Resgate
7 Quinzena meticulosa.
Notas iniciais
Armin
Hoje seria uma manhã de quinta, marcada no meu calendário improvisado. Mesmo que algo assim não fosse útil para o restante à essas alturas, sinto necessidade de me organizar dessa forma. Ao caso de não conseguirmos voltar, ou mesmo se acontecesse algo, pelo menos teríamos o registro em datas certas dos acontecimentos. Hoje, por exemplo, conta como o décimo quinto dia após a viagem, que estamos longe de qualquer companhia humana ou proteção.
Ao meu ver nos fortalecemos. A diferença entre encarar o medo dentro de nossos territórios e de enfrentá-los posto num mundo hostilizado é abismal. Não nos resta a mínima certeza, seja de amanhã, ou mesmo daqui uma hora ou menos. Mas conseguimos traçar nosso caminho, e concluir o objetivo. Por esse motivo, posso voltar a sentir a esperança que a muito não sentia. Confesso que até mesmo antes de encontrar o Eren. O que me restava era a dúvida, deixada pela esperança que passeava sorrateiramente me deixando dias na insegurança. Começamos a nos acostumar sobrevivendo como quase selvagens. Vários dias por conta própria do “bando”. E isso, até que me acalenta. Pois se não voltássemos, sobreviveríamos juntos.
Fitei a janela exatamente ao meu lado, na parede onde a cama que eu deitei encostava. Pousei o livro que tentava ler sobre o peito. Tentei arduamente me concentrar na leitura, mas pensamentos diversos desviavam minha concentração para muito além da história, e me faziam esquecer completamente cada trecho no qual percorria com os olhos. Talvez não sejam tempos tão calmos assim para aproveitar de algo que exija certa inspiração, como a leitura.
Mas ao menos o tempo lá fora estava bom. Manso. Tranquilo. Poderia passar o dia apenas encarando esse céu, mas hoje é dia de caça. Teríamos que adentrar a floresta. Honestamente, não faria qualquer diferença minha presença. Mas por livre e pura pressão e insistência de Jean, estou indo.
Suspirei. Fechei o livro com a marcação de página e me esguiei até a beirada lateral da cama. Já estava com toda a roupa posta. Só precisaria colocar as cintas, a jaqueta e as botas. Se heichou me visse dessa forma, não sei o que sobraria de mim. É obrigação o traje estar completo logo no começo do dia. Passei o olhar no quarto vendo que o restante do traje estava bem longe do meu alcance. Desanimei. Estava um tanto preguiçoso para o dia que levaria mais tarde. Levantei com um pouco de esforço, coloquei todas aquelas cintas problemáticas em cima da roupa e fui até a cama novamente para calçar as botas.
– Armin? – Jean abriu a porta brutalmente.
– Nossa!! – Levei um baque enquanto calçava a bota montaria. – Pra que entrar dessa forma?
– Os caras já foram na frente... – Abriu uma das portas daquele armário antigo de ébano. Fitei-o, sentado na cama – E não vou deixar Reiner trazer toda a caça e os créditos de novo. – Pegou sua jaqueta do uniforme e sorriu determinado frente à mim.
– Então por que não foi com eles?
– Você estava demorando então foram na frente enquanto eu te esperaria.
– Hum. – Levantei-me, vestindo por último minha jaqueta. Ao colocá-la notei que meu chanel já estava um tanto crescido, pela gola ter prendido parte dele sobre minha nuca. Enfim joguei-o para trás para não incomodar. Jean aproximou-se de mim.
– Seu cabelo já está bem maior.
– Ah, sim... Tenho que cortá-lo, mas sempre esqueço. – Ele repentinamente tocou em algumas mechas, me pegando de surpresa. Eu consideraria um ato normal de curiosidade, já que todos acabam tocando meu chanel. Mas ele alisava as mechas e me fitava de uma forma diferente, com um suposto receio de seu ato pelo olhar, mas também aparentava firmeza e certeza do que fazia.
– Seu cabelo é mesmo muito bom... – Largou a mecha dando de costas e se direcionando até a porta. Escorou um de seus ombros no arco e cruzou os braços frente à mim, agora com um olhar fixo e observador.
– Obrigada. – Disse sem qualquer vacilação.
