Resiliente
3 Capítulo II
Notas iniciais
Capítulo II
PRESENTE — SOPH
Soph estava em casa, relendo um de seus livros preferidos, o romance de Jane Austen que mais amava, Orgulho e Preconceito, enquanto escutava uma playlist romântica do Spotify.
Estava tão concentrada que a única coisa que conseguiu tirar sua atenção do livro foi a pressa de seu irmão ao passar pelo corredor, indo diretamente para o quarto dele, deixando-a preocupada, pois pelos poucos segundos que pôde ver seu rosto, ele parecia desesperado.
Já havia visto Adam daquele jeito e não gostava nada daquilo, parecia fora de si, como se sua vida dependesse do que ele iria fazer, e foi pensando nisso que a garota marcou a página em que havia parado a leitura, fechando rapidamente seu livro e seguiu atrás dele pelo amplo corredor branco, cheio de retratos emoldurados da família.
Ao pensar no irmão e em sua preocupação com seu atual estado, involuntariamente voltou seu olhar diretamente para uma das poucas fotos em que Adam se encontrava.
Os dois estavam abraçados, cada um com seu chapéu de Papai Noel, segurando presentes de natal, esbanjando felicidade. Soph se lembrava bem daquela data, o último natal em que a família tivera um pouco de paz, antes de a doença começar a afetá-lo de forma mais significativa.
Ela havia ganhado seu primeiro celular, enquanto ele ganhara um boneco articulado para pegar proporções, além de um estojo cheio dos mais variados tipo de canetas e um caderno com folhas pretas, tudo o que havia pedido para os pais no intuito de desenvolver melhor seu talento com desenho.
A garota lembrava-se de ter ficado extremamente feliz com seu presente, mas sua felicidade nem se comparava a do irmão, que sustentou o sorriso, de orelha a orelha, por semanas, enquanto testava novas técnicas e efeitos, pondo em prática seu lado perfeccionista até conseguir expor no papel algo similar ao que via em sua mente.
Depois daquele ano, a vida do rapaz havia sido repleta de recaídas, idas ao hospital, que o mantinham fora de casa por meses, visitas constantes ao doutor Kowalak e muitos exames, novos tratamentos, até que, finalmente, conseguiram encontrar um que, pelo menos até aquele momento, tinha funcionado.
Soph parou de andar e encarou a porta do quarto do irmão aberta, escancarada, deixando a vista as paredes azuis lá dentro, o que só deixava mais evidente a excentricidade da situação, pois desde o retorno do moreno para casa, tinha adquirido a mania de manter a porta fechada a todo instante.
Não eram poucas as vezes que a trancava ao sair do cômodo, com medo que qualquer um pudesse entrar e mexer em sua coleção de desenhos, que, apesar de o atormentarem, ele mantinha com imensa obstinação.
A garota respirou profundamente, não conseguindo sequer se lembrar da última vez em que ele tinha deixado ela, ou qualquer outra pessoa, adentrar seu espaço, tomou coragem e seguiu para dentro do cômodo.
Lá dentro Adam desenhava freneticamente, em uma velocidade fora dos padrões, sentado de frente para a escrivaninha de madeira clara, que combinava perfeitamente com o restante de seus móveis.
Não existia barulho algum no ambiente, a não ser por sua respiração pesada e o som do lápis passando pela folha, que logo foi substituída por outra.
Ela se aproximou, sem querer interromper sua nova crise artística, mas não se contendo em apenas ver de longe o que seu irmão fazia, tendo sua curiosidade e preocupação aumentadas a cada passo que dava para mais perto dele.
Soph praticamente podia sentir exalar do rapaz uma essência de pura aflição, tudo nele gritava a palavra descontrole e isso a assustava imensamente, mais do que ela gostaria de admitir para si mesma.
Ela olhou para o papel que ele havia colocado tão rapidamente de lado e novamente viu aqueles traços já tão conhecidos da mulher de sempre e externalizou seus pensamentos antes que pudesse se conter.
— Quem é você? — Assim que percebeu que havia falado, olhou amedrontada para o garoto ainda sentado e desenhando, agradecendo mentalmente por ele não ter acordado de seu transe.
Lembrava-se da última vez que aquilo acontecera, enquanto ele teve uma crise aparentemente tão forte quanto a atual, e não tinha boas recordações daquele dia, tendo clara em sua mente a imagem dele transtornado, completamente fora de si.
