Resident Evil - A Leon & Ada Side Story
15 Capítulo 15 - O Problema Com As Mulheres
28 de Setembro de 1998, Nova Iorque
Abriu os olhos devagar, o despertador berrava no criado mudo ao seu lado. Era um jovem de vinte e dois anos, saudável, responsável e cheio de boas intenções com seu trabalho, mas tinha um defeito — dormia muito e tinha dificuldade para acordar.
A mulher ao seu lado resmungou mau humorada. Leon fez o radio relógio se calar com um tapa, um murro... e depois puxando o fio da tomada. Levantou-se com cuidado e observou a namorada, a vasta cabeleira loira que se esparramava como uma cascata pelo travesseiro.
Dormiram de costas um para o outro, a discussão da noite passada tinha sido horrível, uma das piores que já tiveram, com berros e acusações de ambos os lados. E o mau humor dela só vinha piorando nos últimos meses. Isso o frustrava e o preocupava demais. A amava, era sua primeira namorada, estavam juntos desde o segundo grau, Leon imaginava todo o seu futuro ao lado dela, uma vida tranquila, honesta, uma família. Ele era um ano adiantado a ela na escola, sendo assim, quando se formou e entrou para a academia de policia em Manhattan, foi obrigado a deixá-la, recebendo a visita da moça em seus dias de folga e que ela não tinha aula. Um ano mais tarde ela mudou-se para seu apartamento, quando ganhou uma bolsa para a faculdade.
Ela era uma moça inteligente, e tinha grandes planos para sua carreira como advogada, mal terminou o primeiro semestre e já foi aceita como estagiaria em um dos mais importantes escritórios de advocacia da cidade. Três anos se passaram e Leon se formou um policial, mais um tempinho e ela também se formaria, era tudo o que ele estava esperando para pedi-la em casamento. Contudo, Leon não sabia explicar o motivo, talvez fosse sua falta de tempo sempre muito ocupado na corporação que era em regime de semi-internato e algumas vezes exigindo que ele dormisse no quartel, ou se fosse pelo envolvimento da moça com a faculdade e o escritório, ambos estavam enfrentando a primeira crise, depois de tanto tempo juntos.
Tentou se aproximar e dar um beijo de bom dia antes de ir tomar banho, mas ela evitou seu toque. Não era possível... Era inacreditável que o motivo de tanta raiva era o fato dele ter escolhido ir trabalhar em Raccoon City. Não era um lugar tão longe, além de ser uma cidade que embora mais tranquila que Nova Iorque, era um importante centro comercial, com um bom parque industrial e muitas oportunidades. Era o ideal para um jovem casal, ainda começando a vida. Além do mais, Leon não se imaginava criando filhos na imensidão e na violência de Nova Iorque. Leu sobre os estranhos crimes acontecendo em Raccoon, e sentia que tinha todo o talento para aproveitar essa oportunidade, e fazer carreira numa cidade menor, subindo rapidamente de patente. Ficariam afastados algum tempo até ela terminar a faculdade, mas seria questão de meses.
Estava atrasado para o trabalho, ou melhor, para os preparativos de seu trabalho, seu primeiro dia, oficialmente como policial seria em Raccoon City, mas antes precisava acertar a parte burocrática da sua transferência, e buscar sua tão esperada “encomenda”, suas fardas, distintivo e sua pistola. Amanhã era o dia da sua partida, não queria ir embora brigado, mas agora estava realmente atrasado. Quando chegasse iriam conversar e fazer as pazes.
*****
Leon conseguiu resolver todos os seus assuntos pendentes a tempo de voltar para casa na hora do almoço. Sua namorada não tinha aula a tarde então era a oportunidade perfeita, teriam a tarde e a noite toda juntos, para conversarem, fazerem as pazes e se despedirem. Porém as horas foram passando e nada dela chegar. O jovem policial não queria fazer isso, deixar as malas prontas para que ela visse essa imagem logo assim que chegasse, mas se não o fizesse agora, não teria tempo de fazê-lo depois. Amanha cedo tinha que partir. Estava nervoso e com raiva... era seu ultimo dia deles sob o mesmo teto, ficariam separados por até no minimo mais seis meses, e a moça simplesmente desaparece!
