Resgatando Os Laços
4 Capítulo 04
Notas iniciais
A porta do quarto do hospital rangeu de leve ao ser empurrada. Pela fresta, Grissom viu o rosto exausto, mas imediatamente iluminado, de sua melhor amiga e sócia. Catherine Willows entrava no recinto acompanhada por um homem de jaleco branco, cujos passos firmes quebravam o silêncio do ambiente hospitalar.
Assim que os olhos de Catherine cruzaram com os de Grissom — abertos, focados e plenamente conscientes -, um suspiro audível de puro alívio escapou de seus lábios. Grissom não era apenas o outro sobrenome na fachada do escritório Grissom & Willows Associados; era sua alma gêmea profissional, seu contraponto nos tribunais e uma de suas pessoas favoritas no mundo.
- Gil, graças a Deus, você acordou, seu ranzinza! — Cath praticamente correu até a lateral do leito, os dedos trêmulos tocando os cabelos grisalhos e desalinhados do amigo com uma delicadeza rara. O pesadelo do coma parecia, finalmente, ter chegado ao fim.
- Cath... — o nome saiu em um fio de voz áspero. A garganta de Grissom parecia seca como o deserto, e seus olhos marejaram ao testemunhar o pranto contido da amiga.
- Vamos tirar essa máscara para que você consiga falar melhor — o médico interveio com gentileza profissional, removendo o anteparo de oxigênio que abafava as feições do advogado.
Ele se posicionou ao pé da cama, checou o monitor de sinais vitais e se apresentou formalmente como Dr. Albert, o cardiologista responsável pelo caso dele, desde que dera entrada na emergência, há exatos cinco dias.
Grissom piscou, o choque paralisando seus pensamentos por um instante. Cinco dias? Para ele, a experiência no descampado místico e a barganha desesperada com Greg haviam durado pouco mais de algumas horas. Na linha do tempo da Terra, porém, o tempo havia corrido diferente, mais rápido.
- O que... aconteceu... comigo, doutor? — perguntou, a voz ainda arrastada, sentindo o peso do próprio corpo físico.
O Dr. Albert adotou um tom brando, mas clinicamente honesto. Explicou que ele sofrera um infarto fulminante. De acordo com os paramédicos, Grissom teve uma parada cardiorrespiratória no estacionamento e permaneceu clinicamente morto por alguns minutos antes que as manobras intensivas de reanimação fizessem o coração voltar a bater. No hospital, passou por uma cirurgia de emergência delicada para a implantação de um marca-passo, mas uma sucessão de complicações pós-operatórias o lançou em um coma profundo.
- Você quase nos matou do coração também, seu ordinário — Catherine brincou, a voz embargada enquanto apertava a mão de Grissom.
- Eu quero... ir para casa.
Albert soltou uma risada curta, balançando a cabeça diante da audácia do paciente.
- Nem bem voltou do outro lado e já está querendo alta? Negativo, Dr. Grissom. O senhor ainda precisa passar por uma bateria detalhada de exames e permanecer em observação rigorosa por, no mínimo, mais vinte e quatro horas, se os resultados dos exames forem bons, caso contrário permanecerá por quarenta e oito horas.
- Tudo isso? — Grissom protestou.
O relógio invisível de trinta dias começou a martelar em sua mente com a força de um veredito. Cada segundo gasto naquela cama era um segundo a menos para salvar sua alma da condenação definitiva.
- Tudo isso — o médico foi taxativo. — Vou organizar a maca e acionar a equipe de enfermagem para o transporte dos exames laboratoriais e de imagem. Volto logo.
Assim que o médico cruzou a porta, a postura combativa de advogado de Grissom se reergueu, sobrepondo-se à fraqueza física. Ele precisava mapear o terreno. Precisava saber o tamanho dos danos na sua vida real.
- A Sara... e os meninos... vieram?
Catherine suspirou, o semblante caindo ligeiramente enquanto ajeitava o lençol hospitalar.
- A Sara veio todos os dias, Gil. Sem falta. Ficava aqui até o horário limite das visitas, no corredor, esperando qualquer notícia.
O peito de Grissom aqueceu, uma ponta de esperança brilhando em meio à névoa do hospital.
- E os meus filhos?
O silêncio de Catherine durou um segundo a mais do que o normal. A hesitação foi o suficiente para o estômago de Grissom revirar em um nó gélido.
- O Dudu veio ontem com a mãe — Catherine respondeu, medindo milimetricamente as palavras.
- E a Liz? — Grissom insistiu, embora o aperto no peito já soubesse a resposta. O desvio de olhar de Catherine confirmou suas piores suspeitas. — Ela não pisou aqui... não foi?
- Sara tentou de tudo, Gil. Conversou, insistiu, mas...