Ela sempre havia tido problemas para aceitar que seu irmão era louco, mesmo depois de presenciar várias de suas crises repentinas, que o faziam paralisar e o colocavam em um tipo de transe, no qual ele permanecia como um sonâmbulo, tendo algumas atitudes estranhas, além de espasmos involuntários de vez em quando.
Mas desde a primeira vez em que o presenciou perdendo completamente o controle, como se, de repente, a pessoa que conhecia não estivesse mais habitando aquele corpo e houvesse restado apenas o vazio de uma casca controlada por visões completamente aleatórias, ela começara a considerar aquilo como verdade.
Logo ele terminou mais um de seus desenhos e repetiu o processo de colocá-lo de lado rapidamente e iniciar outro. Ela também o pegou, analisando.
Aquele era diferente dos que já havia visto, não era de qualquer um dos símbolos e “personagens” que costumavam preencher o que quer que ele fizesse de “tela”, mas sim uma garotinha, não aparentando ter mais de dez anos de idade.
Seu rosto era angelical, delicado, não demonstrava nada de diferente a não ser um brilho quase lunático nos olhos, que era evidente mesmo em um desenho sem cores, e fez com que Soph recordasse dos olhos dos demônios da série Supernatural.
Soph colocou a folha em cima da outra e, enquanto ele se concentrava em desenhar mais, ela se deslocou até as diversas pastas pretas e grossas, ao lado direito da escrivaninha, perfeitamente organizadas em uma estante, também de madeira clara, separadas por datas.
A mais antiga e menor era de dezenove anos antes, ela a pegou com delicadeza apoiando-a no chão e sentando-se no piso frio, para poder analisar melhor seu conteúdo.
Os plásticos eram cheios de rabiscos, coisas de criança, a maioria não dava para entender muito bem do que se tratava, fazendo-a pensar no quão inacreditável era pensar que o próprio Adam havia desenhado aquilo, se repreendendo logo depois ao lembrar que ele deveria ter cinco anos na época e que ela mesma, nessa idade, tinha uma péssima coordenação motora.
Ela pegou mais uma das pastas, a do ano seguinte, repetindo a exploração, verificando que em pouco tempo ele tinha conseguido melhorar muito seus dotes artísticos e seu traçado já era muito mais inteligível.
Pensou no quão novo ele era quando aquilo tudo começara e tentou imaginar o motivo daquilo, como já tinha feito milhões de outras vezes, lembrando-se que o Dr. Kowalak havia dito que era bem provável que seus pais biológicos tivessem algum tipo de vício, que tivesse, em formação, o afetado.
Soph achava que realmente era uma boa aposta, já que eles não tinham prestado nem mesmo para deixa-lo em um lugar melhor do que na beira de uma estrada não muito movimentada, no meio da terra.
Não sabia como alguém seria capaz de fazer aquilo com um bebê, uma criatura tão pequena e indefesa, ainda mais com o próprio filho. Aquilo a fazia imaginar o quanto Adam havia sofrido durante toda sua vida, talvez desde o momento em que foi gerado, e quando finalmente conseguiu uma família, pessoas que o amassem, a doença vinda de sua mente o impediu de viver realmente, tornando-o prisioneiro da inconstância que se apoderava dele sem aviso prévio.

SELIK — PASSADO
O consultório da doutora Tarie era claramente um local projetado para passar a imagem de acolhedor, com suas paredes em um estilo mais rústico, sendo compostas por paralelepípedos de cor branca, três quadros de paisagens bucólicas penduradas, uma poltrona de couro na qual se encontrava a psicóloga, uma estante de jogos e livros e um sofá extremamente confortável, no qual Selik estava sentado.
Ele sabia que estava sendo analisado de forma profunda por aquela mulher à sua frente e odiava demasiadamente aquilo, não queria ser desvendado, muito menos reviver os acontecimentos do dia em que perdeu as irmãs, muito menos o momento em que encontrou sua mãe morta no chão do quarto, mas seu pai dizia que era necessário para que ele se recuperasse desses acontecimentos.
Talvez o problema estivesse exatamente naquela palavra. Recuperação. Era algo que o garoto não queria para si, não se sentia digno de seguir em frente, já que a culpa era, em grande parte, dele.
Não importava o que dissessem, ele simplesmente não conseguia se livrar da ideia de que, se não tivesse aceitado ir para fora brincar, Loralei não teria sido atacada pelo urso, Jhoanna não teria desaparecido e sua mãe então não teria se matado.
