Resident Evil: Esquadrão Alfa
5 Capítulo 5
Yuri abriu os olhos sem saber onde estava. Imagens embaçadas e distorcidas dançavam à sua frente. Estava zonzo. Não sabia o porquê, mas sentia gosto de sangue.
Ele tentou se levantar, mas sentiu uma dor pungente atacar a lateral direita de seu torso. Só então percebeu que estava esparramado sobre uma pequena pilha de pedaços de concreto e gesso. Com a visão já não tão turva, Yuri olhou em volta. Haviam grandes buracos no teto, pelos quais era possível enxergar o andar superior. Parte do terceiro andar parecia ter desmoronado, deixando entrar a brisa fresca das primeiras horas da noite.
Sem entender o que havia acontecido, o comandante se levantou. Cada movimento era uma luta contra aquela dor horrível. Encostando-se na parede, ele respirou fundo. A dor era forte, mas não parecia ter fraturado nenhuma costela.
Uma imagem passou rapidamente por sua mente: ele próprio, empurrando os companheiros para longe da janela.
“A explosão!” – lembrou-se e girou a cabeça, buscando o restante da equipe.
Correu desengonçado pelo andar, procurando em cada canto. Próximo às escadas, sob uma fina camada de pó, estava Brian Harrison. O peito do rapaz subia e descia lentamente. Ele estava vivo:
— Brian! – chamou Yuri. A voz rouca preenchendo o silêncio – Brian! Acorda!
Nada. O comandante deu alguns tapas de leve no rosto do garoto e continuou a chamar – Acorda! Vamos! Nem pense em morrer aqui, moleque! – a voz fraquejava, enquanto memórias invadiam a mente do veterano.
“Não! Não! De novo não!”
Os olhos de Brian se abriram devagar e, mesmo com a vista embaçada, ele pôde ver um leve sorriso se formando por detrás da barba branca de Yuri:
— O que aconteceu? Onde estamos? – Brian tentou se levantar, mas foi impedido pelo comandante.
— Devagar, garoto. – sinalizou para que o jovem ficasse deitado mais um pouco – Vai com calma.
Os olhos do rapaz correram o andar devastado e voltaram para os do líder – O que aconteceu? – a voz estava nervosa.
— O caminhão explodiu quando bateu no prédio. – Yuri mantinha a voz amena, para não alarmá-lo – É só o que me lembro, antes de acordar aqui no meio dos escombros.
— E os outros? – havia um pouco de urgência na voz do jovem.
— Ainda não sei. – a voz do comandante parecia um tanto angustiada – Você foi o primeiro que eu encontrei.
Brian se sentou e estendeu a mão para o veterano, pedindo que o ajudasse a se levantar – Vamos encontrá-los, então.
Um pequeno sorriso se abriu nos lábios do homem barbudo. Ele ajudou seu companheiro a se levantar e ambos começaram a buscar pelo restante da equipe.
Após checarem todo o andar, eles se dirigiram ao ponto onde a construção havia desmoronado. Dali podiam ver a rua e uma boa parte da cidade:
— Acha que eles podem ter caído? – a voz de Brian chegou fraca aos ouvidos de Yuri.
— Não sei, garoto. – o veterano mantinha a voz firme, mas seu rosto mostrava preocupação – Mas tenho certeza de que não estão no prédio.
Yuri levou a boca até o rádio, preso em seu colete – Randy? Takashi? Ivana? Alguém na escuta? — somente o ruído da estática pôde ser ouvido – Alguém na escuta? Câmbio. – ainda sem resposta, o comandante foi até a beirada e olhou para baixo – Merda! – gritou irritado. O rosto estava vermelho. Ele caiu de joelhos, ainda olhando para os destroços acumulados na calçada e na rua.
“De novo não...”
Yuri sentiu a mão de Brian sobre seu ombro e se virou para o rapaz, tentando manter a expressão firme.
Brian indicou a escada de incêndio próxima a eles – Acho que podemos descer por ali. – sem esperar qualquer tipo de resposta, ele se dirigiu à escada.
Yuri se levantou, respirou fundo e seguiu o rapaz.
O metal enferrujado estalava sob os passos rápidos dos soldados. A estrutura parecia um pouco fraca, mas parecia suportar bem o peso deles. Pelo menos até que chegassem ao chão.
O calor aumentava significativamente à medida que desciam cada degrau. O fogo ainda consumia o que havia sobrado dos dois veículos. Um cheiro forte de carne queimada se misturava à fumaça que subia.
Logo que chegaram ao chão, os dois foram até a grande pilha de destroços e começaram a buscar por seus companheiros. Eles afastavam os grandes pedaços de concreto, cavando por entre os entulhos. Nada:
— Merda! Mas que merda! – Yuri esmurrava os destroços, enfurecido – De novo não! Merda!
Brian se virou para o comandante. Não sabia o que fazer. Também estava entristecido e chocado com a perda dos companheiros, mas precisava que Yuri se recuperasse. Era um pensamento frio, mas eles ainda tinham uma missão à cumprir.
