Respeito

6 Cinema ao Ar livre


Mesmo com o poder de Glimmer aumentado, os membros da aliança se dividiram em pequenos grupos para não exigir demais dela. Hordak ficou no último, junto com Entrapta, Emily e Adora, secretamente curioso para saber as diferenças entre os teleportes mágico e tecnológico. Quando chegou a vez deles, notou que era mais rápido e não levantava pessoas no ar; mas também, era só o que tinha de bom. Parecia que alguém havia lhe dado um chute na barriga! Quando chegaram do outro lado, suas pernas amoleceram, e teria caído se Entrapta e Adora não fossem rápidas. Mais um item para ele acrescentar à sua longa lista de ódios.

Ainda por cima, teve que aguentar o sorriso irritante de Catra (que estava bem no alto da lista):

— É, eu sei. É horrível— ela comentou num tom que pareceu a Hordak muito condescendente.

Ele preferiu não responder. Entrapta já o tinha avisado que Adora tinha “uma quedinha” pela desgraçada ( o que as mulheres viam nela?), e não era louco de arrumar briga com a única pessoa que poderia ajudá-los. Que aliás, já estava fazendo sua espada aparecer no ar.

Hordak fora um dos clones que havia tentado deter Adora em Velvet Grove e portanto havia testemunhado o retorno de She-Ra. Foi uma lembrança vaga, porém suficiente para que fechasse os olhos quando a ouviu gritar por Grayskull. “Está vendo, Horde Prime? Essa é a verdadeira luz. Não admira que você tenha ficado tão furioso,” pensou, sentindo o clarão através das pálpebras fechadas. Quando os abriu, viu She-Ra apontar a espada na sua direção — e dos outros perto dele. A segunda explosão de luz não foi tão forte; era amarela e causava uma sensação de bem-estar. Hordak sentiu as dores em seu corpo diminuírem até desaparecerem por completo. Seus arranhões e os rasgões na sua roupa se fecharam, e não sentia mais cansaço. Viu Entrapta apalpar o braço, depois o traseiro, e soltar um barulhinho de satisfação. Ah... então a planta realmente a havia machucado, mas ela preferira ignorar. Não havia mudado tanto assim.

Pelo lado ruim, o uniforme dele estava perfeito de novo. Droga. Não tinha mais desculpa para pedir roupas novas aos seus captores.

— Aaaaah! — Mermista apalpou a barriga, onde desaparecera o hematoma causado por um tentáculo-cipó — Assim é melhor. Valeu.

—O meu poder não substitui um descanso de verdade — explicou Adora, voltando ao normal — Só dei um pouco de energia porque preciso da sua atenção total para o que vou mostrar. Depois que a gente comer — sorriu, mostrando Bow e Swift Wind, que arrastavam sacos para fora do esconderijo.

— É a melhor coisa que ouvi o dia todo! — exclamou Micah — Vocês trouxeram besouros? Brincadeirinha — riu das exclamações e caretas de nojo.

— Insetos tem muita proteína. Não são ruins, quando a gente se acostuma — Entrapta comentou, séria — Era a única comida que eu encontrava em tamanho pequeno na Ilha da Fera.

Glimmer se teleportou para dentro do depósito e voltou com um saco na mão:

— Mas não precisa comê-los aqui. Quase toda a comida que trouxemos é pequena porque são alimentos de estoque! Temos bolachas, fruta seca, nozes e passas de uva... ugh — fez uma careta, porém reparou que os olhos de Entrapta brilharam à menção do execrado alimento — e até uns cupcakes meio farelentos — deu um para Erradinho, mas fechou a cara ao ver Hordak:

— Ele eu sei que come qualquer coisa. Mas, e você?

—Não preciso de nada... — ele ia dizendo, quando Entrapta passou-lhe à frente:

— Me dê uns bolinhos que eu faço ele comer! — deu um sorriso diabólico.

