Resgate
8 Órbes celestes.
Notas iniciais
Levi
Contornei minha nuca e meu ombro direito com o braço de Eren. Apoiei-o sobre mim enquanto ajudava-o à caminhar pra fora da casa. Os raios ultra violeta do pôr do sol alaranjado e intenso bateram e aqueceram o semblante claro dele, que nesse toque transcendente fechou as pálpebras afim de degustar do sentido deleitoso do calor calmo do dia, e da luminosidade bela da paisagem.
Seus passos estavam preguiçosos. Segurei sua cintura, enquanto ele decaia parcialmente seu peso sobre mim na lateral. Estava descalço, sentia o gramado na sola, dobrar-se e quebrar.
De manhã pediu pra que levasse-o para fora, à algum lugar diferente mesmo que pela redondeza. Logo me lembrei de uma árvore em especial, à pouca distância daqui, onde eu estava pegando o costume de visitá-la durante a semana, quando tinha algum tempo livre. E aproveitava para passar o tempo lendo, ou na maior parte dele somente fitando o céu claro e o horizonte à frente, deitado no solo elevado ao seu redor.
Pela lentidão da nossa caminhada faltava mais da metade do caminho para percorrer. Mas preferi vir caminhando ao subir Eren em algum cavalo. Por precaução e principalmente por fazê-lo andar um pouco. Seria ótimo pra sua recuperação.
O suor começou a escorrer das madeixas onduladas do garoto e percorrer sua testa. Seus olhos estavam abertos, fitava com atenção tudo ao seu redor. Mas estava ofegante e seus lábios tomaram uma coloração rosada intensa. Certamente pelo cansaço que fazia-o mordiscar e lamber constantemente a pele local.
O fiz aguentar um pouco mais. Puxei algum assunto aleatório para entretê-lo enquanto não chegávamos. Então o caminho pareceu até menos cansativo. E enfim, chegamos.
– É realmente linda. – Disse cansado, referente à árvore.
– É claro que é. – Ajudei-o à subir na elevação do solo até chegar perto do tronco largo. – Ao por do sol as coisas ficam boas por aqui, você vai gostar. – Ajudei-o agora a sentar, e então sentei-me ao seu lado encostando minhas costas ao tronco.
Estávamos de frente à vista que sempre ficava quando vinha ao local. Fazia sombra, apesar da largura e tamanho, os galhos da árvore começavam bem baixos. Então o sol não nos alcançava inteiramente, somente por feixes.
E um deles alcançava os orbes esmeraldas dele. E em sua luz, notei o quanto o olhar de Eren era um jogo luminoso. Vários tons, dos sutis aos mais intensos. De um verde musgo desbotado, ou um aspargo, até algumas tonalidades chamativas, como lime. Mas tudo em rabiscos e contornos sublimes. Delicados. Belos.
Descansou os olhos. E como quando não tem-se mais o que fitar, ligeiramente passei a observar todo o restante.
No silêncio cômodo, sons da natureza ficavam evidentes. O vento agitava as folhagens altas, e algumas das folhas decaía em nossa proximidade. Pássaros eram comuns, junto de animais menores como guaxinim. Na calmaria o som dos suspiros e da respiração alta de Eren, acalmando-se enquanto descansava, também evidenciava.
– E se... Eu te pedisse pra me trazer todos os dias até aqui? – Disse com a voz mansa. Abriu os olhos e os direcionou até mim.
– Não pense que eu ficaria te carregando até essa distância todos os dias pirralho.
– Vejo que o velho heichou voltou. – Disse no mesmo tom, mas notei ali um beiço bem discreto no semblante dele. Soltei um riso pelas narinas.
– Bem lembrado. Quando ficar bem não ache que pegarei leve com você.
– E se eu não ficar bem? – Ergueu as sobrancelhas, dissimulando um semblante infantil.
– Eren, só de querer passar a perna em mim já é um indicio de que está em sã consciência. – Estimulei um sorriso irônico no canto dos lábios.
– Não diga isso! – Agora pude ver um beiço bem visível.
– Então não faça perguntas idiotas. – Cruzei os braços. Olhei à frente. Senti meu ombro pesar. Ele havia depositado sua cabeça na região.