O rapaz estava prestes a se dirigir ao comandante, quando percebeu alguma movimentação com o canto de seu olho. Se virou e viu dois homens cambaleando em direção a eles. Ambos tinham grandes feridas espalhadas pelo corpo e manchas de sangue na boca e no rosto.
Brian pegou sua Bereta 9mm e a apontou para os estranhos – Parados aí! – eles sequer pareceram ouvir. Ele atirou no peito de um deles. O homem se desequilibrou um pouco, mas continuou a andar vacilante.
Quase que instantaneamente, o rapaz se lembrou da mulher canibal que haviam visto no prédio. Ele engoliu em seco. A arma tremia um pouco em suas mãos. Mais um passo em sua direção. Brian puxou o gatilho, fazendo um líquido grosso e escuro jorrar da cabeça do homem enquanto ele caía. O segundo, que continuava a se aproximar, tropeçou no corpo do primeiro e foi ao chão, batendo fortemente o rosto contra o asfalto. Brian deu um tiro certeiro na nuca do homem, enquanto ele tentava se levantar.
O jovem tinha a respiração pesada. Ele olhava para os dois corpos no chão, tentando se lembrar do que Ivana havia dito. “Eles já estavam mortos? Como...?” Pensou sem desviar o olhar.
Yuri colocou a mão sobre o ombro dele, assustando-o:
— Não faz isso! Você é louco? – Brian havia se esquecido momentaneamente da presença do russo – Vai acabar me matando de susto, velhote!
Yuri tinha uma expressão distante, ainda sofrendo pela provável perda de seus companheiros.
Observando aqueles olhos azuis apagados, Brian sentiu que o comandante estava quase desistindo. Deu um soco fraco no peito dele – Vamos! Não é possível que todos nessa cidade tenham virado umas aberrações canibais. – ele sorriu discretamente – Vamos procurar por alguém que esteja...normal.
Yuri baixou a cabeça. Os olhos abertos fitavam as próprias mãos – Eu...não consegui salvá-los...
Brian sentiu um misto de pena e raiva do comandante – Senhor... Nós nem sabemos se eles estão mortos mesmo.
Yuri levantou a cabeça. O rosto permanecia desprovido de qualquer sentimento positivo. O olhar era frio e triste – Não consigo... – a voz falhava, como se tivesse vergonha do que estava dizendo – Precisamos ir embora. Vou assumir a responsabilidade pelas mortes e pelo fracasso da missão.
O jovem se aproximou e deu um forte soco na barriga do russo, fazendo-o se curvar de dor:
— Filho...da puta! – Yuri sofria com a repentina falta de ar – Moleque...
— Se eles estiverem mortos – Brian interrompeu o comandante que se ajoelhava para recuperar o fôlego – Desistir agora seria uma vergonha! Vai deixar que as mortes deles tenham sido em vão? – a voz era forte e de uma autoridade extraordinária – Quer se redimir? Levante e cumpra sua missão, velhote!
Yuri, ainda ajoelhado, mas com o fôlego recuperado, olhou para Brian. Seus olhos brilhavam de fúria – Quem você pensa que é pra falar assim comigo, moleque? – ele se levantou rápida e agressivamente – Eu sou o seu superior e...
— Se desistir agora, não é mais meu comandante! – os olhos de Brian atravessavam os do comandante – Se quer mesmo que alguém te respeite, não fuja dos problemas!
Chocado, o russo se calou. O comentário de Brian o havia atingido como um tapa no rosto.
Eles permaneceram em silêncio no meio da rua por alguns segundos. O fogo estalava e dançava atrás deles.
A luzes da rua já estavam acesas e um vento frio soprava suavemente.
As feições de Yuri relaxaram, dando espaço para um sorriso débil – Droga, garoto. – a voz parecia menos tensa – Odeio admitir, mas você está certo.
Brian sorriu confiante quando percebeu que o líder havia voltado a si. Contudo, esse momento de leveza não durou muito. O som estrondoso, como o de um prédio sendo demolido, cortou o silêncio e os lembrou de que ainda não faziam ideia do que estava acontecendo naquela cidade.
— Que merda foi essa? – Yuri se virou para a direção de onde o barulho havia se originado. Ele estava tenso e um pouco assustado.
— Não sei. – o jovem olhava para a mesma direção que seu superior. Os olhos focados e os ouvidos atentos – Mas seja lá o que for... Parece que o estrago foi grande.
— Vamos! – o comandante chamou Brian enquanto corria na direção que acreditava ser a correta – Talvez a gente ainda consiga salvar alguém.
Brian se apressou para acompanhar os passos do veterano. Estava receoso, mas seguiu em frente mesmo assim. Não podia, e nem queria, sucumbir ao medo e à incerteza.
Enquanto corria, Yuri olhou rapidamente para trás, onde estavam os escombros. Ele respirou fundo e acelerou o passo, pedindo desculpas mentalmente para seus companheiros. “Não terá sido em vão!”
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