Só de imaginar Entrapta amarrando Hordak com o cabelo e empurrando-lhe cupcakes goela abaixo, Glimmer desatou a rir. Generosamente, deu três cupcakes a Entrapta e encheu-lhe a mão com passas e nozes. Já ia se afastar, quando se lembrou de algo importante:

— Antes que eu esqueça de novo: muito obrigada. Pelo meu pai e por mim também. Nunca agradeci a sua ajuda no meu salvamento. E... sei que nunca me aproximei de você como da Adora e do Bow... e até da Catra. Mas foi culpa minha não ter tentado mais. Tem que ser muito idiota pra achar que você não entende nada de amizade! — se virou, lembrou-se de mais uma coisa e virou de novo — Se tivesse me lembrado, teria feito pães pequenininhos pra você na nossa viagem. Não deixe eu me esquecer, na próxima vez que a gente for pro espaço! — e com essa, se teleportou para servir outras pessoas, deixando Entrapta totalmente atordoada.

— A rainha tem razão — Hordak concordou, atrás dela. Entrapta se virou, viu os dois clones sorrirem para ela com carinho e sorriu também. Ao menos por enquanto, não estava mais sozinha. Nenhum deles reparou que Perfuma estava a poucos metros, observando-os.

Depois que todos, incluindo a própria Adora, estavam alimentados, a garota chamou sua atenção:

— Como sabem, Hordak está entre nós, mas tive boas razões para deixá-lo em liberdade. Não estou pedindo para perdoarem o que ele fez, só quero que levem em consideração o que vou mostrar agora — voltou-se para Hordak — Preciso mostrar algumas lembranças suas, mas só farei isso com a sua permissão. Não vou mostrar nada... inadequado, se é que me entende.

Hordak não acreditou no que estava ouvindo. Aprendera muito cedo que respeito era imposto através do medo ou obtido por mérito. Adora não tinha motivos para temê-lo e muito menos para admirá-lo; por que, então, estava lhe pedindo licença? Ele não era o único chocado. Mermista soltou um de seus uughs e a família real tampouco entendia tanta consideração com o homem que os separara. Somente o rapaz moreno, que parecia ser amigo íntimo de Adora, sorriu e fez um gesto com o polegar para cima.

—Mostre o que achar necessário — Hordak concedeu, quase num sussurro.

Adora virou-se para a multidão:

— Vocês devem lembrar que Horde Prime veio assistir à destruição de Etéria, no corpo de um clone — do Hordak. A alma de Horde Prime podia se transferir para qualquer clone que estivesse por perto, sempre que quisesse. E não havia nada que os clones pudessem fazer, como Hordak e Hordak Errado podem confirmar.

— Prefiro ser chamado de Erradinho até escolher meu nome definitivo — retrucou o clone mais jovem — Considerávamos uma honra ter nossos corpos usados por Horde Prime, mas agora acho que ele queria que pensássemos assim.

— “Acha”? — Swift Wind admirou-se. Como muitos membros da Aliança, havia rapidamente se afeiçoado a Erradinho. Outros olharam o clone com pena. Até Hordak recebeu alguns olhares de piedade, embora não percebesse.

—Mas por que Horde Prime não veio zombar de nós pessoalmente? — quis saber Sea Hawk.

— Porque ele sabia que se pusesse o pé aqui levaria uma surra! — Frosta declarou, mostrando os punhos. Depois olhou para o casal de cientistas e amansou um pouco — Mas acho que ele também queria fazer Hordak sofrer. Estava arrastando Entrapta pelos cabelos.

Hordak cerrou os punhos, feliz por não se lembrar de ter feito algo tão horrível. Entrapta confortou-o com um carinho em seu braço; depois, se virou para a garota. Seu olhar era decidido, quase feroz:

— Como você disse, foi Prime quem me arrastou. Hordak nunca faria isso comigo, ao contrário de algumas pessoas aqui.

Mermista remexeu-se com ar culpado, mas Entrapta nem olhou para ela. Havia se erguido sobre os cabelos para falar olho no olho com seu parceiro de laboratório:

—É você quem deve dizer a eles. Mostre quem você realmente é.

