Capítulo 14

O laboratório secreto.

Seguindo as instruções de John, Chris empurrou a estátua até a marca no chão e, para sua surpresa, um compartimento se abriu automaticamente numa parede próxima, revelando possuir algo em seu interior. Rebecca apenas observava.

– É um mecanismo bem interessante! – afirmou Redfield, caminhando até a abertura na rocha. – Vamos ver o que há nesse buraco!

O policial retirou do esconderijo um medalhão circular prateado semelhante ao que encontrara na mansão, mas possuía agora o emblema de um lobo.

– Agora nós possuímos os dois medalhões necessários para que possamos adentrar o laboratório subterrâneo – disse John. – Venham, eu mostro o caminho!

Dirigindo-se até a porta, o cientista foi interrompido por Chambers:

– Espere!

– Sim? – perguntou Howe, voltando-se para a jovem.

– Que tipo de criaturas nós poderemos encontrar lá embaixo? Como foi no laboratório onde a infecção teve início, creio que os mutantes do lugar sejam muito mais fortes e poderosos...

– Não se preocupe... Serão apenas mais alguns experimentos fracassados da Umbrella...

Rebecca não sabia ao certo se aquelas palavras lhe provocavam medo ou conforto. Já Chris não conseguia parar de pensar em Jill. Eles já estavam a um passo de resolver aquele caso, e nenhum sinal dela... Como era frustrante! De qualquer forma, não podiam parar. Ainda havia segredos a serem revelados... E máscaras que precisavam cair...

– Jill! – gritou Barry mais uma vez, prosseguindo pela caverna sombria.

Nada. Burton já estava procurando pela colega há alguns minutos, e a busca até o momento fora em vão. Os dois não se viam desde o encontro com Enrico à beira da morte, e aquelas galerias, que pareciam formar um imenso labirinto, deixavam o pai de família cada vez mais preocupado com Valentine.

As ordens de Wesker foram claras. Barry deveria se concentrar nos objetivos e esquecer os demais. Os S.T.A.R.S. haviam sido atraídos até ali justamente para lutarem contra os monstros, testando assim as habilidades de combate destes últimos. Se algum membro da equipe morresse, seria simplesmente uma fatalidade decorrente da superioridade dos mutantes. Algo inevitável.

Burton, porém, não era tão frio quanto seu superior. Faria o possível para proteger a vida de seus companheiros, principalmente Jill, que tanto confiava nele. E pensar que ele estava traindo a todos para proteger sua esposa e filhas...

– Maldito Wesker...

De repente, ouviu o som de maquinário trabalhando. Alguém provavelmente estava utilizando o elevador mencionado pelo capitão anteriormente, que levava ao pátio na superfície onde estava localizada a entrada secreta do laboratório principal. Esse alguém poderia ser Wesker, ou então algum outro sobrevivente do time...

– Espero que Jill esteja bem... – murmurou Barry, entrando por uma porta de metal.

O ascensor parou, e assim Chris, Rebecca e John ganharam o novo ambiente. Estavam novamente acima do solo, numa espécie de pátio cercado por um alto muro de concreto. Além dele via-se a floresta, que emitia o repetitivo som de grilos. Às vezes era possível ouvir também o aterrador uivar de algum lobo.

O trio avançou alguns passos, e Howe se aproximou de uma porta-dupla de metal logo à esquerda do elevador. Tentou abri-la, mas o sólido som da tranca dizimou suas expectativas.

– Esta entrada leva ao heliporto, porém está lacrada! – informou ele aos membros do S.T.A.R.S. – Precisaremos dar a volta por dentro do laboratório!

Redfield e Chambers assentiram, voltando-se logo depois para uma fonte circular presente no centro do pátio. Estava cheia d’água quase até a borda. Chris notou a presença de dois orifícios ao redor do tanque, um exatamente oposto ao outro. Ambos eram do mesmo tamanho e forma dos medalhões encontrados na mansão e nas cavernas subterrâneas.

– Este mecanismo funciona como eu estou pensando? – perguntou o atirador a John.

– Se você o relacionou com os dois medalhões, sim! – respondeu o cientista num sorriso. – Coloque o da águia nesse orifício, e me jogue o do lobo para que eu possa inseri-lo no outro!

O policial atirou o artefato prateado para Howe, que o encaixou na abertura correspondente. O integrante do Alpha Team fez o mesmo com a peça dourada, e imediatamente os três sobreviventes começaram a ouvir uma série de ruídos mecânicos. Num processo rápido e surpreendente, o fundo da fonte se abriu, fazendo toda a água escoar. Revelou em seu lugar uma pequena escada em espiral que levava a um elevador metálico parecido com uma jaula, o qual, por sua vez, descia vários metros pelo escuro buraco circular cravado na terra, iluminado levemente por lâmpadas dispostas ao seu redor. Parte da beirada do tanque se abriu para que o trio vencesse os degraus e embarcasse naquele transporte tão bem escondido.