– Senti falta da minha mãe. – Disse numa completa normalidade. Me travou qualquer fala. Achava um assunto um pouco... pesado pra o momento. Mas ele precisava desabafar. Não havia o que dizer ou aconselhá-lo, mas acredito que só por ouvi-lo, facilitaria o peso que poderia sentir.
– Imagino. – Me privei somente por dizer isso, mais para estimulá-lo à continuar.
– Eu à via como miragem, à frente de lugares estranhos, em chamados para que eu a alcançasse. Mas... Ao invés de me sentir bem, a sensação era contrária.
– Por que?
– Minha mãe não me induziria à entrar em lugares suspeitos. Por exemplo... Não apareceria à cima de lagos escuros em plena noite. – Pausou para respirar, profundamente. Suspirou, então continuou – Todas as noites eu pensava nela. Isso me acalmava o bastante ao ponto de adormecer. Sempre que sentia medo, angústia... Quando me desesperava ou até mesmo quando sentia fome. Mas acontecia o inverso, e eu via uma versão contrária à ela. Começou a ficar mais frequente, à medida que passou o tempo e eu via que não iria muito longe.
– Eren—
– Tudo o que eu queria era ter ela de volta. – Me encarou com os olhos lacrimejantes — Quanto mais pensava nela, atraía algo que estava longe de ser minha mãe. – Contornei meu braço ao seu lado por trás de suas costas e depositei minha mão no seu antebraço. – Cheguei a ouvi-la dizer que logo poderia ir até onde ela estava.
– Garoto, sua mã—
– Está morta. Eu sei. Mas minha situação não me deixava diferenciar. – Sugou o ar pelo nariz, aparentemente carregado pelo que acabei de notar. Certamente estava contendo descarregar algumas lágrimas. – Heichou, passei dias convivendo somente comigo mesmo, com o vazio dos lugares por onde eu andava, com o medo e a presença dela. Já me conformava com o pior.
Eu realmente não tinha o que dizer. Então apenas levei minha mão que o contornava e afaguei seus cabelos. Depositei uma carícia terna correspondente à qualquer palavra que dissesse, como recompensa pelo meu silêncio.
Ele escorregou seu corpo afim de deitar-se. Após algum tempo tentando aconchegar-se dentre o gramado e parte do meu colo, deitou sua cabeça agora entre meu peito e braço, pouco abaixo de minha axila, e contornou meu braço por entre sua cintura. Segurou meu pulso como uma tranca para seu corpo não tombar para o lado. Deixou que seu outro braço ficasse à cima da minha barriga enquanto segurava meu pulso.
O silêncio voltou a nos contornar. Enquanto o sol ia embora e os tons intensos do céu juntamente despediam-se. Logo menos escurecia.
Os ventos fortificaram-se. Além de virem com correntes um pouco gélidas. Após um longo período quieto, ouvi uns murmúrios baixos. Quase como um ronronar. Foi questão de tempo pra que Eren adormecesse. Sua cabeça escorregou quase pra fora do meu braço. Ele perderia o desfeche mais bonito do horizonte.
– Eren... – Balancei o braço que servia de apoio à ele, chacoalhando de leve sua cabeça.
– Hnn..? – Respondeu rouco e automático, ainda preso na sonolência.
– Você vai perder o pôr do sol!
– Não faz mal.
– Mas viemos por isso, pirralho!
– Na verdade eu vim pra ficar com você, heichou. – Disse em total normalidade. – hm... – Grunhiu.
– Que foi?
– Senti algo saltar um pouco forte agora. – Disse soltando meu pulso e levando as costas da mão até meu peito que servia de travesseiro. – Bem aqui... – Belisquei automaticamente sua cintura com a mão que apoiava-o, e ele gemeu em risos baixos.
– Já disse pra deixar de ser idiota. – Continuou a soltar alguns risos manhosos e voltou o semblante para frente. Os últimos raios daquele orbe luminoso nos alcançaram. Ele pegou minha mão direita livre e a depositou em cima da sua cabeça. Passei a novamente afagar as ondulações médias.
– Tem algo mais pra dizer? – Incentivei-o.
– Sim... – Levantou o rosto abaixo, me encarando. – Senti falta de vocês. Vocês também eram bem presente em meus pensamentos.
