Trancou a porta atrás de sí quando chegou em casa, jogou as chaves em cima da mesa, retirou a jaqueta, o coldre de ombro com suas duas pistolas pendurando-as em cima de uma cadeira. Sua profissão lhe rendeu dias emocionantes, aventuras sem igual, mas de tempos em tempos tudo o que o seu trabalho tinha a oferecer eram dias enfadonhos como esse. Reuniões, discussões politicas, tarefas burocráticas, coisas úteis, porém inúteis, ou melhor dizendo, inúteis o suficiente para ir embora mais cedo.


Tinha tarefas a fazer com essas duas horas livre. Abastecer o carro, comprar uma escova de dentes nova, shampoo, ir ao supermercado. Porém não fez nada disso. O tédio diário, mesclado com sua total falta de ânimo simplesmente o levaram direto para casa.


Tirou o cinto e se livrou dos sapatos enquanto caminhava em direção ao quarto, se livrou da camisa e atirou tudo em cima da esteira – aquela velha companheira que ele se obrigava a correr todas as manhãs, ou melhor, que o trabalho o obrigava. — Deixou que seu corpo caísse sobre a cama, fixou o olhar para a janela semiaberta, que deixava o vento fraco sacudir as cortinas suavemente, as cortinas brancas deixavam os últimos raios avermelhados de sol invadirem o quarto e pousarem sobre a cama.


Foi numa tarde exatamente assim, sob essa mesma luz, naquela cama, a última vez que a viu.


Motivos para amá-la não faltavam, eram tantos que nem sabia por onde começar. Um deles por exemplo, era quando ela fazia “isso”... Ficava deitada ao seu lado, muda, enquanto descansavam após se amarem, ela apenas percorria todo o seu corpo com as unhas, delicadamente. Ambos nus deitados de frente um para o outro, ela se apoiava em um cotovelo, e punha-se a admirá-lo, contornando cada curva de seus músculos, tocando cada cicatriz como se quisesse decorar cada uma delas, tocava-lhe o rosto, penteava sua franja...


Eram longos minutos assim, até que ela começasse a depositar beijos em seu peito, barriga... Até que eles se amassem uma vez mais. Porém esse dia foi diferente. Ada permaneceu exatamente assim, observando-o, acariciando-o com seu toque suave, tão delicado e que poucas pessoas sabiam o quanto ela era mortal e não tinha absolutamente nada de frágil... Ela parecia cansada e pensativa. Leon adormeceu, e quando acordou a espiã ainda estava ali, fazendo a mesma coisa. Ela beijou os lábios do agente, um beijo delicado e cheio de ternura.


Leon percebeu que Ada estava diferente, no momento em que ela o encarou com aqueles olhos que até hoje não conseguiu identificar a cor, as vezes podia jurar que eram verdes cor de jade, outras eram acinzentados e em tardes assim ou quando escurecia, pareciam cor de mel. — O que foi? — Perguntou tocando a face perfeita da mestiça que tanto amava com o dorso dos dedos.


“ — Eu preciso ir embora.” — Respondeu rapidamente. Sem cerimônias. E pelo olhar, pelo comportamento, pelo tom de voz, Leon entendeu que ela não falava de ir para voltar no dia seguinte, ou em uma semana.


Um flashback de muitos dias e noites horríveis, de terror, solidão, depressão e atitudes das quais ele se envergonha até hoje passou pela cabeça de Leon. — “ — O que aconteceu dessa vez?”


“ — Quanto menos você souber melhor.”


Lá vinha ela com essa conversa outra vez. Não o envolvia em seus assuntos, não deixava que ele a ajudasse... Sentia vontade de discutir, brigar, porém não o fez. Lembrava das palavras dela, que se ele não pudesse conviver com suas condições, então que não deveriam nem começar, e ele aceitou. Tinha medo de quebrar o acordo e a colocar para correr, dessa vez para nunca mais voltar. Mas Wesker estava morto....“ — Você esta fugindo outra vez?”


“ — Eu estou sempre fugindo.”


“ — Não há nada que eu possa fazer?”


“ — Sim. Você pode se cuidar e ficar bem. Eu não tive pais, mas acho que se tivesse, eles não ficariam felizes em me ver amante de um bêbado.”


“ — Então você já está sabendo...”


“ — Eu já te disse. Eu sei de tudo.” — Ela o beijou novamente. — “ — Não me faça voltar aqui e encontrar uma criatura deprimente. Eu quero te ver assim, do jeitinho que eu deixei.”


Seria demais ter um relacionamento normal? Ah é... ele já tentou isso, e deu muito errado. Duas vezes, uma antes e outra depois de Ada. Tinha tudo para dar certo, mas com ele parecia errado, não havia química – nem física – não aconteceu o amor, ele se sentia a pessoa errada, no lugar errado, um deslocado. E com Ada, tudo estava errado, mas ele nunca se sentiu tão certo, assim como em Raccon City, onde muitos diriam que ele estava no lugar errado, na hora errada, no fim, ele hoje agradece por ter sido o homem certo, no lugar certo. Com Ada não poderia ser diferente, ela era sua outra metade, como ele mesmo já confessou uma vez, uma parte dele que ele não pode simplesmente deixar ir.


