizou um grupo de busca — Perfuma mentiu, grata pela experiência em representar adquirida no bar de Peekablue—Frosta está com os dois.
— Scorpia nos disse que ela tinha saído com vocês. Mesmo assim, fico aliviada em saber que aquela pobre criança está segura — Castaspella suspirou.
— Ouvi falar que havia outro clone passeando por aí com Entrapta — disse o rei, olhando com desconfiança para a inventora, que papeava sorridente com uma constrangida Spinnerella —O que aconteceu com ele?
Perfuma quase bufou. É claro que Mermista não ia ser a única a perceber Hordak passeando no meio deles!
— É só um amigo novo dela, recém-liberto da mente coletiva (exceto pelo “novo”, não era mentira) Foi embora quando pedi que ela me ajudasse a procurar. Como é que um clone poderia raptar seis de nós sozinho e sem armas? Ainda mais que She-Ra estava com eles!
Por mais que Perfuma detestasse Hordak, ela nunca deixaria ninguém ser acusado injustamente.
— Não esqueça a Glimmer! —Castaspella acrescentou, orgulhosa —Ela derrotou Micah num duelo! E contra magia negra!
— Na verdade — Entrapta aproximou-se deles, seguida por Spinnerella e Netossa —o culpado pelo desaparecimento foi a Glimmer. Ou melhor, o poder dela.
— COMO É QUE É?
Bandos de aves levantaram voo das árvores com os gritos dos dois irmãos. Scorpia e Errado, os últimos que ainda estavam procurando, correram para saber a razão do grito, engrossando a multidão em torno de Entrapta, enquanto os dois magos disparavam perguntas que mais pareciam acusações. Ela botou a máscara e começou a brincar com os dedos tentando se acalmar; assim mesmo, seu corpo começou a tremer.
Felizmente, Scorpia percebeu sua aflição:
— Pra trás, todo mundo! Não veem que estão deixando ela nervosa? Abram espaço! — estendeu a pinça enorme entre a amiga e o pessoal, obrigando-os a se afastar. De má vontade, eles obedeceram.
Entrapta descobriu o rosto e respirou fundo algumas vezes, como tinha visto Perfuma fazer, quando se irritava. Por fim, sorriu:
— Uf. Obrigada. Como eu estava tentando dizer, a liberação da energia acumulada no Coração de Etéria deve ter sobrecarregado as runas das princesas. Até quem não possui runa, como Spinnerella, foi afetado. Estranhei que ela estava procurando nossos amigos no chão, já que seria muito mais fácil localizá-los voando.
— É verdade. Mas, quando tentei voar, fui lançada para o alto e caí na copa de uma árvore — explicou a princesa do vento, confortada pelo braço carinhoso de Netossa —Não acontecia isso comigo desde que eu tinha dez anos.
Castaspella e Micah trocaram um olhar.
— Então é por isso que nossos feitiços de localização não funcionaram! — ela se deu conta.
— Se te consola, o lagarto que você enfeitiçou ficou bem bonitinho, com aquelas asas coloridas —Scorpia disse gentilmente.
— Acredito que seja temporário — Entrapta tentou tranquilizá-los —Vocês apenas precisam usar bem menos energia mágica do que estão acostumados. É uma pena que meu datapad tenha ficado lá na torre quando fui capturada, porque todos os meus cálculos estavam...
Micah ergueu a mão:
— Espere, vamos por partes. Você disse que Glimmer é a... responsável pelos desaparecimentos. Está querendo me dizer que ela tentou trazer os amigos de volta pra cá, mas em vez disso os levou para bem longe?
— Exatamente! — Entrapta começou a rir, porém imediatamente se corrigiu, sabendo que sua animação seria mal-interpretada —E isso é ruim, claro. Desde que Shadow Weaver convenceu Adora a absorver o Coração de Etéria, eu suspeitava que isso poderia acontecer. A notícia boa é que eu posso localizar o pessoal se tiver meu data pad de volta. Basta rastrear os sinais de magia...
