Resident Evil: Sem Esperanças
1 Horror
Apesar das construções que fazem dela algo próximo a uma metrópole, aquela cidade é tão irrelevante para o mundo quando o país em que se situa é para o mundo. As pessoas daqui perderam a esperança uma nas outras, e com o tempo aprenderam a importarem-se mais consigo mesmas. A guerra interna tornou-se rotina de uma nação apodrecida – ainda sim alguns poucos se destacavam meio a multidão.
A noite anterior a ontem foi quando tudo culminou...
Os olhos cansados do longo dia de serviço encararam do espelho do ônibus a mulher de cabelo desgrenhado que se levantava do assento. Mais essa volta e seria o fim de seu turno. A passageira deveria descer na próxima parada, então restariam apenas mais treze passageiros no ônibus... mas ao aproximar-se da parada, ela se quer fez menção de pedir-lhe que parasse, apenas ficou ali, em pé, encarando o passageiro que dormia.
A próxima curva seria fechada, por isso decidiu avisar-lhe.
–Senhora, pode fazer a gentileza de sentar-se? O ônibus fará uma curva e não seria prudente que alguém esteja de pé.
Ela nada disse. Permaneceu em pé, o rosto abaixado para o passageiro.
O motorista tornou a olhar para a estrada e realizou a curva.
–Ignorante. – O murmúrio do motorista antecedeu o baque surdo de algo colidindo com a lataria do ônibus. Seus olhos correram para o espelho e pôde ver através deste a mulher que outrora encarava o passageiro, agora estirada no banco contra a lataria do ônibus, na fileira oposta a que o passageiro estava. Nos olhos dos poucos passageiros acordados havia o ressalto, e uma expressão que deveria ter conseguido discernir naquele momento: pânico.
–Droga... Eu disse pra sentar senhora.
De súbito ela levantou-se com os braços já estendidos e pulou contra o passageiro que dormia. O sangue espirrou e pintou parcialmente o vidro da janela. O homem estremeceu ao mesmo tempo em que os passageiros que dormiam, acordavam com o alvoroço e gritos como “Por Deus! Pare esse ônibus!”, “Pare esse ônibus motorista” dos que assistiram a aquela cena.
Os dedos do motorista gelaram, e ele virou o rosto decidido a parar o ônibus, as mãos prontas para acionar o mecanismo que abria as portas, quando naquele instante, o ônibus bateu.
...
A estrada coberta pela névoa das duas da madrugada – que não me permitia enxergar muito mais que uns bons três metros afrente – desenrolava-se como um tapete velho, grudando no parabrisa na medida em que o carro acelerava. A mão vestida por uma luva meio dedo desprendeu-se do volante e tateou o rádio do carro que não era dele. Queria encontrar a rádio jornal local, e uma vez o tendo feito, maximizou o volume... Nada. De repente, um ruído, o sonido de algo arrastando. O gemido do que quer que ali estivesse, antecedeu o silêncio. Suas mãos apertaram-se sobre o volante enquanto submergia numa lembrança da manhã anterior quando através do celular, por uma transmissão ao vivo de um telejornal pôde contestar com os próprios olhos...
–...atrás de você Doug! – A repórter parecia paralisada diante da cena que presenciava. O cameraman urrou em dor e a câmera caiu ao chão. A transmissão da câmera que agora cobria apenas do quadril da repórter para o chão, numa exibição desfocada ameaçava cortar a qualquer momento em meio a suas oscilações de imagem. Ela continuava ali, as pernas trêmulas. Entrara em estado de choque pelo que assistia. Quarenta segundos... Cinquenta... Uma calça surrada e manchada projetou-se frente à câmera. Em passos lentos, quem quer que fosse o ser que vestia aquela calça surrada avançou contra a mulher, derrubando-a. A repórter urrou tão alto quanto o cameraman e sons semelhantes a gemidos puderam ser ouvidos, agora mais constantes. Ela debateu-se até que reuniu forças para empurrar o homem sobre ela... Ele caiu sobre a câmera... A transmissão encerrou e com ela, a lembrança.
