Capítulo 10

Planta 42.

De frente para Jill havia uma enorme planta mutante, que praticamente dominava toda a sala. Sua raiz estava oculta entre inúmeros, compridos e grossos tentáculos verdes, que se mexiam freneticamente como se aquilo fosse um polvo e não um vegetal. No teto estava o ápice da monstruosa planta: uma esfera roxa e pulsante, de onde partiam os tentáculos.

Horrorizada, Jill lembrou-se do relatório que Barry lhe mostrara há alguns minutos, sobre a “Planta 42”. Agora a membro do S.T.A.R.S. a encarava, e não sabia ao certo como agir.

Mas aquele monstro não esperou até que Jill pensasse numa estratégia de ataque eficaz. Ele lançou seus tentáculos na direção da policial, que se esquivou rapidamente. Mesmo sabendo que aquilo não surtiria efeito algum, Jill mirou com sua Beretta e começou a atirar contra a planta, tentando atingir a esfera roxa em sua extremidade superior.

Como a jovem pensara, aquela tática era inútil. A terrível planta lançou novamente seus tentáculos sobre Jill, e um deles agarrou seu braço direito. A policial lutou para se libertar, mas a força exercida pelo vegetal era muito grande. Valentine tirou sua faca do cinto e, num forte e ágil golpe, cortou o tentáculo que a aprisionava. Sua Beretta, porém, acabou escapando de sua mão, e em seguida deslizou pelo chão na direção da planta, desaparecendo entre seus tentáculos.

Jill estava livre, mas agora em situação muito pior. Enquanto ela arrancava do braço o que restara do tentáculo da Planta 42, viu que o monstro preparava novo ataque, e ela tinha apenas sua faca para se defender.

A policial cerrou os dentes, e golpeou com a faca o tentáculo mais próximo. Desta vez Jill não teve sorte: o alvo se desviou rapidamente do ataque, e a jovem sentiu algo lhe apertando fortemente o ventre. Olhando para baixo, viu que um outro tentáculo havia envolvido seu abdômen, e agora a erguia do chão.

A integrante do S.T.A.R.S. não se deu por vencida: começou a esfaquear o membro da planta, mas o tentáculo não a soltava, e a pressão exercida era cada vez maior. Jill sentiu dificuldade em respirar, e, sem forças, acabou deixando sua faca cair. Quando ouviu o som da arma despencando sobre o assoalho da sala, a policial percebeu que estava perdida.

– Socorro! – gritou Valentine, sentindo dor e medo.

Jill estava suspensa à cerca de dois metros do chão. Ao seu redor, os demais tentáculos da planta serpenteavam num balé homicida. Ela lembrou-se do relatório, e também de qual era a principal fonte de alimento da Planta 42, segundo Henry Sarton: o sangue das vítimas.

– Não! – berrou Jill, quase chorando, enquanto os tentáculos se aproximavam de seu corpo. – Socorro!

Era o fim. Ela gostaria ao menos de dizer a Chris o quanto o amava, antes de morrer...

Foi quando uma porta ao lado daquela que Jill havia cruzado, dupla, se abriu.

De relance, Jill consegue ver um homem que aparenta ter trinta anos, usando jaleco de laboratório, de pé enquanto contempla a Planta 42. Valentine não ligava para quem aquele indivíduo poderia ser. Mesmo se ele trabalhasse para a Umbrella, era uma pessoa capaz de ajudá-la.

– Hei, aqui! – gritou Jill, movendo os braços. – Socorro!

Ela viu o homem lhe fitar por alguns instantes, coçando o queixo. O que ele estava esperando? Em poucos segundos aquela coisa sugaria o sangue de Jill como um vampiro!

O sujeito sacou uma arma. Apesar da escuridão da sala, Jill percebeu que era um revólver Magnum. Depois, o provável cientista acoplou algo ao cano da arma que lembrava um silenciador. Por fim, ele mirou para cima, na direção da esfera roxa que controlava os tentáculos do monstro. Valentine sentiu um deles tocar seu rosto, e fechou os olhos.