Castaspella quase lhe enfiou o dedo na cara:
— Se você sabia o que ia acontecer, por que não nos avisou? Eu teria dito a Glimmer pra não usar o teleporte!
Entrapta fitou-a, confusa:
— Tentei duas vezes, não lembra? Nas duas, você me disse “mais tarde, querida”, mas nunca veio falar comigo. Depois tentei avisar Adora e Bow, mas eles só queriam saber como eu estava indo com a criação do vírus.
Hordak Errado se meteu entre elas, carrancudo com o ataque à sua mentora:
— É verdade. Irmão Entrapta me mostrou todos os gráficos e cálculos, mas os outros irmãos nunca tinham tempo para ouvir. Como não era potencialmente fatal, ele achou melhor esperar que acontecesse, quando todos ficariam interessados.
Enquanto ele falava, Micah delicadamente fez a irmã baixar o braço. Sem resistência nenhuma, porque, no momento, Castaspella estava com a mesma capacidade de reação de um manequim... e a mesma cor, também. Perfuma aproveitou a discussão para afastar-se, porque tinha visto alguma coisa atrás do paredão de rocha. Só Scorpia notou, mas ficou quieta.
As princesas casadas trocaram olhares culpados:
— Então Entrapta tinha mesmo um problema, — Spinnerella segredou para sua amuada esposa.
— Eu sei, eu sei. Devíamos perguntado se ela queria conversar — Netossa resmungou, num tom muito menos discreto.
—Também acho — Micah lançou um olhar de censura para elas, depois para a irmã arrasada — Teriam nos poupado muitos problemas. Muito bem, quem quer recuperar o... data- não-sei-quê da Entrapta?
— Eu sei qual é a torre onde o irmão Entrapta esteve. Será uma honra ajudar o herói que nos libertou da mente coletiva — Hordak Errado se ofereceu.
— Eu vou com você, amiguinho! Podem haver alguns dos seus irmãos por lá. Eles podem não ter se dado conta ainda que o seu mestre ‘empacotou’ — Scorpia envolveu os ombros dele com o braço, amistosamente.
Entrapta quis se juntar a eles, porém Micah cortou-lhe os planos:
— Melhor você esperar aqui conosco. Como Scorpia disse, pode haver clones por lá, e não queremos que a nossa valiosa cientista seja raptada de novo — sorriu gentilmente para ela.
Entrapta tentou retribuir o sorriso, mas acabou olhando para o lado, desanimada, e cruzou os braços.
— Hã, Micah — Mermista surgiu por trás dele —Será que a gente pode, sabe, conversar um pouquinho?
Todo mundo se virou, surpreso com a aparição inesperada da sereia. Foi a deixa para Perfuma pegar Entrapta novamente pelo braço:
— Vamos terminar nossa conversa —sussurrou —É rapidinho.
Entrapta deu de ombros. Pensara que, com o fim de Horde Prime, estaria livre, sem mais pessoas puxando-a pra lá e pra cá ou lhe dizendo onde ficar, mas só estava ficando pior. A saída das duas, entretanto, não escapou aos olhos atentos de Netossa:
— Aonde vocês vão? Scorpia logo vai estar de volta com o data pad.
— Conversa de garota — Perfuma sorriu amarelo —Não vamos demorar!
Netossa franziu o olho, mas não teve tempo de dizer nada, porque, naquele momento, Micah e Mermista começaram a discutir. Por isso, nem ela percebeu quando Emily discretamente saiu de trás de uns arbustos e foi atrás das duas princesas.
* * *
Enquanto tudo isso acontecia...
— Ooooooh! Nós somos os Rebeldes, nós somos, nós somos! Derrotamos o maligno Hordak...
— PELA ÚLTIMA VEZ, CALE A BOCA!! — Frosta e Hordak gritaram em coro.
