Resiliência

1 Capítulo Único: Cozinha a Quatro Mãos


Notas iniciais
Boa leitura!

Sua chamada está sendo encaminhada para a Caixa Postal e está sujeita a cobrança após o sinal…

Um grunhido irritado saiu dos lábios pintados de vermelho, atraindo os olhares das pessoas sentadas próximas a Eijirō no pequeno teatro. Por um breve momento, estando tão absorta no que fazia, ela esqueceu completamente que estava na escola onde a filha estudava. Encolhendo os ombros envergonhada, Eijirō apenas abriu um sorriso amarelo e murmurou um pedido de desculpas antes de retomar a atenção para o celular que tinha em mão.

Não era do feitio dela perder a compostura ou fazer cena em locais públicos — Eijirō tinha verdadeiro horror em ser o centro das atenções, inclusive —; no entanto, havia uma única e inconveniente exceção que conseguia tirá-la totalmente do sério, a ponto de esgotar a enorme paciência que Eijirō sempre tivera.

E tal exceção tinha nome e sobrenome: Monoma Neito.

O homem que, infelizmente, era o pai de Junko.

Eijirō já não sabia distinguir se era a terceira ou quinta vez que ouvia a maldita voz eletrônica, avisando sobre a chamada caindo na Caixa Postal do ex-namorado. Se o celular dele estava desligado ou se o cretino havia (finalmente) bloqueado o número dela, também era algo que Eijirō não tinha como saber. Da mesma forma que enviar mensagens no aplicativo era perda de tempo, pois o dito cujo estava evitando-a por lá ferrenhamente há dias.

Verdade seja dita, Eijirō somente se prestava a tal papel por causa da filha.

A apresentação da Educação Infantil antes das férias estava marcada há mais de mês, e Monoma fora avisado duas vezes através de mensagens que mostravam o comunicado da escola, com bastante antecedência inclusive, para que pudesse comparecer no evento — sendo um pedido quase suplicante da própria Junko ao pai.

A pobrezinha não entendia a grotesca ausência de Neito na vida dela, a inocência cabível dentro dos cincos anos vividos por Junko era uma dádiva que Eijirō torcia para que permanecesse por mais alguns anos, antes que a filha descobrisse quem o pai era verdadeiramente. Afinal, Eijirō sabia muito bem o porquê da mudança comportamental do ex-namorado.

Mudança esta que começara assim que passou a namorar Katsuki, há exatos três meses e meio.

Por um breve momento, o corpo dela tensionou com o pensamento de que fosse Neito sentando na cadeira vazia ao lado, porém, tal suposição irrisória logo se dissipou quando o aroma adocicado do perfume de Katsuki foi reconhecido por seu olfato tão familiarizado com o cheiro do namorado. Eijirō virou o rosto na direção dele, e foi recebida por um pequeno sorriso antes dos lábios cheios estalarem sobre os dela num beijinho de cumprimento.

— Obrigada por ter vindo, Suki.

Katsuki somente deu de ombros, e um novo beijo, agora na têmpora esquerda de Eijirō, foi recebido.

— Não é incomodo algum, amor. O pai dela não vem mesmo?

— O filho da puta não atendeu nenhuma das minhas ligações, hoje — disse Eijirō, com os punhos cerrados sobre o colo. O sangue dela borbulhava de tanta raiva. — Ele está me ignorando e é de propósito, eu tenho certeza!

A mão de Katsuki buscou as mãos dela, o toque gentil transmitindo conforto e amainando um pouco os ânimos acalorados.

— Neito deve estar putinho porque anteontem eu mandei uma mensagem perguntando quem viria na apresentação da Jun-chan, e sabe qual foi a resposta dele? — Um riso de escárnio saiu pelos lábios de Eijirō. — Que era pra eu vir já que ele paga a pensão pra isso mesmo… Acredita nisso, Katsuki? Aquele merda mal paga o valor estipulado pelo juiz, e acha que está fazendo muito! Eu ainda parabenizei ele por estar fazendo dois meses que não busca a filha… Desde então, ele está me ignorando.