Jean no decorrer da semana mostrou-se diferente, como se houvesse uma outra parte dele resolvendo dar as caras. Estava gentil, mais compreensivo e menos carrancudo. As garotas estavam aprovando isso. Ele até ofereceu-se para lavar a louça algumas vezes e ajudá-las a estender as roupas lavadas... Mesmo Mikasa passou a suportar sua presença e ter menos vontade de tacá-lo pela janela. Seria ótimo também pra mim, se ele não passasse a agir na defensiva comigo. E ao mesmo tempo tendo atitudes um pouco anormais. Me evitava, mal olhava e falava comigo, de uma maneira bem óbvia de perceber. Mas hora ou outra agia com extremo zelo, como se eu fosse algum objeto de proteção. Fora alguns... Toques estranhos, como antes de ontem enquanto cortávamos batatas, no que cortei o dedo fez questão de desinfetar e enfaixar, mesmo sendo um corte um tanto tosco. Depois disso? Beijou meu dedo dizendo que eu ficaria bem.
Não tenho com quem me certificar sobre isso. Esse tipo de coisa não se espalha, muito menos sobre quem é... Do mesmo sexo.
Ficamos presos em um clima um pouco tenso por um tempo, até ele quebrar o silêncio pesado e me chamar para irmos. Antes que descesse as escadas ouvi a voz do heichou no final do corredor e então olhei-o. Ele estava guiando Eren, por vez deixando-o de pé e lhe dando suporte, certamente para acostumá-lo com o peso do corpo. Só acho um tanto apressado da parte dele fazê-lo caminhar tão depressa, já que Eren ainda está um pouco debilitado.
– O-oe! Armin! – Ouvi sua voz.
– Eren?! – Caminhei até eles. – Você está bem? – Não contive sorrir à ele, era a primeira vez que falava diretamente comigo. E ainda não tive a oportunidade de uma conversa, mesmo que breve.
– Melhorando. – Curvou um sorriso tênue, sem mostrar a arcada dentária. Mas foi o suficiente para que me animasse.
– Heichou—
– Não se preocupe. Ele pediu por isso. – Me cortou, já respondendo pela pergunta que sabia que eu faria, por ver a preocupação visível em minha face. Me contive em um sorriso em resposta. Ouvimos o grito de Jean chamando pelo meu nome, vindo lá de baixo.
– Vou sair agora. Mas depois volto pra conversarmos, certo?! – Passei a mão bagunçando de leve seu cabelo, não via onde mais tocar, já que tinha machucado pra todo lado.
– Terminaram os arcos e flechas? – Heichou perguntou-me enquanto me afastava dos dois, então apenas positivei à ele.
Essa também havia sido uma semana muito produtiva. Fizemos arcos e flechas e várias estacas com as madeiras regionais. Fora os troncos do vilarejo que reunimos para começar a montar uma carroça, já que não foi possível trazer pelo menos uma conosco. Além disso tudo, heichou nos fez concertar os buracos abertos no chão da biblioteca e no meio do nosso quarto. Também alguns buracos no telhado que faziam pingar goteiras quando chovia. Apesar de termos sido castigados por ele e esses nossos dias serem cansativos, foram bons para manter-nos ocupados, enquanto Eren ficava ainda desacordado.
Enfim caminhei novamente até as escadas. Jean me esperava na cozinha enquanto mordiscava uma maçã. Seguimos até a saída e do lado de fora montamos nos cavalos. Ele deu o resto da fruta para seu cavalo e demos partida.
~*~
Adentramos a floresta, após ter amarrado os cavalos nas árvores da frente. Arrisco em dizer que não é tão espantosa à luz do dia, na verdade o sol iluminava pouco por causa do estilo das árvores altas. Essa seria uma floresta equatorial, pela densidade e as árvores com mais de trinta metros de altura possuindo copas largas. Mesmo nesse misto de luzes o local ainda dissipava misticismo. Era bem úmida. Apesar dos vários sons de pássaros diferentes cantarolando por cima de nossas cabeças podíamos ouvir bem os meus passos e de Jean quebrando alguns galhos e pisando em folhas secas. O ar estava bem fresco e os ventos agitavam as árvores.
