Resident Evil: Inevitável
7 Velhos Hábitos
Notas iniciais
Velhos Hábitos
Estavam andando a alguns minutos dentro da caverna que ficava escondida detrás do manto de água da cachoeira, onde Leon havia dito que encontrara algo. Aurora ainda pensava sobre o que havia acontecido mais cedo...
Eu não faria isso, Aurora.
“Não, claro que não.” –o pensamento surgiu automaticamente, fazendo-a rolar os olhos, ouvindo a própria voz irônica dentro da cabeça.
Tentou afastar seu pequeno diabinho interno, mas ele parecia mais interessado em continuar a falar em seu ouvido.
“Está cometendo um erro, sabe. Ficando perto dele assim. Já devia ter aprendido sua lição.” – ouviu novamente aquela maldita vozinha, provavelmente vinda da parte mais irritante do seu subconsciente.
“Cala a boca, droga! Eu preciso prestar atenção no que estou fazendo, consciência idiota!” – retrucou mentalmente consigo mesma.
A agente sempre se surpreendia com sua incrível capacidade de conseguir ser tão internamente conflitante ao ponto de ter disputas ferrenhas dentro de sua própria mente. Consigo mesma. Ou com alguma outra pessoa, porque não podia ser normal alguém discutir tanto com si próprio.
É. Vai ver realmente tinha dupla personalidade. Era só o que faltava mesmo.
“Tá, que seja. Mas não finja que não estou certa. Você olha pra ele e se lembra. Pensa nele. E agora está sentindo o perfume dele e fingindo pra si mesma que não gosta do cheiro. Mas não pode mentir pra mim. Você pode agir como se o quisesse longe o quanto quiser, mas nunca realmente o deixa partir. Foi por isso que as coisas aconteceram daquele jeito com Chris. E a culpa de Claire estar desaparecida agora, é sua. Por continuar a mesma menina idiota de tantos anos atrás.”
Sentiu um arrepio gelado quando ouviu aquela última parte ecoar no interior de sua cabeça... O corpo todo enrijecido pelos pensamentos tão acusatórios... Que deixavam sua culpa e o que tanto tentava esconder ali, tão claros para si . Justo para quem ela mais tentava fingir que não.
E foi presa naqueles pensamentos que se distraiu... Mas não o suficiente para deixar despercebido que agora já não andava sobre pedras escorregadias, mas em um piso de metal que parecia ter sido colocado sobre a rocha em placas metálicas que já mostravam manchas de ferrugem por causa da umidade.
Algo estava errado ali. Muito errado... E depois de mais alguns passos, ela e Leon pararam. Os olhos violeta da agente estreitaram sobre o cenário a sua frente.
–But what the hell is this?
–O-
Seguiram em silêncio, até que as lanternas iluminaram o que parecia ser uma enorme parede de metal... Como se tivessem deixado a cachoeira e agora estivessem num corredor sem iluminação, sujo e abandonado, do qual tinham chegado ao fim. E a sua frente, tinha um enorme buraco retangular como se aquele lugar fosse o depósito de algo... Um cheiro fétido de algo podre vinha dali, mas era fundo demais e as luzes das lanternas não alcançavam o suficiente para que pudessem ver.
“Não foi embora?”
Aquela perguntava ficava martelando em sua cabeça e Leon sentia um gosto amargo no fundo da garganta, como se a culpa houvesse criado sabor dentro de seu peito e subido por seu esôfago, atingindo sua língua, queimando-a de um jeito quase doloroso.
Não fora sua culpa. Não tinha sido sua escolha! Não sabia que as coisas aconteceriam daquele jeito.
I will come back for you.
Merda… Malditas lembranças… Maldito dia.
–O-
–Eu não sei. – ele respondeu à pergunta dela. – Parece uma espécie de depósito de descarte, pelo cheiro.
A agente aproximou-se da beirada... O fedor era insuportável, com a umidade e o ambiente fechado tornando o ar ainda mais pesado e difícil de ser respirado. Aurora ponderava alguma forma de descobrir onde aquilo ia dar... Sabia que estava no rastro de Claire.
–Deve ter um jeito de descer. – ele ponderou, mais para si mesmo do que para ela.
–Quer descer por aqui? Isso é loucura, Leon. Deve ter outra entrada, mais segura. Não sabemos o que existe ali embaixo. – ela retrucou séria, com violetas sobre ele.
–Não temos tempo pra isso, esse é o jeito mais rápido de achar a Claire. – o jovem replicou na hora, encarando-a.
–Se morrermos caindo num lugar do qual não sabemos nada, com certeza vamos ajudar a Claire de um jeito muito melhor. – ela respondeu sarcástica, irritada. – Vamos procurar por uma entrada que não signifique um possível suicídio!
–Ninguém vai morrer e nós não temos tempo. – o loiro respondeu. – Por que você precisa ser tão teimosa?
–Alguns velhos hábitos não mudam, não é? – a morena retrucou na hora, cínica, fazendo Leon calar-se por um instante.
Para no outro segurá-la pelo punho e puxá-la na direção do buraco. Nunca fora o mais paciente dos homens e Aurora tinha o dom de deixá-lo irritado com muita facilidade. Especialmente naqueles momentos em que agia de forma tão teimosa, tão... Ela.
–Eu disse que não vou, me solta! – ela repuxou o braço, com força... — Agora!