O motivo era tão mesquinho e egoísta, a maneira mais desonrosa para atingi-la e fazê-la ter tanto asco e ódio do ex-namorado. Como Monoma poderia ser tão baixo e se recusar a ver Junko somente porque Eijirō havia seguido a vida e, finalmente, encontrara um novo amor?

O relacionamento entre eles após o término era harmonioso e respeitável em comum acordo, afinal, ambos tiveram uma filha juntos. Eijirō realmente achou que poderiam manter uma amizade em prol do bem-estar de Junko; por mais que tivesse os pais separados, a menina poderia ter a convivência com ambas as famílias sem picuinhas ou maiores problemas (até mesmo Eijirō fora apresentada para algumas namoradas de Neito).

E tudo transcorreu perfeitamente dentro dos conformes durante três anos e seis meses… Ou, melhor dizendo, até o último final de semana onde Neito havia ido buscar Junko e, ao trazê-la a noite de volta para a casa da mãe, dera de cara com Katsuki (sem camisa e recém saído do banho) abrindo a porta para pai e filha.

A partir dali, naquele fatídico domingo, o inferno astral de Eijirō iniciara.

— Esse cara é um babaca do caralho, Eiji. Principalmente por fazer a Jun-chan sofrer desse jeito… — O polegar de Katsuki secou uma lágrima fujona no rosto da namorada. — Ele poderia estar aqui, vendo a filha se apresentando, e compartilhar com ela esse momento, mas… — suspirou Katsuki, deixando um beijo demorado sobre a franjinha rubra que escondia a testa de Eijirō. — O único que perde é ele, amor, porque para a Junko é um livramento.

Eijirō achou mais seguro somente anuir em resposta, com medo de começar a falar e desencadear uma crise de choro no meio do teatro lotado de pais e funcionários da escola. Ela deu um sorriso triste, enlaçando o próprio braço com o de Katsuki para enfim assistirem a peça infantil que dava início naquele momento.

— Mamãe! Mamãe!

A voz de Junko abriu caminho por entre as pernas dos adultos próximos ao palco, afastando-os enquanto os cabelos loiros presos em marias-chiquinhas balançavam conforme as perninhas de Junko corriam de encontro a Eijirō.

— Oi, meu amorzinho! — Os braços estendidos logo foram recheados pelo corpo infantil, que pulou no colo de Eijirō com verdadeiro entusiasmo. — Você estava tão linda naquele palco, filha!

— Você me viu, mamãe?

— Claro que sim! Você era a borboletinha mais linda entre todas! — elogiou Eijirō, apertando a bochecha roliça com a mão livre. — Mas sabe quem também te viu?

— O papai!

O enorme sorriso de Eijirō esmoreceu pela resposta tão espontânea.

— Err… Não, minha filha, seu pai não conseguiu vir hoje… — Eijirō procurou o olhar de Katsuki em busca de apoio, apressando-se em completar —, mas o tio Katsuki está aqui! Ele veio assistir você junto com a mamãe. Não é legal, bebê?!

Eijirō observou aflita Katsuki se aproximar um pouco mais de onde estavam (ainda que mantivesse um afastamento respeitoso) conforme acenava para a menina, cumprimentando-a.

— Hey, Jun-chan! Sua mãe tem toda razão, você foi a melhor borboleta naquele palco. — Katsuki reparou na armação de plumas pretas ornada com detalhes em dourado, que formavam um bonito par de asas de borboleta. — Essas asas são muito maneiras, hein!? Você me empresta depois pra eu dar uma voltinha com elas por aí, Jun-chan?

Deliberadamente, Junko ignorou Katsuki enquanto olhava para algum ponto fixo atrás de Eijirō como se fosse algo bem mais atrativo do que encará-lo. Tal silenciamento da filha causou um desconforto no estômago de Eijirō, a expressão da menina tinha mudado totalmente após saber que Monoma não foi vê-la.