Eu podia reclamar somente do chão. O sustento daquela mata não era muito bom, o solo do caminho que tomamos não era plano, tinham relevos e depressões quase intercalados, fora o húmus presente. Lembrando dos espinhos de algumas plantas que estavam por todo lado. Mas sem dúvidas estava mais fácil de caminhar ao contrário do dia que resgatamos Eren. Na verdade nem parecia a mesma floresta, que apesar de tudo, na minha opinião é muito interessante e cativante.
– Será que eles foram muito longe? – Jean perguntou preocupado. – Não ouço nenhuma voz ou qualquer barulho que indique que possam estar por perto... – Pegou um galho um pouco grande e largo do chão e passou a agitá-lo à sua frente, como se formulasse uma batalha de esgrima contra um rival imaginário. Fiquei observando aquilo por um curto tempo. Ele parecia agitado e tentando conter a ansiedade com isso.
Sugeri então que subíssemos nas árvores para os avistarmos de cima. Usamos o equipamento e nos locomovemos, parando em algumas delas para tentar encontrá-los. Mas não obtivemos nenhum sucesso. Então ficamos de repouso em cima de uma.
– Porcaria. Eles deveriam ter esperado em frente à mata, pra início! – Bufou e cruzou os braços. – Nunca vamos encontrá-los num lugar desses.
– Podemos caçar separados deles. Não tem problema. – Encostei-me no tronco da árvore — Eles estão em três, então não tem com o que se preocupar.
– Não sei. Não confio muito nesse lugar. – Olhou em volta. – Além de que somos só eu e você. – Voltou a me encarar.
– Como assim? – Franzi o cenho.
– Nada... – Desviou seu olhar.
– Sugere que não dou conta?
– Não entenda errado, Armin! – Voltou seu olhar agora em repreensão. – Só digo que... Duas pessoas não são o suficiente caso algo ruim aconteça. – Ainda não me convenceu. Pareceu uma desculpa.
– Não vai acontecer nada. – Cruzei os braços e continuei com o semblante fechado. Não queria ter vindo, e além disso, escuto algo assim. Francamente, não tem como não levar a mal...
Passamos alguns minutos em silêncio. Ele provavelmente pensava em alguma maneira de encontrá-los. Quanto á mim, não tinha um pensamento definido à mente, só consegui tirar proveito do vento gostoso que batia no meu rosto e agitava minhas madeixas claras, enquanto decaí minha cabeça no tronco. O cheiro do lugar era sem igual, e os ventos traziam-no até minhas narinas. Era muito relaxante. Podia ter trazido aquele livro pra ler aproveitando esse silêncio, já que é impossível se concentrar de dia na muvuca que é aquela casa.
Jean andou até minha direção, parando à poucos centímetros de onde eu estava. Levou sua mão até meu rosto e tocou alguns fios bagunçados que foram de encontro com minha boca e os retirou. Me senti congelar por essa sua atitude.
– Não corte seu cabelo, eu gosto dele assim. – Disse simplesmente, numa total calma e certeza. Já eu não sabia o que fazer ou falar, só senti meu rosto ferver poderosamente.
– E-eles... Eles podem... – Me senti bloqueado, minha respiração começou a ficar um pouco pesada pela situação. Respirei fundo e tentei continuar – P-podem me prejudicar por estarem grande. Minha franja esta começando a tampar minha visão.
– Então repare só a franja, não precisa mexer no comprimento. – Continuava próximo à mim. – Caso se torne um problema é só amarrar quando for usar o equipamento.
– Não gosto de prendê-lo. – Olhei pro meu lado, desviando o olhar dos dele. A proximidade que Jean tomou de mim começava a me incomodar um pouco. Não por querê-lo longe, mas por algo que eu não sabia certamente o que era. A mesma sensação estranha que eu sentia nos dias que ele agia feito alguém com dupla personalidade comigo. Alguns calafrios que... Estranhamente esquentava uma parte de mim. Me senti desconfortável por isso, mas Jean estava daquela forma gentil, e isso fez com que eu me acalmasse por não esperar dele algo que me faria mal.
– Minha mãe costumava prender o cabelo que ficava próximo ao rosto, atrás da cabeça, de uma forma que o resto ficasse solto. Eu até acharia legal se ela fosse mais jovem e bonita... – Me fez soltar um riso suave – Mas acredito que em você ficará melhor. – Sorriu gentilmente à mim. E novamente levou as mãos até meu rosto – Posso? – Pediu permissão para que continuasse tocando meu cabelo.