Nesse dia, ela se foi. Foi em março de 2007.


Olhou para o calendário na parede, chegou março de 2009, e nunca mais a viu. Sua cama já não tinha mais o perfume dela, mas ele estava gravado em sua memoria. Tudo naquele apartamento estava impregnado com a lembrança dela, o quarto, o banheiro, o sofá... ela caminhando seminua pelo corredor, a porta da varanda que nunca mais foi fechada nem em dias de chuva... Porém ela nunca mais voltou.


Recebeu dois telefonemas, cada um com menos de quarenta segundos. Ela não precisava explicar, ele sabia que eram necessários no minimo quarenta segundos para rastrear uma ligação. Também recebeu flores uma manhã, nenhum cartão, só um envelope vazio com o beijo de um batom vermelho como selo. Num outro dia, sem que ele pedisse, bateu a sua porta o delivery de um café da manha, quando ele ligou para perguntar de quem foi o presente, lhe responderam – Tudo o que ela disse foi: — Se o seu motoboy não for muito tímido, pode chamá-lo de Bonitão. Vai ser engraçado.”. Ela estava viva, e isso era o mais importante. Quatro sinais de vida em dois anos não era muito, mas se sentia orgulhoso por ela ter se esforçado, imaginava que não deve ter sido fácil.


E era justamente ao calcular o quão difícil estaria sendo para ela, que Leon se sentia na obrigação de também ser forte e fazer sua parte. E dois anos, preocupado com ela, dia após dia, noite após noite, só aumentava a sua certeza de que cabia a ele achar uma solução, não sabia se era isso o que ela queria, talvez suas ideias só a assustassem e a fizessem ir embora para sempre. Mas ele estava decidido a arriscar. Preferia arriscar perdê-la por ela ter fugido, do que um dia receber a noticia da morte da espiã e passar o resto da vida se culpando por nunca ter ao menos tentado.


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Ada bebia seu café tranquilamente observando a paisagem pelo vidro do luxuoso restaurante. E não é para menos, era no alto da Torre Eiffel, e uma visão privilegiada de Paris. Seu encontro era para as dez da manha, e como todo bom britânico, seu acompanhante chegou nem um minuto a menos e nem um minuto a mais.


“ — Hn. Pontualidade britânica.”


“ — Ada Wong. É um prazer imenso revê-la.” — Era um homem jovem, pouco mais de trinta anos, bonito, olhos e cabelos castanhos, boas manerias e um tipico sotaque inglês, que para Ada muitas vezes era bem mais compreensível que o sotaque norte-americano.


“- Principalmente depois de tantas missões bem sucedidas, eu suponho.”


“ — Sua eficiência faz jus ao seus honorários.”


“ — Espero que não tente barganhar outra vez, Percy. Se gosta de eficiência, deve estar disposto a pagar por ela.”


“ — Não se preocupe. Quanto a isso eu já aprendi a lição.”


“ — Então vamos aos negócios, Sir. Percy. A que devo a honra de seu contato?”


O homem então abriu seu notebook e virou a tela para a espiã. — “ — Prefiro que veja você mesma.”


Ada mal podia acreditar no que via. — “ — Isso é impressionante. Vocês pretendem usar a inteligência britânica para me colocar como contato da B.S.A.A. Uau. Que Deus salve a Rainha!”


“ — O fato é que embora parceiros de longa data, nós não confiamos nos americanos. Em vinte e quatro horas você receberá um dossiê feito pelo nosso serviço de inteligência, sobre algumas falhas na segurança da Casa Branca, movimentação suspeita de funcionários, corrupção, e uma insistência insana de continuar a ocultar provas sobre a existência de bioterrorismo, como o ocorrido em Raccon City. Como somos parceiros, e estamos de mãos atadas devido a acordos internacionais, nossa intenção é contratar os seus serviços, para se infiltrar e agir por nós.


“ — Embora a sua proposta seja encantadora, eu não tenho interesse em trabalhar tão próxima a assuntos de segurança envolvendo os Estados Unidos.”


“ — Estamos dispostos a pagar o triplo do seu orçamento. Além do mais, todas as atenções da Casa Branca vão estar durante esse mês voltadas para a Africa, por gentileza, passe para os arquivos seguintes. Eles recrutaram um agente especial para atuar em Kijuju na Africa, esse agente não sabe, o próprio Presidente não sabe, mas nós sabemos muito bem o que ele vai encontrar lá. Se ele sobreviver eles estarão muito ocupados tentando fazê-lo calar a boca, se ele morrer estarão muito ocupados recrutando outros agentes e promovendo outras missões, é a sua chance de agir sem ter as principais atenções sobre você.”


Ada abriu os arquivos e sentiu um incomodo, um frio na espinha. Leon Scott Kennedy, agente recrutado para atuar sozinho em Kijuju. — “ — Que insano, não? Parece que eles querem sacrificar um dos melhores agentes que eles tem.”


