Resident Evil: Inevitável
2 Escolhas
Escolhas
Entrou no edifício executivo vestindo jeans e uma camiseta preta de algodão, trocaria de roupa no vestiário depois. Os óculos pretos escondendo seus olhos e as chaves da moto esportiva preta metálica em sua mão direita.
Esse fora seu maior gasto até hoje.
Porque adrenalina era seu passatempo favorito.
Comprou a moto por vários motivos, não só pela aparência que achava absurdamente linda, mas pela velocidade. Seus amigos sempre diziam que ela morreria ou trabalhando, ou em cima daquela moto. Só sorria. E haveria um jeito melhor de morrer? Foi para o elevador e apertou uma seqüência de botões, por fim, acionando um botão vermelho que qualquer um presumiria ser o de emergências. As portas de metal se fecharam e, então, o elevador começou a se movimentar para baixo, descendo muitos andares depois do estacionamento subterrâneo, quase vinte andares. Quando as portas de metal se abriram, havia uma paisagem totalmente diferente para seus olhos. Uma sala gigantesca com a iluminação branca dando uma claridade agradável ao lugar. Havia várias fileiras de mesas com computadores, e cada uma ocupada por uma pessoa com fone e microfone, que analisavam dados, faziam pesquisas... O que fosse necessário ser feito.
-Achei que nem a vida do Papa tiraria você da cama. – A voz forte dele chegou aos seus ouvidos.
Uma figura masculina que aparentava cinqüenta anos, de terno preto, os cabelos acinzentados cuidadosamente penteados para trás, os olhos verdes claríssimos, uma das mãos metida no bolso da calça e segurando um copo florido na outra.
-Bom dia, Davie – cumprimentou sem olhá-lo, pegando o copo, abrindo a tampa do seu café e bebendo um gole da bebida quente. – O que aconteceu?
-Me acompanhe – o mais velho disse, virando-se e andando pelo corredor que separava as filas de mesas até outro elevador, no outro extremo da sala. Entraram os dois e subiram, dando agora num corredor de aparência mais agressiva, não tão claro quanto o saguão anterior. Andaram pelo corredor até uma porta de madeira escura, pela qual passaram, e depois ele a fechou atrás de si. Havia uma mesa grande de madeira, com alguns papéis sobre ela, e uma poltrona enorme e negra de couro do outro lado, e duas cadeiras levemente menores para os raros visitantes. Uma estante de livros na parede à esquerda da mesa, cheia de inúmeros volumes de diferentes línguas. A parede atrás da poltrona de couro era toda em vidro, e dali podiam ver inteiramente o saguão principal, ou seja, quem chegava e saía. Apesar de a janela ser de vidro inteiramente escuro e ser impossível que alguém lá fora os visse, o chefe fechou as persianas.
-Claire Redfield desapareceu quando estava investigando algo na América do Sul – ele começou, pegando um controle remoto pequeno na mesa e apertando um botão. Ela sentou-se numa das poltronas e virou-se à esquerda, vendo a estante se dividir em duas partes e se abrir, dando visão para uma tela enorme de LCD. – Pelo que sabemos, ela estava atrás do seu irmão, Chris. A última notícia que tivemos dele, foi que estava em algum lugar ao norte da Europa com um grupo de ex-agentes da S.T.A.R.S, envolvido com ações anti-Umbrella.
Ela ficou calada por um segundo, vendo as duas fotos lado a lado naquela tela enorme: uma menina de cabelos castanhos e do outro, o rapaz moreno de olhos escuros.
-Há quanto tempo? – perguntou sem tirar os óculos, embora seus olhos vissem o rosto do moreno na tela sem conseguir desviá-los.
-O último contato com ela foi há vinte e sete horas – ele informou vendo com pesar a expressão da morena. – Nem preciso ver seus olhos para saber o que está pensando, e está errada.
-Errada? – ela devolveu, respirando pesadamente, fechando os olhos por trás das lentes.
-Isso não foi sua culpa – o mais velho falou sereno, aproximando-se da agente. – E você sabe disso.
Ela sorriu amargamente ao ouvir aquilo. Aquilo para si era somente uma desculpa, um argumento que seus amigos tentaram usar para confortar uma culpa que ela jamais compartilhou com nenhum deles, sobre aquele aspecto em especial de sua vida.
– Se ele estivesse aqui, Claire não teria desaparecido – concluiu unicamente, fechando as mãos em punhos sobre os braços da poltrona.
-Não precisa aceitar essa missão se não quiser, garota – ele disse com aquele mesmo tom paternal de quando a chamava daquele jeito.
Ela olhou de novo para as fotos dos dois ali. Não era uma questão de vontades.
