Respeito

1 Capítulo único


Notas iniciais
Kurode é um personagem original. Ele é um labrador dourado que o Leorio adotou. Algum dia escrevo uma fanfic sobre a história dele. Quanto ao nome, a ideia era trazer uma pronúncia japonesa do nome Claude (pronuncia-se "Clôdi"), mas há grandes chances de que eu tenha errado feio.

– Vulpix?

– Tenho.

– Golem?

– Tenho.

– Gengar?

– Ah... – o garoto de cabelos espetados correu os olhos pelas pastas que via na telinha do jogo – Não. Ainda não tenho esse.

– Certo. – disse o outro garoto, acomodando-se melhor no sofá – Vou te passar um Gengar, então. Pode me dar um Growlithe em troca?

– Não tenho Growlithes. Desculpe, Killua.

– Sem problemas. – Killua deu de ombros – Diz aí quais você tem para trocar.

– Sandshrew?

– Tenho.

– Pikachu?

– Tenho.

– Magikarp?

– Está falando sério? – Killua ergueu uma sobrancelha.

Era um dia quente de verão. Nem a mais leve brisa soprava pela janela. No chão, um enorme labrador respirava com a boca aberta, semi-moribundo. O garoto de cabelos espetados fez-lhe uma carícia, sem, contudo, desviar os olhos castanhos da telinha de seu videogame portátil.

– Você tem Kadabra? – perguntou Killua.

– Tenho, sim.

– Ótimo. Quero esse!

Eles conectaram seus videogames portáteis com um pequeno cabo e iniciaram a troca de monstrinhos virtuais. Haviam começado a jogar há apenas dois dias e já estavam completamente viciados. Nem Kurode se interessava tanto por correr atrás da própria cauda quanto eles se interessavam por treinar Pokémons. No entanto, aquele era um dia quente de verão, e era possível fritar um ovo na calçada. Apenas pessoas muito corajosas ousavam sair de suas casas. Ou muito burras.

– Francamente, Leorio! Quer me deixar em paz? – ralhou um jovem loiro, surgindo de algum dos cômodos ocultos do apartamento.

– Você não vai! – rebateu o garoto que o seguia, erguendo o indicador em protesto – Eu o proíbo!

– Você não manda em mim! – o outro cuspiu as palavras, fazendo uma careta tão feia quanto a dos monstrinhos que os meninos trocavam entre si.

– Ah, é? Pois eu vou enfiar um pouco e juízo nessa sua cabecinha, nem que tenha de colocá-lo de castigo!

– Francamente, Leorio. – repetiu o loiro, virando-lhe as costas.

– Francamente digo eu! – Leorio cruzou os braços – Está indo em uma missão suicida. Falem com ele, rapazes. Digam que eu estou certo!

– E Charmander? Você tem? – perguntou Killua, indiferente à discussão que se travava.

– Só Bulbasaur.

– Quer trocar comigo?

– Só tenho um Bulbasaur. – desculpou-se o garoto de cabelos espetados.

Killua fez um gesto com a mão.

– Eu clono para você.

– Dá para clonar pokémon? – o outro franziu o cenho.

– Gon! Killua! – exclamou um impaciente Leorio.

– O que é? – os garotos responderam em uníssono, ainda sem desviar os olhos de seus monstrinhos.

– Será que dá para vocês me ouvirem?

– Leorio, acho que as pessoas do outro lado da rua ouviram você. – zombou o jovem de cabelos dourados.

– Você fique quieto! Gon, Killua! Querem dizer ao Kurapika que eu estou certo e ele, errado?

– Ah, não sei. Tanto faz. – disse Gon, os olhinhos chocolate completamente grudados na tela do Game Boy.

– Espera, você e o Kurapika estão discutindo? – perguntou Killua, coçando o nariz.

– Sim, sim. – Leorio ficava mais impaciente a cada minuto.

– Então, é simples. O Kurapika está certo, e você, errado. Fim do assunto. – disse Killua, dando de ombros.

Gon soltou uma gargalhada com o comentário do amigo, despertando Kurode momentaneamente de sua condição de semi-moribundo.

– Ha! Viu?

Kurapika abriu um sorriso vitorioso e ergueu o queixo em sinal de superioridade. Leorio sustentou seu olhar. Não desistiria tão fácil.

– Então, está tudo bem deixá-lo partir em uma missão suicida sozinho, é?

– É. – disse Gon com simplicidade.

– Tanto faz. – Killua deu de ombros de novo – Aqui, Gon, deixe-me te mostrar como se faz uma clonagem.