Sea Hawk abriu os braços, sentido com tanta falta de gosto artístico:
— Preciso fazer algo para me distrair, enquanto Mermista não volta! E vocês não querem jogar cartas comigo!
—Ela acabou de sair. Depois eu é que sou criança! —bufou a menina, destapando os ouvidos — Não consigo me concentrar com essa cantoria e você ainda fica dançando na minha frente! Vou acabar te congelando de novo!
Irritada, levantou-se das raízes onde ela e Hordak estavam sentados e afastou-se um pouco, a fim de treinar com segurança. Mermista tinha ido avisar o rei Micah que seu maior inimigo fora derrotado e manietado. Hordak, com as longas pernas encolhidas porque Frosta congelara o chão pertinho dele, começava a pensar que não seria tão ruim se Micah o matasse assim que o visse.
—Que tal uma queda de braço? — Sea Hawk propôs para o prisioneiro — Você é muito forte, mas duvido que possa me vencer —deu uma piscada provocadora.
Hordak só lhe deu um olhar confuso.
— É um jogo idiota — Frosta explicou, enquanto tentava inutilmente produzir uma porção de gelo pequena em vez de congelar o chão, as pedras e as árvores —Duas pessoas se dão as mãos e apoiam os cotovelos numa mesa — dobrou o braço e fingiu agarrar uma mão invisível —O que conseguir fazer a mão do outro tocar na mesa ganha. Nós nem sequer temos mesa!
— Mesmo se tivéssemos, eu recusaria —Hordak retrucou, olhando para o pirata — Não quero piorar minha situação arrancando seu braço.
Os olhos de Sea Hawk se tornaram imensas bolas negras líquidas. Seu bigode chegou a tremer.
— Por que não sobe numa árvore para ver se encontra algum sinal de Adora? — o ex-vilão propôs, desesperado.
Sea Hawk iluminou o rosto. Double Trouble, pensou Hordak, teria inveja da maneira com que aquele homem se transformava, apenas mudando de humor:
— Excelente ideia! Não importa o que Mermista diga, você tem uma boa cabeça sobre seus ombros! Agora percebo como se tornou líder de uma poderosa armada! —ergueu o braço para o céu —AVENTURAAAA!!!!
Cantarolando, ele começou a subir na mesma árvore em cujas raízes Hordak estava sentado. Frosta aproveitou para sentar-se de novo, e os dois suspiraram de alívio... até que começaram a cair folhas, galhinhos, sementes, sujeira de todo tipo e até um pequeno ninho (vazio, felizmente) em cima deles. Sem falar na trilha sonora, composta por gritos de dor, palavrões e queixas de Sea Hawk sobre a intolerância dos esquilos e pássaros. Tiveram que se mudar para uma árvore com raízes menores, porém mais tranquila.
Frosta removeu a tiara, a fim de espanar as folhas do cabelo:
— Eu não preciso de ajuda pra vigiar você. Por que Mermista deixou ele com a gente?
— Para se vingar de mim— Hordak respondeu, lutando para tirar o ninho da cabeça com as mãos amarradas.
A resposta curta e grossa fez Frosta rir. Sem perceber, ela dez um pequeno gesto. Uma pedra de gelo, pouco maior que uma manga, se materializou no chão. Hordak, que por caso estava olhando para aquele lado, arquejou surpreso, e a menina se virou. Seus olhos brilharam de alegria:
— Até que enfim! —agachou-se para ver melhor a sua obra —Era isso que eu queria! O que será que fiz de diferente dessa vez?
—Você estava se esforçando demais, e sua frustração crescente atrapalhava. Mas, quando fez aquele gesto, estava se divertindo. É evidente que suas emoções interferem.
Ela se virou, num rompante:
—Não preciso dos seus conselhos! Sabe quantos anos eu levei para dominar o meu poder?
—Não devem ser muitos. Eu... — ele olhou para o lado, sem graça —Como Sea Hawk, preciso de algo com que me distrair, e não é do meu interesse que você me congele “acidentalmente”, de novo. Não entendo de magia, mas li sobre os princípios básicos.