De má vontade, Hordak desviou os olhos dela para Adora, que balançou a cabeça, encorajando-o. Ele respirou fundo e se virou para o povo que esperava. Durante anos havia discursado em frente às suas tropas, por que estava nervoso agora? Tentou ignorar o coro de olhos verdes em sua mente:

— Horde Prime estava confiante demais e mandou todos clones que estavam em Velvet Grove — é o nome da sua nave — combaterem vocês rebeldes. Exceto eu. Algum tempo antes, ele havia apagado a minha mente porque considerava a minha iniciativa de conquistar Etéria um pecado. Ter personalidade e pensar por conta própria, para ele, eram abominações. Mas consegui reter... algumas lembranças — olhou rapidamente para Entrapta.

— Você conseguiu se lembrar depois do segundo recondicionamento? — Catra assobiou com admiração — Ganhou o meu respeito. Não estou sendo sarcástica.

Glimmer cochichou para os parentes que tinha visto o apagamento. Além disso, convivera com Prime mais que o suficiente para saber que Hordak não mentia. Ele continuou:
— Ele me mandou matar Entrapta quando o vírus lançado por ela funcionou. Aquilo me trouxe de volta. Eu... Eu...

Flashbacks pipocaram em sua cabeça. Horde Prime, lutando para se libertar de sua mão na garganta dele. O desprezo nos olhos dele substituído por terror e ódio. O mesmo ódio que Prime mostrara quando o agarrara pelo pescoço e apagara sua mente... por duas vezes.

O grito que ele dera ao cair...

Hordak agarrou a cabeça com as mãos. Sua respiração acelerou. Seus joelhos cederam. Muito distante, ouviu a voz de Entrapta chamá-lo e sentiu o cabelo dela tocando seu ombro. Isso ajudou um pouco, mas não o suficiente. Adora agachou-se na frente dele, pedindo que se acalmasse. Para surpresa dele, até a rainha e o rapaz moreno se aproximaram. Deviam estar fingindo que se importavam com ele para agradar sua amiga poderosa.

— O que aconteceu? — perguntou uma mulher de roxo — Ele está passando mal?

Mais gente fez perguntas. Hordak só queria que se calassem. Por que eterianos eram tão barulhentos? Não tinham um pingo de disciplina.

— Hordak, você precisa descansar— Adora insistiu —Eu conto pra eles o resto da sua história...

Ele ergueu a cabeça, com raiva:

— Não preciso de descanso. Eu estou... — tentou levantar, mas Entrapta segurou-o com o cabelo. Seus olhos diziam “pare de se castigar!” e ele ficou quieto.

Glimmer plantou-se na frente dele, com as mãos na cintura:

— Escute aqui. Sabe quem sou eu?

— Rainha Glimmer — ele resmungou.

— Isso. Mesmo que a gente não goste de você, com algumas exceções, não torturamos prisioneiros. Nem deixamos que eles se torturem. Você vai entrar e descansar um pouco. Já. Isto é uma ordem — e, numa voz mais gentil — Entrapta, vá com ele.

A inventora sorriu agradecida enquanto conduzia Hordak para dentro do depósito. Erradinho quis acompanhá-los, porém Scorpia não deixou. Aos poucos, os membros da aliança se acalmaram.

— Você falou igual à sua mãe — Micah admirou a filha que, no entanto, estava abatida:

— Detestei fazer isso, mas quando estava prisioneira aprendi que todos os clones eram condicionados a obedecer qualquer ordem de quem está no comando. Até o Hordak.

Micah consolou-a com um abraço:
— O homem que nos separou tem muitas camadas. Estou começando a perceber.

— Você está bem, Adora? — Catra reparou que a namorada estava fitando a entrada do depósito.

— Hã? — a loira “acordou” e forçou um sorriso — Sim, estou ótima. E vou mostrar pra vocês o que Hordak não conseguiu contar. Só me deem um minutinho. Pela honra de Grayskull!

Mal acabou de se transformar e já foi apontando a espada para o céu. Outra luz saiu da ponta, mas era branca como a da transformação, e se dividiu em diversas cores que flutuaram até o céu.

— Hordak tentou contar pra vocês como matou Horde Prime. Ele se arriscou muito para destruir o corpo de seu criador e deus, porque só assim poderia salvar a vida de Entrapta. E eu... entendo porque ele se sentiu tão mal. Não sei se posso explicar, mas...

