Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado a minha gêmea de coração. Porque apesar de sermos de mães diferentes, somos irmãs por escolha. E isso vale mais do que se tivéssemos o mesmo sangue.

Obrigado especial a Roxanne Norris. A história jamais chegaria até vocês sem ela. E eu jamais teria continuado a escrever se não fosse ela estar comigo, desde que comecei até hoje.

E por fim, capítulo dedicado a todos os meus leitores que esperaram pacientemente. Obrigado a todos. Espero que gostem!

Reencontro

-It doesn’t matter how long it takes... Soon or late, you will become one of us, mr. Kennedy. Just another puppet of the infeccion. That’s your trully nature.

Acordou no mesmo instante, arfando descompassado, os músculos retesados e os dedos tensos apertando o lençol com força.

Aquela voz... A maldita voz insuportável daquele nanico psicopata.

Engoliu em seco enquanto percebia que tinha sido só outro pesadelo. Passou os dedos nos cabelos, sentindo-os úmidos pelo suor frio que havia brotado da sua testa. Ainda esperava que esses flashes do seu passado parassem de atormentá-lo, mas não tinha tanta certeza se isso ia acontecer. Oito anos depois e ainda conseguia se lembrar dos rostos desfigurados e dos grunhidos dos infectados em Racoon city.

O sono tinha ido embora. Shit. Se levantou e colocou a calça jeans, andando descalço até a janela, abrindo as cortinas para ver o céu cinza escuro como se o tempo tivesse parado num clima pré-tempestade. Mas nunca chovia. E desse jeito, ele nunca podia dizer que horas eram. Não seu deu ao trabalho de tentar adivinhar e olhou no mostrador em números vermelhos luminosos:

13:57

Terminou de se vestir, colocando a camiseta e atando o coldre dorsal aos ombros, fixando ali a velha faca do exército. A fiel companheira de tantas horas difíceis. Vestiu a jaqueta nova, exatamente igual a que perdera dois anos atrás. Na realidade, ainda se vestia da mesma forma... Alguns velhos hábitos são mais difíceis de mudar que outros.

-Ora! Estava pensando se não tinha morrido, oficial! – foi impressão sua ou o policial tinha sido irônico? – Se apresse! Não tenho o dia inteiro!

Por que sempre era acompanhado por idiotas? Achou melhor simplesmente não discutir quando o integrante da polícia local o viu sair no pequeno salão onde ficava a recepção do dormitório onde tinha passado a manhã.

-Dont worry. Vai estar livre pra voltar para sua vida de ação em menos de uma hora. – ironizou cínico enquanto saíam para a rua, vendo o carro velho estacionado ali perto, com o emblema da polícia já gasto na pintura velha.

Não tinha sido fácil descobrir tudo, mas Hunnigan tinha feito um enorme favor ao lhe dar aquelas informações. Principalmente em contar a ele que Claire estava desaparecida... E depois ainda puxar os arquivos do local onde ela fora vista pela última vez, dando a ele uma direção para seguir.

O carro dava alguns solavancos enquanto seguiam pela estrada de chão, ladeados pela floresta densa. O som do motor o fazia ter certeza de que a qualquer instante o automóvel ia explodir. Great. Tinha viajado mais de três mil quilômetros para morrer queimado numa lata velha no meio do nada.

Claire definitivamente ia estar lhe devendo uma depois dessa. E enorme.

O homem ao seu lado resmungava coisas em sua língua natal vez ou outra. Manteve os olhos pelo vidro, sem se importar com aquilo. Tentando ignorá-lo na verdade. Mas não estava funcionando para fazê-lo calar a boca.

-Nos separamos aqui. – ele disse, parando o carro no meio de uma estradazinha que parecia dar... Em lugar nenhum.

“Ele tem que estar de brincadeira.”

-Hei, sua missão é me levar até esse lugar. – Ele tirou o mapa do bolso interno da jaqueta, mostrando um ponto circulado em vermelho.

Vai ver ele não fala inglês.

-Te que descer! Agora, vamos! – o outro esbravejou irritado, inclinando-se e abrindo a porta do passageiro, praticamente expulsando-o do carro.

Rolou os olhos, guardando o mapa de novo.

-Idiot. – resmungou enquanto descia, tentando entender porque sempre tinha que ser guiado por completos imbecis.

-Vá pro inferno. – Ouviu o outro falar, fechando a porta no mesmo instante. Voltou pretos entre a surpresa e a irritação pro policial.

-Agora você fala a minha língua? – foi cínico, mas o outro apenas fez a volta e saiu, desaparecendo depois da primeira curva.

Poderia voltar e arranjar alguém que pudesse levá-lo até o lugar certo, ou seguir o mapa dali pra frente sozinho.

