Era a terceira chamada dela em seu celular. Olhou para a tela a sua frente, com o nome Ângela Miller piscando na escuridão do carro. Não atendeu. Pela primeira vez na vida, Leon sentiu o remorso do que era ser um verdadeiro mau caráter. Relacionamentos começam e terminam o tempo todo, todos os dias e isso na maioria das vezes não é culpa de ninguém, acontece. Sabia disso, mas mesmo assim se culpava, por que no fundo sabia que por mais atraído que tenha se sentido por Ângela, começou um caso com ela, ainda pensando em Ada.


Isso foi desonesto. Com ela e com ele mesmo. Na ocasião pareceu uma boa ideia, ela era bonita, atraente, estava disponível e muito interessada. Do outro lado estava ele, sem qualquer noticia de Ada Wong, há quase oito meses. Seu humor oscilava entre períodos de depressão e desespero acreditando que talvez ela tivesse sido pega e morta, depois virava raiva, rancor... quase ódio, achando que ela simplesmente foi embora e decidiu ignorá-lo. Que o tempo todo foi só mais um brinquedo nas mãos dela. Pesadelos frequentes, noites e noites de insônia regadas a muito álcool... Sozinho... Ângela pareceu a mais perfeita tábua de salvação.


Depois do atentado ao Aeroporto de Harvardville, começou então um relacionamento com aquela mulher. Não era um namoro, quanto a isso teve o bom senso de se negar a fazê-lo. Já estava tão arrependido... Mas agora que Ângela começou com as cobranças sobre “dar o próximo passo”, a cobrar dele alguma atitude ou então cair fora, tudo pareceu ficar ainda pior do que já era. Não era só então aproveitar a deixa e “cair fora”... Leon não sabia ser assim. Teoricamente aquilo era só um caso, mas sentia que devia satisfações a ela, que não devia magoá-la e sabia que fosse honesto, era justamente o que estaria fazendo. Contudo, não dava mais para fugir, já passou da hora de chamá-la e botarem logo um ponto final no que nem deveria ter começado.


Leon dirigia pelas ruas de Washington pensando que aquele maldito atentado pelo menos serviu para algo bom. Pode se reaproximar de Claire. Depois de Raccon City existiu um clima muito pesado entre os dois, por causa de Sherry, depois ela estava sempre ocupada e viajando, cuidando de sua ONG Salve a Terra... Ela era a sua melhor amiga e simplesmente nunca teve uma oportunidade de encontrá-la em uma situação... normal. Mas isso era passado, chegou um e-mail informando que ela passaria alguns meses na cidade, e já havia alguma programação marcada, para ele, ela e Sherry.


Chegando em seu apartamento, cumpriu com o seu ritual noturno quase que diário. Sentou em seu sofá, ligou a TV. Com o controle remoto na mão esquerda... e uma garrafa de Jack Daniel's na direita. No começo, eram só algumas cervejas à mais. Depois descobriu a vodca. Até que finalmente chegou no uísque. Depois de Raccon, ganhou uma insonia que nunca o incomodou muito. Depois de Ada, tinha insônia, e quando dormia tinha pesadelos. Quando acordava, tinha dores de cabeça insuportáveis. Não queria procurar um médico, não queria analgésicos ou antidepressivos, não queria se curar, só queria esquecer.


As horas passavam mais rápido a medida que a garrafa de Jack Daniel's ficava mais vazia, já era madrugada. A televisão ainda ligada na sala escura... Um Leon bêbado adormecido no sofá...


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Leon não abriu os olhos, mas acordou quando sentiu a maciez de um corpo familiar sentar em seu colo, e o perfume também familiar lhe penetrar as narinas. Os lábios que ele tanto amava lhe beijarem a boca. Abriu os olhos.


“ — Ada?”


Ela não respondeu. Apenas se acomodou melhor de joelhos no sofá, com uma perna em cada lado do agente. Beijou-o de novo, demoradamente.