O loiro então começou a fazer as malas, também a encaixotar seus livros, cd's, filmes e papeis, no entanto parou quando viu um envelope perdido no meio da ultima gaveta, não era seu... era dela. No primeiro minuto decidiu não ler, não era bisbilhoteiro e nunca mexia nas coisas dela, mas no minuto seguinte, o lado sombrio de seu cérebro pôs-se a funcionar... o envelope era de um laboratório de analises clinicas, e se ela estivesse doente? Isso explicaria muita coisa, as alterações de humor, as explosões, os ataques gratuitos, a frieza...
“ — Não eu não vou fazer isso!” — Disse para sí mesmo. Até porque 90% desses sintomas começaram há meses, alguns vem durando há mais de um ano, se fosse uma doença, ela já estaria morta.
Foi o que pensou, mas não foi o que fez, suas mãos apenas desobedeceram seu cérebro, abriram o envelope e revelaram seu conteúdo.
MATERIAL: SANGUE
EXAME: DOSAGEM DE BETA HCG
MÉTODO: IMUNOINSAIO ENZIMATICO
RESULTADO: 261,00 mUI/mL — POSITIVO PARA GRAVIDEZ — COMPATIVEL COM IDADE GESTACIONAL DE 6 à 12 SEMANAS
“ — Grávida?” — Leon não sabia se ria ou se chorava. Dedicou longos minutos só para olhar aquele resultado com a boca aberta, lendo-o diversas vezes para ter certeza de que era mesmo real. O susto foi enorme, seus olhos azuis arregalados brilhavam, excitados devido a alta descarda de adrenalina em seu sangue. Euforia. Era esse o sentimento.
Não foi planejado, obvio. Ele tinha simplesmente acabado de se formar, ela ainda ficaria no minimo mais seis meses na faculdade, e isso explicaria muito bem o porque ela odiou tanto sua mudança de cidade. De qualquer maneira, a noticia mudava tudo! Ele não entendia, por quê diabos ela não contou nada. Eles vinham discutindo o assunto “Raccoon City” há meses, e segundo o exame, o bebê ainda era muito novinho, ao invés de brigar, tudo o que ela precisava fazer era dizer que estava esperando um filho e pronto, mudança de planos, adeus Raccoon City.
Daí Leon lembrou... de que seus problemas conjugais vinham anteriormente a Raccoon. A frieza, a distância... Talvez ela tenha ficado sem jeito. Talvez ele tenha insistido tanto, se empolgado tanto, defendido tanto a ideia de Raccoon, e ambos já não vinham muito bem já desde antes, que ela se assustou, preferiu não contar, ficou com medo...
Quanta idiotice. Até parece que ela não o conhecia desde que eles tinham quinze anos de idade. Ela melhor do que ninguém deveria saber que por mais inesperada que tenha sido a noticia, que por mais que o seu desejo de fazer carreira em Raccoon fosse grande, ele nunca deixaria de apoiá-la, de dar suporte, de fazer tudo por ela e o bebê. E sim, apesar das circunstâncias, ele estava muito feliz. Bebês acontecem o tempo todo, desde que o inicio dos tempos, isso não é o fim do mundo, nada que não possa ser resolvido.
Pai. Agora ele era pai? Em poucos meses ele teria uma coisa careca e banguela, comendo muito, chorando muito e fazendo muito cocô, acordando todos a noite. Ele se preocuparia com com o preço das fraldas, do seguro saúde, do plano odontológico, com a poupança para a faculdade... Era impressionante como a vida adulta estava invadindo a sua realidade assim tão rápido, em um único dia se formou um oficial da lei e pai ao mesmo tempo.
Bem, apesar de não ter acontecido conforme o plano original, não era justamente isso o que queria, ser um policial e ter uma família? Não foi por isso que escolheu aquela menina, que parecia ser tão simples, tão honesta, tão tranquila, com uma família normal, tão previsível... justamente para com ela construir a vida que não teve quando era criança, uma vida normal? Então pronto, estava feliz.
********
Leon estava na varanda quando escutou o barulho de chaves e da porta do loft em que morava se abrir, correu para dentro já sabendo que foi ela que chegou.
“ — Onde você estava? Eu fiquei preocupado.”
“ — Suas malas ainda não estão prontas?” — Já eram oito da noite. A moça embora calma, parecia surpresa por não encontrar nada pronto.