Nada o faria parar de pensar que, talvez, se ele pelo menos tivesse sido escolhido pelo animal, a irmã mais velha teria vivido e sido capaz de preencher o vazio que havia preenchido o coração da matriarca da família, afinal, ela sempre havia sido melhor em compreender as pessoas e em fazer com que elas se sentissem bem.
Ele ainda não conseguia lidar com aquilo tudo, com seus sentimentos conturbados, e as coisas só pioraram com mais esta perda, pois mais uma vez ele tinha sido impotente. Não conseguira salvar nenhuma delas.
Porém, depois de enfrentar três vezes o luto – já que a polícia depois de alguns meses havia desistido completamente de buscar sua irmã, dando a pequena como morta também – ele aprendeu a fingir, esconder, manipular as situações do dia-a-dia para não deixar transparecer sua dor e aquilo estava lhe sendo muito útil nos últimos tempos.
Mesmo assim, lá estava ele, na sua seção semanal de terapia, sendo obrigado a falar sobre coisas que ele preferia não reviver em lembranças tão vívidas como ainda eram, mesmo que tivesse se passado dois longos e difíceis anos desde o último óbito.
Aquilo só tinha um lado positivo, que consistia em ter feito Selik se educar na arte de atuar de tal forma, que estava conseguindo, inclusive, convencer a psicóloga de sua gradual melhora.
Algumas vezes ele mesmo, enquanto interpretava, se via acreditando que estava melhor, como se seu tormento interior tivesse dado uma trégua. Conseguia até se sentir bem, quase feliz por uns instantes, então ficava mais fácil desenvolver o papel de sociável na frente de todos e fingir ainda ter a jovialidade e vivacidade que todos costumavam ver nele antes das perdas que sofreu.
Porém, quando estava sozinho, era impossível mandar embora o remorso, o vazio, a sensação de que tudo o que tinha de bom dentro de si, amor, esperança, alegria de viver. Tudo isso havia ido embora junto com as três figuras femininas mais importantes de sua vida.
— Fico feliz que esteja conseguindo fazer novas amizades — comentou com um sorriso a mulher, assim que terminou de prender seus longos e castanhos cabelos.
— É, acho que estou conseguindo, finalmente, me adaptar aqui — o garoto respondeu prontamente, com um tom carregado de uma animação que não existia realmente dentro de si, forçando um sorriso aberto, dos que fazem os olhos ficarem menores, para parecer algo mais sincero.
— Isso é simplesmente maravilhoso, Selik — a doutora prosseguiu, parecendo estar deveras feliz com a notícia. — Se continuar assim, talvez consiga te liberar antes deste final de ano.
— Sério? — o garoto quis saber, dessa vez sem precisar forçar a euforia, pois quatro meses não eram nada em comparação com três anos de terapia.
— Sim, sei que está louco pra se livrar de mim, e com a evolução que teve nos últimos meses, saindo mais vezes do seu quarto, conversando com sua família, se permitindo conhecer pessoas novas, logo não vai mais precisar da minha ajuda.
A informação fez o sorriso do menino aumentar e ele nem mesmo tentou negar o fato de querer se libertar da terapia, afinal, seria inútil, já que ele tinha deixado claro por muitas vezes o quanto esperava se ver longe dali.
(...)
O pai de Selik exibia um sorriso no rosto desde o início do percurso de volta para casa e o garoto pôde perceber certo brilho em seus olhos, como há muito não via.
Ele sabia muito bem o que, naquele caso quem, estava lhe causando aquela felicidade e, ao mesmo tempo em que se sentia feliz por seu pai estar finalmente saindo com alguém depois de Donna, que ele tinha plena consciência de ter saído da vida do homem por sua causa, uma pontada de insegurança crescia em si.
Havia um tempo que seu pai vinha conversando com a mãe de outra paciente do consultório, que tinha sessão no mesmo horário que ele. Ela se chamava Liana, tinha cabelos curtos e negros, olhos mel, era bela, delicada e aparentemente estava interessada nele, assim como o ele nela.
Ela era extremamente simpática com o menino e até tinha tentado engatar uma amizade entre ele e a filha, que tinha apenas um ano de diferença dele, ainda que ambos tivessem resistido no início, conseguindo que se aproximassem minimamente depois de algumas semanas.