— Dá um 'oi' pro Katsuki pelo menos, minha filha… Seja educada, por favor… — pediu Eijirō numa tentativa de apaziguar o clima estranho, visivelmente sem jeito pelo comportamento da filha para com o namorado.

— Oi, tio Katsuki — sussurrou Junko, e Eijirō apenas deu um beijo na bochecha roliça em agradecimento. Porém, ela não estava preparada para o pedido que veio em sequência. — Eu quero ir embora, mamãe. Meu papai pode estar me esperando em casa.

O estômago de Eijirō agitou-se em nervosismo, e caso ela não saísse logo dali, seria capaz de causar uma cena e tanto naquele teatro com a bile ameaçando encher-lhe a boca.

《◇》

O clima "pesado" dentro do carro perdurou durante todo o silencioso trajeto até chegarem em casa.

Eijirō dividia a atenção entre dirigir e olhar constantemente pelo retrovisor interno na direção da filha, que estava sentada na cadeirinha atrás do banco do passageiro. Katsuki vinha ao lado de Eijirō, com a mão pousada carinhosamente sobre a coxa dela, muito entretido nos próprios pensamentos para tentar puxar algum assunto que diminuísse a “torta de climão”...

Desde quando saíram do estacionamento da escola, Junko não deu nenhuma palavra.

Antes mesmo que Eijirō ou Katsuki saíssem do carro para que um dos dois pudesse soltar Junko da cadeirinha, a menina já estava batendo a porta e correndo em direção à entrada de casa.

— PAPAI! PAPAI! — O entusiasmo na voz infantil cortava o silêncio, Junko corria pelo quintal à procura de Neito. — EU CHEGUEI, PAPAI! CADÊ VOCÊ?

— Ah, meu Deus… — murmurou Eijirō, descendo do carro apressadamente. Ela observou a filha dar a volta pela segunda vez ao redor da pequena casa, a euforia esmorecendo conforme Junko assimilava que o pai não estava presente… — Junko, vem cá!

Cada “papai” gritado por Junko era como adagas sendo cravadas no coração de Eijirō, os próprios olhos de tom carmesim estavam cheios de lágrimas que ela teimosamente evitava derramar na frente da filha. Vê-la sofrendo pela ausência proposital de Monoma sempre doía fisicamente, esgotava-a psicologicamente e apenas servia como combustível para o ódio crescente em relação ao canalha. Eijirō gostaria muito de apagar qualquer lembrança dele na memória de Junko, para que Monoma nunca mais fizesse sua menininha passar por tal situação humilhante.

Por fim, os passinhos apressados de Junko se transformaram em arrastar de pés pela grama aparada até pararem de fato, e Eijirō aproveitou o momento para se aproximar lentamente da filha.

— Cadê o papai, mamãe?

A pergunta feita em tom choroso evidenciava o que Eijirō mais temia…

— Eu não sei, bebê — confessou Eijirō, agachada em frente à menina. A resposta sincera atraiu os olhos de tom cinza, que transbordaram em lágrimas quando Eijirō abraçou o pequeno corpo. — Me desculpa, Jun-chan, mas eu não sei onde Neito está.

Respeitosamente, Katsuki manteve-se afastado de onde mãe e filha soluçavam copiosamente. Ele pegou o molho de chaves e destrancou a porta de modo mais silencioso possível, para não interromper o momento entre ambas. Infelizmente, ele conhecia bem o sentimento de abandono sentido por Junko… Afinal, Katsuki tinha passado pelo mesmo na infância durante um período conturbado na vida de Masaru — que, consequentemente, afetou a paternidade e culminou em divórcio.

— Eiji — chamou baixinho —, vamos entrar…

O rosto da namorada estava avermelhado pelo choro, mas ela assentiu e tratou de enxugar as lágrimas remanescentes antes de se levantar com Junko no colo. Ela andava com a postura ereta e o queixo erguido, atravessando o hall de entrada com passos firmes e decididos, enquanto seguia para o banheiro no final do corredor.