Leorio não conseguia acreditar. Gon e Killua estavam dando mais atenção a um jogo medíocre do que a um amigo. Aquilo o deixava furioso! Não, o xixi de Kurode o deixava furioso. O maldito cachorro nunca acertava a porcaria do jornal. Mas aquilo... Aquilo era simplesmente...

– Inaceitável! Isto é inaceitável! – bradou o Hunter, mexendo o braço para baixo e para cima.

– Eles já deram o veredicto, Leorio.

Kurapika sorria de forma deslumbrante enquanto ajeitava a mochila sobre os ombros. Por um instante, Leorio perdeu-se naquele sorriso, naqueles lindos olhos chocolate, naqueles cabelos dourados que emolduravam aquele rosto tão belo e delicado...

– Você não vai! – insistiu.

– Já fui. – disse o Kuruta, acenando para os amigos a apenas dois passos da porta.

Leorio bufou. Em apenas meio segundo, ele estava a um braço de distância de seu amado, digo, amigo. Puxou-o pela alça da mochila.

– Ai! Leorio! – resmungou Kurapika, virando o rosto.

– Já disse que não vai.

POW.

O soco que o Kuruta deu em seu rosto atingiu sua alma. Leorio precisou de alguns segundos para se localizar.

– Belo soco, Kurapika! – exclamou Killua, rindo com gosto.

– Nooossa! – Gon deu um pulo no sofá – Agora eu tenho dois Bulbasaurs! Como você fez isso, Killua?

Leorio soltou a mochila de Kurapika e começou a esfregar seu nariz. Estava quase certo de que ele fora quebrado.

– Como você pôde... – resmungou, segurando as lágrimas com todas as suas forças – Não se bate em alguém de óculos.

– Tem razão, Leorio. Me desculpe. – disse o Kuruta.

Ele esticou o braço e, com suas mãos delicadas, retirou os óculos do rosto do Hunter mais velho. Os seus olhos chocolate encontraram os olhos castanhos dele.

Tun-TUN.

O coração de Leorio deu um salto em seu peito. Batia acelerado, tão rápido e forte quanto Kurode correndo atrás de uma bola. O Hunter teve medo de que o amigo ouvisse. Ou pior... Teve medo de que ele lesse seus pensamentos...

Mas seus pensamentos foram interrompidos por outro soco certeiro.

– Aaaaaaiiiiii!

– Você estava sem óculos. – disse o Kuruta, fazendo uma expressão completamente anormal para seus padrões.

– Ora, seu...

Leorio fuzilou-o com os olhos. Cobria o nariz – certamente quebrado – com as mãos e encarava o jovem loiro com todo o rancor que conseguia transmitir. Não que fosse muito, é claro. Os olhos estavam marejados de lágrimas, mas não por causa da dor do soco. A dor que ele sentia era outra.

Um novo som preencheu o local. Um som puro que ele ouvira apenas duas vezes em sua vida. Kurapika estava rindo. Mais do que isso, estava gargalhando. A expressão que fizera segundos atrás era de quem tentava conter o riso.

– Devia... – disse o Kuruta, estremecendo da cabeça aos pés – Devia ter visto a sua cara! Foi muito engraçado!

Gon e Killua desviaram os olhos de seus jogos por apenas alguns segundos. Logo foram reconquistados pelo feitiço impressionante que aquele objeto tão pequeno exercia sobre eles. Kurode, por sua vez, admirava o jovem de cabelos dourados com a língua de fora.

– Arf! Arf! – latiu, abanando a cauda.

Leorio abaixou os braços, humilhado. A risada de Kurapika, os latidos de Kurode, a indiferença de Gon e Killua... Tudo isso pesava sobre sua pobre e estilhaçada alma. Ele cerrou os punhos. Estava na hora de dar um basta naquilo.

– Clona o Eevee para mim, Killua? – pediu Gon, alheio à perigosa bomba que estava prestes a explodir.

– CHEEEGA! JÁ BASTA!

O berro de Leorio fez os dois garotos saltarem no sofá, fez Kurode fugir com o rabo entre as pernas, fez Kurapika dar um passo para trás e arregalar os olhos.

– Você. Não. Vai.

Com essas palavras, Leorio agarrou o jovem Kuruta pela cintura e o jogou sobre os ombros com mochila e tudo.

– Leorio! – as bochechas de Kurapika assumiram um estranho tom rubro, e os óculos de Leorio caíram no chão – Me solte! Agora!

– Não!

Mesmo sem enxergar direito, ele caminhou até o sofá e jogou o jovem loiro entre os dois Hunters mirins. Gon e Killua trocaram olhares assustados. Nenhum deles queria fazer o primeiro movimento.