— Horde Prime era o pai dele, embora se chamasse de “irmão”. Assim como Shadow Weaver era a sua mãe e a da Catra, mesmo que ela não tratasse vocês bem — Glimmer terminou — E você está tentando...?

— Quero projetar o que vi na mente de Hordak. Os últimos momentos antes dele ter sido possuído. Mas é... difícil... — Adora cerrou os olhos e os dentes, fazendo força — Vamos lá, por favor...

Sua intenção era fazer as cores se misturarem para formar uma tela aérea, mas elas pareciam não simpatizar umas com as outras. Quando Adora finalmente conseguiu uni-las, formaram uma mancha marrom e disforme, que soltou um uivo de despertar os mortos. Todo mundo tapou os ouvidos, até Swift Wind, que usou as asas:

— Não admira que o Hordak seja perturbado! Faça essa coisa sumir!

She-Ra já estava desmanchando tudo antes dele reclamar. Baixou a espada, com desânimo:

— Desculpem. Isto é muito mais difícil que curar um planeta.

—Deixe-me dar uma mãozinha — ofereceu-se Micah — Feitiços de luz são a primeira coisa que a gente aprende em Mystacor. Pelo menos eram, no meu tempo.

— Ainda são. Mas agora damos prioridade a matérias não-mágicas no primeiro ano. Jardinagem, artesanato, culinária... — Castaspella contou nos dedos, com o mesmo entusiasmo de Entrapta ao falar de ciência — Estimulam as habilidades manuais das crianças e é muito mais divertido! Pena que algumas pessoas não valorizam o trabalho que sua tia teve... — suspirou alto, espiando a sobrinha pelo canto do olho.

—Agora entendi porque você aprendeu magia com Shadow Weaver — Catra sussurrou ao ouvido de Glimmer, que balançou a cabeça afirmativamente.

As duas estremeceram de horror.

* * *

Entrapta empurrou Hordak para seu laboratório improvisado no fundo do depósito, onde ficava o computador maior. Sentou-o em sua cadeira e deu-lhe um copo d’água, que ele só tomou para não lhe fazer outra desfeita. Nunca parava de decepcioná-la.

— Eu sinto muito — disseram ao mesmo tempo.

Os dois se olharam espantados.

— Por que está me pedindo desculpas? — perguntaram um para o outro.

Hordak levantou a mão:
—Você primeiro.

— Porque eu te botei nesse estado! Porque eu te obriguei a falar com eles! — Entrapta falava tão ligeiro que, se Hordak não estivesses acostumado, não teria entendido — Não imaginava que você fosse passar mal. Você vivia discursando pras suas tropas! Mermista tem razão, eu nunca penso nas consequências...

— Mermista não é ninguém para falar em consequências! — Hordak berrou, assustando os dois. Ficaram olhando para a entrada, à espera de que alguém viesse espiar se ele a estava maltratando. Ninguém apareceu, e os dois suspiraram aliviados. Ele se levantou e virou-lhe as costas:

—Não sei o que aconteceu comigo, mas não foi culpa sua. Eu devia ter me controlado. Não queria que você fosse ridicularizada de novo por seus... amigos. Mas eu matei meu próprio irmão. Ele era um lunático e tinha que ser detido, sei disso agora, mas ele... ele... — abafou um soluço — Estou desonrado. Meus irmãos vão me odiar pelo que fiz. E para quê? Não pude nem salvar você dele! Não salvei você da Ilha da Fera! Perdi o cristal... Fui forçado a usá-lo para tirar você daquele casulo e não pude recuperá-lo depois... E agora falhei com você de novo! Você me deu tanto e nunca fui capaz de retribuir! — incapaz de se conter por mais tempo, começou a chorar, o rosto escondido nas mãos.

Tudo o que ele fazia era sempre por nada.

Entrapta abraçou-o pelas costas, envolvendo-o com seu cabelo. Hordak pensou em resistir, mas pegou-se passando os dedos pelas mechas macias que cobriam seu peito e ombros., depois desceu-os até encontrar as duas mãozinhas cruzadas sobre sua cintura. Aos poucos, seus soluços foram diminuindo, até se reduzirem a um tremor. Entrapta ofereceu-lhe um lenço na ponta de uma mecha de cabelo:

— Primeiro que nem todos ali são meus amigos. Eu costumava acreditar que, se fizesse coisas para os outros, acabariam gostando de mim. Mas hoje percebi que posso contar nos dedos de uma mão só os meus amigos de verdade, incluindo você e a Emily.