“ — Esquece a mudança, não vai mais acontecer.” — Ele a abraçou forte. — “ — Eu fui ridículo com você nessas ultimas semanas, fui egoísta, eu só pensei em mim.”
“ — Leon, do que você está falando? Você tem que estar em Raccon City amanha!” — ela respondeu saindo do abraço, e olhando para ele confusa.
“ — Eu acho que você não entendeu. Eu não vou mais, meu lugar é aqui ao seu lado.” — Ele a olhou com bondade, apenas queria deixar todos os maus momentos para trás. — “ — O que mais você esperava que eu fizesse? Por quê não me contou, você ia me deixar sair da cidade te deixando nesse estado?”
O rosto da moça ficou pálido, visivelmente assustada, internamente ela sabia do que ele estava falando – maldição – mas ainda havia alguma esperança de que talvez o motivo fosse outro.
“ — Eu não te contei o que?”
“ — Para logo com isso. Eu ví o exame. Eu estou falando do nosso bebê.”
“ — Merda!” — Ela nunca falava palavrão, nem mesmo os mais simples, mas sentiu que aquele momento merecia um. Caminhou para longe do loiro calmamente, pensando alguns segundos antes de falar. — “ — Leon, não era para você ter visto nada disso. Era para amanhã você estar partindo para Raccon City e tudo estar acabado, naturalmente. Chega de brigar, discutir, você só iria embora e pronto.”
“ — Ficou doida? Você planejou terminar comigo? Ia esconder meu filho de mim, por quê?”
“ Leon!... Dane-se Raccoon City, você ir ou ficar não faria diferença alguma. Esse relacionamento não esta funcionando mais já tem muito tempo. Você não cresce, o seu mundinho é limitado demais para mim, eu sou muito jovem e tenho planos maiores do que resumir a minha vida a ficar ao seu lado nessa sua busca infantil de querer ser sempre o cara bonzinho, certinho... nessa vidinha medíocre! Nós crescemos, Leon! Esqueça aquele buraco de cidade de onde nós viemos! Tenha mais ambição na vida! Eu não quero estar amarrada a você, eu quero mais para mim.” — Ela fechou os olhos, de todas as verdades que vomitaria essa noite, essa seria a mais difícil. — “ — Não tem nenhum bebê. Eu já... resolvi isso.”
Fazia muito tempo que ele não tinha essa sensação... Desde que seus pais foram assassinados, a sensação de que não existia mais um chão sob seus pés. Durante todo esse tempo ele esteve fazendo planos em passar o resto da vida ao lado daquela garota, sua primeira namorada, e no entanto ela estava planejando terminar, pelas suas costas. Deitando com ele todas as noites, inventando desculpas para brigar e jogar a responsabilidade de suas frustrações em cima dele, fazendo-o se sentir culpado... quando na verdade ela já queria o termino, não importava o que ele tivesse feito. E o pior de tudo... ela gerou um filho seu... e se livrou dele... simples assim, como se fosse um punhado de merda, tudo pelas suas costas. Não conseguia entender, em que momento fez alguma coisa tão errada para merecer uma traição dessas, era como se no fim de um relacionamento tão longo, ela sentisse por ele um desprezo maior do que por um rato.
“ — Como você... conseguiu fazer uma coisa dessas?”
“ — Não seja hipócrita. Esse filho foi um erro, um deslize, eu concertei as coisas, para mim e para você.”
“ — Eu não tinha o direito de saber? Era meu filho também!” — Leon gritava, mas não era raiva, era dor. — “ — Você matou o meu filho?!”
“ — Ah! Para de drama! Não era seu... filho, era um caroço menor que um verme, e estava dentro de mim, com o meu corpo eu faço o que eu quero! Não! Você não tinha o direito de saber, eu não sou obrigada a te dar qualquer satisfação disso. Você não é da policia? Pode consultar a sua amada constituição se você quiser, esse é o estado de Nova Iorque, e eu sou uma mulher livre.”
“ — Como eu pude me enganar tanto a seu respeito? Como você consegue ser tão fria? É tão fácil assim para você passar por cima dos outros dessa maneira?”