Quem quer voltar pro vilarejo esquecido por Deus? – ironizou em pensamento, rolando os olhos.

Engoliu em seco por um instante, se lembrando da vila... A de seis anos atrás... Apertou os punhos e começou a andar, seguindo pela estrada de chão. Os trovões continuavam ecoando pelo céu cinzento e o ar açoitava seu rosto com violência.

Não tinha contado o tempo ou a distância, mas quando chegou naquele ponto, teve certeza de que nunca tinha sido tão feito de trouxa como naquele momento. A maldita estrada acabava num ponto onde a floresta se fechava e simplesmente não havia mais por onde seguir. Olhou para cima e entreabriu os braços.

-Você podia dar uma ajuda, sabe? – soltou cínico.

Se virou para voltar por onde viera, quando viu uma placa de madeira escondida sob as trepadeiras e galhos que caíam das árvores. Se aproximou e passou a mão, vislumbrando uma sinalização rústica que apontava para sua esquerda... Correu os olhos e viu, entre a mata fechada, uma pequena trilha que parecia abandonada.

Mas era o melhor que tinha naquele momento. Antes de se embrenhar pelo caminho tortuoso entre as folhas mortas, tentou se lembrar mesmo do porque estava fazendo aquilo.

Ah. Claire.

Ela definitivamente estava lhe devendo uma.

A trilha acabou dando num pequeno vilarejo, menor que o anterior e muito mais rústico. As casas eram feitas de pau e uma massa marrom escura que servia de cimento. Os telhados de palha eram enegrecidos e pareciam mofados. Havia um forte barulho de água corrente e Leon conseguia escutar um som ainda mais ruidoso, como uma cachoeira ou algo do tipo. À exceção disso, tudo ali tinha um aspecto terrivelmente familiar...

O que chamou sua atenção, no entanto, foi que o lugar estava praticamente vazio.

Não enxergava uma viva-alma, a não ser um homem sentado num toco de madeira que fora feito de banco, à beira do rio, pescando calmamente.

Respirou fundo, antes de se aproximar. Que escolha tinha?

-Hey, senhor – ele chamou ao se aproximar alguns passos. – Eu estou procurando por uma amiga. O senhor já viu essa garota?

Leon tinha retirado uma foto de Claire do bolso do casaco e estendido-a para o senhor que apenas virou debilmente o rosto na sua direção, parando os olhos sobre a figura de papel por um instante.

-Está morta.

Leon estacou chocado com a simplicidade na voz daquele homem.

-E você também.

O instante de distração foi quebrado pela investida do pescador... Havia empunhado uma faca e, num impulso só, se levantou virando o golpe que deveria ter rasgado o abdômen do agente. Mas o loiro se lançou para trás, sacando a pistola do coldre e apontando-a para a cabeça do agressor.

-Parado! – Mandou com os dedos cerrados no gatilho, os olhos estreitos em sinal de perigo.. Mas o velho continuava andando em sua direção com a faca empunhada, os olhos brilhando num estranho reflexo avermelhado na sua direção...

Um reflexo estranhamente familiar.

-Eu disse parado! – repetiu ainda mais alto. Não foi atendido novamente. Bom... Que pena.

O primeiro tiro atravessou a testa do pescador, que caiu morto num baque seco contra o chão.

Ele tinha que sair dali... Algo estava terrivelmente errado e seu instinto lhe gritava para fugir daquele lugar.

-Estrangeiro!

Se virou e viu os semblantes surgindo das árvores... Agora sabia onde os habitantes estavam... E vinham na sua direção, tão ameaçadores quanto o primeiro.

Leon sentiu uma gota de suor gelado escorrer de sua testa, quando empunhou a arma de novo e recomeçou os disparos...

Acerte na cabeça.

Não se lembrou de contar os tiros até que a arma travou, indicando que suas balas tinham acabado. Crap! Praguejou mentalmente... Até que viu há alguns metros...

Estreitou os olhos quando começou a ouvir o barulho de tiros de novo.

E esses não vinham da sua arma.

~O~

A viagem foi mais rápida do que ela imaginava. Talvez o tempo só tenha se apressado porque ela ficou distraída demais entre os próprios pensamentos para se concentrar nos minutos. Só quando o piloto a avisou de que estavam para chegar, foi que notou que a paisagem tinha mudado dramaticamente sob eles.

No lugar da selva de pedra de onde saíra, agora havia uma mata tão fechada que era impossível ver o chão. E o mar verde se estendia até onde sua vista podia alcançar. O céu acinzentado reluzia vez ou outra com os raios que se espalhavam em teias pelas nuvens e o vento fustigava dentro do helicóptero.

-Não dá pra pousar aqui – o piloto avisou, estabilizando o vôo sobre uma pequena clareira. – Vai ter que descer aqui, capitã!