— Nem (sniff) sabiam a sua idade.

— Spinnerella sabia porque comparamos nossas idades enquanto eu removia seu chip. Mas não sei se ela é realmente minha amiga, embora ela e Netossa tenham ficado mais gentis comigo. E segundo, você não falhou! Acabou de provar pra eles que não é um monstro sem coração, como Perfuma queria me convencer! — largou Hordak e começou a circular na frente dele, fazendo largos gestos com cabelos e braços — Primeiro, você me salvou das plantas dela; tá, Micah e os outros foram muito mal-agradecidos, mas pelo menos Frosta se tocou. Depois você mostrou que tem sentimentos e que precisa de ajuda... — seus olhos brilharam, dando-se conta de algo importante — Você não conseguiu falar porque está sofrendo de algum tipo de trauma, e eu devia ter previsto nisso! Aaaah!— irritada consigo mesma, ligou o computador.

Hordak olhou por cima do lenço. Logo que o velho aparelho terminou de carregar, Entrapta fez aparecer gráficos em forma de barras empilhadas, curtas e longas. Por cima de cada pilha, desenhara carinhas representando ela mesma, Adora, Micah e outras pessoas. Ele reparou que uma das figuras representava Catra, de cabelo curto.

— Depois que me tiraram da Ilha da Fera, comecei a me sentir estranha. Tinha dificuldade pra dormir e lembranças ruins voltavam à minha cabeça quando eu menos esperava. Catra gritando comigo, meus primeiros dias na ilha, com vozes dizendo que era culpa minha que todo mundo de quem eu gosto me abandonava... — a voz dela falhou um instante, depois voltou a se animar — Aí, quando tivemos que fugir de Bright Moon, reparei que Micah se queixava de ainda ouvir o sinal, e que Adora estava ainda pior. Tinha pesadelos, não dormia nada, vivia nervosa e se metia em perigo... ela sempre se mete, mas naquela época ela estava quase suicida. Mas a mais interessante foi Catra.

Apontou as barras sob o ícone da gata:

— Ela mudou muito, depois que a resgatamos. No início, não saía do quarto. Entrou em pânico quando Adora me pediu pra remover o chip dela, chorava quando pensava que não tinha ninguém ouvindo e se tornou mais... quieta. Deixou de ser tão agressiva. Fui anotando porque achei que você também estaria assim, se e quando eu conseguisse te salvar. Não sei como pude esquecer tudo isso! — deixou os cabelos caírem moles no chão.

Hordak sentia-se como se um muro tivesse desabado em cima dele:

— Você fez essa pesquisa para me ajudar?

—Sim! Eu queria estar preparada. Sabe que sou péssima em compreender os sentimentos dos outros. Mas de que adianta pesquisar se depois esqueço... — não conseguiu continuar, porque ele a puxou para si.

De repente, as frustrações de ambos perderam toda a importância.

— Tão quentinho... — Entrapta suspirou, aninhada no peito dele, sentindo o roçar da malha áspera que cobria seus braços. Hordak suspirou também, fazendo-a rir quando sentiu o peito volumoso subir e descer.

Ele ficou tenso de repente. Seus braços endureceram. Entrapta levantou os olhos e viu Bow parado na entrada, muito sem graça.

—Hã... — começou o rapaz — Adora me pediu pra ver se você... quero dizer, você Hordak... estava se estava sentindo melhor. Já vi que está... — se encolheu com a cara de bravo do clone.

Desta vez, Hordak não se afastou da sua companheira, encabulado. Soltou-a, porém permaneceu perto dela, como que desafiando o garoto a censurá-los, coisa que Bow não fez. Em vez disso, ele olhou para o computador:

— O que é isso?

Entrapta tapou o rosto com a máscara e os gráficos com o cabelo:

— Não é nada! É só uma pesquisa sem importância. Eu fiz pra... pra... — ia dizer “pra me divertir”, mas travou.