– É fantástico! – exclamou Rebecca. – Essa passagem secreta deve ter levado anos para ficar pronta!

– A Umbrella tem muitos segredos, minha cara... – afirmou John em tom misterioso, já seguindo pela escada. – Sigam-me!

E, temerosos em relação ao que encontrariam lá embaixo, os dois combatentes desceram junto com Howe rumo ao laboratório principal, onde toda aquela tragédia tivera seu marco zero.

Jill acordou subitamente, deitada sobre o chão gelado. Sem demora sentou-se, olhando em volta. Encontrava-se presa numa espécie de cela, com uma pia à sua direita, uma cama às suas costas e uma espessa porta de metal logo à frente, na qual havia uma abertura com grades que possibilitava uma limitada visão do lado de fora.

Levantando-se, a filha de Dick Valentine, ainda um pouco zonza, caminhou até a saída trancada, segurando as frias barras do buraco retangular. Lá fora havia um corredor de paredes cinzas, lembrando em parte a área inundada sob a casa dos fundos. Com isso, a jovem pôde concluir que não estava mais nas galerias subterrâneas. Alguém provavelmente a encontrara desmaiada, injetara-lhe um soro contra o veneno da aranha gigante e depois lhe trancara ali. Se era assim, então por que a mesma pessoa que a salvara também a fizera prisioneira? Teria sido o intrigante sujeito de jaleco que a livrara da Planta 42 anteriormente?

– Socorro, preciso sair daqui! – gritou ela, esmurrando a porta.

Súbito, a ex-ladra ouviu uma risada masculina, seguida de passos. Um homem estava vindo. Jill sentiu seu coração disparar mais uma vez, quando a silhueta do indivíduo surgiu na passagem exterior. Assim que ela tornou-se nítida, a policial foi tomada pelo alívio. Era Albert Wesker.

– Capitão, que bom vê-lo! – disse Valentine, esperançosa. – Precisa me tirar daqui, alguém me prendeu!

– E por que razão eu faria isso? – indagou o líder do S.T.A.R.S. em Raccoon, sorrindo sadicamente.

A combatente, estranhando aquela atitude por parte do superior, franziu a testa, perguntando:

– Mas do que diabos você está falando?

– Fui eu quem prendeu você nessa cela, Jill. Não poderá mais interferir em meus planos, e caso não se comporte bem, irá conhecer o Criador!

Jill lembrou-se no mesmo instante das últimas palavras de Enrico Marini. Havia um traidor entre os S.T.A.R.S., e tudo havia sido planejado pela Umbrella. Como ela não desconfiara antes? Chegara até a suspeitar de Barry, na verdade ele poderia até estar envolvido, mas não era a mente principal por trás de tudo aquilo. Agora tudo se encaixava... Wesker era o carrasco da equipe!

– Seu maldito desgraçado! – bradou ela, inconformada.

– Na verdade você deveria estar agradecida... Eu a curei do envenenamento para que assim possa testemunhar meu triunfo final!

– Triunfo final? Chama matar pessoas de bem que confiavam em você de triunfo final? Onde você está com a cabeça, Wesker?

– Minha cabeça está onde sempre devia estar, minha cara... Acima do meu pescoço! Agora descanse, precisará de muitas forças para resistir à explosão que consumirá toda esta propriedade em poucos minutos!

O capitão se afastou, gargalhando por dentro e por fora, enquanto Jill, inconformada, sentava-se novamente sobre o chão após esmurrar a porta mais algumas vezes, chorando de raiva e frustração.

O laboratório secreto da Umbrella era um local frio e sem vida, onde praticamente tudo era feito de metal. Após terem concluído a descida pelo elevador da fonte, os dois policiais mais John seguiam por um corredor totalmente vazio e silencioso, sem qualquer sinal de monstros ou eventuais sobreviventes.

– Este lugar me assusta mais do que a mansão... – murmurou Rebecca, segurando firmemente sua submetralhadora.

Percorrendo mais alguns metros, o grupo passou diante de uma porta-dupla fortemente lacrada, onde lia-se a inscrição “Saída de Emergência – Heliporto”. Howe explicou que ela só seria destrancada quando a autodestruição do complexo fosse ativada. Seguiram então mais alguns passos e desceram por uma escada-de-mão, ficando de frente para uma porta cinza.

– Estamos quase lá... – disse John.

– Lá onde? – quis saber Chris.

– A sala de reuniões... Há algo que vocês precisam ver!

Logo depois prosseguiram.