– Agora, escutem! – Leorio apontou para cada um deles – Está na hora de aprenderem sobre uma coisinha chamada respeito, ok?

Gon levantou o braço.

– Sim? – Leorio concedeu-lhe a palavra.

– Posso ir ao banheiro?

– Não. – disse o Hunter mais velho com uma voz de pedra – Agora, como eu ia dizendo... Sente-se, Gon!

– Mas eu preciso ir ao banheiro. – justificou-se o garoto de cabelos espetados – E não é xixi...

– Tá, tá bom! Vá logo.

Gon disparou para algum dos cômodos ocultos da casa, largando o videogame no sofá. Leorio pigarreou.

– Como eu estava dizen... Killua!

– Isso aqui é muito chato. Vou tomar sorvete. – disse o garoto de cabelos prateados, pulando para fora do sofá.

– Nada disso! – Leorio deu um passo em sua direção – Pode ir voltando e...

O garoto lhe desferiu um olhar mortal.

– Está me desafiando?

O Hunter mais velho hesitou. Ninguém em sua sã consciência seria capaz de contrariar aquele jovem assassino. Bastava ele cerrar os olhos para o ambiente adquirir uma energia negra, perversa, mortífera...

– Pensando bem... Está calor, né? – ele abriu um sorriso amarelo – Vai lá tomar seu sorvete.

Killua dirigiu-se à cozinha bem calmamente, deixando um rastro de aura sombria para trás.

Kurapika fez menção de se levantar também.

– Você não!

– Ah, Leorio! Deixe-me ir. É importante! – o jovem loiro ficou de pé, erguendo o queixo novamente.

– Não! Você... Você quebrou meu nariz!

“E minha alma também...” pensou o aspirante a médico.

– Eu não quebrei seu nariz. – uma nova expressão surgiu no rosto do Kuruta. Seria... indignação? – Deixa de ser fresco.

– Pois eu sou fresco mesmo! Você... Você me bateu, Kurapika!

– Desculpa, tá legal? Eu nem bati com tanta força.

– Mas machucou!

– Já pedi desculpas!

Eles se encaravam, os ânimos exaltados como pokémons em um campo de batalha. Era difícil dizer quem respirava mais rápido, se Leorio ou Kurapika.

– Leorio, por favor, deixe-me ir. – pela primeira vez, o Kuruta parecia implorar – É importante.

– Não deixo você ir enquanto não aprender sobre respeito! – o Hunter mais velho mantinha-se inflexível.

– Eu? Eu aprender sobre respeito? – agora o Kuruta estava, definitivamente, muito indignado – Você é que precisa aprender sobre respeito! Você não me respeita!

– Eu não te respeito?! É claro que eu te respeito, Kurapika!

– Não respeita, não! – bradou o jovem loiro, diminuindo ainda mais a distância entre os dois – É a minha tribo, Leorio! A minha família! Se existe a mínima chance de eu encontrar os olhos deles nesta missão, então, eu vou! E você não pode me impedir!

– Idiota! – Leorio aproximou-se também – Não vê que tem uma nova família?! Eu, Gon, Killua, Kurode! Todos nós te amamos e só queremos o seu bem! Nós somos sua família!

– Isso não muda o passado, Leorio! – Kurapika inclinou-se para frente, fuzilando aqueles detestáveis olhos castanhos com os seus.

– Mas muda seu futuro, seu idiota.

– Me respeite!

– Me respeite você!

A distância entre eles era tão ínfima agora que o mais simples movimento poderia acabar com ela. Os dois Hunters se encaravam, olhos castanhos contra olhos vermelhos. O brilho escarlate consumia todo o rosto do Kuruta, enrubescendo suas bochechas e incandescendo seus olhos.

Mas era Leorio que estava pegando fogo.

– Você não vai. – ele disse em um tom pretensamente calmo.

O Kuruta proferiu um palavrão.

– Será que você não entende, Leorio?!

– Será que você não entende, Kurapika?!

– O quê?! – o Kuruta ergueu ainda mais a cabeça, seus lábios a milímetros dos lábios do oponente – O que eu não entendo, Leorio?

– Você não entende que eu te amo, seu imbecil!

Silêncio.

Eles continuaram se encarando, olhos castanhos contra olhos escarlates. Kurapika foi o primeiro a ceder e a abaixar o rosto.

Naquele momento, alguma coisa se quebrou dentro de Leorio. Talvez fosse sua alma se estilhaçando em fragmentos ainda menores. Como se ela já não estivesse quebrada o bastante. Mas o que era aquilo nos olhos do Kuruta? Ele estava... Chorando?