A Magnum disparou, mas o som do tiro soou um tanto estranho para Jill.

De repente, a policial percebeu que o tentáculo que envolvia seu abdômen a prendia com força menor. Jill abriu os olhos e, enquanto voltava a respirar normalmente, viu que os tentáculos da Planta 42 moviam-se de forma diferente. Eles pareciam agonizar, em meio a um som borbulhante.

Sem mais nem menos, o tentáculo soltou Jill, que caiu sentada sobre o tapete da sala. Ela recuou alguns passos na direção do homem, que observava o fim do monstro com um sorriso: toda a planta mudou de cor, seus tentáculos desfaleceram, e a grande esfera roxa caiu do teto, derretendo sobre os restos do vegetal, enquanto uma espécie de ácido abria um buraco no assoalho.

Jill olhou para seu salvador que, fitando-a, murmurou:

– Um dardo de V-JOLT... Sabia que iria funcionar!

– Quem é você?

O homem de jaleco arregalou os olhos e, num movimento rápido, deixou a sala por onde entrou. Jill viu-se sozinha mais uma vez, tendo em mente mil perguntas que gostaria de fazer àquele sujeito. Porém, não o perseguiu. De alguma maneira, ela sabia que voltaria a encontrá-lo antes de deixar aquele lugar.

Após um suspiro, a jovem apanhou sua faca, intacta sobre o chão. Em seguida, caminhou até a borda do buraco feito pelo ácido da Planta 42. Era bem grande, e através dele era possível acessar uma sala subterrânea, alagada, onde havia algo como uma mesa de reuniões.

– Deve ser esse o tal laboratório... – murmurou a policial. – Mas preciso de uma arma!

De fato, sua Beretta não existia mais, e ela não iria muito longe apenas com uma faca. Mesmo assim, Jill abaixou-se à borda do buraco e, decidida, saltou pela abertura.

Após cruzar o frio e úmido corredor, Wesker desceu por uma pequena rampa e suas calças foram encharcadas pela água que havia inundado aquela parte do complexo. O capitão do S.T.A.R.S. pensou no enorme prejuízo para a Umbrella devido àquele incidente: equipamentos destruídos, brilhantes pesquisadores transformados em zumbis carniceiros sem qualquer ego, e ainda por cima o risco do vírus atingir a parte urbana de Raccoon City, onde a companhia possuía inúmeras instalações. Realmente, aquilo era um irremediável desastre para Spencer e a família Ashford.

Wesker, com certo receio, tocou a maçaneta da porta que o levaria até a área onde os Neptune estavam sendo desenvolvidos. Ele tinha noção do perigo que aquele setor representava, mas o único meio de abrir as jaulas dos MA-121 era através do painel de controle situado numa das salas daquele subsolo. Sem eles à solta, os dados de combate dos mutantes ficariam incompletos.

Albert cruzou a porta, e viu-se numa área quadrangular, onde, no centro, estava situado o tanque de cultivo dos Neptune. A água chegava até sua cintura, o que tornava impossível correr. Teria que evitar os mutantes a qualquer custo, mesmo com tal desvantagem.

O capitão do S.T.A.R.S. seguiu em frente, ignorando uma porta enquanto contornava o tanque. Nenhum sinal dos Neptune. Wesker ficou apreensivo.

Súbito, um vulto surge de uma curva do corredor, sob a água, bem à frente da porta que Wesker pretendia alcançar.

Com sua Desert Eagle em mãos, Albert tenta mover-se de forma mais rápida, enquanto uma barbatana surge de dentro d’água, assim como nos famosos filmes de Steven Spielberg. Os Neptune eram tubarões assassinos criados através do T-Virus, e um deles estava a caminho de Wesker...