À sua frente um feixe de luz distante se projetava através da névoa chamando sua atenção. Aquela estrada era longa, por isso a havia escolhido, não tinha preocupações quanto ao combustível do carro, e escolher a estrada principal, a mais curta, seria sinônimo de problemas, mas uma luz ali? Semicerrou os olhos enquanto reduzia. Já podia ver a silhueta de um carro na névoa, a porta do motorista estava aberta. Parou no meio da estrada e abriu a porta. Desligou o carro, desceu. Aproximou-se do outro carro para examiná-lo. Não havia ninguém. Olhou ao redor e contra um dos abetos da floresta, uns seis metros da estrada, outro carro estava amassado, havia colidido. Retirou uma handgun do coldre axilar – portava duas – e empunhou-a na altura de seu peito. Nove passos... Treze... Parou e encarou o corpo de um homem preso nos destroços do veiculo. O sangue seco sobre a roupa rasgada cheirava forte, provocando ardência nas narinas, e por todo seu corpo havia sinais visíveis de canibalismo. A porta detrás estava aberta, mas não havia muito mais que isso que desejasse ver.
Ele voltou ao carro, tornou a handgun ao coldre axilar. Ligou-o e deu partida. Em menos de seis minutos chegaria à ponte, se estivesse certo. Queria chegar à cidade e ir embora tão rápido quanto possível.
Quando a estrada desviou para a estrada principal, a certeza de que o vírus havia alcançado até mesmo este canto da Edonia apenas tornava-se mais consistente. Os carros começavam a apinhar a rua de maneira que já não pudesse seguir em frente sem muitos desvios, até que tivesse de parar e seguir a pé. Mas não foi isso que lhe chamou atenção. Em meio aos carros e próximo à floresta, um grupo de pessoas mantinha-se em pé. Vagavam sem destino, a cabeça abaixada enquanto quase que se arrastavam num mover lerdo, até o carro se aproximar o suficiente para chamar a atenção deles. Viraram o rosto diretamente para a direção do som do carro agora estacionado e se aproximaram – o grupo todo.
Abriu a porta e desceu para se aproximar deles. Ergueu as mãos até a cabeça num gesto de deboche.
–Meu nome é Nuka. A contaminação alcançou aqui também? – Jogou a pergunta para o grupo.
Eles apenas aproximaram-se, sem responder.
Avançou um passo, colaborando em encurtar a distância, como eles já faziam. Uma variação de pessoas, homens e mulheres, em sua maioria bem agasalhados pelo frio das noites desta região.
–Perfeito... Um grupo deles.
Continuavam a se aproximar. Vezes cortando o silêncio com gemidos. Alguns deles empurrando-se em vão contra algum dos carros estacionados no meio da rua – pareciam ignorar obstáculos no caminho.
Nuka correu e pulou por sobre o capô de um carro, na execução de um double kong direto contra um deles. Um homem careca com um paletó marrom surrado. Podia chamá-lo de humano? A boca mutilada ainda suja de sangue seco, o pescoço com uma ferida exposta. Era um infectado e o que quer que fosse, não era uma questão que merecia tempo agora. Havia muitos deles e ele ia para aquela cidade com objetivo. O infectado estendeu os braços para alcançá-lo e impulsionou-se contra Nuka que desferiu um soco contra o peito dele para desnorteá-lo, e na sequencia empurrou com uma força violenta a cabeça do infectado contra o vidro da janela do carro logo atrás.[...] O vidro quebrou e o homem permaneceu ali por alguns segundos. Foi tempo suficiente apenas para que pegasse sua handgun. O infectado levantou-se e avançou, dessa vez com mais voracidade, faminto, mas Nuka foi mais rápido e disparou a arma. O projétil atravessou o ar e afundou no crânio do infectado que caiu com a cabeça novamente dentro da janela do carro. Podia chamar de morto?
Havia acabado com um deles. Mas havia dezenas de outros. Nuka circundou o carro e se deparou com mais um. Ergueu a handgun e disparou contra a cabeça dele. Ele caiu num baque seco, e atrás dele havia mais três deles. Nuka disparou novamente contra um deles e avançou contra um outro. Saltou e chutou-o direto no tórax, mandando o infectado para o chão, mas o terceiro já estava perto o suficiente. Não teve tempo pra pensar. Disparou duas vezes, na primeira contra o peito e na segunda contra a garganta, mas foi suficiente somente para afastá-lo um pouco, retardá-lo. Largou a arma. Droga, eles são lerdos, não vou gastar mais bala, pensou quando o infectado investiu de novo e ele desviou dos braços dele abaixando-se para contra atacar pegando-o por trás, quebrando seu pescoço. Saltou contra o que havia chutado que estava no chão, quase que imobilizando-o, e quebrou seu pescoço que cedeu num estralo pertubador.
Estavam tão mais próximos agora que em menos de um minuto o cercariam. Sem tempo pra raciocinar, sem tempo para contra atacar. Pegou a handgun, retornou-a ao coldre, correu pulando os carros porque eles pareciam somente segui-lo sem se importarem com os obstáculos que os barravam e foi até a ponte.