– Sim... – Acabei por deixar. Estava curioso pra saber qual o penteado referido.
Ele então usou os dedos para repartir parte do cabelo de orelha à orelha – Como um arco – Penteou essa parte da frente com os dedos e igualmente as de trás, para não misturar nenhum fio. Então pediu para que eu segurasse o cabelo solto para que ele pudesse finalizar. Levou a parte frontal para trás e fez um nó desembaraçado com meu próprio cabelo. Por fim ajeitava minha franja de uma maneira bem delicada e calma. Deixou algumas mechas finas aos lados, contornando meu rosto.
– Prontinho!
– Pena que não posso ver agora. – Toquei a parte de trás do penteado – Até chegarmos provavelmente desmanchará. Meu cabelo é muito liso e escorregadio.
– O nó está firme. – Disse, então assustei. – Ah... Não se preocupe, amarrei da forma certa, então o nó se soltara quando você desamarrar. – Riu, me vendo ficar mais aliviado. Eu precisava cortar, mas não me vejo com o cabelo menor do que costumo deixar.
Novamente o vento chocou contra meu rosto, agora com certa rudeza. E de novo os fios soltos do meu cabelo cobriram parte dos meus olhos. Ele então o tirou pousando o indicador em um toque um tanto sutil, escorrendo o dedo até a lateral da minha face e o prendendo atrás da minha orelha, e após ajeitar as mechas depositou uma carícia terna com o polegar em cima da maçã do meu rosto. E como antes, me olhava de uma forma compenetrante.
– Armin—
Timbres conhecidos, em gritos, cortou Jean e chamou nossa atenção, aproximando de onde estávamos. Direcionamos a visão abaixo.
– São eles!
– Reiner!!! – Jean gritou com as mãos contornando a boca. – Oe, Mike!!!
– Não adianta, eles não vão te ouvir! – Isso era óbvio, eles estavam muito escandalosos e corriam, prestando atenção em algo que vinha logo atrás. Passaram a usar o equipamento e se locomoveram dentre as árvores até chegar à nossa quando conseguiram nos avistar pelos gritos de Jean.
– O que foi isso? – Perguntei. Mas eles se deitaram, praticamente se jogaram nos galhos próximos ao nosso, ofegantes e cansados. Tive que esperar por um tempo até tomarem fôlego.
– Veados. – Connie pôs a mão no peito, bem vermelho e quase entrando em óbito de cansaço.
– Veados? – Jean riu. – Olha o seu tamanho Reiner, não consegue caçar um Veado?! – Implicou.
– São Veados vermelhos, já viu algum de perto por acaso?
– Não...
– São grandes. Só perdem para os próprios alces. Os machos pesam cerca de trezentos e cinqüenta quilos, e estão em bando.
– Mas vocês tem a vantagem do equipamento, Mike!
– Jean, simplesmente não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo! – Connie disse ainda ofegante.
– Vocês usaram os arcos e flechas? – Perguntei.
– Tentamos, mas ninguém acertou. Além de que todas as flechas espantavam eles, e não temos muitas pra ficar gastando á toa! – Reiner cruzou os braços.
Ouvimos os barulhos dos veados alcançando a região. Pelos ruídos a quantidade era realmente grande. Eles então entraram no nosso campo de visão. Uma quantidade perigosa pra eles irem caçar enquanto os veados estão juntos.
– Estão muito agressivos, deve ser época de acasalamento. – Mike sugeriu.
– Báh... – Jean exclamou e tomou o arco da mão de Mike — Vocês são muito frouxos! – Apontou a flecha para o bando que passava um pouco longe de nós e mirou.
– Se Jean acertar eu lavo sua louça amanhã, Connie! — Reiner duvidou.
– Se ele acertar eu lavo todas as roupas pelo resto da semana! – Mike entrou na aposta.
– Ah... – Connie cruzou os braços — Se ele acertar eu corro pelado em frente à casa na hora do almoço!! – Gargalhamos. Seria cômico se ele realmente acertasse, pelo tanto que estava sendo tirado. Melhor ainda seria vê-los fazendo tudo isso.