O garoto se sentia relativamente bem na presença dela, tinha a sensação de que ela seria boa para seu pai, mesmo assim ele não conseguia deixar de sentir medo do que viria pela frente caso aquele relacionamento fosse levado para frente.
Para ele, era como se ela, diferente de Donna, que o ignorou enquanto pôde, tivesse uma chance de trazer a sensação de lar de volta para sua vida, afinal, ela parecia ser carinhosa, o tipo de pessoa que trás alegria para os que estão à sua volta e ainda ganharia uma irmã.
E por mais que Selik ansiasse se sentir parte de uma família novamente, não conseguia se imaginar adaptado a uma situação daquelas, que envolvia uma mulher substituindo sua mãe e alguém tomando o lugar de Jhoanna e Loralei.
Não estava pronto para enfrentar aquilo, nunca estaria, pois só de cogitar aquela possibilidade, tinha a sensação de estar abandonando a única parte que restava delas, sacrificando suas lembranças, o amor que sentia por cada uma.
Por isso torcia para que a vida lhe concedesse pelo menos o desejo de que, caso acontecesse uma maior aproximação entre Liana e seu genitor, demorasse a maior quantidade de tempo possível.
Selik voltou então a analisar seu pai, se sentindo extremamente culpado por seus pensamentos egoístas. Ele não estava nem mesmo considerando realmente o bem-estar da única pessoa que lhe restava.
Isso o fazia pensar que sua avó talvez tivesse razão ao pensar que ele era apenas um peso para o filho dela, ao olhar para ele de maneira tão fria. Talvez não fosse apenas pelo fato de ela nunca ter gostado da mãe dele, mas também houvesse realmente algo de errado consigo, algo que impedia todos os que o cercavam de viver.
Havia tanto tempo que não via seu velho daquela forma, parecendo feliz de verdade, que não deveria simplesmente se esquecer dele e se preocupar apenas com o que aquilo significaria par si.
A verdade era que não o via sorrir tão abertamente desde meses antes de passarem por aquelas perdas todas, quando as brigas entre seus pais já tinham se tornado constantes.
Eles sempre pensavam que os filhos não escutariam suas discussões por tentarem ao máximo deixar tudo para a noite, depois de colocarem cada um para dormir, mas Selik sempre tivera problemas com o sono e isso colaborou para que escutasse várias delas, pelo menos naquele período.
E ele não era o único a prestar atenção nas conversas noturnas do casal, que muitas vezes começava em tom baixo e incompreensível e depois, com ambos já alterados, adquiria altura elevada.
Recordava-se de Loralei ter perguntado certa vez sobre quanto tempo ele achava que seus pais iriam ficar juntos ainda, poucos dias antes da decisão de se mudarem.
Aquela havia sido a forma que o casal encontrou para tentar se conciliar e voltar a ter uma vida feliz casados, mas não estava dando certo, por isso o pai mal saía do escritório, onde trabalhava e algumas vezes até dormia.
E sua mãe começou a se recolher dentro de si mesma, apenas fazendo os deveres que tinha com a casa e depois preferindo ficar sozinha em seu quarto, ou na varanda, ficando com as crianças apenas o tempo necessário, como nas refeições e algumas vezes quando pediam para fazer algo com ela, mas nunca quando esse algo exigia mais do que ficar apenas parada os observando.
Por isso, a maior parte do tempo ficavam sozinhos, o que fez com que o laço entre os irmãos crescesse e as brigas aumentassem entre ele e Loralei, que, muitas vezes, agia como se fosse responsável pelos mais novos, o que deixava Selik louco, pois entre os dois a diferença de idade era de apenas dois anos e ele jamais aceitaria ordens dela, mesmo que soubesse que a garota estava certa.
Assim que chegaram em casa, Selik correu para seu quarto, trancando-se ali, deitando-se e adormecendo só acordando para jantar, quando uma das empregadas bateu na porta, o chamando.
Seu pai já havia saído e provavelmente só apareceria no dia seguinte, então serviu-se e comeu em silêncio, sentindo a solidão com a qual estava acostumado.
Tão logo acabou sua comida, colocou o prato na mesa e seguiu novamente para o quarto, tendo em mente fazer algo que há muito tempo não fazia.
Não se deu nem o trabalho de trancar a porta, sabendo que ninguém iria incomodá-lo, e pegou a caixa debaixo da cama, que usava para guardar as coisas que faziam-no lembrar das irmãs e da mãe.