Ela apenas revirou os olhos. — “ — A questão é simples, eu não te amo mais Leon, se é que algum dia isso foi amor... nós eramos duas crianças.”
“ — Não é essa a questão! Você mentiu pra mim, me traiu, da maneira mais inescrupulosa que eu já vi alguém ser traído! Você esteve comigo esse tempo todo sem querer estar, me manipulava pra eu achar que a culpa da sua infelicidade era só minha... e agora me solta essa bomba, sem um pingo de dor na consciência, sem um pingo de remorso? Que tipo de mulher pode ser tão... vagabunda!” — O jovem policial já não tinha mais qualquer controle, só expunha toda a dor que sentia com a punhalada que levou no peito, seus olhos azuis nunca estiveram tão vermelhos, as lagrimas corriam soltas pela face alterada.
“ — Chega. Você já começou a apelar. A nossa conversa acaba aqui. Eu vou para a casa da Jeniffer.”
Leon não podia acreditar. Ela simplesmente virou as costas e foi embora. Não importava nada tudo o que viveram nos últimos anos, não importava nada se partilhavam as contas e a cama, não importava nada se essa união foi o suficiente para gerar um filho... não importava se ele estava com o coração em mil pedaços, não importava se ele tinha um coração e sentimentos. Para ela nada importava. Era só virar as costas, e ele, não era mais do que um cão sarnento.
Todos os seus planos de futuro ruíram em minutos, primeiro estava feliz porque realizou seu sonho de ser um policial, porque tinha uma namorada doce a quem amava e era correspondido, tinham problemas, sim, mas que casal não tem? Depois recebeu a noticia de que seria pai, teria uma pequena criatura que precisaria dele, dependeria dele para tudo, uma pessoa que ele deveria amar e proteger mais do que qualquer outra coisa no mundo. E no fim do dia... não tinha mais futuro, nem namorada... nem filho. Foi tudo uma mentira, nada do que viveu foi real.
E ela... parecia ser tão ciumenta, tão apaixonada, tão dependente e carente. Era tão meiga, carinhosa. Como ela se transformou “naquilo”? Leon chegou a conclusão de que ela não se transformou, ela sempre foi assim, e ele, só um idiota que se deixou enganar pelas aparências, uma loirinha caipira, simples, que não gostava de bebida, nem fumo, nem maquiagem, presbiteriana, com uma carinha de quem não seria capaz e fazer mal a uma mosca. Uma falsa! A escolheu justamente porque achava que de uma moça assim, nunca sairia nada de mal, nada de errado... nada de imprevisível.
A campainha tocou, Leon se recusou a atender, até ouvir a voz grave com sotaque irlandês de seu amigo e vizinho de porta.
“ — Kennedy, abre esse porta irmão.”
Leon abriu a porta enxugando os olhos com as costas das mãos. “- Hey, O'Connor...”
“ — Eu ouvi os gritos. Cara, que porra foi essa?”
“ — Resumindo tudo? Incluindo os detalhes sórdidos? Ela terminou comigo, mas antes fez questão de deixar bem claro o quanto ela me achava um merda, indigno até de ter feito um filho nela...” — Ele respirou fundo um segundo para engolir o choro... — “ — Ela escondeu que estava gravida, e tirou o bebê, tudo pelas minhas costas. Eu só descobri porque achei o exame.”
“ — Mas que vadia!” — Liam O'Connor gritou. Estava a pouco tempo na América, mudou-se para Nova Iorque sem conhecer ninguém, e rapidamente ficou amigo de Leon quando esse o ajudou com a mudança e a pitura de seu apartamento. Estava sozinho, com pouco dinheiro e sem trabalho, e o jovem policial fora o único a ser sempre gentil, solicito e sempre querendo ajudar. Ajudou com a pitura, a mudança, ajudou até a achar um emprego. Liam não sabia mais o que fazer com a culpa que carregava, pelo segredo que guardava, e só o fazia porque tinha certeza que Leon nunca acreditaria nele e não queria perder o amigo, mas agora poderia se ver livre desse remorso, para sempre. — “ — Leon, não foi só isso, tem mais...”
“ — O quê? O pai do bebê era você?”
“ — Não! Nem brinca com isso, filho da puta!” — Era um irlandês desbocado, sem estudo, pobre e burro, mas tinha a sua honra, mulher de amigo, pra ele é homem. — “ — Eu só não contei... porque eu tinha certeza que você nunca ia acreditar em mim, e você é o único amigo que eu tenho, e...”