–A diferença é que agora somos de carne e osso, Eren. – Abaixei meu rosto em direção ao dele, me comunicando agora em um tom precisamente mais baixo. Já ele pegou novamente minha mão que estava acariciando seu cabelo e a abaixou até sua bochecha. Nesse toque, fechou os olhos.
Eu não precisava mover minha mão, ele à guiava de encontro com a pele do seu semblante. Pouco acima, conseguia observar suas feições, tão serenas como quando sente contentamento com algo deleitoso. Escorria-a por toda a região lateral: Pelo olho; Ao lado do nariz, maxilar... Movia-a até o queixo e pousou-a por ultimo no canto da boca. Cheirou as costas da minha mão enquanto entrelaçava nossos dedos. Até, por fim, depositar um selinho terno e lento no local.
Não fiz questão de entender aquela carícia. Somente observava-o. Mantive nossas mãos entrelaçadas. Inclinei-me até chegar à altura da sua testa e decidi também depositar igualmente um selo no local, como resposta à ele. Tentava ser o mais compreensivo que podia, e mesmo sem ações, procurava deixá-lo bem de alguma forma. Ele precisava de cuidados mais “fraternos”, ou algo ligeiramente ligado a relações familiares. Mas com a vantagem da aproximação, repentinamente o senti movendo seu semblante. Ele então encontrou nossos lábios, me pegando desprevenido.
Congelei perplexo. No momento até notei que havia fechado os olhos para depositar o selinho em sua testa, pois senti abri-los absurdamente com a atitude do garoto. Não soube o que fazer. Suas feições definitivamente me estacionaram. Tudo, até o delinear das pálpebras fechadas, o rubor que tomou as maçãs tímidas, e certamente o quão próximo estava dele. Eren... Seu imbecil, quando te dei tanta liberdade pra chegar à esse ponto?
Levi, seu retardado... Você sabe como Eren é uma caixinha de surpresas!
Enquanto eu mantinha minha boca rija, ele tentava mesmo que fervendo de nervosismo um selinho mais profundo. Movia apenas os lábios, bem lentamente, num convite para que eu o acompanhasse. Ele próprio parecia agora paralisado por sua atitude. Certamente por tê-la cometido impulsivamente, já que ele quase sempre age de tal forma. Desfiz o “beijo”.
– Eren?! – Disse num tom rude, ainda perto dele. – O que você fez, seu idiota? – Franzi o cenho, e junto todo meu semblante.
– M-me desculpa... Heich-ou... – Arreganhou os olhos. – Eu... Eu n-não...
Suspirei fundo. Larguei de sua mão trêmula e massageei minhas têmporas. Tentei processar o que havia acontecido, enquanto ele me olhava com espanto abaixo. Isso poderia ser simplesmente mais uma confusão em sua mente, por ter me tornado um tipo de protetor. Tinha que ser isso. Nem mesmo eu obtinha mais coordenação do tipo de relação que estávamos levando, até onde o limite dela chegaria, e mesmo se isso seria bom. Merda... Deveria ter pensado nisso antes, e evitado certas coisas. Mas realmente estava fora de cogitação algo assim. Bom... Não sei. Não consigo ter algum raciocínio preciso agora. Minha mente embolou com esse beijo. Pelo visto acabei sim dando liberdade demais à ele, sem mesmo ter caído em consciência, e isso empurrou-o à ter essa atitude. A única coisa que vem à mente é desde quando estou aberto o bastante para permitir que isso ocorresse sem tomar qualquer providencia, mesmo que também impulsiva.
– H-heichou... Por favor, não tive intenção... E-eu—
– Cala a boca, moleque! – Cortei suas desculpas.
Continuei massageando o meio das sobrancelhas, agora com os olhos fechados. Abri-os e dei uma olhada ao redor, numa certificação de que não havia alguém por perto, e que logo não teriam visto. Novamente suspirei. Aconteceu, não havia como voltar atrás. Havia como ignorar e melhorar a situação, que estava péssima com a cara de espanto cômica do garoto que me fitava quase urinando na roupa. Também não adiantaria brigar com ele, só arruinaria nossa relação. Eu só sabia que teria que resolver isso, seja da forma que for. Mesmo assim, parte de mim me impulsionava a continuar com aquilo. Pode ser por detestar algo inacabado ou ignorado. Por ser perfeccionista. Ou mesmo pela pressão mantida desde o ato realizado e também o clima um pouco diferente que nos envolvia por estarmos à sós. Não sei. Como ele começou com isso, teria que finalizar de qualquer forma. Senão mesmo inconscientemente remoeria isso.