“ — Ada... aonde você esteve esse tempo todo? Por quê você sumiu?” — Ele perguntava debilmente, alcoolizado, com a voz lenta e a língua pesada.


“ — Psss. Você se lembra? Sem perguntas.” — Trocaram mais um beijo. Leon a abraçava forte, quase desesperado. O alívio por tê-la de volta, por ela estar viva, era maior do que qualquer raiva que ele tenha passado nos últimos meses. — “ — Acabou. Agora vai ficar tudo bem, eu tô aqui.”


Sim, agora ia ficar tudo bem. Ele voltaria a ser o Leon que sempre foi. Sem mudanças repentinas de humor, sem dores de cabeça, sem álcool, sem pesadelos... Ela nunca prometeu que ia voltar, mas voltou. Era tudo o que importava agora, ele a tinha de volta em seus braços, a abraçou ainda mais forte, porém incomodado com o calor úmido que espalhava em seu peito, escorrendo pela barriga... Não demorou a notar que o corpo da espiã agora nada mais era que uma peso morto, afastou-a um pouco para ver o que estava acontecendo.. e a viu banhada em sangue... sentindo o sangue ainda quente dela escorrer em seu próprio corpo. Perdeu o fôlego, aterrorizado com a figura de Ada morta, ensanguentada, de olhos abertos, toda machucada em seus braços... Era um desespero muito pior do que quando isso aconteceu em Raccon... porque agora a amava muito mais, porque agora não conseguia mais se imaginar vivo se ela também não estivesse, porque agora tentava gritar mas a voz não saía, tentava chorar mas não conseguia nem puxar o ar... Sentia as lagrimas escorrendo pelo seu rosto e que morreria engasgado com o grito do nome dela entalado na garganta...


… tinha que gritar... respirar... Ada... Ada... por quê o grito não saía? Se fizesse mais força...


Leon foi ao chão em um salto, caindo de quatro no carpete.. foi quando saiu o primeiro jato de vômito da sua boca, foi longo, violento ao ponto de bater no carpete e respingar em seu rosto. O agente não sabia mais o que era a sensação molhada na face, vômito ou choro, mas sabia que estava chorando. Conseguiu respirar de novo, a medida que respirava, seu estômago ficava ainda mais revoltado... soltou o segundo jato. Suas mãos apoiadas no carpete já estavam submersas num lago de imundice... soltou o terceiro jato.


Tossia copiosamente a medida que percebia o que aconteceu... um pesadelo... de novo. Ficou de pé e caminhou até o banheiro deixando um rastro com pegadas de vômito para trás. Ria nervosamente enquanto tirava a roupa. Idiota! Aos poucos o desespero e o medo de que a espiã estivesse mesmo morta foi substituído pelo ódio incontrolável que sentia de si mesmo por ter se permitido ficar em um estado tão deplorável. Ligou o chuveiro gelado e não ligou mais para o tempo que iria gastar alí. Claire que o perdoe, mas ele acabaria com toda a água do planeta aquela manhã se fosse possível.


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Leon esperava Sherry recostado em seu carro. Tinha uma garrafa de água mineral em uma das mãos e duas aspirinas na outra. Bebeu as aspirinas com todo o conteúdo da garrafa, precisava se hidratar... do outro lado da rua no campus da Universidade de Washington, ele pode ver a moça baixinha, de cabelos loiros e curtos, na juventude de seus vinte anos surgir com um pequeno grupo de colegas. Elas se despediram e a loirinha então correu até ele.


“ — Sherry!” — Ela pulou em seu pescoço e o beijou no rosto. “ — Como você está?”


“ — Bem, obrigada. Me fala, onde você vai me levar hoje? Você me disse que tinha uma surpresa...”


“ — Surpresa.” — Respondeu abrindo a porta do carro para ela entrar. — “ — Não esquece de botar o cinto, heim. Eu te quero de cinto.”


A principio Sherry não entendeu qual era a surpresa. Aquele era o mesmo cinema que Leon a levava todas as semanas desde que ela tinha quinze anos. Mas tudo bem, o importante é que ele estava ali, e esses sempre foram os seus dias favoritos na semana inteira. Aguardava com os ingressos na fila, quando avistou o loiro voltar com pipoca e refrigerantes.