- Mas ela se recusou — concluiu Grissom, a voz sumindo em um sussurro doloroso.
A dor do ressentimento da filha mais velha era um espinho cravado profundamente em sua alma. Liz, agora com quinze anos, parecia uma estranha completa. E pensar que, quando a menina tinha sete ou oito anos, Grissom era o seu porto seguro. Os abraços apertados na hora de dormir, os desenhos coloridos colados com fita crepe na parede do escritório... tudo havia se dissipado na fumaça de sua ausência. Grissom permitiu que o trabalho construísse um abismo intransponível entre eles. A culpa era inteiramente sua.
- Minha filha me odeia, Cath. Eu sei que sim.
- Não é ódio, Gil. É mágoa acumulada. É bem diferente.
- Dá no mesmo quando o resultado prático é a distância.
- Não dá, não. Sara me contou que, quando deram a notícia sobre o seu infarto, a Liz desabou. Ela ficou apavorada com a possibilidade de você ir embora.
- Apavorada, mas não o suficiente para me ver — Grissom deu um sorriso amargo, encarando o teto cinzento. — Mas eu não tiro a razão dela. Eu fui embora muito antes de o meu coração parar. Eu os abandonei pela carreira. Mas depois do que eu vi... depois de quase perder a existência de vez, eu decidi que vou consertar isso. Vou trazer meus filhos de volta. E a Sara também.
Catherine ponderou, o semblante, assumindo uma seriedade rigidamente protetora.
- Gil... a Sara está com outra pessoa. Você sabe bem disso, não sabe?
- Eu sei. Mas eu também sei o que nós fomos um para o outro. Aquele... aquele professor de matemática não a conhece como eu. Não vai fazer a Sara feliz como eu fiz, e como sei que posso fazer de novo.
- Você realmente ainda é completamente louco por ela, não é?
- Com cada batida desse coração remendado, Cath.
Catherine sorriu de canto, observando a obstinação do amigo. No fundo, ela torcia pela reconciliação dos dois, mas conhecia o quão ético, firme e pragmático era o caráter de Sara Sidle. No entanto, sua percepção de amiga de longa data não falhava: o pavor e o desespero indisfarçáveis nos olhos de Sara a cada boletim médico deixavam claro que a história de dezesseis anos de casamento não havia sido enterrada por completo.
- Ela vai vir hoje à tarde — Catherine avisou, checando o relógio. — Disse que ia tentar trazer os dois meninos de qualquer jeito após a escola.
- Ótimo. Eu preciso ver a minha família.
- O resto do bando — Warrick, Jim, Hodges, Morgan e Teri — passaram aqui mais cedo, antes de você despertar. Estava todo mundo em frangalhos achando que você ia dessa para uma melhor.
- Ainda não foi dessa vez que o escritório ficou todo no seu nome, Willows — Grissom ironizou, recuperando um pouco do brilho característico no olhar.
- E nem quero, Grissom. Você é ranzinza e linha dura demais, mas o escritório não tem alma sem você. Trate de ficar por aqui.
Catherine tocou o rosto barbudo do amigo com afeto. O vínculo entre os dois vinha desde os bancos da faculdade de Direito. Enquanto Catherine brilhava na ala trabalhista com sua sensibilidade e firmeza, Grissom era o trator do direito penal, imbatível nos tribunais. Juntos, criaram um império jurídico, mas a amizade sempre antecedeu o CNPJ.
Antes que o clima ficasse emotivo demais, o Dr. Albert retornou com a equipe de enfermagem para conduzi-lo aos exames. Enquanto Grissom era levado pelos corredores assépticos, Catherine puxou o celular do bolso do paletó. Ela tinha uma promessa a cumprir e uma morena específica para avisar.
****
No silêncio de seu escritório particular em casa, Sara Sidle mantinha os olhos fixos na tela do notebook, mas sua mente estava a quilômetros dali. Tentava corrigir uma pilha de provas de cálculo da universidade, mas as fórmulas pareciam embaralhadas pela ansiedade. O sobressalto veio quando o celular sobre a mesa de madeira começou a vibrar, cortando o silêncio.
- Alô? — atendeu de imediato, a voz ligeiramente tensa, o corpo rígido na cadeira.
- Sara? Sou eu, a Cath.
O coração de Sara deu um salto violento contra as costelas. O medo do pior sempre rondava aquelas ligações nos últimos cinco dias.
- Oi, Catherine. Aconteceu alguma coisa com o Grissom? Teve alguma piora?
A verdade é que o divórcio de dois anos atrás havia afastado os corpos e as rotinas, mas não o sentimento subjacente. Sara sentia um carinho profundo e, no fundo de suas verdades mais guardadas e trancadas a sete chaves, ainda amava o ex-marido.