Foram duas surpresas. A primeira, quando já no começo pôde ver que parte do chão de concreto da ponte havia cedido. Não podia imaginar o que tinha feito aquilo, mas havia uma fenda pouco depois do início da ponte, não muito maior do que poderia pular, ainda sim era larga o suficiente. Abaixo o rio turvo era violento, e um carro pendia a cair nele. A segunda, eles voltavam a se amontoar no início da ponte.
Uma ideia.
Assoviou alto para chamar um pouco mais a atenção deles.
–Aqui seus imbecis.
Correu e saltou para o outro extremo. Seus pés não alcançariam o chão, já havia deduzido isso, mas agarrou-se ao pedaço do cimento e tracionando o corpo, subiu. Virou-se e disparou contra um... dois deles. Eles vinham, vagarosos apesar de que três ou quatro parecerem pouco mais rápidos que outros.
Deu as costas e correu. Atrás de si, os infectados movimentos apenas pela fome, avançavam e caiam aos montes na fenda para serem tragados pela violência do rio. Morreriam se Nuka tivesse acertado em seu julgamento.
Dez minutos de corrida, e estar na ponte não parecia tão diferente de estar na estrada. Havia passado por vários deles e algumas unidades de carros, mas o que incomodou foi a presença de viaturas policiais que fechavam a ponte tal como uma barreira.
Diminuiu a velocidade e puxou a handgun do coldre. Eles estavam ali. Militares infectados, seis deles. Quatro no chão, três estirados ao chão e um deitado contra uma viatura. Todos vítimas de canibalismo. Um deles, aquele contra a viatura, segurava uma handgun, e era visivelmente mais jovem que todos os outros, mesmo com a cabeça abaixada – sua farda rasgada, manchada, revelava lesões indiscretas pelo corpo. Chão e lataria manchados de sangue. Próximo a uns dois dos três estirados ao chão, handguns no chão insinuavam suicídios.
Um, dois, três... Sete passos. Mirou e disparou contra a cabeça do mais distante – ainda sim distante apenas uns poucos nove metros. O mais próximo virou-se na direção de Nuka e avançou um passo. Sentiu a adrenalina pulsar; sorriu cínico. Correu contra ele e saltou, enfiando o joelho no espaço entre os dois braços estendidos do infectado, para lhe golpear a mandíbula. Nuka pulou contra ele – agora no chão graças ao impacto do golpe – e atacou direto na jugular. Levantou-se, havia mais um, mas quando desviou o olhar para o militar novato, ele pareceu estar com o rosto significativamente levantado. Seria coisa de sua cabeça?
–Droga.
Caminhou com cautela até ele enquanto estendeu a arma para o infectado em pé restante – agora mais próximo – e disparou três vezes contra sua cabeça. O sangue espirrou, pintando todo o asfalto de rubro, e ele caiu. Nuka abaixou-se próximo do militar novato, apenas uns três passos distante e franziu o cenho . Os olhos vazios do infectado buscaram os de Nuka, a boca abriu-se num gemido e ele caiu. Caiu e num segundo tateou o chão arrastando-se, gemendo, e agarrou-lhe o tênis. Estendeu a arma, mas hesitou por dois segundos. Disparou.
Levantou-se. Por que havia hesitado? Levou a mão até a cabeça enquanto o com a outra segurava a handgun. Moveu-se até a viatura e abriu-a. Revistou; nada. Foi até a segunda, terceira, quarta; nada. Retirou munição das handguns de alguns dos militares e as guardou. Aproximou-se de mais uma viatura que diferente das outras, estava com os vidros das portas levantados e com alguém dentro, que pelas roupas mais parecia um civil que um militar. Nuka respirou fundo. Puxou a porta e afastou-se um passo. A arma empunhada com as duas mãos, apontada direto para a cabeça do homem. Dez segundos, quinze. O homem deitado contra o volante não apresentava sinais de infecção. Havia um buraco em sua cabeça e todo seu pescoço e roupa estavam ensopados de sangue, ainda pegajoso. Teria morrido recentemente? Nuka ergueu o pé e empurrou-o de cima do volante; uma arma e caneta caíram no chão. De vista rápida encontrou duas coisas: uma escopeta carregada e um papel com alguma anotação em uma letra corrida. Firmou a alça da escopeta contra seu corpo e pegou o papel para lê-lo. Já não sei pra quem escrevo, ou porque escrevo. Ainda acredito que alguma força de combate ao bioterrorismo irá chegar? Primeiro a cidade tornou-se um caos, até que o numero dos infectados se tornasse incrivelmente maior que o nosso. Eu não quero virar um deles. As pessoas tentaram fugir da cidade e levaram a contaminação pra fora. A contaminação começou mesmo aqui? Os militares foram mobilizados. Os olhos de Nuka percorriam as linhas de uma caligrafia imprecisa. Eles estão tentando combater isso, mas nem mais eles acreditam num sucesso possível. As atividades agora começaram a ser focadas nas saídas da cidade. Eles impediram a passagem pela ponte e há rumores de que a destruíram. Eu os enfrentei, e é por mais aterrorizado que esteja, consegui chegar até aqui novamente, pra descobrir que todos eles estão mortos. Um deles me pegou, e eu vi o que acontece quando eles te pegam. Eu sei o que vai acontecer comigo, mas não vou me tornar um deles. Escrevo pra avisar que... as palavras tornaram-se ilegíveis por um instante ... pior do que eles ... o vírus é ... áti... Não era possível ler muito mais que isso, porque apesar da letra já ilegível a folha estava manchada de sangue.