“ — Tem certeza que quer ver esse?”


“ — Por quê?”


“ — Eu acho esse filme muito pesado para você Sherry – Final Destination 3?”


Por um segundo a garota pareceu ofendida. “ — Eu não sou mais criança, Leon.”


Ele apenas sorriu. “ — Tá bom, bonitinha, tá bom, você nem é mais criança.”


Sherry revirou os olhos e seguiu rumo a sala de cinema.


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Ao fim da sessão, Leon ria divertido a respeito de Sherry, que se assustava e pulava da cadeira o filme inteiro, que escondia o rosto dentro da jaqueta dele em toda cena de sangue. Que apertou o braço dele o tempo inteiro. — “ — Eu sou Sherry Birkin, e eu não sou mais criança! Aiii Leon, já acabou? Já posso olhar?”


Sherry não respondeu, apenas botou as mãos na cintura e bateu o pé direito impaciente. Leon não queria vê-la brava, abraçou o corpo menor e beijo-a na testa. — “ — Não fica brava comigo não baixinha, eu só quero implicar com você.”


“ — Hoje você está bem mais mala que o de costume...”


“ — Eu sei.” — Respondeu resignado — “ — Mas eu trouxe uma surpresa pra me redimir.”


“ — E o que é?” — Ela sorriu


“ — Ela está um pouquinho atrasada, mas já vem chegando aí...”


Do outro lado do hall de entrada, Sherry pode ver a mulher ruiva seguindo em direção a eles.

“ — Claire!”


As duas se abraçaram longamente. “ — Meu Deus, Sherry! Eu não acredito, eu só te via na webcam... eu não tinha como imaginar... você cresceu!”


“ — Não sei aonde, pra mim continua uma tampinha.”


“ — Cala a boca!” — Responderam as duas ao mesmo tempo.


“ — Então Sherry, se prepare, nós vamos sair hoje!” — Disse Claire.


“ — E onde vamos?” — Perguntou Leon.


“ — Sherry vem comigo de moto, você segue a gente com o carro.”


“ — Sherry? De moto? Eu não acho uma boa ideia...”


“ — Te garanto que é mais seguro do que de carro com você, Agente Kennedy!” — a ruiva piscou enquanto puxava Sherry pelas mão e deixava Leon para trás se qualquer direito a protesto.


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Leon observava o lugar de dentro do carro. Os vários grupos de motoqueiros estacionados do lado de fora, parecia uma reunião de Harley-Davidson ou qualquer coisa do tipo. De dentro do bar vinha o som alto de uma banda cover do Deep Purple. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos, aquilo ia ser difícil.


Entrou no bar e imediatamente encontrou as duas garotas sentadas em uma mesa, cada uma com uma taça de margarita... “ — merda.”.


“ — Aqui Leon. Senta! Vai querer o que?”


“ — Uma água.” — Respondeu serio. Claire pode perceber que ele estava tenso. — “ — Vocês tem certeza que esse é um bom lugar? Não vamos esquecer que Sherry ainda precisa de proteção.”


Claire olhou incrédula, não entendia porque ele ficou tão desconfortável e desagradável, mas já tinha inclusive uma boa teoria para o que estava acontecendo ali. “ — Leon, abaixa a bola tá? Tá tudo bem, somos só três amigos em um bar, relaxa.”


“ — Se vocês me dão licença, eu vou ao toalete.” — Disse Sherry tentando ser rápida em deixar os dois sozinhos ao perceber a tensão no ar. Leon a acompanhou com os olhos até ter certeza que ela estava longe.


“ — Ficou maluca? Você deu tequila para ela.”


“ — Que discurso conservador para um homem que carrega um cantil de uísque no bolso.” — Respondeu friamente enquanto bebericava sua margarita. Sabia que a uma hora dessas Leon se perguntava como ela percebeu. — “ — Eu sempre convivi com bêbados Leon. Os conheço de longe e você não precisa falar comigo a respeito se não quiser. Mas para de amolar a Sherry, okay? Ela gosta de você...”