“ — Desembucha, O'Connor!”
“ — Você lembra da briga que vocês tiveram... por causa daquele cara... Murray?”
Carl Murray, esse era o nome. Era advogado no escritório onde ela trabalhava, era bem mais velho, casado... mas Leon não confiava nele, e achava que as intenções dele, eram outras. Claro que Leon se lembrava dele.
“ — Eu vou ser sincero. Eu achei que naquela briga, você estava louco. Por que nem mesmo um velho gordo se interessaria por aquela menina sem sal com cara de cú. Aliás, eu nem sei o que você viu nela... mas há uns quatro meses... eu estava passando em frente ao Devil's Bar... e....”
“ — Chega. Eu já entendi... eu não quero ouvir.” — Leon se encolheu cobrindo a cabeça com as mãos.
“ — Sinto muito irmão.” — O'Connor abriu a mochila e tirou dali um Jameson de doze anos, foi até a cozinha e pegou dois copos. — “ — Tome.” — Serviu os dois copos com o uísque — “ — Eu estava guardando para ocasiões especiais, mas você precisa mais disso do que eu.”
“ — Eu não quero essa coisa. Aliás é a ultima coisa que eu preciso agora. Eu preciso erguer a cabeça, ter um pingo de amor próprio, refazer a minha vida. Eu vou para Raccon amanha. Pode desistir da ideia de encher a minha cara.”
“ — Te encher a cara? Pelo amor de Deus, é só uma dose, pra relaxar.” — Liam parecia sério e verdadeiramente preocupado. Leon virou o copo bebendo todo o liquido de uma só vez, fazendo uma careta horrível depois. — “ — Hey, Leon. Eu arrumei um trabalho como garçom essa noite e preciso sair tarde. Eu consigo te colocar como penetra na festa, só para você sentar la, comer de graça, se distrair um pouco. Aí a gente volta junto depois. O Lugar é meio barra pesada.”
“ — Eu preciso dormir O'Connor. Hoje foi um dia cheio, minha cabeça está explodindo.” — Os olhos de Leon ainda estavam vermelhos, a expressão abatida. Tudo o que a tristeza lhe permitia pensar era em dormir, porque talvez quando acordasse, tudo isso que viveu não teria passado de um sonho ruim.
“ — Por favor Kennedy, agora eu tenho um amigo policial para me manter são e salvo. Hã!”
“ — Aonde é essa festa?”
“ — China Town.”
Leon pensou por um momento, era um lugar realmente perigoso. — “ — Certo, eu vou com você.”
*********
Acordou gemendo... a cabeça explodindo, o estômago revoltado. Estava enjoado, com a sensação de vômito eminente. Percebeu que estava nú, deitado de bruços, suado, e o som entediante do ventilador de teto martelando na sua cabeça.
Sentiu o arranhar delicado de unhas femininas em suas costas.
“ — Dormiu bem, Senhor Policial?”
Leon ergueu a cabeça levemente e constatou o que não queria. Estava em um lugar estranho, com uma estranha, sem lembrar de nada do que aconteceu, muito menos como foi parar lá. A cabeça rodava, rodava, seu corpo estava pesado, como se afundasse no colchão, mas forçou-se a levantar. Quando o fez, deu um pulo de susto, quase caindo da cama. Eram duas mulheres, completamente nuas ao seu lado.
“ — Meu Deus! O que eu fiz!” — Levantou-se num salto, quando cambaleou, ainda por efeito do alcool — ou seja lá qualquer outra merda de substância que esteja em seu sangue... — Escorou na parede para evitar cair, e olhou para as duas mulheres a sua frente. Eram lindas demais para serem prostitutas de rua como as que O'Connor tinha de vez ou outra, ambas orientais. Teve alguns flashes sobre a noite anterior... China Town... lâmpadas orientais... decoração temática... pirotecnia com dragões que soltavam fogo... de estar sozinho em um sofá de canto, remoendo suas mágoas, bebendo sua cerveja enquanto tentava esquecer a dor... Liam trabalhava... e não lembrava de mais nada.