Apesar de não conhece-lo, não podia deixar de sentir uma pequena pontada de pena do pobre. Dobrou o papel e guardou-o no bolso. Saiu da viatura e retornou a handgun ao coldre axilar. Voltou a correr.
A carta não havia lhe dito muito mais do que e supusera, mas as ultimas palavras que possíveis de se ler, ressoavam em sua mente “Escrevo pra avisar que...”, “pior do que eles ... o vírus é ... áti...”. O que elas queriam dizer? Seriam algum aviso? Por mais que não estivesse lá para descobrir o que havia atingindo a cidade, sentiu que estava prestes a descobrir.
Já próximo ao fim da ponte, havia cinco deles.
Tropeçava nos próprios passos enquanto corria. O salto estava quebrado do tombo de minutos atrás e por mais que acreditasse ter corrido mais rápido do que o fizera em toda a sua vida, ele ainda estava atrás dela. Diabos! O que havia acontecido com a cidade, aquelas coisas, ela havia conseguido sobreviver a tudo. Avisaram que forças combatentes ao bioterrorismo chegariam logo. Um ataque bioterrorista em varias partes do mundo. Chamavam de C-Vírus. Não tinha sido realmente muito difícil. Na realidade nada fizera a não ser ficar dentro de sua casa, e manter as portas e janelas trancadas como o jornal havia recomendado, mas depois de dois dias pensou ter possibilidades de sobreviver lá fora, e o havia feito. A ponte era a saída mais próxima do bairro em que mora, mas aquilo? As lágrimas escorriam por sua tez, a força esvaía, e ele dobrava a esquina junto com ela.
–Ei sua idiota! – Pronunciou rude — Não corra! Eu vou pegar você.
Ela tentou ignorar quando na verdade sua mente já destruída não assimilava nada senão fugir daquele terror.
–Ei! Sabe que eu vou pegar você. Assim me diverte mais.
Ela tentava sem sucesso tirar a imagem dele de sua cabeça. Um homem sujo de um metro e noventa com um machado ensanguentado. Seu corpo respondia ao medo em espasmos. Do outro lado da rua, a menos de uma quadra chegaria à ponte e então poderia encontrar um carro ou uma moto para fugir, fugir desse inferno, fugir principalmente dele.
–Ei! Se for pra morrer pra esses zumbis... Hahaha! Que eu morra tendo me divertido antes.
Ele estava a alcançando. Até quando aguentaria?
–Socorro! – Puxou todo ar que pôde enquanto corria, para implorar tão alto quanto pôde por – Socorro! Por favor! Alguém! Alguém me ajude!
Fossem eles, não fosse ele. Abria mão da vida.
As silhuetas viraram-se ao som da voz feminina que implorava por socorro e se arrastaram na direção da voz. Se era uma sobrevivente, tinha de encontrá-la e salvá-la. Correu, voltando ao ritmo anterior, o seu corpo um pouco mais descansado. Saltou contra o primeiro infectado próximo a ele, e quebrou-lhe a coluna num chute. Recuperou o ritmo da corrida e pegou o segundo ao lado direito da ponte, num solavanco que jogou-lhe de cima da ponte pelo para peito para o rio. Derrubou o próximo a frente, e ignorou o outro alguns metros a sua esquerda. Era cômico como só por saber da existência de um sobrevivente ali tão próximo, suas forças se renovavam.
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