Sentou-se na cama e se concentrou nos vários álbuns da família, alguns de antes de Jhoanna nascer, havia neles fotos de quando eles todos eram felizes, de passeios, viagens, dias comuns, sorrisos sinceros.
Sentiu o tão conhecido e constante aperto no peito aumentar, provocando uma dor mais profunda do que qualquer dor física, libertando de uma vez os sentimentos que Selik escondia com tamanha maestria.
E como estava sozinho, deixou-se levar por aquilo, precisava se permitir sentir de verdade, sem fingimento, sem se limitar, mesmo que fosse desesperador e angustiante deixar tudo vir à tona de uma só vez.
Solidão. Saudade. Culpa. Abandono. Impotência. Esses eram alguns dos sentimentos que queimavam a garganta do garoto e resultavam em infindáveis lágrimas quentes, que momentaneamente aliviariam o pesado fardo retraído.
Quando já estava se sentindo mais leve, sentiu a necessidade de sair daquela casa, daquele quarto, se desintoxicar daquele lugar que, para ele, representava fisicamente seu próprio cárcere emocional.
Então se levantou de sua cama e seguiu até o guarda-roupa, pegou o primeiro casaco que viu, certificou-se de que seu celular estava no bolso e colocou junto dele um pouco do dinheiro da mesada, calçou seu tênis e saiu pelo já conhecido caminho clandestino.
Desceu através da janela do quarto, tomando cuidado para não fazer barulho ao caminhar pelo jardim da casa, já que, mesmo com seu pai fora, poderia ser pego pelos empregados da casa.
Selik caminhou em direção ao lado de fora do condomínio fechado em que morava, enquanto fazia a ligação necessária para pedir um taxi, passando por diversas casas gigantes e imponentes que se encontravam no local, não muito diferentes da que ousava chamar de lar.
Ao sair de lá, esperou por volta de dez minutos até que seu transporte chegasse e indicou um ponto específico do litoral para o taxista seguir, esperando paciente e silenciosamente a chegada.
Quando alcançaram o destino, pagou o motorista e saiu do carro, olhando a areia branca se encontrar com a água do mar e o céu, já tomado pelo azul escuro, não tendo absolutamente nenhuma nuvem.
Era lá que encontrava seu refúgio, a mesma praia em que passeavam quando era pequeno, em alguns fins de semana, na qual se divertiam todos juntos, sem preocupações, sem mortes, sem depressão.
A lua estava cheia, iluminando intensamente, e o ar soprava suave no rosto do garoto, num ritmo calmo, não condizente com as batidas aceleradas de seu coração e pensamentos.
Ele tirou os sapatos e andou para mais perto do mar, se sentando onde a água tocava seus pés na areia, fechando os olhos e podendo sentir o calor dela passar para si, reconfortando sua alma, tocando seu coração com certa calma, amenizando, por hora, seu tormento.
O espaço que foi liberado dentro de si foi tomado pela amargura ao pensar que aquele era o único toque de consolo com o qual poderia contar, porém, logo empurrou para o fundo de sua mente esse pensamento, querendo apenas aproveitar o tempo passado ali.
— Não me lembrava de quão bonito aqui era à noite — uma voz doce e serena ressoou ao seu lado, tirando-o de seu momento de contemplação e sobressaltando-o levemente.
Sua mente pareceu girar e mais do que depressa abriu seus olhos para olhar para a dona daquele timbre tão único e agradável, que ele não poderia deixar de reconhecer, mesmo que não levasse mais o mesmo ar pueril de que se lembrava.
Assim que virou sua cabeça e encontrou seus olhos azuis não pôde acreditar no que via, pensou que estivesse ficando louco, imaginando coisas, depois pensou que tivesse caído no sono e nem percebera, pois aquilo só poderia ser um sonho.
Então, temendo acordar sem aproveitar o reencontro, fitou a pequena, que não estava tão pequena assim, com seus cabelos alguns tons mais claros do que se lembrava e semblante despido da ingenuidade ainda tão característica dela na última vez em que se viram.
— Jhoanna. — Não sabia o que fazer, nem o que falar, então apenas sussurrou de forma carinhosa e saudosa o nome dela, querendo apenas que aquele momento não acabasse e que pudesse ficar ali com sua irmãzinha para sempre, para que pudesse matar a tão dolorida saudade em seu peito.
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