Levei a mão até o queixo dele. Não sabia se ele havia feito antes, mas nada como uma primeira vez. Novamente chequei nosso redor. Seria uma experiência nova pra mim também, na questão de beijar alguém do mesmo sexo. Então... Não estava totalmente decidido daquilo. Na verdade, estava um tanto encanado. Mas somente no fim poderíamos concluir algo.
Toquei novamente nossos lábios, entreabertos. Ele ainda me olhava assustado, mas acariciei seu queixo e aos poucos relaxou os músculos tensos da face. Enquanto não encontrava coragem para abrir realmente a boca, passei a alisar seus lábios com meus próprios, e também lamber de leve a pele macia do local. Finalmente, após algum tempo somente com essas carícias, decidiu tentar repetir os movimentos que eu depositava nele. Até que começou a me presentear com sugadas leves no lábio inferior.
Eu ainda o sentia bloqueado. Devia passar segurança, então deslizei minha mão até sua mandíbula, adentrei meus dedos na parte de trás de sua cabeça e intercalei com suas mechas medias. Nos comunicamos ainda em um beijo técnico. Um carinho somente com os lábios. Nada de língua por enquanto, até ele se acostumar com a sensação.
Separamos pra respirar. Abri meus olhos, mas ele mantinha os dele fechados. Talvez por medo de me encarar, ou por ainda processar todo esse momento.
– É seu primeiro beijo, Eren? – Continuou mudo. Definitivamente seria. Mesmo ainda não processando tudo isso, deveria beijá-lo bem. De uma forma... penetrante, pra que nunca se esquecesse. E pra que esse beijo não saísse de sua mente, já por ser seu primeiro. Então, teria que marcar. – Então... – Passei a sussurrar em um tom mais baixo – Me deixe te ensinar...
Aproveitei que ainda estava imóvel e voltei até sua boca. Intensifiquei o toque. No primeiro feixe que sua boca tomou, adentrei a ponta da língua tocando sua própria. Senti-o suspirar de surpresa, mas logo também a moveu, enlaçando-a com a minha lentamente, por dentro dos intervalos de beijos.
O beijo de Eren estava bem doce, ainda com o gosto do chá verde que o fiz tomar antes de sairmos. Sua boca é tão delicada que eu não repugnava a ideia de beijá-lo, ou ao menos recordava e estranhava o fato de estar beijando um homem. Só era... Diferente. Não a mesma sensação de beijar uma mulher, nem de um homem à risca. Só era o Eren. Algo... Inexplicável. E estava acontecendo, mesmo ainda incrédulo com isso.
Deslizei minha mão esquerda da sua cintura até a mão livre dele. Ele tremia, de uma forma meiga, por ser inexperiente. Enlacei-as e segurei com firmeza, acarinhando com meu polegar. Logo ele se acalmaria. Novamente pausamos o beijo, mas tomamos fôlego ainda com os lábios encostados.
– Como se sente? – Perguntei ainda sussurrando, roçando meus lábios aos seus na pronúncia das palavras. Ele estava ofegante. Soprava minha boca com sua respiração quente. Abriu as pálpebras e me fitou com os olhos entreabertos.
– Não sei... – Disse também em sussurro – M-mas... Não pare, heichou... – Dito isso, tomei seus lábios novamente.
Diferente de antes, agora estava mais ágil nos movimentos. Ele captou rápido as sensações, e me permitiu guiá-lo cada vez mais intensamente. Garoto sem vergonha, para os treinos e deveres domésticos fazia corpo mole, agora pra algo assim aprende num piscar de olhos.