Eijirō era uma mulher tão linda, resiliente e guerreira… Uma mulher independente, que corria atrás de seus objetivos e defendia a filha com unhas e dentes feito uma leoa. Fora inevitável não se encantar pela ruiva tagarela naquele ponto de ônibus; o sorriso tímido após ter comprado a trufa do vendedor ambulante especialmente para ela, quando enfim teve coragem de puxar assunto com a tal “Ruiva do Ponto de Ônibus” como a apelidara para os amigos por ainda não saber o nome da futura mãe de seus filhos...

Talvez fosse um desejo precipitado de um tolo coração apaixonado, porém, um dia, Katsuki se casaria com Eijirō — e a faria a mulher mais feliz da porra do mundo inteiro.

Mas, primeiro, Katsuki precisava descobrir o que estava fedendo a azedo na cozinha de Eijirō.

Alguns minutos depois, outras movimentações pela casa puderam ser ouvidas por Katsuki. Aparentemente, Eijirō e Junko tinham terminado o banho e iriam se juntar a ele em breve. O que era bom, pois Katsuki não havia visto nenhuma sacola de mercado por ali…

— Eita, Jun-chan, acho que entramos na cozinha errada — brincou Eijirō, assim que entrou no cômodo com Junko a tiracolo. Diante delas, Katsuki terminava de lavar a louça acumulada dos últimos três dias… — Homem do céu, que vergonha! Não precisava arrumar as coisas, Suki, eu mesma faria isso depois do banho.

Katsuki colocou no escorredor os últimos talheres lavados, fechando a torneira antes de secar as mãos no pano de prato.

— Eu precisava da cozinha limpa e organizada para fazer o jantar, oras.

— V-Você vai cozinhar pra nós?!

— Bom, sim… — disse Katsuki, sutilmente envergonhado. — Foi por isso que te passei aquela lista de ingredientes, lembra?

Pelo olhar lívido de Eijirō, ou ela não se lembrava ou não tinha ido às compras…

— Err… Eu… E-Eu… — gaguejou Eijirō, sem graça pela gafe. — Desculpa, Suki, acabei esquecendo de ir ao mercado durante a semana.

Okay… Acabou sendo ambas as opções.

O plano original de Katsuki, na verdade, era ele ir ao mercado após combinar com Eijirō de passarem juntos sua folga no final de semana — independente de Monoma buscar Junko ou não. Porém, naquela semana atipicamente atribulada, onde Katsuki cobriu alguns plantões em favores devidos a colegas enfermeiros — e Eijirō estava lidando com o ex-namorado cuzão —, ele acabou ficando sem tempo livre… e a quem recorrer; visto que Mitsuki estava oficialmente aposentada e passou a viajar pelo mundo com o padrasto de Katsuki.

— Tudo bem, Eiji, não tem problema. Imprevistos acontecem, amor… — disse Katsuki, seguindo em direção ao armário próximo ao fogão. — Vamos ver quais ingredientes você tem em casa, e o que consigo fazer com eles.

Haviam duas ou três opções viáveis para as coisas que ele encontrou na dispensa da namorada; claro que Katsuki não conseguiria fazer o pomposo prato com carne de boi que tinha planejado especialmente para agradar as duas carnívoras de carteirinha que o observavam atentamente.

Era de se lamentar, mas Katsuki deixaria tal menu para uma próxima ocasião…

Todavia, ao ver dois sacos de farinha fechados e a cestinha de ovos cheia, uma nova ideia surgiu na mente dele — conquanto, Katsuki torcesse para encontrar tomates ainda comestíveis dentro da geladeira.

— E então…?

Virando o corpo na direção das meninas, Katsuki deixou o saco de farinha ao lado da cestinha com ovos na bancada previamente limpa.