E quando Leon virou-se para retrucar, sentiu um par de mãos empurrando-o pelo peito. E viu um par de violetas brilhando e ele não soube dizer se era de raiva... Ou se eram lágrimas.
–Não encosta em mim, Scotty!
Ele ainda pensou por um instante em como fora estranho ouvi-la chamando-o pelo apelido de tantos anos atrás, de um jeito tão natural e ao mesmo tempo tão aborrecido. Mas não pensou nisso por muito tempo... Ao empurrá-lo, ela mesma projetara-se para trás...
E Leon ainda pôde vê-la alargar os olhos quando o chão acabou sob seus pés e ela pendeu na direção do buraco.
Aurora estava às beiras de atirar no agente... De puro ódio! Aquela insistente mania em tratá-la como se ela fosse uma criança ou uma menina idiota que sobe num galho perigoso de uma cerejeira. Doía vê-lo agir da mesma forma de anos atrás. Magoava... Trazia de volta sensações que em outra época, teriam aquecido seu peito num calor tão morno quanto as brisas de verão... Mas que agora, ao invés disso, traziam aquele frio dolorido das águas obscuras que o tempo fez tamparem as boas lembranças. Pensar nele machucava.
Lembrava-a de porque o odiava.
Não viu quando o empurrou com força... Ia sair dali, ia procurar outra entrada... Ia resgatar Claire e ia voltar para sua vida. Onde não havia passado, memórias ou Leon. Onde era seguro... Onde os fantasmas de sua infância não a assombravam...
Mas foi quando se sentiu cambalear para trás.
E soube que ia descobrir o que havia no fundo daquele buraco muito em breve.
Alargou violetas quando o chão acabou sob seus pés e caiu, sem equilíbrio... E fitou cinzas por um instante, antes que o seu corpo ficasse solto no ar.
Ela ia cair.
E então foi como se as coisas ficassem em câmera lenta. O coração parou por um instante quando constatou que ela estava indo em direção ao desconhecido. Quando ele assimilou que a queda podia matá-la...
E foi quando um sentimento muito familiar voltou a assolar seu peito, como fizera anos antes, numa tarde de verão, numa certa cerejeira de galhos fracos. Porque mesmo correndo com tudo de si para longe dela e de suas malditas memórias, Leon nunca quisera realmente deixar Aurora para trás, ainda que mentisse o contrário com tudo de si, tentando acreditar que se convenceria disso se repetisse o bastante que não se importava com ela.
Que não sentia nada a respeito da jovem.
Naquele momento, a iminência de perdê-la foi tão forte que ele não pensou em nada. E cada gesto do agente impregnou-se unicamente no desejo de conservá-la.
Porque precisava dela viva... Ainda que fosse para detestá-la por ser tão teimosa.
Não suportaria... Não tê-la.
Por instinto, ele correu. Pegou o pequeno gancho de metal que carregava no cinto e jogou-o contra a parede de pedra, lançando-se no buraco na direção de Aurora, agarrando o punho dela com toda a sua força, assim que a alcançou.
Os dois ficaram ali, pendurados há uns seis metros da beirada... Suspensos por aquele fino fio de aço que estava preso ao cinto dele.
Leon manteve os olhos em violetas...
Pensou em dizer algo, mas foi quando houve um som de algo se rasgando e a jovem soube que o cinto não suportaria o peso. E o companheiro parecia ter assimilado o mesmo, porque não hesitou em passar o braço pelo fio de aço, envolvendo-o em três voltas ao seu redor, agarrando-o com os dedos um instante antes que o cinto arrebentasse.
Ela o viu fechar os olhos quando o metal fino apertou sua pele com força, ameaçando cortá-la a qualquer instante.
–Scotty! – soltou preocupada. Os dedos apertados ao redor do punho dele...
Ele abriu cinzas... E foi quando ouviram um estalo.
Ambos olharam para a beirada... O fio estalava num som característico de que não iria agüentar muito mais tempo.
O equipamento não fora feito para suportar o peso de ambos... Ia arrebentar.
Os dois sabiam o que ia acontecer. Leon sabia.
Aurora o fitou por um segundo... E então soltou os dedos do punho dele, pensando em não arrastá-lo consigo naquela queda. Mas ele não afrouxou um centímetro a mão que apertava o punho dela, mantendo-a presa a si... Segura.
A jovem viu cinzas e os olhos dos dois encontraram-se diretamente... Profundos um no outro, ela viu...
Uma gota de suor pingando da ponta de seu nariz... Os olhos cinzas tão fortes.
Por um instante foi como voltarem ao passado. Como num flash de sua infância, ela se sentiu como se estivesse dependurada de um galho quebrado... Fitou-o diretamente, sentindo o coração batendo apertado no peito...
–Scotty...- Murmurou baixinho.
E Leon só a fitou... Ouviu o fio estalar de novo a um ponto de partir-se...
Aqueles olhos violetas lembrando-o da garotinha que ela fora... Lembrando-o do motivo pelo qual ele fizera aquilo pela primeira vez, anos atrás.
Ele viu a pequena corrente de prata com pingente cor de rosa que pendia no pulso dela.
Scotty...
E soltou o fio antes que ele se partisse, caindo com ela.
Sem soltar-se da mão da agente, sentiu os dedos dela agarrando-se aos seus, antes que ambos caíssem na escuridão completa.
Notas finais
Até porque, está passando da hora de termos algum terror por aqui, né.
Nos vemos no próximo sábado. Até lá e boas leituras!
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