A porta não estava tão longe, mas o capitão não seria capaz de alcançá-la a tempo. Wesker apenas parou e mirou na barbatana, enquanto, para seu espanto, outros dois vultos, menores, surgiam pelo outro lado. Estava cercado.

Mas, quando Albert pensou serem aqueles seus últimos momentos, ouviu um som mecânico. Ele olhou mais uma vez para os dois tubarões menores se aproximando por um dos lados do corredor, e percebeu que o nível da água estava baixando. Ela estava sendo drenada.

Em questão de segundos, a água batia nos calcanhares de Wesker, e os três tubarões, que por pouco não haviam conseguido alcançar o capitão, começaram a saltar sobre o chão molhado do corredor, como inofensivos peixinhos retirados do aquário. Albert sorriu, mas aquilo significava uma coisa: alguém havia acionado a drenagem do setor através do mesmo painel de controle que Wesker precisava operar.

Súbito, a porta que o capitão do S.T.A.R.S. pretendia cruzar se abriu, e Wesker instintivamente apontou a Desert Eagle na direção do barulho.

– Capitão, não atire! – exclamou uma voz que Wesker conhecia muito bem. – Sou eu, Jill!

Albert deu um sorriso sem graça, tentando ocultar sua raiva, e baixou a pistola. Como sempre, os S.T.A.R.S. justiceiros interferindo em seus planos...

– Jill! – disse Wesker, caminhando na direção da jovem. – Então você está segura!

– Sim, eu e Barry viemos para este lugar, e também encontramos Enrico. Há pouco descobri este subsolo, e usei uma chave que havia encontrado para destrancar aquela sala e drenar a água, aniquilando os tubarões!

– Meu Deus... A Umbrella realmente criou monstros terríveis nesta propriedade... Obrigado, Jill. Se não fosse você, acabaria sendo devorado por aquelas coisas!

A voz de Albert não demonstrava muita gratidão. Jill observou brevemente os tubarões saltando à beira da morte. Em seguida, perguntou a Wesker:

– Então você já sabe que a Umbrella causou tudo isto?

– Sim, encontrei alguns documentos bem comprometedores – respondeu o capitão, ajeitando os óculos escuros. – De qualquer maneira, escute-me bem. Ainda há inúmeros mutantes circulando pela área, e nossa munição é limitada. Nós não podemos proteger nem a nós mesmos. Quero que você suba de volta e encontre Barry e Enrico. Depois, dirijam-se para o jardim, e aguardem novas ordens!

– Entendido! Vou subir, encontrar os rapazes e tentar assegurar nossa rota de fuga!

– Você faria isso? Estou contando com você!

Wesker virou-se e entrou na sala da qual Jill acabara de sair. A jovem bateu continência e seguiu pela direção oposta. Havia algo de errado com o capitão. Ele estava estranho...

Barry cruzou o enferrujado portão, e viu-se novamente no pátio onde havia uma queda d’água, em meio aos corpos dos cães mutantes que ele e Jill haviam aniquilado. O pai de família achou que seria bom sair para tomar um pouco de ar fresco, mas a brisa da madrugada era fria e mórbida, e fazia apenas com que Burton lembrasse de seus companheiros mortos. Barry deu alguns passos, pensando em voltar à mansão, porém, subitamente, ouviu alguém engatilhar uma arma atrás de si.

– Mas o quê? – exclamou o membro do S.T.A.R.S., virando-se na direção do som pronto para atirar com sua Magnum.

– É melhor não tentar reagir, Barry! – sorriu Enrico Marini, com o cano da bazuca que segurava encostado na barriga de Burton. – Já sei de tudo! Você e Wesker estão trabalhando para a Umbrella! Seus miseráveis! Nossos companheiros morreram por causa desse jogo sujo de vocês!

– Acalme-se, Enrico... – suspirou Barry, sem abaixar sua arma. – Posso explicar tudo!

– E eu pensei que você fosse uma pessoa honesta... Quanto receberá da Umbrella por este serviço? Alguns milhares de dólares?