Ela só assentiu com a cabeça e atou a mochila as costas, jogando a corda ,presa à uma roldana, até vê-la cair no chão lá embaixo.

Respirou fundo e abriu um sorriso pequeno.

Vivia por esses momentos!

Se agarrou a corda com força e entrelaçou-a às panturrilhas protegidas pelos canos altos dos coturnos e exerceu pressão para diminuir a velocidade até atingir o chão com segurança. Bateu as mãos, sentindo as luvas quentes pelo atrito, os cabelos esvoaçando com as rajadas de ar das hélices, mesmo que essas agora já levassem o helicóptero para longe novamente...

O fone em seu ouvido tocou, fazendo-a pressiona o pequeno botão nele.

-Estou ouvindo – disse, olhando ao redor.

-Vejo que você chegou. – a voz de TJ respondeu. – O comunicador tem um sinal de GPS. – explicou.

-Isso é bem a sua cara. – ela retrucou num sorriso. – E então TJ, pra onde eu vou?

-O último sinal que temos da localização de Claire veio de algum lugar não muito longe de onde você está – ele disse e ela pôde ouvir o barulho de teclas de computador sendo batidas freneticamente. – Siga para o Sul.

-Entendido – respondeu unicamente, antes de encerrar a chamada e se embrenhar entre as árvores na direção que o amigo lhe havia dito.

O chão era uma mistura fofa de folhas mortas que acarpetava toda a floresta. O ar era úmido e havia uma estranha sensação claustrofóbica que pairava sobre ela. Tentou afastar esse pensamentos enquanto andava, se esforçando para não mudar de direção mesmo com todas as árvores em seu caminho, fazendo difícil manter uma trajetória confiável.

Havia o som de água por perto... Devia ser um rio. Continuou o seu trajeto até ouvir um estampido alto que vez com que os pássaros escondidos nas copas saíssem voando todos. Estacou onde estava, os olhos estreitos...

Tiros.

E após o primeiro, vieram um segundo, terceiro, quarto. Aurora parou de contar quando notou que alguém estava com problemas... Fosse o atirador, fosse o alvo.

Saiu correndo o mais rápido que podia... Até que a luz do dia tempestuoso finalmente voltou a entrar naquela floresta pelas brechas entre as árvores que há alguns metros, finalmente cessavam.

O barulho de água corrente ficou mais forte e o ar ficou mais frio.

Se aproximou e a cena que se seguiu era a última que esperaria ver... Embora não tivesse muita idéia do que esperava ver atirando no meio de uma floresta.

Havia um homem de cabelos loiro-acinzentados com uma arma empunhada, cercado por várias pessoas vestidas em roupas puídas e gastas munidos de ferramentas como foices ou machados que avançavam... Ele estava encurralado.

Ficou bem óbvio naquele instante quem estava com problemas.

-Lets rock it – murmurou para si mesma, sacando as armas e engatilhando-as.

Não podia se gabar de muitas coisas, mas se orgulhava da própria mira... E não foi difícil acertar alvos tão de perto.

Cravou balas em seus corpos e os impactos os fizeram cair por tempo o suficiente para que saltasse a pequena cerca suja de musgo que a separava do homem loiro...

-Você está bem? – perguntou num tom pesado. O que ele fazia ali?

-Yeah. Thanks – ele respondeu, encarando-a com aqueles olhos pretos. – Who are you?

-Meu nome é... – ela começou, mas as palavras morreram em sua garganta quando viu aquela peça brilhando no pescoço dele.

Estreitou violetas e por um segundo um flash voltou em sua mente, como se uma pedra a acertasse com força nas têmporas de uma vez.

-Feliz Natal, Scotty!

Engoliu em seco sentindo o fundo do seu estômago se desprender e a cabeça dar uma volta, deixando-a tonta por um instante... Não... Não era possível.

Não era ele. Não era. Não era.

Ficou em silêncio, incrédula enquanto cada célula do seu corpo ainda tentava se recuperar do choque... Depois de tantos anos. De tudo.

Ainda reconhecia aqueles olhos.

Scotty.

~O~

Ele estava tentando pensar numa rota de fuga quando ouviu os disparos e em seguida aquela mulher sair do meio do nada, atirando contra todos e fazendo-os cair no chão.

Não sabia quem ela era. Mas agora não era hora de se importar com isso.

-Você está bem? – a ouviu perguntar num tom estranhamente familiar.

-Yeah. Thanks. – agradeceu, encarando-a por apenas um instante, olhando em volta mais preocupado se não viriam mais inimigos. – Who are you?

-Meu nome é... – ela ia se apresentar mas então cortou as palavras e a preocupação só fez com que Leon notasse seu silêncio depois de vários segundos. E quando a encarou, viu que ela o olhava como se ele fosse algum fantasma.