De cara amarrada, a menina colocou a pedra de gelo num lenço. Ofereceu-a para ele:
—Toma. Vai desinchar o seu rosto.
Hordak olhou para a pedra como se ela fosse explodir na sua cara. Impaciente, a menina pressionou o gelo nas mãos dele:
—Pega de uma vez!
O clone hesitou um pouco, ainda desconfiado. Depois, envolveu cuidadosamente o gelo com o pedacinho de tecido e pressionou-o contra a face inchada pelo soco.
—Está ajudando?
—Sim. Sua dádiva é... muito útil.
Ela achou graça:
—De nada. Mas podia só dizer obrigado. Ou muito obrigado, se estiver muuuito agradecido. Todos esses anos em Etéria e não aprendeu nem o básico da boa educação?
—Nunca tive boas relações com o povo de Etéria. Antes de Entrapta, ninguém me ensinava nada de graça.
—Hã-hã — Frosta apontou para o chão. Desta vez, conseguiu desenhar uma trilha de gelo entre duas árvores, o que a fez rir, deliciada. Era verdade: quando usava seus poderes com prazer, a magia fluía naturalmente. Quando ficava tensa e preocupada, tudo desandava. Ou... quando estava com muita raiva, como no momento em que congelara os pés de Hordak acidentalmente. Lembrou-se de quando Mermista chicoteara Hordak sem querer: ela havia perdido totalmente o controle, naquela hora!
Se Frosta não tivesse um prisioneiro para tomar conta, teria ido imediatamente contar sua descoberta aos amigos. Por outro lado, já que estava ali, podia aproveitar pra satisfazer sua curiosidade. Havia tantas coisas que queria saber, e nunca imaginara que poderia obter as respostas do próprio Hordak! Melhor ainda, não havia ninguém por perto para impedi-la!
Disparou as primeiras perguntas como uma metralhadora:
—Você era muito diferente, antes. Por que os seus olhos ainda estão verdes, se a mente coletiva não existe mais? Por que descoloriu seu cabelo? E por que você não usa mais aquela coisa preta nos olhos? Essas olheiras te deixam com cara de velho.
A mão de Hordak esmigalhou o gelo. Ele pulou sobre os próprios pés, rasgando a faixa de Sea Hawk como se fosse de papel, os dentes verdes arreganhados:
—Acha que gosto desta aparência? Isto não são olheiras! Todos os clones tem essas marcas em torno dos olhos. São mais um lembrete de nossa inferioridade em relação a Horde prime, suponho. Para ele, personalidade é... era um insulto, porque ninguém deveria fazer sombra à sua maldita luz! Por isso... — seus olhos caíram sobre o uniforme que cobria inteiramente seu corpo. Uma súbita saudade de sua túnica azul e de suas velhas botas de metal o invadiu, com uma intensidade que chegava a ser dolorosa —... ele mandou destruir tudo que fazia de mim o que eu era.
Sentou-se exausto sobre a raiz. De passagem, reparou que havia destruído a tira que prendia seus pulsos. Maravilhoso. Acabara de dar àquela pirralha uma desculpa para prendê-lo em um bloco de gelo. Pior de tudo, Entrapta provavelmente seria obrigada a vê-lo congelado e inconsciente. Imaginou o olhar desesperado dela, sem poder salvá-lo, enquanto ouvia os amigos se gabando que a haviam “salvo” dele....
Ele não ia chorar. Nunca mais ia chorar enquanto vivesse. Não importava o que lhe fizessem, pelo menos esse prazer ele não daria aos seus captores.
O calor de uma pequena mão veio como um choque sobre seus dedos gelados. Virou a cabeça, e seus olhos encontraram os da criança. O rosto dela não refletia raiva nem medo, apenas compaixão. Um sentimento que, antes de conhecer Entrapta, Hordak teria considerado humilhante.