OooOoOoOoOo
-Trouxe-a de volta? – ouviu a voz que lhe despertara naquela manhã quando entrou em outra sala, grande e clara, cheia de equipamentos e projetos sobre as mesas. Uma estante com livros encostada na parede da esquerda, e na parede perpendicular à esta, uma enorme tela ligada a um computador desenvolvido pelo próprio garoto.
Olhou para o rapaz de óculos, oriental com os cabelos negros e cortados arrumados de um jeito arrepiado, que lhe davam um ar ainda mais jovem, algo em torno de uns vinte e dois anos, e caminhou até a morena. Não respondeu.
-É claro que não – ele disse, revirando os olhos e bufando vencido. – Não existe ciência no mundo capaz de explicar sua incapacidade de manter inteiros os equipamentos que eu passo meses desenvolvendo.
-Não brigue comigo ou não te digo se funcionou – respondeu malcriada, rindo de canto ao se sentar na cadeira giratória dele, colocando os pés sobre a mesa, um tornozelo sobre o outro.
Ele estreitou os olhos detrás das lentes dos óculos para ela.
-E funcionou? — perguntou, sempre sabia que ela não iria trazer seus inventos de volta depois de entregá-los, mas pelo menos recebia um relatório do seu desempenho.
-Travava — concluiu depois de alguns segundos. — Depois da metade do pente, começava a emperrar. Acho que calculou a força de fricção errado.
-Só na sua imaginação — ele retrucou irritado. Como assim travava? Ele puxou uma pasta na mesa e a abriu revendo os cálculos, não era possível que tivesse errado depois de todas as noites que passara em claro revisando aquelas equações.
-TJ, sua inocência supera sua genialidade. — Ela revirou os olhos, tomando a pasta das mãos dele. Quando ele ia aprender que nunca estava errado? Era tão fácil enganá-lo, que se sentia culpada. Pelo menos nos dois primeiros segundos. — Ela funcionou perfeitamente bem. O que tem pra mim dessa vez?
Ele era de longe o garoto mais genial que ela já tinha conhecido. Com vinte e dois anos, era o chefe do departamento de desenvolvimento tecnológico e inteligência daquela organização. Foi recrutado aos dezoito, quando no campeonato mundial de ciências exatas, ele resolveu a prova de quarenta questões em uma hora e meia. Gabaritou trinta e nove dos exercícios e provou para a banca de juízes, e avaliadores, que a quadragésima questão não tinha um resultado possível.
-Nada. — Pegou a pasta de volta e bateu com ela na cabeça da mulher. — Você não merece meus esforços.
-Ah, TJ... — ela miou, sorrindo-lhe marota, tirando os óculos da frente dos olhos e pousando a armação negra na cabeça. — Gostaria tanto de mim se eu fosse diferente? — Curvou levemente os lábios para a esquerda.
Ele revirou os castanhos, vencido por aqueles olhos e aquele sorriso que ela oferecia. A verdade era que, quando começou naquele trabalho, ela tinha sido a única a realmente se importar com ele, visitando-o todos os dias no laboratório. E, mesmo que no início, a sua mania de mexer nas suas coisas o tenha irritado, com o tempo, passou a esperar pela presença dela. Agora, depois desses anos trabalhando juntos, ele sabia que não gostaria tanto dela, se ela não fosse exatamente como era.
-Vem comigo — chamou, começando a atravessar o laboratório e ouvindo os passos o seguirem conforme chegava a uma parede aparentemente vazia, com um pequeno painel mais ao lado. Aproximou-se dele, digitando cinco números rapidamente e, em seguida, a enorme parede se moveu, revelando uma sala enorme, com as paredes cobertas por armas e uma mesa grande no centro, com ferramentas de trabalho.
Eles entraram e a agente viu o mais jovem andar adiante, mas parou de frente para a parede gradeada, onde armas de todos os tipos estavam expostas. Seus olhos caíram numa enorme bazooka preta. Pegou-a, admirando.
-Por que é que você não me dá uma dessas? — perguntou, ajeitando o cano de metal sobre o ombro e olhando pela mira ajustável ao ambiente. Ele não respondeu, parou ao outro extremo da sala e voltou com uma maleta grande de metal, com trancas digitais, colocou-a sobre a mesa sem encarar a morena.
-Ponha isso no lugar Must, é coisa do exército, muita força, pouco resultado — mandou, sem olhá-la. Não gostava, mas ás vezes se via obrigado a fazer projetos para o Pentágono. Militares idiotas. Insultavam sua inteligência ao fazê-lo projetar armas tão brutas. Pegou uma mochila pequena e compacta, preta e impermeável, atirando-a à agente. — Aqui.