Nossas línguas dançavam juntas. Contornavam-se em movimentos circulares. Meu rosto estava na diagonal para ele, já que estava deitado do meu lado e pouco abaixo. Nisso, o beijo saiu um pouco torto, porém, ainda bom. E começava a ficar ótimo. Mais que isso... Veemente, ansioso e um pouco mais rápido. Quando dei por mim notei que depositava até mordiscadas nos lábios dele, e percebi o quanto aquilo estava me esquentando. Deveria parar por ali, senão não conseguiria mais. Devo ter passado tempo demais sem beijar uma boca, pra ter acontecido isso.
Interrompi. Eren reprovou, até reclamou num grunhido. Mas seria nesse ou em momento algum. Merda. Ainda sinto a falta de término de anteriormente. A sensação de parar algo pela metade. Isso me aborrece.
Ficamos sem assunto, só nos encarávamos, ainda processando o que acabou de acontecer. Então cortei o silêncio.
– Vai anoitecer, é melhor irmos. – Disse ainda com o rosto abaixado. Algumas mechas lisas do meu cabelo tocaram seu rosto.
– Por que não ficamos pra olhar o céu estrelado, heichou?
– Não.
– Sei que você gosta mais da noite. Então que mal tem?
– Vamos, Eren. Tá na sua hora.
– Mas não to com sono, heichou! – Fez bico.
– Mas vai dormir mesmo assim.
– Ah, não! — Reclamou como criança. Levantei, fazendo-o tombar feito pudim pro lado.
– Não faça corpo mole, Eren! Sabe que detesto! Anda, levanta!
– Sabe que não consigo! – Emburrou.
– Você veio andando até aqui seu moleque! – Franzi o cenho.
– Mas com sua ajuda... – Seus olhos brilharam como se pedisse para que eu o levantasse. Me inclinei e puxei um dos seus braços sem qualquer cuidado até ele se levantar totalmente, enquanto reclamava de dor. Já que o agradei com o beijo deveria descontar em algo, pra equilibrar. E também pra fazer jus ao costume...
– É melhor acostumar com isso. Logo começaremos seus treinos novamente. – Apoiei seu braço em meus ombros e o segurei pela cintura.
– Não! – Choramingou – Ainda não me sinto bem!
– Está tão bem que poderia começar a te treinar amanhã mesmo, pirralho safado. – Dei alguns passos guiando-o. – Mas vou ter piedade da sua alma.
– Senti até saudade de ficar de cama. – Sorriu.
– Melhor pra mim se ficasse. – Falei seco. Ele me olhou com o semblante entristecido. Soltei um riso baixo e dei uma apertadinha de leve em sua cintura, onde eu o segurava. – Você é muito mole. Eu deveria começar a pegar pesado com você...
– Pra mim já começou! – Abaixou a face.
– Não me faça rir! – Debochei. – Eren... Só essa sua cara de pamonha já me faz ter vontade de te bater. – Desabafei.
– Não achei que me odiasse tanto assim! – Arreganhou os olhos e sorriu. Estimulei propositalmente um beiço discreto e franzi as sobrancelhas, simulando um semblante pensativo.
– Sabe... Não é bem isso... Você pode ser mais util. Eu poderia te pendurar no centro do quarto e te usar como saco de pancadas... – Sorri de canto à ele. Até que não é uma má ideia...
– Nossa! – Soltou uma risada divertida. – Espera... – Disse pondo o indicador na frente da boca.
– Que foi?
– Se heichou me detesta por que veio atrás de mim? – Me olhou “pensativo”.
– Ah, sabe... Não podia deixar a pirralhada se virar sozinha. Eles Acabariam morrendo sem mim.
– Sei! – Sorrimos. E então, passamos a somente caminhar em silencio.
Aproveitamos por pouco tempo o calor que ainda restava do dia. Com a noite vindo, a ventania soprava friamente contra nós. Havia esquecido de pegar algum agasalho pro garoto, até por que na vinda o sol ainda aquecia comodamente, como se fosse anoitecer ainda com o clima morno. Ele passou a comprimir seu corpo e tremer um pouco, chegando cada vez mais perto de mim conforme sentia frio. Como se pudéssemos passar correntes de calor que nos aquecesse contra o vento. Algo bem inútil, já que éramos nós contra o campo vasto. Mas ocorria curiosamente muito automático. Fora isso, ao invés de apoiá-lo, quase começava a tombar pro lado por Eren se escorar preguiçosamente e jogar seu peso contra mim. Mesmo sendo forte o suficiente para agüentar a girafa, privei-o da sua folga.
