Resolução

2 Parte II


O sol já havia se escondido, e o capitão Taki Raisen observava o roxo noturno consumir os últimos vestígios do alaranjado do entardecer. A mansão de inverno de sua família estava sendo usada como alojamento dos principais generais e líderes do exército, mas esta noite preferiu pedir para que uma das criadas levasse seu jantar até seus aposentos enquanto ele seguia para a casa de banho.

E a tal altura das horas o líder já estava banhado e alimentado, diante da ampla janela de vidro apenas esperava pela visita secreta de seu cavaleiro. Como que em uma transmissão de pensamento, a porta do quarto foi aberta com um clique baixo e logo fechada novamente.

O vácuo do movimento fazendo que uma grande quantidade de ar invadisse o aposento, passando pelos fios lisos e levemente compridos do Maiden Rose, fazendo-os dançar por uma fração de segundos enquanto Klaus abria e fechava a porta. Mas nada poderia preparar o experiente cavaleiro para a visão que o esperava dentro daquele quarto.

– Sinto o aroma de flores. – Ele disse após deixar-se suspirar audivelmente, enquanto observava o corpo pequeno de costas para sua visão.

Taki estava vestido com vestes tradicionais, muito semelhantes àquela que usava na noite em que havia sido seduzido pelo “canto do passarinho” que ele seguiu até encontrar a imagem de Taki, encantado com as lindas e intocadas flores. Não havia o coque bem feito em seus cabelos, nem todos os acessórios que enfeitava sua cabeça, seus cabelos estavam soltos e dançavam ao vento como a comprida roupa.

O kimono tradicional cobria todo seu corpo com o lindo tecido nobre de cor púrpura, preso firmemente em seu corpo pela faixa larga em tom vermelho sangue, que marcava sua cintura delicada e fina. Mesmo de costas podia ver que seus braços repousavam um no outro, em uma postura típica que escondia suas mãos por dentro das mangas largas do kimono, e Taki estava parado sobre um fofo tapete, o que lhe indicava que possivelmente o moreno estava descalço.

Sorriu abertamente com a cena. Estava um pouco estranho com seu amado senhor ultimamente, pois o peso tomava sua consciência após ter perdido o controle e tomado o corpo de Taki de forma selvagem, não queria que o moreno levasse em sua memória apenas a parte ruim daquela noite. Mas Taki não se vestiria assim para esperá-lo se não fosse para terem uma bela noite, ele sabia que até perder o controle estava sendo bom para o menor também.

– Estou aqui Taki. – Disse o cavaleiro com intuito de que seu senhor se virasse de frente para si, mas ele não o fez. – Por que me chamou? – Questionou, estava louco para engolir a distância que havia entre os dois corpos, mas naquela noite, estava disposto a pisar em seus instintos para não ofender Taki.

– A guerra está terminando. – Ele respondeu baixo, ainda sem o menor intuito de virar-se.

– Isso não é bom? – Questionou o loiro.

– É sim. – Respondeu o nobre, mesmo que nenhuma sombra de felicidade aparecesse em sua voz ou seus atos. – Nossas tropas cumpriram muito bem o seu dever patriótico, minha honra está restaurada diante daqueles que me humilharam no inicio desta guerra. Os homens feridos irão ter paz para recuperar-se, os homens em pé irão lutar por suas próprias felicidades. – Ele prosseguiu, enumerando vários pontos que deveriam o deixar feliz por causa do fim da guerra, mas ainda assim, ele Taki, não conseguia transpassar felicidade.

– Ainda assim, meu senhor, não consigo sentir a felicidade que pensei que veria em sua linda tez com esta excelente notícia. – disse o cavaleiro com olhos de ouro, dando voz aos seus pensamentos.

Taki respirou fundo, sentindo uma fina camada de lágrimas se aglomerar na superfície de seus olhos e logo em seguida, dissipar-se. Não se virava de frente para o cavaleiro, pois sabia que diante dele se mostrava desonrosamente sensível demais.