“ — Quem são vocês? Como a gente veio parar aqui, que lugar é esse?”
Elas riram alto, e uma delas respondeu:
“ — Bem, você, o nosso nobre policial, pegou eu e a minha irmã fazendo uma coisa muito... muito feia, e disse que ia nos prender, daí a gente te convenceu a fazer coisa melhor... de um jeito, ou de outro...”
“ — Vocês me drogaram?” — Seu coração batia acerelado “Deu mole Kennedy! Deu muito mole!” — Rezava para não ter nenhum exame toxicológico nos próximos seis meses na Policia de Raccon.
“ — Ah não, ele começou a ficar chato de novo!” — comentou uma irmã com a outra.
“ — Oficial... o Senhor devia deixar de ser tão certinho. Ontem a noite... você não faz ideia do quanto estava muito mais interessante... quase um animal...”
“ — Um tigrão... quem vê essa carinha, não diz....”
As duas caíram na gargalhada de novo.
Leon sentiu a face arder, pela vergonha de estar naquela situação, pensando se um dia seus pais adotivos ficassem sabendo do que fez, porque era o seu primeiro dia como policial e ao invés de estar em Raccon City, trabalhando, estava só Deus sabe onde com duas estranhas completamente malucas, que o drogaram e fizeram... coisas com ele, coisas que ele nem se lembra! Provavelmente perdeu seu emprego, seria expulso da força policial antes mesmo de começar! E mais vergonha ainda porquê não conseguia controlar o próprio corpo e a reação do seu “velho amigo” lá em baixo à provocação das duas já era mais do que evidente.
“ — Eu sinto muito senhoritas, mas eu preciso ir embora.” — Vasculhou o quarto catando suas roupas e vestindo-as depressa enquanto xingava todos os palavrões que conhecia. Correu para a porta ainda descalço quando...
“ — Bebezão! Você está sem carro, bonitinho!” — Uma delas gritou, ainda rindo alto.
Leon quase caiu de susto... era um motel fuleiro, no meio do nada, a luz do sol machucava seus olhos claros violentamente, e não via sequer nenhum ponto de ônibus por aquela estrada.
“ — Não chora não, Bebê. A gente te dá uma carona.” .
***********
Leon estava abismado. Elas definitivamente não eram prostitutas de China Town, não com um Lamborghini – ou então são daquelas muito bem pagas. Preferiu não falar nada enquanto estava no banco de trás do carona. Não podia confiar em duas asiáticas taradas, que o drogaram, o levaram para um motel e... Bem, elas disseram que ele as queria prender, mas não disseram o que era a coisa “ muito... muito feia” que elas estavam fazendo...
Provavelmente eram loucas mesmo, arruaceiras, não bandidas. Caso contrario não teriam deixado sua pistola intacta e seu distintivo também. Devia agradecer muito por isso, e por estar vivo.
Tomou cuidado em não dar o endereço certo para elas, mas sim, o de duas quadras da sua casa. Quando finalmente chegou em casa, foi o tempo de tomar um banho, vestir seu uniforme, tomar um café bem quente e forte, subir em seu jipe, e partir para Raccon, na minima esperança de salvar tudo o que lhe restou: Seu emprego.
*********
ANO DE 2009
Após a sua curta estada na Inglaterra, estava de volta aos Estados Unidos. Com o coração em pedaços, sem entender o que deu errado dessa vez. Tinha certeza, mais do que absoluta que Ada o amava. Não era mais um menininho, não era mais um adolescente iludido ou um jovem de vinte e dois anos que se enganou com a primeira namorada. Era um homem já na casa dos trinta, que já viu muito do mundo, da podridão e do heroísmo humano, as duas faces da moeda. Estava claro, no toque dela e na reação dela ao seu toque, nas palavras, no jeito que ela o olhava, no beijo deles, na forma como se amavam, na maneira como ela se entregava a ele quando estavam juntos... na estoria que tiveram, em tudo o que passaram juntos... Ada o amava. Estava mais do que convencido disso. Era a maior fé que possuía, talvez a única.