Chegamos quase perto da casa. Conseguimos avistá-la. O azul ciano-escuro tomou o céu, antes de um tom mais escuro. Então quanto mais nos aproximávamos, pude enxergar uma zombaria perturbadora. Risadas altas, gritos agudos femininos e um candango passeando semi nu no terreno.
– Que... Palhaçada é essa?! – Perguntei praticamente à mim mesmo. Eren começava a rir como os outros caras. O paspalho do Mike e a quatro-olhos estavam juntos, e os imbecis não fizeram nada...
– Não, Jean!! O Heich—
– Quem mandou duvidar? Você não é homem de palavra?! – Kirschtein tentava à força tirar as mãos de Springer que cobria as intimidades mesmo vestido ainda com a peça íntima. – Agora vai pagar na frente do heichou! E levar uma surra dele depois... – Todos riram.
– Tira! Tira! Tira! – Começaram a gritar em coro enquanto Springer lutava contra a força de Kirschtein. Cheguei com Eren até perto de Mike que observava o tumulto fora da roda.
– Conseguiram algo? – Perguntei.
– Um veado vermelho de cerca de trezentos e cinqüenta. Está bom pra você? – Deu um sorriso de canto. Até desencanei do careca sem vergonha.
– Eren, vamos! – Tentei caminhar com o garoto para dentro da casa.
– Não! – Disse concentrado na luta corporal entre os dois – Não perco isso por nada! – Riu.
– Você ainda não tomou seu banho! – Disse, mas o garoto nem deu ouvidos.
– Não fará nada, Rivaille? – Mike perguntou surpreso.
– Não preciso. A vergonha que ele está passando já é um castigo à nível. – Respondi simplesmente. Olhei novamente pra “luta” cômica e mesmo eu decidi ficar pra ver no que aquilo daria.
Espiei de canto a estrábica no meio dos adolescentes, tão enturmada e à vontade como se fosse também uma. Gritava e gargalhava como uma débil mental. Será que ela realmente não se toca? Deve ter a minha idade ou quase e age dessa forma.
– Não, Jean, já chega! – A garota comilona segurou os braços de Kirschtein. – Já basta, ele já pagou!
– Mas não mesmo! Desculpa Sasha, mas seu namorado vai ter que ficar pelado na frente de todo mundo!
– M-mas... – Ficou tão vermelha quanto o careca. – Ele n-não é meu... nam—
– Awn!! Por que não me contou, Sasha?! – A quatro-olhos se meteu. Connie resmungou e empurrou Kirschtein.
– Quer saber... já que quer tanto ver, Jean, vai ter que dar uma pegada também! – Dito isso, abaixou completamente a peça íntima e correu pelado tentando alcançar Jean.
Ymir como de costume tapou os olhos de Christa. Sasha permaneceu paralisada e o restante ria absurdamente. Até Eren encontrou fôlego do além pra rir tanto como estava. Não tiro razão, com aquela bunda branca contrastando com o restante bronzeado e com tudo balançando enquanto corria não havia como não rir. No meu caso, achar graça do tanto que posso me surpreender como até onde esses pirralhos sem noção podem chegar.
– Pronto, Eren? – Balancei de leve sua mão que segurava em cima do meu ombro. Ele positivou com a cabeça ainda sorrindo. Pelo menos o retardado serviu para animar o ambiente.
~*~
– Acredito que hoje conseguirá tomar banho sozinho. – Ajudei-o a entrar na banheira, mesmo sem ter retirado sua roupa. Poderia fazer isso quando eu saísse. – Não demore no banho.
– O heichou não vai ficar? – Me olhou com aquele rosto de manha, tentando demonstrar mais enfermidade que sentia.
– Não. Já fiz minha parte. Como já está conseguindo andar, já deve conseguir pelo menos se lavar sozinho. – Voltei até a porta.
– Mas e quando eu terminar? Pelo menos me espere pra me ajudar a levantar! – Emburrou.