Nisso, a conversa dos dois foi interrompida por um estranho barulho vindo da queda d’água. Pareciam passos. Logo um vulto surgiu da cachoeira, corcunda, se aproximando lentamente. Barry e Enrico apontaram suas armas para o provável mutante.

– O que é aquilo? – perguntou Marini.

– Não sei! Wesker me pressionou a auxiliá-lo, Enrico! Estou tão surpreso com este lugar quanto você!

O monstro, então, pôde ser visto com nitidez pelos dois policiais: tratava-se de um humanóide parecido com um réptil, corpo coberto de escamas verdes. Sua boca possuía dentes afiados, e cortantes garras podiam ser vistas em suas mãos e pés.

A aberração soltou um grito estridente, e avançou na direção de Barry e Enrico. O primeiro disparou com a Magnum, mas o monstro não parou, atacando Marini antes que este pudesse usar a bazuca. As garras do mutante penetraram no abdômen do líder do Bravo Team, que soltou um grito de dor. Quando a criatura estava prestes a desferir um novo golpe contra Enrico, desta vez para arrancar sua cabeça, Burton atirou mais uma vez, e o monstro caiu morto, aos berros.

– Enrico, você está bem?

Marini sentou-se sobre o chão do pátio, mordendo os lábios, uma de suas mãos cobrindo o ferimento causado pelo mutante. Sangue escorria sobre o concreto.

– Eu ficarei bem...

Após dizer isso, a visão de Enrico começou a sumir, e vencido pela dor e cansaço, o líder do Bravo Team caiu desmaiado.

– Droga... – murmurou Barry, abaixando-se ao lado do amigo enquanto examinava a gravidade do ferimento. – Não posso deixá-lo aqui inconsciente!

– Mas terá que deixar! – exclamou alguém atrás de Barry.

Burton virou-se. Lá estava Wesker, ameaçador como sempre. Ele caminhou até Barry, olhando para o cadáver do monstro.

– Como você pode ver, eu acabei de soltar os MA-121 – explicou o capitão do S.T.A.R.S. – A partir de agora, nenhum lugar neste complexo é seguro. Esses mutantes são verdadeiros caçadores!

De fato, os MA-121, apelidados de “Hunters” pelos pesquisadores, eram exímios caçadores, criados pelo doutor William Birkin, gênio da Umbrella, com o objetivo de eliminar aqueles que por algum motivo não fossem infectados pelo T-Virus em caso de uma guerra biológica.

– Como vocês criaram essas aberrações?

– DNA humano mais DNA réptil, além do T-Virus – respondeu Wesker. – Valentine ainda está na casa dos fundos, e Chris e Rebecca provavelmente já morreram dentro da mansão! É nossa chance de chegar ao laboratório e completar os objetivos que restam!

– Você encontrou a bateria?

– Sim, está aqui. Com ela poderemos suprir a energia daquele outro elevador, subir por ele, interromper o fluxo d’água e descer pela abertura ocultada pela cachoeira. Vamos, não temos muito tempo!

– Wesker, apenas mais uma coisa...

– Sim?

– Você contatou os assassinos da Umbrella que estão vigiando minha família? Elas ficarão bem?

O capitão do S.T.A.R.S. deu um sorriso sádico e respondeu:

– Elas ficarão bem se você cumprir minhas ordens até o fim, entendido?

– Sim.

– Ótimo. Vamos!

Barry seguiu Wesker até o elevador, desejando em seu íntimo que o superior fosse decapitado por uma daquelas horrendas criaturas que ajudara a criar.

Capítulo 11

Caçadores e presa.

Chris e Rebecca, apreensivos, entraram na salinha do segundo andar da mansão, onde havia uma lareira e, felizmente, nenhum monstro. Os dois integrantes do S.T.A.R.S. respiraram fundo, e viram que existia outra porta no cômodo, além daquela que haviam acabado de cruzar.