Ela estava com Nick há alguns meses. Nick era leve, atencioso, um companheiro excelente e uma presença adorada por Liz e Dudu. Mas faltava algo. Faltava a intensidade avassaladora, a faísca imprevisível que só Gil Grissom possuía. O grande problema era que o Grissom dos últimos anos de casamento havia se transformado em uma sombra fria, um autômata focado exclusivamente em prazos, reuniões e audiências, negligenciando a santidade do lar até o limite da exaustão.
A gota d'água ainda ardia na memória de Sara como ferro em brasa: o aniversário de dez anos de Dudu. Grissom prometera priorizar o filho, jurara que estaria presente para soprar as velas, mas aceitou um caso de última hora em uma cidade vizinha, viajou sem avisar e desligou o celular. No dia seguinte, quando Grissom entrou em casa com uma desculpa corporativa nos lábios, encontrou as malas prontas na sala de estar.
"O que é isso, Sara?"
"Suas coisas. Eu cansei, Grissom. Nosso casamento acabou aqui."
"Por causa de uma festa? Eu tive um imprevisto de trabalho, você sabe perfeitamente como funciona a demanda do escritório!"
"Sempre o trabalho, Grissom. Sempre um cliente mais importante que o seu próprio filho. Pois agora você está livre para casar com o seu escritório. Vá embora."
"Sara, por favor... me escuta..."
"Por favor, digo eu. Eu já não tenho um marido há anos, Grissom. Só estou oficializando a solidão que você mesmo escolheu."
A lembrança dolorosa foi cortada pela voz nítida de Catherine do outro lado da linha, trazendo-a de volta à realidade do presente:
- Sara, ele acordou. O coma reverteu completamente.
Um peso invisível, mas esmagador, desprendeu-se dos ombros de Sara de uma só vez. Ela fechou os olhos, respirando fundo pela primeira vez em cinco dias, sentindo uma lágrima solitária escapar.
- Graças a Deus... Esse pesadelo acabou.
- Nem me fale. Ele abriu os olhos e a primeira coisa que fez, logo após reclamar da internação, foi pedir para ver você e os meninos.
- Claro. Assim que as crianças chegarem da escola e almoçarmos, nós vamos para o hospital. Como ele está fisicamente?
- Teimoso como sempre. Já queria alta imediata, mas o médico barrou com razão. Ele foi fazer uma bateria de exames agora, mas cognitivamente está perfeito. O mesmo Grissom de sempre.
- Foi um susto horrível, Catherine. Juro que achei que íamos perdê-lo para sempre.
- Nós duas pensamos isso. Mas o peste é forte, tem sete vidas. Vejo vocês mais tarde no hospital?
- Com certeza. Obrigada por ligar, Cath.
Sara desligou o aparelho e o pressionou contra o peito, soltando o ar devagar, tentando estabilizar as emoções. Uma batida leve na porta do escritório quebrou sua introspecção. Clarice, a governanta que trabalhava com a família há anos e conhecia todos os seus segredos, colocou a cabeça para dentro do cômodo.
- Com licença, dona Sara. O senhor Stokes acabou de chegar, está lhe esperando na sala de estar.
- Ah, sim. Obrigada, Clarice. Já estou descendo.
- Eu aviso a ele. Aconteceu algo? A senhora parece... diferente. O semblante mudou.
Sara olhou para a funcionária antiga, que acompanhou de perto os anos de ouro e a derrocada de seu casamento.
- O Grissom acordou do coma, Clarice. Catherine acabou de me dar a notícia.
O rosto de Clarice se abriu em um sorriso genuíno e caloroso.
- Ah, que benção do céu! Louvado seja Deus. Rezei tanto por ele. A senhora ainda gosta muito do senhor Grissom, não é, dona Sara?
Sara travou por um segundo, a pergunta direta e despida de filtros da governanta expondo sua maior vulnerabilidade.
- Ele é o pai dos meus filhos, Clarice. É claro que eu tenho um sentimento por ele.
- Você sabe muito bem que eu não perguntei nesse sentido de obrigação, dona Sara — Clarice pontuou com a audácia afetuosa de quem torcia secretamente por uma reviravolta na história do casal.
Sara engoliu em seco, endireitando a postura na cadeira e buscando sua máscara de estabilidade e maturidade.
- Clarice, por favor. Eu tenho um namorado fantástico me esperando na sala de estar lá embaixo.
Sem dar o menor espaço para tréplicas ou novos questionamentos que pusessem em xeque suas escolhas conscientes, Sara levantou-se da cadeira e passou pela governanta, descendo os degraus da escada com o coração perigosamente dividido entre a segurança morna do presente e o fantasma iminente de um passado que murchava, mas se recusava terminantemente a morrer.
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