— Agora, eu preciso de uma ajudinha pra preparar o macarrão caseiro… — Katsuki deu um sorriso ansioso na direção de Junko, torcendo para que ela aceitasse o convite totalmente improvisado. — O que acha de botar a mão na massa comigo, Jun-chan?!

Dos lábios ligeiramente pintados de vermelho a palavra "obrigada" se formou, acompanhada pelos olhos de tom carmesim brilhando em lágrimas de gratidão. O peito de Katsuki inchou de afeição ao ver a namorada tão vulnerável… A vontade dele era cruzar a pequena cozinha e enchê-la de beijos, intercalando-os com juras de amor eterno. Ao invés disso, Katsuki se agachou na frente de Junko e estendeu a mão.

— Você quer ajudar o tio Katsuki, minha filha? — perguntou Eijirō, deslizando os dedos de forma carinhosa pelos fios loiros úmidos do banho.

Os olhos de tom cinza encaravam Katsuki como se pudessem despir sua alma, perscrutando o rosto dele em busca de algo que Katsuki não saberia dizer… Ele manteve-se firme na postura, apesar do ombro começando a doer e o frio incômodo na barriga. Junko parecia travar uma batalha interna, ponderando se aceitava ou não a proposta apesar dos pesares. Katsuki torcia para que ela se decidisse logo, pois a expectativa estava beirando a aflição devido ao silêncio sufocante da menina para com ele desde a saída na escola.

Todavia, perante um par de olhos surpresos (e aliviados), os delicados dedinhos deslizavam pela palma calosa. Com uma genuína curiosidade aflorada no rosto infantil, Junko aceitou ajudá-lo a preparar o jantar.

O delicioso aroma de tomate e especiarias perfumavam o ambiente conforme Katsuki mexia a colher de madeira na panela ao fogo. Ele cozinhava com tanta maestria e fluidez, que se Eijirō não soubesse que o namorado era enfermeiro, certamente diria que ele era um grande chef de cozinha! E, de bônus, tinha uma assistente muito prestativa e interessada… Ao lado dele, olhando com bastante atenção cada um dos movimentos de Katsuki, estava Junko, sentada na bancada enquanto balançava as perninhas e gesticulava com as mãos em um bate-papo animado.

A animação da menina era palpável, não demorou muito tempo para que Junko começasse a se soltar e demonstrar entusiasmo para ajudar Katsuki na massa do macarrão caseiro. Talvez, na cabecinha dela, as coisas parecessem uma grande brincadeira, visto que Katsuki explicava tudo com admirável paciência e, às vezes, sujava Junko com farinha propositalmente enquanto ambos manipulavam juntos a massa.

Eijirō admirava os dois de onde estava sentada no sofá, bebericando o suco de laranja que trouxe consigo para a sala após ter sido expulsa da cozinha por Katsuki. De fato, ela não tinha os dotes culinários elevados como o namorado, e, sinceramente, nem era tão fã assim de cozinhar… Contudo, naquela noite, descobrira um novo hobby que com certeza colocaria em prática mais vezes: assistir Katsuki cozinhando. O homem já era um colírio aos olhos normalmente, mas, vê-lo tão concentrado ao cozinhar ou cortando algo na tábua nem mesmo olhando para o que fazia com as mãos… Uau, deixou Eijirō embasbacada e sem fôlego!

E claro que a cereja do bolo era o quão bem Katsuki estava fazendo para Junko com aquela atividade tão rotineira. A menina havia ficado verdadeiramente triste por Neito não ter ido à escola — além da ausência do pai durante as últimas semanas. A forma como o namorado vinha conquistando pouco a pouco a confiança de Junko aquecia o coração de Eijirō inexplicavelmente.

Sempre foi muito difícil abrir-se para um novo amor justamente por causa da filha, Eijirō tinha muito medo de se envolver com outra pessoa que pudesse causar algum mal-estar para a menina. Assim como nem todos os homens aceitavam uma mãe solteira como par romântico, afinal, Junko sempre seria a prioridade na vida de Eijirō.