Capítulo 15

A máscara cai.

No novo corredor havia dois cientistas zumbis vagando sem rumo em busca de carne humana. Chris liquidou o primeiro com um tiro da espingarda, e o segundo caiu após receber no peito várias balas disparadas por Rebecca. Em seguida avançaram, parando diante de uma porta-dupla próxima a uma escada que descia até o subsolo inferior. John girou a maçaneta, mas estava trancada.

– Droga! – exclamou, nervoso. – Agora eu me lembro! Lacrei algumas portas do laboratório através do sistema de segurança quando a infecção ainda se iniciava! Precisarei acessar o terminal de computador localizado numa das salas do próximo nível para que assim acessemos a sala de reuniões!

– Eu posso fazer isso! – ofereceu-se Redfield. – Diga-me como chegar até essa tal sala!

– Descendo por essa escada, você chegará a um corredor em forma de quadrado. Logo à direita haverá uma porta, ignore-a por enquanto. Siga pela esquerda até encontrar uma outra entrada na curva seguinte. Não tem erro!

– OK, estou descendo! Você e a Rebecca esperarão aqui durante quinze minutos. Caso eu não volte, sigam sem mim!

– Chris, espere! – pediu Howe, enquanto o policial já se dirigia até os degraus.

– O que é?

– É obrigatório efetuar log-in para acessar o sistema de segurança, além de uma senha para destrancar as portas! – explicou o cientista, estendendo um pequeno pedaço de papel para o atirador. – Aqui você encontrará as informações necessárias!

– Certo... – murmurou o rapaz, pegando a cola. – Mais alguma coisa?

– Leve minha Magnum, você precisará dela! – disse John, entregando o revólver ao integrante do S.T.A.R.S., que o apanhou um tanto hesitante, pendurando sua espingarda às costas.

– Eu me pergunto sobre que tipo de aberrações eu encontrarei depois dessa escada...

Após respirar fundo e olhar uma última vez para Rebecca e o funcionário da Umbrella, Redfield avançou pelos degraus...

A porta se abriu automaticamente diante de Wesker, e o traiçoeiro capitão do S.T.A.R.S. ganhou então um corredor em forma de “T”, cinza e aterrador como todo o resto do laboratório. Albert prosseguiu alguns passos, adentrando a bifurcação do local, onde Barry o aguardava de pé junto a uma parede, braços cruzados e extremamente pensativo.

– Você chegou rápido... – observou o líder da equipe.

– Utilizei o caminho alternativo que você indicou... – replicou Burton, desanimado. – E então, qual a situação?

– Já cuidei da Valentine. Ela está presa na área de detenção. Ainda precisamos nos livrar de Redfield, Chambers e aquele maldito Howe. Estou reservando algo especial para eles...

– O que devo fazer?

– Aguarde no primeiro subsolo. Assim que a autodestruição for acionada, corra até o heliporto. Eu estarei lá em questão de instantes!

– Entendi. Estou a caminho.

Cabisbaixo, Barry cruzou a porta pela qual Wesker viera. Agora sozinho no corredor, o comandante do S.T.A.R.S. em Raccoon City murmurou num sorriso disfarçado:

– Tão tolo... Chega a dar pena!

Confiante, Albert seguiu pelo caminho da direita, cruzando uma entrada onde se lia “Sala de Força”. O desfecho se aproximava, mas ainda havia várias coisas de que precisava cuidar.

Chris concluiu a descida, chegando ao corredor quadrado. Estava num dos vértices dele, com a porta mencionada por John à direita. Seguindo à risca as instruções do cientista, o atirador ignorou esse caminho e seguiu pela esquerda, deparando-se com algo nada agradável...

Era um zumbi, porém muito mais repugnante que todos os outros vistos até aquele momento. Nu, a aparência do morto-vivo era totalmente deformada, sua carne pútrida compondo uma massa pastosa e disforme que dificultava a conclusão de que aquilo um dia fora um ser humano. Exalava terrível mau cheiro e, percebendo Redfield, avançou em sua direção com os braços estendidos, soltando um gemido infernal.

O membro do S.T.A.R.S. apontou a Magnum e pressionou o gatilho.

A bala de grosso calibre da arma penetrou nos tecidos decompostos do tórax do mutante, destruindo boa parte de seu corpo reanimado. O policial continuou, pisando sobre o sangue coagulado da bizarra criatura, até atingir a porta pela qual deveria entrar, e esta se abriu automaticamente.

O local seguinte era um ambiente onde os funcionários da Umbrella antes trabalhavam, dada a grande quantidade de equipamento, como microscópios e frascos, presente sobre uma mesa no centro do lugar. Logo Chris encontrou o terminal de computador num dos cantos da sala, logo à frente da entrada. Aproximando-se da máquina, sentou-se numa cadeira diante dela para em seguida ligá-la apertando um botão.