– Ficarei do lado de fora, qualquer coisa é só gritar. – Fechei a porta atrás de mim sem esperar por mais insistências. Encostei-me na porta e cruzei os braços, fechando os olhos em seguida e tombando minha cabeça para trás.
– Levizinho... – Ouvi a voz da quatro-olhos pelo corredor, abri os olhos e fitei-a andar feito barata tonta, tateando as paredes e andando um pouco agachada como se tivesse com medo de esbarrar em algo. – É você aí?
– Diga.
– Você por acaso viu meus óculos?
– Ahm... – Notei que os mesmos estavam postos à cima da cabeça, como faz-se com óculos escuros. Mas... Por que raios ela faria isso sendo que é cega? – Não.
– Ah... – Choramingou. Então voltou até as escadas. Fechei novamente meus olhos e tombei a cabeça até encostar na porta. Ouvi um barulho que imediatamente soube que ela havia levado um tombo na escada. Não contive um sorriso. Quatro-olhos destrambelhada...
– Heichou!!! – Ouvi um grito de dentro do banheiro. Abri a porta e olhei-o na banheira.
– Hum?
– É que... Não consigo alcançar minhas costas. Pode lavar pra mim? – Me olhava pidão. Suspirei. Seria impressão minha ou Eren estava mesmo agindo com mais manha depois do beijo. Aquilo não podia interferir em nada.
Adentrei. Peguei a bucha de sua mão e despejei mais sabão líquido. Arrastei o banquinho e me sentei. Empurrei sua cabeça para frente e ele reclamou de susto, então passei a esfregar o meio de suas costas onde o acesso é mesmo difícil.
– C-calma... – Tentou voltar à ficar com as costas eretas. Segurei seu cabelo com a outra mão, mantendo-o com as costas inclinadas. — Calma, heichou! Assim dói!
– Como dói? Nem estou usando força!
– Está quase adentrando meu rosto na água! – Notei que empurrei-o um pouco demais. Então afrouxei um pouco os dedos de seus cabelos.
– Pode me lavar como ontem? – Disse entre dentes.
– Não entendi.
– Ontem você não me lavou assim!
– Hoje nem era pra eu estar aqui. Quer que eu saia?
– N-não. – Voltou a falar resmungando. Certamente estava odiando a mudança de tratamento. Ele sabe que eu não continuaria sendo bonzinho com ele. Deveria lembrá-lo disso.
– Pronto. – Entreguei a bucha à ele, lavei as mãos na banheira retirando a espuma e enxuguei-as na toalha. – Se não sair daqui dez minutos da banheira arranco os fios de nylon dos seus machucados. – Me olhou com os olhos saltados. Deixei a toalha e sai do banheiro.
Em menos de dez minutos ele rodou a maçaneta. É bom ver que ainda teme a mim. Ajudei-o a caminhar até o quarto e deixei-o lá até vestir-se.
Abri a porta assim que disse que poderia entrar. Ele agora já estava por entre as cobertas, com os joelhos dobrados perto do rosto, e só com a cabeça pra fora.
– Está com fome? – Perguntei ainda fora do quarto.
– Não.
– Certo. Vou comer algo e já venho.
– Espera! – Me interrompeu ao fechar a porta. Somente olhei-o antes de ir. – Mas... Posso pedir algo?
– O que você quer?
– Pode vir até mim..? – Perguntou num tom mais baixo e manso. Fui até ele, ás vezes possa estar precisando de algo íntimo. Cheguei mais próximo e ele pediu para que eu me sentasse. Ficou me encarando encolhido por um tempo.
– Quer conversar? Eren... Eu desço lá em baixo e volto rápido!
– Não... Não é isso...
– Então desembucha garoto. – Cruzei os braços. – O que foi? Está se sentindo mal?
– Também não... É que... – Pôs as mãos para fora do cobertor e às olhou, desviando sua visão de mim. Mesmo demorando, resolvi esperar o que tinha para dizer. Ele então se arrastou até bem perto de onde eu estava. – Queria um beijo... De boa noite. – Sussurrou. Continuei fitando seus olhos da mesma forma. Após poucos segundos toquei seu rosto e depositei um selinho em sua testa.