— Para nos ajudar — Hordak terminou — Entrapta está anotando os danos causados por stress em seus amigos e nela mesma. Trauma, não stress. Mas ela tem medo de que seu trabalho seja mal-interpretado. As princesas podem achar que ela “pirou de vez”, seja lá o que isso significa— amarrou a cara.

Bow também fez cara feia. Mesmo que fosse engraçado ouvir Hordak usar gíria, o nervosismo de sua amiga não tinha graça nenhuma:

— Eu sei. Vou ter uma conversa com elas, depois. Já passou da hora de aprenderem a respeitá-la.

Entrapta tirou o cabelo de cima do vídeo e ele se aproximou. Examinou os gráficos, impressionado:

— Insônia, falta de apetite, choro... Foi por isso que você quis gravar Adora tentando dormir? — lembrou-se do incidente no acampamento.

—Foi. Não quis fazer mal a ela. Só queria comparar seus sintomas com os meus e os de Micah, depois que vocês nos tiraram da Ilha da Fera. Mas acho que foi inútil. Não serviu pra ajudar ninguém.

— Mas é um começo. Se alguém tivesse se interessado em estudar traumas anos atrás, poderiam ter descoberto um tratamento! Eu poderia ter ajudado mais Adora. E o meu pai, então, depois que ele... — seus olhos bateram em Hordak e ele esfriou — Precisamos voltar. Adora quer nos mostrar mais uma coisa, mas só com a presença de vocês dois. Entrapta, você devia tirar umas cópias desses dados, só por precaução. Mais tarde, não agora.

— Pode deixar! — ela riu e levantou a máscara. Hordak sorriu, contente de ver o trabalho dela aprovado por outra pessoa; foi rápido, mas Bow percebeu. Aos poucos, começava a entender a ligação entre sua amiga cientista e o terrível senhor da guerra.

— Adora nos mostrou... você sabe — disse a Hordak em tom cauteloso, enquanto caminhavam até a entrada — Com um holograma.

— She-Ra também consegue projetar hologramas? — Entrapta se acendeu — Será que ela me mostra?

—Vai mostrar, sim. É por isso que ela faz questão de que vocês estejam presentes — Bow respondeu distraído, pois não tirava os olhos de Hordak. Para seu alívio, o clone não reagira à sua menção da morte de Prime.

— Foi muito corajoso o que fez... — o arqueiro arriscou.

— Foi inútil — Hordak passou na frente dele e atravessou a porta sem olhá-lo.

— Você é duro demais consigo mesmo — Bow observou, meio irritado.

—Também acho! — Entrapta desabafou, feliz que mais alguém reparasse — Vivo dizendo isso pra ele, mas não entra na cabeça! — atirou braços e cabelos para o alto, bufando — É tão frustrante!

—Eu não sou frustrante! — Hordak olhou por cima do ombro. Já estavam do lado de fora, com todo mundo ouvindo, mas desta vez ele não estava nem aí — Estou apenas dizendo a verdade!

“Parece com Adora, principalmente logo que ela veio pra Bright Moon ” Bow pensou “Embora ela não seja rabugenta”. Apesar do sofrimento causado por Hordak às pessoas que ele amava, não conseguia deixar de sentir pena.

—E se Horde Prime tivesse mandado você lutar, ficasse sozinho com outro clone e mandasse ele matar Entrapta? —argumentou o rapaz —Ela teria morrido na hora. Ou Prime poderia tê-la obrigado a cancelar o programa e restaurar a mente coletiva. Poderia ter botado um chip no pescoço dela. Ainda acha que o que fez foi inútil?

Hordak arregalou os olhos.

— Admito que dei algum tempo a ela— grunhiu, depois de pensar por alguns segundos — Mas Horde Prime poderia ter feito o que sugeriu depois de me possuir e eu não poderia ter feito nada! Além disso, She-Ra... Adora o teria detido sem a minha ajuda. Ela agora tem poder até para fazer crescer árvores em Velvet Grove! — apontou a imensa nave-árvore que flutuava acima da floresta.

— Enfim disse alguma coisa inteligente — Mermista alfinetou.