“ — Eu não estou amolando a Sherry. Eu me preocupo com ela.”


“ — Você ouviu o que eu disse?”


“ — O que?”


“ — Ela gosta de você.” — Claire percebeu o choque do loiro a sua frente. Sorriu. — “ — É isso mesmo. Ela gosta de você desde que ela era adolescente. Ela não teve um convívio normal com outros rapazes da idade dela e mesmo que tivesse, seria muito difícil competir com o “super Leon metido a herói” , eu nem te contaria isso porque ela cresceu e isso é paixonite, vai passar, mas estou me vendo forçada a te dizer devido ao seu comportamento, não magoa ela, tá legal?”


“ — Ah não! Mais essa...”


“ — Hey! Não se lamente, idiota! Homens... Você foi o primeiro amor de uma garotinha, devia se sentir honrado. Sem drama, já falei, vai passar.”


“ — E que eu faço até lá?”


“ — Não fica tratando a Sherry feito criança, você tá acabando com a autoestima dela, e quando não souber o que falar, apenas fique calado. Para completar, em três semanas Derek Simmons vai oferecer um jantar de gala e a Sherry não tem companhia nenhuma, ela me disse que te convidou e você recusou. Então trate de arrumar um smoking, ir lá e pelo menos tentar ser um... príncipe com ela. Não um pentelho. Pode ser?”


Leon soltou um suspiro exasperado. — “ — Claire... eu recusei porque... Eu não estou em um bom momento para...”


“ — Eu não quero saber. Você vai. E por favor... promete que vai deixar o seu uísque em casa.”


Nisso Sherry voltou e Leon tentava agir naturalmente. “ — Bem, se vocês vão beber, eu vou comer, to morto de fome. Será que eles servem algo além de amendoim?”


“ — A ultima vez que estive aqui as salsichas com purê e ervilhas estavam muito boas.”


“ — Eu... eu acho que eu vou comer também.” — Disse Sherry, agora animada.


Claire piscou para Leon e iniciou uma conversa qualquer sobre as aulas que Sherry estava tendo na faculdade. E a noite terminou sem maiores problemas. No caminho de volta, Leon as acompanhou de carro até chegarem juntas ao hotel de Claire, a moça mais nova dormiria lá, depois, ao invés de seguir para o seu apertamento, estacionou o carro no mirante em frente ao monumento de Washington e ligou o som. Prometeu levar Claire a agencia amanhã, para conhecer e praticar tiro. Sendo assim não podia ir para casa, não podia cair da tentação de beber uma garrafa inteira outra vez, não queria arriscar ter outra noite ruim para que Claire descobrisse tudo o que estava se passando com ele na manhã seguinte.


Abriu a janela do carro e retirou e tirou o cantil prateado do bolso. No celular não havia mais nenhuma chamada de Ângela, Leon sentia um peso a menos nas costas.


Continua...



Notas finais
Enfim, fiquei um pouco insegura de retratar o Leon descendo a lata na cachaça...XD Principalmente porque ja ví muito em outras fics e muitas vezes a recepção foi bem negativa, a galera achava o Leon muito..."fraco" pra ser o Leon. Mas a verdade é q eu não consigo deixar de vê-lo dessa maneira, eu assisti RE - Damnation, e ví o cachaceiro com o cantil pra cima e pra baixo até durante os conflitos armados, sem contar entornando a vodca no hotel, enfim... não adianta, pra mim esse momento acoolico-etilico do nosso querido amigo franjudo tem q ser explicado.^^
Quanto a insonia, eu sei lá... tem um dialogo dele com a Helena no avião, onde ele diz q nao dorme em voôs (mas eles estavam indo de primeira classe dos EUA até a China gente... nao dar nem um cochilo é dose...rs)dai me fixou essa ideia de que o Leon não é um homem de sono fácil. Espero que gostem *sai correndo*