“ — Como eu disse, Wong. Americanos não são confiáveis.”


“ — Eu aceito.”


O inglês sorriu. — “ — Um avião te leva à Londres essa noite. Receberá metade agora, e a outra metade após a missão estar concluída. Amanhã cedo a senhorita deve estar na agencia para o seu primeiro dia de trabalho.”


“ — Eu mal posso esperar.”


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De frente para os monitores da agencia de inteligência britânica, Ada via a ficha completa de Leon diante de seus olhos. Ingleses estavam certos sobre não confiar em norte-americanos, contudo deveriam não confiar em chineses também. Agora ela era oficialmente um membro da B.S.A.A, protegida dos olhos americanos graças ao governo inglês, invadir computadores era também uma de suas especialidades.


Não demorou muito até que pudesse usar o sistema da B.S.A.A se fazendo passar por um comandante britânico, onde ele contraindicava veementemente o “uso” de um Agente federal e exigia que um capitão da B.S.A.A fosse enviado, renomado, responsável, um verdadeiro herói de filmes de guerra hollywoodianos: Chris Redfield.


Isso é por você, Leon, que provavelmente vai envelhecer e morrer acreditando que eu não me importo...


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“ — Eu sei...” — Leon caminhava de um lado para o outro no corredor de casa enquanto escutava um tagarelar insano pelo telefone. — “ — Eu sei que você fica preocupada, Claire. Mas você precisa se acalmar, esse é o trabalho dele e ele sempre o fez muito bem.”


“ — Ele ainda não está pronto, Leon.”


“ — Claire, foi há dois anos, Chris está bem! Eu tenho certeza que ele superou.”


“ - Ele nunca mais foi o mesmo. E essa é uma missão grande, difícil, sem um parceiro de confiança. Por quê mandaram o meu irmão? Podiam ter mandado você!”


– Muito obrigado pela consideração em achar que eu mereço uma pausa depois de resgatar a filha do presidente na Espanha e sobreviventes – incluindo você – em um aeroporto, completamente sozinho! Bem, você não pode evitar que ele vá. Então apenas procure não demonstrar todo esse pavor na frente dele. Ele tem todos os motivos para querer voltar são e salvo, ele te ama.”


– O caramba! Ele some, não manda noticias, nem me telefona. Eu que fico igual uma palhaça desde sempre, me metendo em encrenca enquanto procuro por ele. Ele só pensa em trabalho, nas missões, B.O.W's. Ele ficou mais próximo dos soldados dele do que de mim, Leon!


O agente riu. Era só trocar irmão por amante, missões com soldados por missões de espionagem e Claire teria acabado de resumir a sua vida. — “ — Claire, eu acho que tenho alguma propriedade para te dizer isso, confia em mim, o Chris te ama.”


Ao desligar o telefone. Leon foi até a cozinha pegar uma garrafa d'água. Sim, ele tinha certeza que Ada o amava, as pessoas tem maneiras distintas de amar, e nem por isso amam mais ou amam menos. Apenas amam. Chegando lá encontrou um envelope grande, e o típico beijo com batom vermelho. Tomou o envelope rapidamente em suas mãos abrindo-o desesperadamente. Quando olhou seu conteúdo, seus lábios de abriram num largo sorriso, era inacreditável, uma passagem de primeira classe num voo direto para Londres.


Oi Bonitão,

Se não estiver muito ocupado, o que acha de passar apenas dois dias em Londres? Eles tem um inglês muito bonito e fácil de entender, mas eu ainda prefiro me enrolar com a sua língua, se é que você me entende.”


“ — Londres, Hã? Mulheres.”


O voô era para essa madrugada ainda. Deveria estar com duas horas de antecedência no aeroporto. Correu para o quarto, sem se preocupar tanto com as roupas que levaria, ou com que desculpa daria no trabalho, sua preocupação maior era com o presente que tinha reservado para Ada. Colocou a embrulho dentro da mala com bastante calma, era algo precioso, demorou horas escolhendo.


Esperou por aquele momento dois anos, e só teria dois dias com ela. Mas na atual circunstância, lhe restou fazer esses dois dias, o suficiente.


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Com Chris Redfield já em solo africano, Ada sabia que teria no mínimo dois ou três dias livres sem se preocupar com Wesker, e dependendo do resultado da missão, talvez nunca mais se preocuparia com ele outra vez.


Por isso enviou as passagens. Finalmente veria o seu agente outra vez. Para ela não era difícil manter a frieza de suas emoções no dia a dia, mas a noite, sozinha em seu quarto, todas a lembranças que ela passa um dia inteiro evitando lhe invadem a mente. Sentia a falta de Leon, com cada fibra de seu corpo, com cada essência de seu ser. Sabia que aquilo era ridículo, tirar o loiro ás pressas do país para ficar com ela só dois dias. Mas era justamente por ser tão insano que ela tinha duas certezas: Uma é que seria ótimo! A outra, que ele iria aceitar.


Continua...