—Desculpa. Não queria magoá-lo —o tom de voz dela era humilde, quase adulto. Tornou a sentar-se ao lado dele —Eu só queria entender. Cresci ouvindo histórias sobre você e a Horda. Também vi o que vocês faziam com as aldeias. Todo mundo chamava vocês de monstros... menos Adora, mas eu nunca a levei muito a sério. Aí depois conheci a Scorpia, e a maneira como eu enxergava vocês mudou. Nem a Catra eu acho tão ruim, agora — como ela olhava para a frente, não percebeu o olhar irritado dele quando mencionou o nome detestado —Foi Horde Prime quem mandou cortar o cabelo dela? Glimmer me pediu pra ser paciente com a Catra porque ela salvou sua vida, e por isso Horde Prime a castigou.
—Sim. Horde Prime mandou que preparassem Catra para torná-la uma de nós. O corte de cabelo foi... a menor de suas preocupações — na mente de Hordak, passaram rápidos flashbacks da horrenda cerimônia, e ele lutou para expulsar as imagens, concentrando-se no gelo que se derretia sobre a grama.
— Ela foi torturada — Frosta constatou tristemente —Agora entendo porque é que a Glimmer, a Adora e o Bow estão mimando ela. Obrigada por me explicar. Tem tanta coisa que eu quero saber, mas ninguém quer me contar porque me acham muito criança.
Hordak ergueu os olhos, chocado. Ninguém jamais lhe agradecera coisa alguma na vida, com exceção de Entrapta! Ainda mais por contar coisas tão... desagradáveis, para dizer o mínimo.
— Eu... — tentou se lembrar das palavras que a menina usara para responder ao seu desajeitado agradecimento —De nada. O comportamento das outras princesas é muito estranho. Acham que você tem idade suficiente para arriscar a vida num campo de batalha, mas não para se informar sobre o inimigo?
— Eu tenho quase quinze anos! — ela se ofendeu.
— Na minha Horda, os cadetes só tinham permissão de entrar em campo aos dezoito! — Hordak retrucou, no mesmo tom — Mas eram preparados desde cedo para o que iriam enfrentar. Você deveria fazer suas perguntas a Entrapta. Ela não vai tratá-la como uma idiota.
— Ugh, eu passo — a menina fez uma careta.
Hordak ergueu uma sobrancelha (isso é, o lugar onde ela estaria). A menina parecia se importar com Entrapta, pois o acusara de estar querendo usá-la; no entanto, se recusava a falar com ela, mesmo com a chance de obter mais informações? Decididamente ele não entendia aquelas princesas, mas começava a entender a atitude reticente de Entrapta quando falava de seus... “amigos”.
Frosta tinha muito em que pensar, também. Aquela história de ser treinado desde pequeno parecia muito com a forma como ela mesma fora criada. E agora, também lembrava das coisas que o Hordak Errado havia falado sobre seus “irmãos”. Segundo ele, os clones eram doutrinados ainda em suas incubadoras. Saíam de lá já adultos. Isso queria dizer que nem ele nem Hordak haviam sido crianças. Frosta podia ter tido uma infância dificil, podia detestar ser tratada como criança, mas acabara arrumando amigos para brincar com ela. Hordak nunca havia brincado na vida. “Por isso é que ele é tão rabugento,” ela pensou, com muita pena do ex-grande inimigo de Etéria.
E culpa.
— Por que você destruiu Salíneas? — perguntou de sopetão.
Hordak assustou-se com a pergunta repentina. Quando pensava que havia acabado o interrogatório, aquela garotinha enxerida perguntava justo o que ele mais temia responder.
— Essa... é uma resposta muito longa e complexa. Não estou dizendo isso porque você é criança, mas porque o rei Micah, a princesa Mermista e os outros rebeldes também vão querer saber. Será mais cômodo explicar quando estiverem todos reunidos.