Ela a apanhou e parou ao lado do rapaz.
-Granadas. Luz, incendiárias e explosivas. — Apontou para cada um dos pequenos cilindros de metal, com as respectivas cores, azul, vermelha e verde escuro, para identificação. Ela pegou três de cada e colocou na mochila. — As de luz e as incendiárias tem efeito imediato, então não vá atirá-las muito perto. — Pegou uma das verde-escuras e olhou para ela. — Suba o detonador e arranque o pino, vai ter dez segundos até que as explosivas detonem — ele explicou, fazendo os gestos e passando para o próximo item.
-Dez segundos? E o que eu faço em dez segundos? Rezo? — perguntou cínica com um sorriso torto.
-Use sua imaginação — ele retrucou, agora mostrando um binóculo preto e emborrachado. — Aumento real de vinte e sete vezes, sistema de enfoque localizado entre as quatro lentes, que eu tratei para filtrarem a luz e eliminarem os reflexos. Tem visão noturna, térmica e submarina além de um sistema de detecção e localização de movimentos. — Olhou para o próprio trabalho enquanto o descrevia. — É o protótipo, então tente não destruí-lo.
-Vou me esforçar — ela prometeu, sorrindo de canto, colocando o objeto na mochila. TJ lhe entregou um pequeno aparelho redondo.
-Isso é algo que vai gostar. — Segurou a pequena ponta e a lançou contra a outra parede; a ponta se abriu em um gancho que se cravou no cimento preso por um fio fino. — Tem força para oitenta quilos, fio e estrutura de aço. Primeiro toque, o sistema trava a corda; segundo toque, ele a recolhe — explicou recolhendo o fio para dentro do pequeno aparelho e o atirando a ela. — Se cair de um penhasco, vai salvar a sua vida.
O viu pegar um pequeno aparelho, tinha um formato ajustável à orelha com um fone de ouvido, e um fio maleável que se adequava ao rosto, com um microfone na ponta. Ele o estendeu para ela.
-É um comunicador de linha direta. Sinal de satélite, com localizador GPS — ele disse, agora ligeiramente mais sério. — Esse é pra ficar com você o tempo todo.
-Já tenho um comunicador — ela disse, lembrando-se do aparelho negro que deixara em cima da cômoda em seu quarto. Então, processou a primeira frase dele. Estreitou as sobrancelhas, intrigada. — Linha direta? Com quem?
-Comigo — ele respondeu. — Se precisar de qualquer coisa, informações ou o que seja, vou estar no ar vinte e quatro horas enquanto você estiver fora. — A verdade era que se preocupava com ela e queria garantir que poderia ajudar da maneira que pudesse, caso a amiga precisasse dele. E o que temia era saber que ela precisaria.
Ela estranhou aquele olhar escuro que recebeu dos orbes por trás das lentes, mas não questionou. Colocou o aparelho na mochila.
-E agora, que tal me dar algo que eu realmente vá gostar? — perguntou, sorrindo irônica, pra desfazer aquele clima sério que pairou entre eles.
-Se destruir essas, eu juro por Deus, peço demissão — ele avisou com os castanhos nos olhos da agente. Segurou a maleta de metal e digitou o código no fecho eletrônico, que abriu as travas depois de um beep. Ele ergueu a parte superior e revelou a ela as armas mais lindas que podia imaginar. Duas pistolas pretas, que fizeram seus olhos brilhar. — São desert eagles, pentes especiais para dez balas, calibre .50, mira a laser e a velocidade de tiro está duas vezes maior, por causa do sistema a gás que projetei só para elas. Passei oito meses desenvolvendo e projetando-as até conseguir incorporar essas modificações, são realmente um trabalho de gênio — analisou, e ela sabia que ele estava sendo imparcial, mesmo que tivesse sido o trabalho de outro, TJ ainda pensaria o mesmo. Mas nenhum outro era tão bom quanto ele.
Ela pegou uma das armas pretas, observando-a admirada e viu então o pequeno desenho no cano, a silhueta mínima de um cavalo gravado no metal, bem como na outra arma. Passou o dedo sobre o detalhe.
-Um Mustang. — Ouviu-o dizer a raça do cavalo na arma e ergueu os olhos para ele. — Feliz aniversário adiantado, Must.
Ela deixou a arma sobre a mesa e abraçou o rapaz, com força. Ele retesou por alguns segundos, desconcertado, sem estar acostumado com essas demonstrações de afeto, mas então relaxou aos poucos e pousou as mãos sobre as costas dela, abraçando-a de volta.
-Ei, Must — ele chamou baixo.
-O que? — murmurou de volta, sem soltá-lo.
-Vê se não morre.
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