O comportamento arisco e até o ciúmes de Junko para com Katsuki era algo que eles vinham trabalhando gradativamente. Era a segunda vez que Katsuki iria dormir na casa de Eijirō tendo Junko sob o mesmo teto; preferencialmente, Eijirō ficava as folgas nos finais de semana do namorado na casa dele quando Neito buscava a filha. Rara as ocasiões onde eles dormiam na casa dela, pois Mitsuki enchia o saco da nora para que ficasse com eles sempre que possível. Inclusive, o almoço para a sogra conhecer Junko já estava marcado.

Portanto, ouvir as gargalhadas de Junko sendo acompanhadas por um enorme sorriso orgulhoso no rosto de Katsuki enchia Eijirō de amor e gratidão. Ela era muito grata pelo namorado estar distraindo a filha de mais uma insípida ocasião onde Neito não havia aparecido; e nem apareceria, pelo visto, pois o cretino não respondeu Eijirō até o momento.

— MAMÃE, VEM JANTAR!

— SIM, SENHORA!

Eijirō foi recepcionada por um prato de macarrão ao molho de tomate caseiro assim que sentou na cadeira ao lado de Junko. Katsuki serviu um novo corpo de suco para ela, e com expectativas nos olhos dos outros dois, Eijirō enrolou o macarrão no garfo e comeu.

— Hmmmmmmmm… — Reprimindo um riso pelas expressões alheias, Eijirō pegou uma nova garfada somente para aumentar a tensão. Ela mastigou devagar, deliciando-se com o sabor tanto do macarrão quanto do molho feitos especialmente a quatro mãos. — Olha, vocês dois estão de parabéns. Isso aqui está gostoso pra caramba!

O clap ecoou pela cozinha quando Junko e Katsuki bateram as mãos no ar.

— Foi de improviso, mas fico feliz que tenha gostado, amor. — Eijirō ofereceu um sorriso de lábios fechados em resposta, a boca cheia demais para falar qualquer coisa sem cuspir comida na mesa. — Junko também foi uma ajudante importante. Espero que possamos cozinhar outras vezes juntos, Jun-chan.

— Sim, sim! Eu quero muito, tio Katsuki! — a menina respondeu, com a boquinha suja de molho. — Podemos fazer um bolo depois?

— Vou ficar te devendo porque não temos os materiais necessários, mas pode deixar que irei comprar e a gente com certeza fará o melhor bolo do mundo!

O sorriso de dentinhos pontiagudos destacou as covinhas nas bochechas roliças.

— Mamãe, o tio Katsuki pode dormir aqui hoje?

Os adultos trocaram um olhar extasiado.

— Você quer que ele durma, filha? — Junko acenou com veemência. — Bom… Então por que você não o convida, bebê?

— Tio Katsuki, você quer dormir comigo e com a mamãe hoje?

Pousando o garfo no prato, Katsuki deu um gole no suco antes de responder:

— Eu adoraria fazer companhia a vocês duas, Jun-chan!

《◇》

O silêncio recaiu sobre a casa logo após o jantar, o dia movimentado fora propício para o sono chegar com antecedência até a pequena Junko.

Surpreendendo aos adultos, assim que Eijirō ajudou a filha a escovar os dentes e preparou a cama da menina, Junko fez um novo pedido a Katsuki: que lesse um livro para ela dormir.

O pedido inesperado causou um sentimento agridoce em Katsuki, que prontamente pediu para Junko escolher uma historinha e ele leria assim que saísse do banho.

Embalada pelas vozes personificadas por Katsuki especialmente para “A Lebre e a Tartaruga” a pequena Junko adormeceu.

— Eu sei que a senhora está nos espionando da porta, Dona Eijirō… — entoou Katsuki, de modo que pudesse se fazer ouvir no corredor sem perturbar o sono de Junko.