Surgiu o logotipo de um guarda-chuva vermelho e branco girando na tela, ao mesmo tempo em que a inscrição “Umbrella” aparecia ao lado dele, ao som de uma música irritante. Segundos depois o fundo ficou azul, e em letras brancas era possível ler “Sistema de Segurança da Umbrella – Versão 1.0”, junto com uma mensagem pedindo nome de usuário e senha para que fosse efetuado o log-in. Rapidamente, Redfield apanhou o papel fornecido por Howe, e viu que nele estava escrito:

USUÁRIO: John

SENHA: Ada

Chris digitou os dados conforme a cola, e assim conseguiu avançar. A tela seguinte pedia que o usuário informasse qual porta gostaria de destrancar. Sem pestanejar, o jovem selecionou a entrada da sala de reuniões, e o sistema pediu uma nova senha. O papel voltou a ser consultado:

SENHA 2: Birkin

A palavra-chave foi inserida, e um “bip” do computador informou que a tranca da porta havia sido liberada. O policial comemorou com um gesto, levantando-se da cadeira para voltar até o andar superior.

– Está no fim... – murmurou, enquanto caminhava até a saída.

Ofegante, Wesker atravessou a porta da sala de força, voltando ao corredor em forma de “T” onde encontrara Barry poucos minutos atrás. Não fora fácil evitar os terríveis monstros que circulavam pelo local, conhecidos como “Quimeras”, porém obtivera sucesso em religar a energia para o elevador que levava ao último subsolo. Agora tudo estava preparado para sua derradeira armadilha. A hora de libertá-lo estava próxima.

– A arma biológica definitiva... – disse o capitão, sonhando acordado.

Seria algo bonito de se ver. “Ele” eliminaria os S.T.A.R.S. intrometidos, um a um, com imensa crueldade. Albert obteria os dados de combate que faltavam, e assim comprovaria a efetividade de sua dantesca criação: um supersoldado capaz de subjugar qualquer exército do mundo. Mal podia esperar...

Vencendo o último degrau, Chris viu Rebecca sorrir por ele ter voltado são e salvo. O atirador precisara aniquilar outro daqueles zumbis pelados no caminho de volta, mas fora isso não tivera mais nenhum contratempo.

– A porta está aberta! – informou Redfield.

– Ótimo, vamos entrar! – exclamou John, girando a maçaneta.

O trio de sobreviventes entrou na sala de reuniões com certo receio, mas por sorte o lugar estava vazio. No centro havia uma mesa com cadeiras ao redor, e sobre ela um projetor de slides voltado para uma parede nua do lado oposto à entrada. Nas laterais via-se uma estante de metal, uma lousa branca possuindo o esquema de um crânio humano e uma intrigante abertura no concreto com um interruptor vermelho.

Este último foi pressionado por Howe, e a prateleira acima mencionada se moveu horizontalmente, revelando um compartimento secreto atrás de sua posição inicial. Dentro estava escondido um rolo de slides, que foi colocado na máquina pelo cientista.

– Preparem-se! – disse ele. – Uma máscara está prestes a cair!

John ligou o projetor, e o símbolo da empresa responsável por tudo aquilo surgiu na parede diante deles, junto com a inscrição “Relatório Oficial de Armas Biológicas da Umbrella”.

– Armas biológicas? – surpreendeu-se Chris. – Então eles pretendiam fornecer todos esses mutantes aos militares!

O próximo slide mostrava a foto de um dos bizarros cães que haviam sido enfrentados pelos S.T.A.R.S. anteriormente, junto com o nome da criação: “MA-39 Cerberus”. Logo depois veio a imagem de um tubarão como aqueles antes cultivados sob a casa dos fundos, chamados “FI-3 Neptune”. Seguiu-se o réptil humanóide que dominara as galerias subterrâneas, conhecido como “MA-121 Hunter”. O slide posterior era confuso e mostrava um gráfico próximo à silhueta de algum tipo de monstro, possuindo a denominação “T-002 Tyrant”.

E, finalmente, após um espaço em branco, apareceu a foto de alguns cientistas e a inscrição “Instituto de Pesquisa de Armas Biológicas – Equipes R e D”. Redfield e Chambers reconheceram de imediato um homem de óculos escuros que estava entre os pesquisadores, sentindo repentino calafrio.

– Wesker! – gritou o rapaz num misto de surpresa e indignação. – Wesker é o traidor filho da mãe que nos trouxe até este pesadelo!

O policial deu um soco na mesa, bufando de fúria. Tinha contas a acertar com o capitão.

Continua...