– Calem a boca!!! – Mantinha-se concentrado. Ajeitava o arco frente ao rosto, e com o outro braço segurava a flecha. Jean além de força, tinha uma certa afinidade para lidar com aquela arma. Combinava tanto com ele... Enquanto ajustava-se conforme o movimento dos animais à baixo, seus músculos enrijeciam e relaxavam à medida da força que projetava ao puxar a flecha mais atrás. Essa visão prendeu minha atenção. Agora que havia notado que em algum momento retirou sua jaqueta e permaneceu de regata. Mas não interessa quando, só agora que já está com seus músculos à mostra. Suados, bronzeados, convidativos...
Balancei a cabeça desconectando esses pensamentos estanhos. Mas inutilmente. Assim que lançou a flecha, juntamente lançou um olhar com mais volúpia que anteriormente. Em frações de segundos vimos um deles deitar sobre o gramado. Morto.
– Não acredito!!! – Reiner pôs a mão na boca.
– Connie, que tal correr pelado hoje mesmo no jantar?! – Jean deu uma piscadela.
– Não era sério! – O careca tentou se defender, mas começaram a vaiá-lo.
Logo descemos da árvore e caminhamos depressa até nossa futura janta. Dias atrás, provavelmente acharia tudo isso horrível, mas vejo que passei a superar minha compaixão excessiva com os animais. Chegamos até o veado morto. Jean retirou a flecha do pescoço do animal e à guardou junto do restante. Ficamos admirando aquele bicho por um tempo em silêncio. Ele além de muito bonito era enorme.
– Como vai ser? – Connie perguntou, mas continuamos ainda em silêncio.
– Nunca caçaram de verdade na vida?... – Reiner sobrepôs-se. Esbanjando orgulho e enchendo o peito de si.
– Connie, seu dromedário, é bem simples... – Jean caminhou lentamente, com pose, até a galhada do animal – Basta eviscerar ele. – Olhou de canto à Reiner.
– Pelo visto andou pesquisando, Kirschtein. – Retrucou com sua mesma postura rija de sempre. E então Jean soltou um riso debochado. Eu e Mike apenas observávamos. Então lembrei do que Jean havia dito mais cedo sobre Reiner.
– Certo. E por onde começamos?
– Cortamos entre as pernas traseiras até a garganta. – Nisso o careca fez careta. – Não é trabalho pra moças, então se houver alguma sugiro que se retire. – Engrossou o tom e deu uma tossida forçada, obviamente lançando essa indireta à ele.
Apesar da disputa tosca entre esses dois – Na qual não faço idéia do por quê – Começamos a ajudar Jean com o trabalho sujo. Cortamos o veado na região dita pelo mesmo, com cuidado para que não atingíssemos os intestinos ou o estômago. Cortamos a pele em volta das genitais, terminando o processo. Logo, fomos até o peito e removemos os órgãos internos, os mais fáceis na retirada enquanto eviscerávamos ele.
Removemos mais entranhas. Jean, apesar de ter dado de durão, estava quase por vomitar em cima das tripas do veado. Mas claro, disfarçadamente, para manter a pose frente à Reiner. Já Connie havia saído de perto e ido vomitar na árvore em frente quando ainda estávamos cortando em volta do ânus. Mesmo eu, que nunca tinha feito tal coisa, ajudava-os à colocar a mão na massa – ou no caso, inteiramente dentro da confusão de órgãos e sangue – Não éramos capaz de ver absolutamente nada, mas Mike, também experiente, nos coordenava.
Tiramos mais órgãos para remover mais tecidos. Removemos os canais de respiração e após isso, arrancamos sua pele imediatamente, para manter a carne fresca. Cortamos com o arco de serra a carcaça na metade do comprimento para permitir que o animal esfriasse. Depois, cortamos cada perna, a coluna vertebral; removemos a cabeça; Cortamos-o horizontalmente na terceira costela para completar a divisão.
Empacotamos um quarto por vez para retirarmos da floresta. Foi extremamente cansativo carregar todos aqueles pedaços pesados até os cavalos. Uma pena que a carroça não estivesse pronta pra isso. Jean até inventou de carregar a galhada consigo e insistiu para pendurá-la em nosso quarto, dizendo que era um “troféu de caçador”. No fim, estávamos todos encharcados de sangue e com um cheiro horrível. Bateu até medo de outros animais virem até nós enquanto carregávamos o animal eviscerado pra fora dali.
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