– O fim desta guerra é o que mais quero. Esta é apenas uma fraqueza momentânea regada pelo meu capricho egoísta. Nós sabíamos desde o início disso tudo que mesmo que cumpríssemos bem o nosso dever civil em pró da nação, seria o fim deste pequeno e longínquo distrito.

– Uma fraqueza momentânea o fez vestir-se assim após convidar-me para os seus aposentos, Taki? – A voz doce, levemente carregada de malícia atingiu em cheio os ouvidos do moreno, fazendo o mesmo abaixar sua cabeça e desprender seus braços.

– Está aqui porque minha linhagem não me permite ter fraquezas momentâneas. – Disse em um suspiro pesado, estava cansado demais para usar palavras regradas com Klaus. – Para dar fim a esta guerra, devo conceder as Terras Impuras. Foi este pedaço de terra que foi oferecida na resolução de fim de guerra para a nação inimiga.

– Faz sentido oferecer um pequeno pedaço da terra para não perder o domínio sobre um país, principalmente um pedaço de terra desocupada. Mas não é isso que importa, não é? Para sua família aquela é tida como a Terra Prometida, e também o lar das belas flores que formaram o cenário no qual nos conhecemos.

E mais uma vez o calor corrosivo das lágrimas fez peso na garganta de Taki. O preço do fim da guerra era bastante caro para si, afinal tudo ligado a sua história e linhagem familiar estava ligada àquele lugar. Bem no fim, podia-se dizer que não estava recuperando sua honra, mas a estava a comprando com sobre juros e taxas caras.

– Eu devo assinar a permissão de transferência de posse.

– É uma imposição? – Ele questionou, e naquele momento seu senhor se virou de frente para si, feliz, nos olhos de Klaus estava a certeza de que se ele pedisse para lutarem por aquele pedaço de terra que lhe era importante, ele lutaria te a morte.

– Não. – disse com calma. – Como você disse, para Eurote este não passa de um pequeno pedaço de terra desocupado. Como não assinar o documento que colocará um ponto final na guerra? – Perguntou de forma retórica, nem mesmo seu capricho egoísta podia ir contra isso.

– Ordene-me senhor, e irei buscar daquelas flores, para fazer daqui o novo lar delas. Apenas fale Taki, e seguirei sua voz para qualquer lugar, onde quer que estivermos juntos, meu senhor, farei com que seja a sua terra prometida.

– Aquelas flores não florescem nesta época do ano. Na verdade Klaus, neste momento eu penso mais em um jardim de rosas brancas. – Disse o mestre, fazendo os olhos de seu fiel cavaleiro se abrirem até o limite de sua anatomia.

Olhando para a bela face de Klaus, com seus cabelos e olhos de ouro Taki podia se sentir bem. Afinal, aquele homem tinha pago um preço bastante alto também para lhe seguir, e nunca reclamava, nunca lhe cobrava, e isso fez o mestre lembrar-se que havia outro motivo importante para Klaus estar ali.

E sem palavras ou justificativas o capitão sentou-se sobre suas próprias pernas no chão, flexionando seu corpo sobre as coxas modestas em uma reverencia completa. Era sua intenção mostrar ao loiro que tinha percebido o quanto estava sendo negligente com aquilo que tinham se proposto desde o início.

Conhecerem –se sob os encantos de uma bela flor, em seguida Klaus abandonou sua nação para se tornar um cadete do exercito da nação de Taki. Tinha encontrado sua flor, e não perderia o aroma de sua essência.

Não foi coincidência se tornarem colegas na academia. E Klaus estava lá para consolá-lo no dia em que fora rebaixado a voltar para sua base origem, estava lá para fingir que não via suas lágrimas ao mesmo tempo em que as enxugava. Não foi em vão que Taki pediu para ser seguido, e muito menos leviano foi o desejo de Klaus em segui-lo.

Especial foi a noite em que se beijaram pela primeira vez, escondidos no alojamento do moreno, o loiro tocou sua pele e sentiu a mistura do seu cheiro com o aroma doce de flores do corpo dele. Por mais ousados que tivessem sido os carinhos de Klaus, aquela tinha sido sua única noite doce.