Redfield olhou para a jovem, e sem que o rapaz precisasse dizer nada, Rebecca assentiu com a cabeça. Chris caminhou até a porta e, vendo que estava trancada, usou a chave que havia encontrado na banheira para abrir caminho. O policial girou a maçaneta e caminhou para dentro da nova sala, seguido por Chambers.

O lugar era uma espécie de sala de estar, piso xadrez, possuindo também uma lareira. Havia bonitos quadros nas paredes e, junto a estas, confortáveis cadeiras ao lado de pequenas mesas. Num dos cantos do cômodo havia um piano azul-escuro, em cuja direção Rebecca seguiu.

Chris ficou parado no meio da sala, admirando o ambiente, enquanto Chambers examinava as teclas do piano. Lembrou-se da passagem secreta no primeiro andar, revelada quando a jovem tocou “Moonlight Sonata” num piano aparentemente ordinário, e pensou que talvez aquele instrumento fosse a chave para mais um enigma daquela casa.

Sem compromisso, Rebecca pressionou algumas teclas do piano, e o som atraiu a atenção de Chris. O rapaz olhou para a jovem, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, um barulho diferente invadiu a sala.

Súbito, uma criatura abominável surgiu pelo buraco da lareira, colocando sua cabeça para fora: era uma cobra enorme, dentes afiados, que rastejou para dentro da sala de estar, emitindo sons répteis.

– Rebecca! – gritou Chris.

A cobra gigante, de costas para o rapaz, encurralava a perplexa Rebecca junto ao piano. Mulher e animal se encararam por um instante, imóveis, e a cobra lançou sua cabeça com o intuito de abocanhar Chambers. Esta, numa cambalhota, esquivou-se do ataque, e os dentes do monstro afundaram no chão. Quando a cobra ergueu novamente a cabeça, tinha um grande pedaço do piso na boca, que esmagou através de sua poderosa mandíbula.

Chris mirou com sua espingarda na direção do réptil mutante e disparou, enquanto Rebecca, assustada, corria na direção do policial. As balas atingiram a garganta da cobra, que soltou um berro, enquanto sangue roxo escorria sobre o chão xadrez. Chambers sacou sua pistola e também atirava no monstro, que se aproximou dos dois.

– Morra, sua aberração! – gritou Chris, enquanto a calibre 12 cuspia fogo como um dragão.

Os disparos perfuravam o mutante, que era tomado por fúria cada vez maior. A cobra investiu novamente, tentando desta vez engolir Chris, mas este foi rápido e esquivou-se num salto. Nesse instante, Redfield percebeu que havia um ferimento na cabeça do réptil que não fora provocado por ele e Rebecca, e, cerrando os dentes, apontou a espingarda na direção do achado. No momento em que o monstro encurralava Rebecca junto a uma parede, Chris disparou...

As balas atingiram o ferimento em cheio, e a cobra soltou um berro agonizante, seu corpo perdeu as forças. Chris e Rebecca recuaram, enquanto o cadáver do mutante derretia sobre uma poça de sangue roxo.

– Rebecca, venha ver isto! – disse Redfield, caminhando na direção do piano que a jovem examinara.

Chambers se aproximou, e viu que Chris estava abaixado à borda do escuro buraco feito pela cobra quando esta abocanhara um pedaço do piso.

– Um buraco? – indagou Rebecca.

– Sim... Parece fundo, mas está escuro e não consigo enxergar direito...

– Eu tenho uma corda aqui, Chris! – sorriu a jovem. – Quando o helicóptero caiu, eu a trouxe achando que talvez precisássemos!

– Você pode pendurar a corda na borda do buraco para que eu desça?

– Sim senhor! – respondeu Rebecca, batendo continência.

Brad, trêmulo, observava através do vidro do helicóptero o sargento Peyton Wells, que caminhava pelo matagal onde o piloto havia abandonado o Alpha Team. Para assegurar que o “coração de galinha” não decolasse sozinho, Peyton havia instalado um explosivo C-4 na cabine da aeronave, e o detonaria caso ouvisse o som de hélices girando.