Adora chegou perto, ainda vestida de She-Ra:

—Tem mais gente aqui que concorda com vocês dois. Nem todos— acenou o braço na direção de Glimmer, Catra, Scorpia e Frosta, que gritou “É !” e acenou para Hordak com o punho cerrado. Até Sea Hawk sorriu e mostrou o polegar para o ex-vilão, pelas costas da namorada. Adora deu de ombros:

— Talvez eu pudesse ter acabado com ele sozinha, não tenho certeza. Assim mesmo, você facilitou meu trabalho porque ele não tinha para onde ir, depois que os outros clones fugiram (menos Erradinho, mas acho que Prime não o viu).

Catra envolveu a cintura dela com o braço:

— O que ela quer mesmo dizer, mas é boazinha demais pra admitir, é que está agradecida porque você fez o trabalho sujo. Exorcizar a alma de quem já morreu é uma coisa, mas não acho que Adora conseguiria viver consigo mesma se ela tivesse que tirar a vida de alguém, mesmo daquele filho da puta. Apesar de ter sido treinada como soldado, ela nunca será como nós dois. Por isso, muito obrigada, Hordak.

Ele não queria a gratidão de Catra. A única coisa que queria dela era distância, só que não podia simplesmente se afastar, já que sua defensora estava de braço dado com a gata. Por isso, olhou para o outro lado:

— Fui informado de que você queria me dizer alguma coisa importante, Adora.

— Isso mesmo. É sobre a sua vinda a Etéria — viu que as longas orelhas se erguiam, curiosas, apesar dele fingir indiferença —Você foi trazido aqui pela mesma pessoa que me tirou do meu planeta natal — um programa chamado Light Hope.

Como Adora esperava, a revelação caiu entre seus amigos como uma bomba. Mesmo os que nunca tinham visto Light Hope, sabiam do seu papel na origem de She-Ra e de suas verdadeiras intenções. Os que a haviam conhecido, então — Swift Wind e Glimmer — estavam abismados.

—Tá de brincadeira! _ gritou o unicórnio _Quer dizer, eu sei que a LH manipulou você e Glimmer pra ativar o Coração de Etéria. Mas assim mesmo, com todo aquele papo de “ você tem que restaurar o equilíbrio que a Horda estragou, mimimi”, foi ela quem trouxe Hordak pra cá?

— Tem certeza disso, Adora? — Castaspella quis saber — Você nos disse que Light Hope havia confirmado o que Shadow Weaver contou: que Hordak tirou você de seu mundo... por acidente, mas, assim mesmo, tirou! — olhou com ódio para o ex-vilão, que prontamente retribuiu:

— Shadow Weaver era uma mentirosa manipuladora; vocês devem saber disso, já que a aceitaram como aliada! E é óbvio que esse programa... Light Hope... não é diferente.

— Não era — Entrapta corrigiu — Ela deixou de existir quando a espada dos Primeiros foi quebrada. Mas ouvi Adora dizer uma vez que Light Hope nem sempre foi tão fria.

— É verdade. Uma vez, ela foi obrigada a reiniciar por causa de uma chuva ácida, digo, de pólen ácido... — a heroína contou resumidamente como conhecera a personalidade inicial de Light Hope. Como esta e Mara — a She-Ra anterior — haviam sido amigas até os Primeiros se meterem entre elas, forçando Mara a teleportar Etéria para Despondos.

— ...Mas ela não teve tempo, ou não teve coragem de desligar Light Hope, que passou mais de mil anos procurando alguém da raça dos Primeiros. Nesse meio tempo, ela raptou você — olhou para Hordak — Foi a lembrança da sua chegada em Etéria que me forneceu a última peça do quebra-cabeças. Acho que, lá no fundo, eu já suspeitava... mas, porque ela trouxe você pra cá, não faço ideia.

O tom dela era de desculpas. Hordak, entretanto, não estava decepcionado e sim agradecido, por ver enfim solucionado o mistério que transformara sua vida:

— Deve ter me capturado por engano, em vez de um dos Primeiros. Estávamos lutando contra eles quando eu fui sugado.