Não entendia então, por quê ela preferiu fugir? Estar com ela era a coisa mais especial que possuía na vida... e agora que ela lhe tirou isso, ele não tem mais nada. Novamente, deixou de ser um homem, para voltar a ser uma maquina, um bom agente, um bom caçador de zumbis, um bom resgate para filhas de presidente... e nada além disso. Leon não queria saber se ela disse que a culpa foi toda dela e que ele não fez nada errado. Se ela o rejeitou, é porque em algum momento, ele não foi bom o suficiente.
Tentou fazer uma matemática simples, se ela o ama – e disso ele tem certeza – e se ele não fez nada errado, como ela disse, o único motivo que sobrou foi o trabalho. Ada era uma espiã, essa era a sua vida, e não importa se ela tem quinhentos inimigos querendo a sua cabeça, ou nenhum, ela simplesmente não quer parar, não vai abandonar a vida que tem. Nem mesmo amar alguém a faria pensar duas vezes, ele pressionou, ela fugiu, simples. E a outra hipótese era a que o revoltava mais; Ada o achava incompetente. Ela provavelmente estava metida com algo realmente perigoso, grande, e ela o julga incapaz de enfrentar isso ao lado dela. Por mais humilhante que seja ela o achar um fraco, ou por mais lisonjeiro que seja o fato dela talvez tê-lo feito só pensando em protegê-lo, não interessa o motivo, Leon sentia raiva, muita raiva, pelo simples fato dela não confiar nele.
Desistiu de achar o real motivo. Desistiu de tentar entender. Sua vida tinha um resumo bem simples: Amava uma espiã, uma criminosa, de todo o coração, com todas as suas forças, e por esse amor estava disposto a arriscar, a lutar. E Ada, embora o amasse, não iria tão longe por ele, essa era a verdade.
Leon pegou sua garrafa de Jack Daniel's, sua outra mão estava enfaixada, foram mais de vinte pontos e uma pequena artéria precisou ser ligada. Novamente, sem se preocupar em usar um copo, sentou-se de frente para o seu notebook, lá estava um relatório oficial de Chris Redfield sobre a ultima missão. Esse tempo todo, Wesker e Jill estavam vivos. Jill foi salva e Wesker finalmente morto em combate. O loiro pensou... o quanto ele gostaria de ter feito isso ele mesmo, com as próprias mãos... era uma verdade, que talvez Ada não soubesse... morria, loucamente, desesperadamente de ciumes do Wesker com a espiã. Nada era capaz de tirar-lhe da cabeça que os dois já tiveram algo mais... Bem, o fato também explicava porque Ada se escondeu por dois longos anos, e porque justamente durante a missão de Chris ela o chamou em Londres.
Ada sabia da verdade o tempo inteiro, e não lhe disse nada. Ela sabe de seus ideais, sabe de sua luta contra o bioterrorismo... e mesmo assim, lhe omitiu esse fato. A garrafa de uísque já estava na metade, e Leon já não raciocinava mais com lógica.
“ — Ela não queria que eu mesmo te matasse, seu... filho da puta! Porque era justamente o que eu ia fazer!” — Esbravejava, com a boca salivando mais do que o normal, cuspindo enquanto falava, sem parar de bebericar a bebida na garrafa. Pôs-se de pé, cambaleando até a cama e deixando-se cair nela. “ — No final ela preferiu a mim. Ela escondeu de você... te traiu... e procurava por mim... por que ela é minha, a minha Ada... e de mais ninguém.” — Viu que acabou derramando uísque na cama, bebeu todo o restante que sobrou na garrafa em largos goles.
“ — Se ele está morto... de quem mais você foge, Ada?”
Deixou que seus olhos se fechassem, antes de dormir, só teve suas certezas... de que em seu primeiro dia de trabalho quando achou que estava encrencado por ter sido drogado por duas chinesas gostosas e fora da lei... ele definitivamente não sabia, não fazia a menor ideia, do que era estar realmente encrencado por causa de uma chinesa gostosa e fora da lei! Que ela o ama. Que ainda se encontrariam de novo e que sofreria por ela, até o ultimo dia de seus dias... E de que ele tinha, definitivamente, um problema com as mulheres.
continua...
Notas finais
Nos EUA, quando se faz sexo a 4, eles dizem: "foursome"... quando se faz sexo a 3, treesome...
Agora entenderam porque a Ada chamou o Leon de Handsome? HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA Eta piada besta mais veia que a minha avo..huahuahuahuahuahauha
Fale com o autor