Depois dela apenas a guerra ao lado de um frio e distante Taki. Que sempre negava o carinho do loiro, mantendo-se apenas quieto sob as vontades físicas e explosões de fúria de seu cavaleiro. Sentindo o calor de seu corpo e o desejo de seus toques cada dia mais quentes e ousados, sem perceber que não estava sendo aquilo que o cavaleiro mais desejava, até a noite em que o mesmo explodiu em fúria e o teve quase a força. Não foi uma boa primeira noite de amor.

Mesmo que o capitão desejasse acima de tudo que ninguém o visse ajoelhado para seu subordinado, Taki intimamente se sentia culpado pelo rumo que sua história de amor tomou. Ele sabia que tudo o que Klaus queria era saber que não tinha abandonado sua vida por migalhas de um amor sádico.

– Quero desculpar-me em primeiro lugar, por ter permitido que esta guerra quase acabasse com o nosso amor.

Nosso amor. Queria usar estas palavras depois de te-lo acusado de ter apenas uma paixão suja por seu corpo. Não iria agradecer ao outro por se manter ao seu lado, pois sabia que apenas a morte quebraria o juramento de um cavaleiro. Sem nada a lhe responder, o cavaleiro apenas correu rápido para onde estava o seu doce senhor, e ajoelhou-se em sua frente. Tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e como de costume, selou seus lábios sobre o dorso de pele clara e macia.

– Não quero que se curve minha linda flor. Sua determinação e coragem fazem parte do conjunto de qualidades que me atraem em você Taki Raisen.

Então Taki levantou-se de forma cuidadosa, para não desarrumar os laços sem falha da veste tradicional. Estava feliz por ter conseguido pelo menos dividir suas aflições com Klaus, e ainda por cima não ter vacilado no pedido sério de desculpas. Faltava apenas uma coisa que tinha reservado para aquela noite, e esta era mais difícil para si.

– Proibido de comer carne, de ingerir álcool e de se entregar aos prazeres terrenos. Dogmas. – Disse Taki.

– Aprendi recentemente esta história. Taki, você podia ter me contado isso antes, eu teria me controlado, eu... – Ele iria prosseguir, com as desculpas que a própria guerra os fez adiar, mas fora interrompido pelo dedo indicador de Taki, que parou de forma imperativa sobre seus lábios, fazendo-o parar de falar na mesma hora.

– Não lhe contei a história inteira, porque não queria que se privasse. Quando pedi para que me seguisse, eu queria que todas as nossas noites fossem iguais àquela do alojamento. Mas quando chegamos aqui, só houve mortes e mais mortes, não pude simplesmente ignorar tudo isso. Não pude só fechar a porta e deixar a guerra do lado de fora do quarto, também não pude suportar perceber que você estava certo, que o mesmo gentil vendedor que sorri em um dia, simplesmente não volta para casa no outro.

– Taki, você podia ter dividido isso comigo antes. Eu jamais teria exigido tanto de você se...

– A lenda de Maiden Rose já estava quebrada desde o momento em que pedi para acompanhar-me Klaus. Ou até mesmo antes disto. – Terminou acariciando o rosto másculo do estrangeiro. Tudo o que aconteceu entre nós depois disso, serviu-me como fonte de força para poder ir à frente de todos estes homens dia após dia. Por isso não se culpe, nem se desculpe.

– Peça Taki – Disse o loiro com a voz arrastada, de repente seus olhos já estavam transbordado a luxúria novamente. Era tão raro ver o general tão exposto e receptivo. – Sou seu cavalheiro, peça. Sou seus braços quando você não alcança e suas pernas quando você cansa. Sou seus olhos quando você está olhando para o outro lado e seus ouvidos quando não é capaz de ouvir. Taki sou seu cavalheiro, a extensão de sua espada e seu único escudo. Peça. – Concluiu ainda ajoelhado aos pés do jovem general.

– Me ajude a ter força, Klaus. Para assinar este documento sem dar vazão ao meu egoísmo. Me mostre que não precisamos da terra prometida.

Notas finais
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