A risadinha culpada embalou o beijinho de boa noite que Katsuki deixou na testa de Junko antes de apagar a luz e encostar a porta do quarto.

Eijirō o esperava no corredor com um sorriso nos lábios retocados de batom vermelho, o corpo dela envolto por um longo hobby de cetim vermelho que deixava à mostra a longa camisola rendada de mesma cor. Katsuki conseguia imaginar a minúscula calcinha que compunha a exuberância vermelha à frente… O fluxo sanguíneo dele concentrou-se entre as pernas, inchando o pênis dentro da cueca.

— Uau… Isso tudo é pra mim? — perguntou Katsuki, enquanto secava descaradamente a namorada.

— Uhum… — ronronou Eijirō, se aproximando dele com um brilho malicioso no olhar. — Você gostou, Suki?

O cheiro doce do creme hidratante que Eijirō usava para dormir embriagou os sentidos de Katsuki, que gemeu baixinho pelas promessas de prazer implícitas naquele visual instigante e delicioso pra caralho.

— Se isso aqui não responder a sua pergunta, Eiji… — Ele guiou a mão da namorada para o volume no short, fechando os dedos delicados sobre o pênis entumescido. — Eu tenho outras formas de respondê-la, querida… Só temos que sair deste corredor.

O tremor que perpassou o corpo esguio não passou despercebido por Katsuki.

Ele sorriu minimamente enquanto era guiado por Eijirō para o quarto dela, de onde a luz do abajur deixava o cômodo com uma iluminação intimista e construía uma atmosfera sensual e envolvente. Ali dentro o aroma de jasmim e quinoa era mais intenso, cada canto do quarto exalando o característico cheirinho gostoso de Eijirō. Katsuki apenas suspirou em apreciação por estar entre aquelas quatro paredes novamente.

De repente, a boca dele parecia muito seca após Eijirō trancar a porta e deslizar o hobby pelos braços desnudos. Os mamilos intumescidos despontaram no tecido feito dois botões que Katsuki estava louco para tocá-los… lambê-los e sugá-los…

— Eu sei que não te devo nada em troca pelas coisas que você fez por minha filha hoje, Katsuki — disse Eijirō, caminhando em direção onde ele estava sentado na cama de casal. — Mas obrigada por tê-la apoiado na apresentação… — Ela sentou-se no colo dele, o toque do cetim acariciando as coxas expostas de Katsuki. Eijirō apoiou as mãos nos ombros largos, deslizando os dedos pela costura da regata que ele vestia. — Obrigada por ter feito o papel de um verdadeiro pai para a minha Jun-chan, Suki.

Katsuki umedeceu os lábios, sentindo o peso de cada uma daquelas palavras.

Um dia ele seria digno de ser chamado por Junko daquela maneira… e Katsuki esperava ansiosamente pela concretização de tal sonho, assim como alguns outros que tinha em mente e envolviam Eijirō também.

— Acredite em mim quando digo que farei qualquer coisa para ver você e Junko felizes, Eiji… — Ele melhorou a posição da namorada acima do pênis duro sob o short, afundando os dedos na carne farta da bunda dela e deleitando-se com o arfar em resposta. — Eu te amo, Eijirō. Eu te amo pra caralho…

Uhm, Suki… — Eijirō suspirou sobre os lábios cheios, descansando a testa contra a dele enquanto acariciava os fios loiros da nuca exposta e causava um forte arrepio no corpo de Katsuki. Ela deu um risinho sacana ao sentir o pênis pulsar com o estímulo indireto. — Eu também amo você, meu amor.

Por fim, os lábios se encaixaram em um beijo repleto de paixão, carinho e… tesão.

Ambos embriagando-se no amor que nutriam um pelo outro; derramando através dos suspiros, toques e gemidos os sentimentos que palavras jamais seriam suficientes para descrever a intensidade de cada um deles. Os corpos unindo-se na esperança de um futuro próspero e duradouro enquanto escolhessem permanecer juntos; em família.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!