-Ei, você está bem? – perguntou sem entender aquela expressão.

Até o momento em que os rosnados recomeçaram.

Não teve tempo de reagir, no segundo seguinte aquela mulher havia agarrado sua mão e o puxado para dentro da mata de novo... E ele não parou para discutir quando os gritos denunciavam que estavam sendo seguidos.

Mas ela ainda continou correndo mesmo depois de terem deixado seus agressores para trás. E ele parou bruscamente, obrigando-a a frear também. Por vários momentos, o som da água só era cortado pelos arfares dos dois.

Ele pensou em lhe dizer algo, mas ela apenas se recostou numa árvore e continuou respirando fundo e descompassada, os olhos no chão. Não parecia querer conversar... Mas quando se está no meio de uma floresta cercado por doidos homicidas, o silêncio não é uma boa opção.

-Quem é você? – ele repetiu a pergunta, observando-a. – O que estava fazendo aqui?

Ela não respondeu a nenhuma das duas perguntas ou fez menção que o faria. Apenas ficou parada ali, respirando fundo... Até que se levantou, dando-lhe as costas.

Simplesmente andando como se ele não existisse ou nada tivesse acontecido!

-EI! Onde você pensa que vai?! – ele se adiantou e tencionou tocar o ombro dela, mas sentiu no segundo seguinte os dedos firmes da mulher segurarem seu punho o torcerem na intenção de imobilizá-lo com o braço pelas costas...

Mas ele não era nenhum moleque. Muito menos era tão dominável assim.

Travou o golpe dela com a mão livre e soltou o braço, mas ela não parecia disposta a conversar. Tentou segurá-la pelo punho, mas a sentiu segurar o seu pulso com os dedos e então girar o corpo tentando dar com o cotovelo do outro braço em seu rosto.

Leon ergueu a mão desocupada e interceptou seu ataque. Agora tinha a brecha que precisava. Num instante prendeu os dois braços dela com apenas uma mão, forçou os seus punhos contra as costas da morena e a prensou contra o próprio corpo, batendo o torso dela contra o seu. E seus olhos recaíram sobre os dela para se alargarem...

Ela tinha olhos violeta.

Por um momento foi como voltar à sua infância... E rever os orbes de Aurie brilhando para ele, a menina rindo enquanto pegava cerejas direto com a boca...

Eram memórias em que ele não mexia há muito tempo... E por uma razão.

-Quem é você? – sua voz agora saiu baixa...

Ela ficou em silêncio por um momento... Não o respondeu...

Trincou os dentes com raiva... Por que ela não o respondia?!

Então sentiu uma pancada dolorosa contra sua virilha. Maldição! Ela o havia golpeado com o joelho e agora tencionava correr... Mas ele não permitiria que ela fosse.

Não sem antes entender como ela podia tê-los. Aqueles olhos.

Agarrou-a pelo punho novamente, obrigando-a a virar-se para ele...

E sentiu as palavras desaparecerem de sua garganta antes que pudesse dizê-las. Tinha sem querer, erguido o pulso dela quando o segurara... E uma pequena pulseira havia deslizado sob a luva que ela usava... Era apenas um fio prateado que dava duas voltas... E havia um pingente cor-de-rosa de uma flor de cerejeira ali...

A palavra única era clara na parte detrás da peça.

Aurie

Ele demorou alguns instantes até assimilar... Seu cérebro pareceu entorpecido por um longo momento enquanto sua infância voltava a sua mente em cenas desconexas. Depois de tanto tempo... Depois de tudo que tinha acontecido, da forma como as coisas saíram... Ele jamais esperaria reencontrá-la.

Não ali. Não daquele jeito.

Ainda mais quando os anos o fizeram enterrá-la no fundo de sua memória e a imagem de Aurora só voltava quando seus sonhos a traziam de volta...

E ele acordava arfando e suando frio... Sentindo a mesma nostalgia que o fazia simplesmente lutar para esquecer de novo.

Mas agora ela estava ali, parada a sua frente com os olhos violeta encarando-o diretamente daquele jeito que o agente jamais pensou que fosse ver novamente.

E quando conseguiu falar de novo, foi somente uma palavra que escapou de seus lábios, como um pedido para que ela confirmasse o que ele via.

-Aurora?

-Long time no seen, Scotty.

Notas finais
N/A: Finalmente! Bom, eu gostaria primeiro de me desculpar com os meus leitores pela demora em atualizar a história. Infelizmente o meu tempo é curto e a vida de vestibulanda mais o trabalho me impediram durante esses meses de me dedicar tanto à escrita quanto eu gostaria.De qualquer forma, eu voltei! *-* /Agora vou conseguir escrever com mais frequência e espero que até fevereiro, tenha terminado Inevitável.Obrigada por me acompanharem!