– Boa noite. – Disse normalmente e me aproximei da porta. Dei uma olhada de canto à ele antes que fechasse. Ele me olhava com desânimo e parecia desapontado. Eu sabia exatamente o beijo que queria. E sabia também que poderia passar a usar isso à meu favor.
~*~
Armin
– Tira a mão! Você vai infectar a carne! – Ymir brigou com Connie por ter tentado roubar um pedaço cru, enquanto estava fatiando todos eles corretamente para prepararmos antes de assá-las.
Ninguém estava mais agüentando de fome, mas tivemos que esperar por muito tempo todo aquele processo demorado. Mas melhor que comermos de qualquer jeito e acabarmos passando mal. A cozinha estava exalando um cheiro que começou a salivar minha boca. Decidi então sair dali e ir tomar um ar fora da casa, em alguns dos bancos de madeira. Olhei o redor. Estava bem escuro, mas como “roubamos” lampiões do vilarejo e colocamos em volta da casa, resolvi acender pelo menos alguns para clarear o negro dominante da noite.
Notei uma silhueta como uma sombra quase desaparecendo naquela escuridão, um pouco longe da casa. No momento congelei, achei que pudesse ser algum titã mais à longe, dando esse efeito de menor. Mas ao pegar uma dos lampiões nas mãos e dar alguns passos adiante pude ver que era alguém de nós. Provavelmente seria Jean, pois agora lembrei que não estava conosco na cozinha.
Ele estava com os braços cruzados. Em pé, de costas à mim e à casa. Com a atenção voltada acima. Fitava a lua. Que nessa noite estava cheia. Branca e linda. Antes que eu pudesse me aproximar mais ele começou a caminhar pra longe.
– Jean!!! – Gritei e corri em sua direção antes que se afastasse muito. Ele então ouviu e parou, sendo assim pude alcançá-lo.
– Fala, Armin. – Disse simplesmente, voltando a cruzar os braços. Pude ver seu semblante perfeitamente. Não havia nada de errado, suas expressões estavam normais.
– Não era... Exatamente algo. É que estranhei você estar aqui fora sozinho nessa escuridão e frio. – Sorri.
– Ah... Que besteira. – Balançou em negativo a cabeça. – Então fique aqui comigo.
– Ahm... Mas está mais frio pra cá... – Nos olhamos – Não acha melhor ficarmos pelo menos em algum banco perto da casa? É um pouco perigoso ficar aqui nesse escuro...
– Está com medo? – Começou a sorrir largamente.
– Não é isso, eu—
– Você ta comigo, Armin! Não vai acontecer nada... – Voltou a olhar a lua.
– Hm... Não foi isso que ouvi lá na floresta... – Resmunguei baixo.
– Como? – Voltou a me olhar.
– Nada. – Encarei a lua. – À propósito... Lá na floresta, enquanto estávamos à sós, você iria me dizer algo, mas...
– Ah, sim... – Pareceu recordar-se – Ainda quer saber do que se trata? – Descruzou os braços.
– Sim, por favor — Eu realmente ficava curioso quando faziam isso comigo.
Ele então chegou ainda mais perto. Muito mais perto... Ergueu sua mão na altura do meu rosto e a depositou em meu maxilar. Senti meu corpo arrepiar com isso. Ou pelo frio... Não sei exatamente. Mas era uma sensação avassaladora. Então aproximou ainda mais seu semblante no meu, tocando nossos lábios e selando um beijo calmo e sem mais poréns. Terminado, ergueu novamente o rosto e me fitou. Com aquele olhar num feixe, naturalmente vulgar.
– Pronto. Obteve sua resposta, Armin. Minha vez de te perguntar algo. Posso?
– S-sim...
– O que achou disso?
– Ehr... Jean, eu... N-não tenho certeza – Toquei sua mão que ainda segurava meu rosto.
– Eu sei. Eu também não tenho certeza disso. Mas saiba que gostei desse beijo. – Deu aquele seu sorriso meia lua e me convidou para entrarmos.
Mas minhas pernas não o acompanhavam. Estacionei. Fiquei estagnado no mesmo lugar. Olhando-o voltar até a casa.
Tentei processar o que havia acontecido. E no fundo até tentando relembrar o que acontecera a poucos minutos, afim de sentir aquele toque novamente. Que por mais estranho que pareça... Me agradou.
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