Resignação
1 Relaxa e...
Avenida Rubem Berta. O trânsito continua essa merda de sempre. Pouco menos de três quilômetros distante do aeroporto de Congonhas, pouco mais de cinco minutos atrasado. Olho para o relógio outra vez, desejando ver os ponteiros parados e os carros se movendo com pressa, o oposto do que acontece.
Relaxa e goza.
O rádio encerra sua transmissão habitual para dar as informações do cenário político brasileiro. A voz do Brasil. Aquele programa informativo e irritante; faço questão de desligar o aparelho de som. Todos sabem qual a situação desse nosso país; a única solução possível já foi dada há pelo menos dez anos. Em meio às confusões de outrora, a frase da então ministra e sexóloga traduzia de maneira perspicaz os meus sentimentos atuais quanto ao engarrafamento a ser enfrentado.
“Relaxa e goza, que você vai esquecer dos transtornos! ”
Hoje a frase tem um outro significado. Depois de metade de um ano longe, ele está voltando para casa. Sinceramente, eu que preferia poder me mudar para lá; os canadenses normalmente não ficam te olhando torto quando você sai de mãos dadas com outro homem na rua, não ficam te julgando pela opção sexual sem te conhecer. Mas nem mesmo ele podia ficar mais tempo, já que o visto dele é de turismo.
A alegria em poder revê-lo depois de tanto tempo faz com que eu me esqueça de todos os problemas, inclusive o idiota buzinando no carro atrás do meu.
Relaxa e goza, eu repetia como um mantra. O que mais eu podia fazer? Me estressar? Não, essa eu deixo passar.
O motivo do trânsito fora do normal se revelou cruzando a Bandeirantes. Mais um acidente. Não sei por que ainda me surpreendo, para falar a verdade. Sete e quinze. Imagino que ele já tenha desembarcado, talvez até me esperando. Eu falei que iria buscá-lo, então com certeza ele não vai sair de lá sem mim. Até porque ninguém mais faria isso por ele, afinal já tem vinte e seis anos e sabe se virar muito bem sozinho.
Espero que ele não se chateie com meu atraso. Pode ter passado os últimos meses longe, mas não deve ter se esquecido de como são as coisas nesse meu Brasil…
Relaxa e goza…
Enfim, cheguei. Passam das sete e meia. Estranhando não ter recebido uma ligação dele a essa altura, me vejo obrigado a guardar meu carro no estacionamento. Um mico-leão dourado fugiu de minha carteira após descer do carro, só piorando o meu humor
Relaxa e goza…
Três minutos de caminhada e estou dentro do aeroporto. Mais cinco minutos procurando por ele, sendo que a informação que eu procurava estava estampada no monitor. O voo vindo de Vancouver para o Rio de Janeiro havia se decorrido sem transtorno, mas a aeronave que sairia de lá para São Paulo teve problemas e atrasou. Não sei por que diabos eles o colocaram em um avião que faria escala em Belo Horizonte se o percurso pela ponte aérea é realizado na metade do tempo. Estou prestes a explodir de raiva.
Relaxa e goza…
Eu não consigo mais relaxar. Se eu me recordo bem, aquela vaca disse essa frase justamente para descrever uma crise aérea. Uma incompetente dizendo que nada podia ser feito para resolver os constantes atrasos e cancelamentos de voos. Uns idiotas nos órgãos administrativos dos aeroportos fazendo absolutamente nada para sanar os problemas. Um bando de controladores de voo estúpidos, incapazes de fazer seu trabalho de maneira decente.
Começo a tremer. Vai que acontece alguma coisa no voo dele. Bato na madeira da mesa aonde me sento, tomando uma cerveja para tentar me acalmar. Sem muito sucesso.
Relaxa e goza…
Não, só vou conseguir relaxar quando ele estiver em solo, do meu lado. Quando houver certeza de que nada de errado pode acontecer. Eu sei que não tem escapatória para a falta de segurança, mas ainda considero São Paulo um bom lugar para se viver nesse aspecto. Bela Vista é um bairro muito bom de se morar e, se boa parte do meu salário vai no aluguel do cubículo, a relativa segurança e a proximidade do meu trabalho compensam. Raramente tiro o carro da garagem tendo uma estação do metrô não distante de casa.
É, talvez pensando em coisas boas eu me sinta melhor…
Relaxa e goza…
Depois de me perder nos devaneios por um instante, volto a olhar para o monitor. O avião está prestes a pousar. Oito e dez da noite. Temos tempo de sobra. Podemos dar uma volta, comer alguma coisa lá pelos Jardins, ou então se contentar com uma porção de frango e uns chopes no Outback e esticar no cinema depois. Eu não ganho tão bem, mas se não puder fazer uma extravagância nesses momentos, para que serve o dinheiro então?
E, de repente, eu o vejo ao longe. Ele não me vê, preocupado com a bagagem. Imagino que todo o procedimento de alfândega deve ter se resolvido na escala que ele fez no Rio; percebo a tranquilidade no rosto dele à distância. O cansaço vem acompanhado, contudo. É uma viagem longa, afinal.
Relaxa e goza…
Me sinto leve. Apesar dos pesares, tudo correu bem. Não leva mais de dois minutos para ele encontrar a grande mala em meio a tantas bagagens na esteira; um momento de sorte. Logo em seguida ele me vê e dá um breve aceno. Retribuo. Ele não mudou em nada.
Tenho vontade de correr até ele, apertá-lo de toda forma. Talvez ele pense o mesmo, apressando-se apesar de seus pertences o impedirem de vir mais rápido. Não importa. O abraço logo chega.
Como eu senti falta daquele calor.
— Meu amor! — sussurrou ele em meu ouvido, a voz carregada com o sotaque adquirido após tanto praticar ambos os idiomas locais.
— Eu senti tanto sua falta! — respondi.
Uns dois minutos devem ter se passado sem nos afastarmos daquele abraço. Seis meses é muito tempo.
— Quer dar uma volta? — perguntei despreocupado.
— Vamos pra casa, estou acabado. Worn out. Fourbu. — ele me respondeu, enfatizando em três idiomas distintos o mesmo sentimento.
— Tá bom, eu peço alguma coisa. Quer comer o quê?
— Você! — ele deu um sorriso maldoso. Aquele sorriso que me fez me apaixonar por ele.
Fomos para o carro, já sabendo como a noite iria terminar. Um resto de pizza jogado em cima da mesa, nós dois deitados na cama, as roupas no chão e ele sussurrando ao meu ouvido.
Relaxa e goza!
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