– Eu...

Um ganido baixinho chamou a atenção do aspirante a médico. Por reflexo, ele virou o rosto... e encontrou os olhares atônitos de Gon e Killua. Os dois garotos estavam em pé na porta da cozinha. Gon, com um pedaço de papel higiênico preso no sapato, Killua, com uma colher de plástico em uma das mãos e um potinho de sorvete na outra. Kurode estava sentado entre os dois, choramingando baixinho.

– Eu... Eu... – balbuciou Leorio, completamente desconcertado – Eu te amo, Kurapika. E também o Gon, o Killua, o Kurode... – abriu um sorriso fraco – To-todos nós amamos você!

Em sua mente, ele via a si mesmo caindo em um limbo eterno e sem fim. A vergonha... O medo de ser julgado... O medo de ser... rejeitado... A consciência de que nada disso importava... desde que o Kuruta estivesse seguro.

– É isso mesmo! Nós te amamos, Kurapika!

Para a total surpresa de Leorio, Gon atirou-se nos braços do Kuruta, chorando como uma criança. Enterrou o rosto em seu peito e o abraçou com força pela cintura.

– A gente ama você! A gente é sua família!

Kurapika não sabia como reagir. Apenas abraçou Gon de volta, lutando contra suas próprias lágrimas. Leorio jamais o vira tão emocionado.

– É... Eu também amo você. – disse Killua, raspando o resto de sorvete no pote – Mas não vou te abraçar, valeu?

– Arf! Arf! – latiu Kurode, esfregando sua enorme cabeça de labrador nas pernas de Kurapika e Gon.

– Obrigado, pessoal. – disse o Kuruta, fechando os olhos – Eu também amo vocês.

O sorriso tímido que o jovem abriu em seguida fez com que a alma quebrada de Leorio se contorcesse de alegria. Kurapika o amava! Bom, não exatamente do jeito que ele queria, mas... Qual a importância disso?

– Ei, por que não joga Pokémon com a gente? – disse Killua, desesperado para acabar logo com aquele melodrama – Tem um cartucho sobrando.

– Eu adoraria. – Kurapika abriu os olhos e sorriu o sorriso mais lindo que qualquer dos Hunters naquela casa já vira em seu rosto.

– É! – Gon afastou-se, comemorando – Você pode começar com o Squirtle! Assim, eu e o Killua poderemos zerar a Pokédex!

Gon segurou o braço de Kurapika com uma das mãos e o braço de Killua – o assassino mirim corou levemente – com a outra. Mal cabendo em si de felicidade, levou os amigos de volta para o sofá, de volta para os jogos.

– Já-já volto. – balbuciou um atrapalhado Killua – Eu vou pegar o Game Boy extra e o cartucho.

– Ei, Killua! – chamou o garoto de cabelos espetados.

– Si-sim, Gon? – será que alguém estava percebendo que Killua tremia da cabeça aos pés?

– Eu também te amo! – declarou Gon, no auge de sua inocência.

O rosto de Killua ficou tão rubro quanto ficara o de Kurapika momentos atrás.

– Não fala besteira, Gon! – ralhou, desaparecendo em seguida em um dos quartos.

– Posso jogar também? – perguntou Leorio, esperançoso.

– Ah... – Gon fez uma carinha triste – Desculpe, Leorio, mas só temos o suficiente para três de nós.

– Ah, mentira! – resmungou o aspirante a médico.

Mas Gon não prestava mais atenção.

– Kurapika, quer que eu te ensine a clonar pokémons?

– Claro, mas o que são pokémons?

– Deixa que eu te explico tudo!

– Não! – disse Killua, voltando do quarto com um terceiro Game Boy e um Pokémon Blue novinho em folha em mãos – Deixa que eu ensino!

Os três se sentaram no sofá e se concentraram na missão de transformar Kurapika em um verdadeiro treinador pokémon. Sentindo que não havia espaço para mais um ali, Leorio dirigiu-se até a cozinha para se servir de sorvete. Kurode logo estava em seus calcanhares, desejoso de que, seja lá o que o mestre pretendesse comer, pudesse pegar restos caídos no chão.

Leorio estava no batente quando ouviu alguém chamar.

– Leorio?

– Sim, Kurapika? – virou-se, esperançoso.

– Obrigado. – disse o loiro.

Ele sentiu um leve rubor subir por seu rosto. Sua visão estava embaçada, mas ele se convenceu de que era apenas a falta dos óculos.

– Não há de quê! – respondeu com um sorriso.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!