— Ou talvez ela tenha te sugado de propósito, sabendo que a sua programação o faria tentar conquistar qualquer planeta em que estivesse —Bow sugeriu — Ho... Erradinho nos contou que vocês eram doutrinados ainda nas incubadoras. Acho que ele não foi tão afetado porque é muito novo.

Entrapta quis acrescentar alguma coisa, porém Adora já prosseguia:

— Nunca saberemos se foi ou não por acaso. O que importa é que, há dezenove anos, ela conseguiu o que queria. Eu era só um bebê, naquela época. Não sei quem são meus pais ou mães, nem como era meu mundo de origem. Nada disso importava a Light Hope, porque a reprogramação dos Primeiros removeu toda a empatia dela. Pior, ela sequer sabia que bebês não conseguem fazer nada sozinhos. Simplesmente me largou no meio de um campo, achando que eu sobreviveria até ter idade suficiente para ser treinada!

Fingindo não ouvir as exclamações chocadas dos amigos, apontou a espada para o céu, procurando se lembrar das instruções de Micah. “Você não precisa desenhar o feitiço como nós, magos, e isso é uma vantagem, “ ele explicara “O seu problema é que você força demais. Precisa deixar fluir naturalmente o que está em sua cabeça.”

Graças a ele, não levou mais que alguns segundos para projetar a imagem de um matagal a perder de vista. Logo em seguida, uma forma oval em tons roxos apareceu a poucos metros do chão. A coisa roxa se abriu, deixando cair uma espécie de pacote. Depois de alguns segundos, um choro alto deixou bem claro para todos que o pequeno embrulho estava vivo.

Passaram-se alguns minutos aflitivos, até que um vulto numa longa túnica cor de vinho apareceu, andando com dificuldade no meio do matagal. Era Hordak, menos carrancudo e com as feições levemente mais arredondadas, porém nada mais indicava sua juventude. Quando viu o portal, tentou correr, mas alguma coisa além do capim alto lhe restringia os movimentos e ele tropeçou, quase caindo. Estendeu a mão para o portal que se fechava, mesmo sabendo que era tarde demais. O exausto senhor da guerra soltou um urro de frustração e baixou a cabeça, tão desesperado que era difícil não simpatizar com ele. Ficou assim por alguns segundos, até que o choro do bebê atraiu sua atenção. Todo mundo prendeu a respiração, quando o homem que durante anos aterrorizara Etéria inclinou-se para pegar a criança. Podiam ver agora que era um bebê louro, com imensos olhos azuis que todos conheciam.

—É a Adora! _ gritou Scorpia.

A pequena Adora parou de chorar e sorriu para o alienígena, sentindo que estava segura. Ele parecia não saber o que fazer com aquele embrulhinho vivo; mas, depois de alguma hesitação, puxou um pouco a manta da criança sobre o rostinho, para protegê-lo do sol. A neném tocou com sua mãozinha a imensa mão azul de dedos pontudos. O Hordak mais jovem suspirou, virou-se e começou a se afastar com o bebê no colo.

She-Ra apagou o holograma e voltou à sua aparência habitual. Depois, se virou para a multidão, com ar de expectativa. Muitos tinham lágrimas nos olhos; Sea Hawk e Scorpia, então, choravam abraçados. Mas o que a impressionou foi a reação de Catra, que tremia toda. Adora se aproximou e a gata literalmente atirou-se em seus braços, abraçando-a apertado como se quisesse ter certeza de que ela estava ali, viva. Glimmer e Bow se juntaram ao abraço em seguida: a jovem rainha também tinha os olhos molhados.

Swift Wind foi o primeiro a botar em palavras o que todos estavam pensando:

—Se Hordak não tivesse vindo para Etéria, Adora não estaria viva! Ele ajudou a salvar nosso mundo... mesmo que não tenha tido a intenção.

—Salvou muito mais do que Etéria — Bow acrescentou — Durante a nossa viagem, visitamos dois planetas que Horde Prime arrasou. Melog veio de um deles. Se Light Hope não tivesse trazido Hordak pra cá, não teríamos tido a Horda, é verdade, mas ficaríamos presos em Despondos para sempre, enquanto Horde Prime continuaria a exterminar planetas até não restar vida no universo.