— Não me venha com essa! —ela cerrou os punhos já cobertos com gelo — Não estou pedindo pra você contar a história da sua vida. Só quero saber: o que Mermista fez pra você?
Hordak olhou-a feio, a boca obstinadamente cerrada.
— Você disse que ninguém devia esconder nada de mim! — ela insistiu, com lágrimas nos olhos.
Hordak ainda resistiu um pouco, mas... de que adiantava?
— Ela não me fez nada — confessou, olhando para o chão — Eu disse a mim mesmo que o que fazia era para impressionar Horde Prime. Queria provar a ele o meu valor. Mas no fundo, o que eu realmente queria era me vingar de vocês, princesas.
— Por quê? — Frosta estava chocada.
— Porque pensei que vocês haviam roubado o que eu tinha de mais precioso — Hordak admitiu, fechando os olhos parcialmente cobertos por uma franja de cabelo opaco.
Ele não disse mais nada, mas não era necessário.
—Entrapta — ela murmurou.
O som de uma discussão chegou até eles. Hordak ergueu a cabeça e as orelhas, tentando ouvir, mas as vozes estavam distantes demais para que entendesse o que diziam. Frosta, contudo, achou ter reconhecido a voz de Perfuma. Esta foi logo abafada por uma voz mais aguda, que o clone e a menina prontamente reconheceram.
—O que Perfuma está fazendo?! — Frosta exclamou —Ela tinha que levar Entrapta pra longe daqui, não...
Um grito agudo feriu os ouvidos deles.
—ENTRAPTA!! —Hordak ficou de pé.
Mal conseguiu dar um passo, porque Frosta já estava na sua frente:
—Você não vai a lugar nenhum!
Ele rosnou, frustrado:
—Eu sabia que você não se importava com ela.
—É claro que me importo! Entrapta é minha...
—Amiga? — escarneceu ele — Você fez cara de nojo quando sugeri que conversasse com ela! Sua amiga Perfuma traiu a confiança de Entrapta, levando-a pra longe de mim! E agora essa mulher a está torturando, mas você não quer me deixar fazer nada porque a vingança de Mermista, sua VERDADEIRA amiga, é mais importante! Vocês princesas tem uma noção bem distorcida do que é amizade!
Frosta lutou contra a vontade de chorar. Queria gritar que não era verdade, que Perfuma nunca na vida torturaria alguém e que aquilo tinha que ser um mal-entendido, mas... as palavras “traiu a confiança” doíam, como se tivessem sido marcadas em sua mente com ferro em brasa.
Era verdade, não era?
—Tá bem — ela cedeu — Mas você vai ter que me carregar.
—Você vai me atrasar!
—VOCÊ é que está nos atrasando! Fique de joelhos pra eu poder subir!
De má vontade, ele se agachou. A menina saltou nas costas dele, agarrando-se em seus ombros. Hordak segurou os pés dela enquanto se levantava; assim mesmo, ela teve que se agarrar aos seus cabelos. Hordak gritou de dor e quis correr, mas ela o impediu:
—Fique onde está. Eu cuido disso!
—O q...
—Cale a boca e deixe eu me concentrar!
Estendeu os braços, cuidando pra não tocar nele. Um pilar de gelo se formou sob os pés do clone, depois encolheu, quase derrubando os dois. Por uma vez na vida, Hordak agradeceu por estar usando o uniforme, que tinha solas antiderrapantes. Frosta, por sua vez, lamentava não ter trazido abafadores de orelhas, porque as vozes dificultavam sua concentração. Decidiu usá-las a seu favor, focando em seu próprio desejo de ajudar.
O gelo ondulou sob os pés de Hordak, transformando-se em uma rampa que se mexia cada vez mais depressa.
—O-o q-que está fazendo?! — ele gaguejou, apertando os tornozelos dela. Frosta, no entanto, estava contente demais para reclamar:
—TE SEGURA!! —gritou, dirigindo a trilha de gelo para o espaço apertado entre duas árvores.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!! — Hordak fechou os olhos.
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