Após mais alguns passos, o sargento encontrou algo em meio à vegetação. Era um cadáver totalmente dilacerado. Olhando mais atentamente, Wells percebeu que havia pedaços dele por toda parte. Aquele era Kevin, co-piloto do Bravo Team.

– Meu Deus... – murmurou Peyton, tomado por repentino enjôo.

Horrorizado, o sargento pegou seu rádio e tentou mais uma vez contatar os companheiros. Eles tinham que estar vivos!

Jill cruzou a porta de madeira, sentindo a gélida brisa da madrugada atingir seu rosto. Após procurar por Barry e Enrico em quase toda a casa dos fundos, a jovem resolveu voltar à área externa em busca dos companheiros. Assim que deu alguns passos sobre o concreto, Valentine ouviu um “bip”.

– O rádio!

A policial apanhou rapidamente o aparelho, enquanto uma voz exclamava, abafada pela estática:

– Aqui é o sargento Peyton Wells! Alpha Team, responda! Repito, aqui é Peyton Wells! Responda Alpha Team, pelo amor de Deus!

Valentine apertou um pequeno botão no rádio, e respondeu:

– Aqui é Jill Valentine, Alpha Team! Peyton, você está me ouvindo?

Após breve silêncio, a voz de Wells surgiu novamente no aparelho:

– Alpha Team! Aqui é o sargento Wells! Alguém me escuta?

Jill desistiu e, guardando o rádio, gritou, irritada:

– Droga! Está quebrado!

A jovem seguiu em frente, perguntando-se se ela e os outros conseguiriam escapar vivos daquele pesadelo. E Chris, estaria bem? Jill lembrou-se de quando fora visitar o pai na prisão, três anos antes, e ele a aconselhara a seguir carreira policial. No início Valentine achara aquilo uma piada, não sabia como uma ex-ladra poderia ingressar na polícia, mas sua habilidade em destrancar fechaduras mostrou-se útil aos S.T.A.R.S., e ela passou a fazer parte do Alpha Team em Raccoon City. Nunca imaginara que enfrentaria algo tão terrível quanto estava sendo aquela noite...

Jill cruzou o portão enferrujado e ganhou o pátio onde ela e Barry haviam eliminado alguns daqueles cães sem pele. Seus corpos ainda se encontravam lá, mas algo estava diferente. A policial percebeu que não havia mais queda d’água, e no lugar onde ficava a cachoeira era possível ver uma abertura no chão, com uma escada de metal. Além disso, sobre o concreto do pátio havia uma poça de sangue próxima a uma bazuca.

Valentine perguntou-se a quem pertenceria aquela arma e, como possuía apenas uma faca, apanhou o achado. Em seguida, caminhou na direção da abertura antes ocultada pela queda d’água. Seu escuro interior era um verdadeiro mistério, o qual a policial pretendia desvendar.

Com tal determinação, Jill desceu pela escada, suas mãos agarrando firmemente os frios degraus.

As botas de Chris tocaram o chão, e ele soltou a corda. A área secreta era pequena e estreita, possuindo chão de terra, paredes de pedra e, de frente para Redfield, a lápide de um túmulo. O atirador se aproximou para ler o que estava escrito nela: “George Trevor: 1920-1967”.

Chris, então, notou que havia um pequeno botão num dos lados da lápide, quase imperceptível. Ele o pressionou, fazendo com que a pedra sobre o túmulo se movesse, revelando uma abertura com uma escada de metal. Mais uma passagem secreta.

– Rebecca! – gritou Redfield, olhando para cima.

– Sim? – respondeu Chambers, à beira do buraco.

– Encontrei uma passagem secreta, e vou descer para averiguar! Espere aí em cima, se estiver segura eu chamo você!

– OK!

O membro do S.T.A.R.S. começou a descer pela escada, agarrando os degraus com apreensão. Logo que concluiu a descida, Chris percebeu que estava num corredor subterrâneo, de paredes, chão e teto de concreto. Aparentemente não havia sinal de vida, mas após alguns passos, o policial ouviu um estranho som.

Era um grito, de fazer doer os ouvidos. Instintivamente, Chris apontou sua espingarda, notando que havia uma extensão do corredor para a direita. Foi dessa direção que surgiu uma estranha criatura, verde, de aparência réptil, garras e dentes afiados.

– Quê? – espantou-se o atirador.

O monstro, ao notar Chris, veio correndo em sua direção preparando um golpe com suas garras. Redfield, porém, foi mais rápido ao disparar com a espingarda, fazendo a bizarra criatura cair para trás, ainda respirando.

– Mas que diabos!

O mutante se levantou, ainda mais enfurecido. Gritando, saltou na direção de Chris, suas garras tendo como alvo o pescoço do jovem. Agilmente, o rapaz acertou o monstro no ar, fazendo com que caísse a seus pés, agonizante.

– Que coisa é essa, afinal? – indagou Chris, fitando a criatura moribunda, que respirava com dificuldade.

Cauteloso, Redfield prosseguiu pelo corredor, pronto para atirar em qualquer coisa que se movesse. Para seu espanto, ao passar em frente à extensão do caminho de onde saíra o mutante, Chris ouviu outro grito.

– Oh, não!

Antes que pudesse reagir, outro monstro verde o atacou, saltando sobre seu corpo. Chris foi derrubado no chão, enquanto a criatura, raivosa, tentava cravar suas garras no rosto do policial. Ele procurava com todas as forças livrar-se daquela aberração, mas ela era muito forte. Quando Redfield estava prestes a ceder, porém, ouviu-se um tiro.

O monstro soltou um berro altíssimo, e caiu de lado, morto. Um pouco do sangue da criatura sujou o uniforme de Chris, que se levantou, confuso. Olhando para a passagem, o rapaz viu um homem de jaleco lhe apontando um revólver Magnum.

– Não atire! – gritou o jovem.

– Você é um dos S.T.A.R.S., não? – perguntou o misterioso sujeito.

– Sim, mas quem é você?

– Meu nome é John, John Howe. Eu trabalhava aqui.

O homem abaixou a arma. Olhando para o chão, explicou, num suspiro:

– Nós desenvolvíamos pesquisas ilegais neste lugar. Armas biológicas. Mas houve um acidente no laboratório, há pouco mais de dois meses. Perdemos toda a equipe.

– Eles se transformaram em zumbis, não?

– Sim, o T-Virus é um retrovírus capaz de reviver células mortas. Porém, os seres reanimados por ele apresentam atividade cerebral mínima, suficiente apenas para que eles sobrevivam seguindo seus instintos...

– E isso inclui se alimentarem...

– Exato. O corpo continua em estado de putrefação, mas eles vagam por aí, em busca de carne fresca, exatamente como num filme de terror...

– Este lugar precisa ser destruído de alguma maneira, para deter a infecção!

– Nós podemos fazer isso através do sistema de autodestruição...

– Autodestruição? Existe um sistema de autodestruição?

– Sim. A Umbrella equipou todos os seus laboratórios secretos com sistemas de autodestruição, para destruir provas que a incriminassem, se necessário. Há bombas incendiárias enterradas por toda esta propriedade. Nós precisaríamos apenas ativar a contagem regressiva, na sala de energia do laboratório...

– Como podemos chegar ao laboratório?

– Através de um trajeto que tem início neste setor. Você está com alguém?

– Minha companheira ficou lá em cima!

– Vá buscá-la, levarei vocês até o laboratório. Há algo que precisam saber...

– OK!

Chris virou-se e seguiu na direção da escada. Finalmente, as coisas pareciam estar dando certo para os S.T.A.R.S., e principalmente para ele e Rebecca...

Continua...