A mesa do restaurante no shopping estava farta, com o hambúrguer gigante que Dudu tanto queria e as batatas fritas divididas entre todos. O garoto ainda estava com a adrenalina a mil, encenando com as mãos cada lance da partida, mas, à medida que a euforia do jogo começava a assentar, o elefante na sala finalmente cobrou atenção. A aparição surpresa de Grissom e, principalmente, a sua nova postura, tornaram-se o prato principal da conversa.

- Eu ainda não superei o passe que você deu, Dudu — Nick elogiou, cortando um pedaço de seu sanduíche, tentando manter o tom leve. — Mas, preciso confessar... a maior surpresa do dia não foi o gol da vitória. Foi o seu pai ter aparecido. E daquele jeito.

Dudu limpou a boca com o guardanapo, os olhos brilhando.

- Eu falei para vocês que ele ia! Ele me prometeu no hospital. O papai parecia muito feliz de estar lá. Ele até gritou meu nome na grade! Ele nunca fazia isso, sempre ficava na arquibancada com o tablet ou o celular trabalhando.

Sara mexeu no canudo de seu suco, pensativa. Os olhos castanhos fitavam a mesa, mas a mente revivia o momento em que Grissom cruzou o olhar com o seu, vestindo jeans e tênis, despido de toda a armadura de advogado arrogante.

- Ele parecia... desarmado — Sara comentou, a voz mansa, quase como se falasse para si mesma. — Sem pressa. Sem olhar para o relógio. Eu passei anos tentando fazer o Grissom entender que o Dudu só queria a presença dele, e hoje ele simplesmente apareceu e entregou isso sem que ninguém precisasse cobrar.

- É o peso na consciência, mãe — Liz disparou, quebrando o próprio silêncio enquanto usava o garfo para espetar uma batata com força. — Ele quase morreu, ficou assustado e agora quer pagar de pai perfeito do ano. Quero ver quanto tempo essa "nova versão" dura quando o estoque de processos acumulados no escritório começar a cobrar o tempo dele.

- Liz, não seja tão dura — Sara pediu, embora no fundo guardasse o mesmo receio da filha. — O que ele passou foi grave. O coração dele parou. Uma experiência dessas muda as prioridades de qualquer um.

Nick, que até então apenas ouvia, colocou a mão timidamente sobre a de Sara. Havia um vinco de preocupação em sua testa que ele não conseguia esconder.

- Eu preciso concordar com a Sara, Liz. Eu não conhecia o Grissom direito, só de ouvir falar, mas o que vi hoje no campo... não me pareceu teatro. Aquele homem estava inteiro ali para o Dudu. O olhar dele... — Nick engoliu em seco, escolhendo as palavras com cuidado para não transparecer o tamanho da sua insegurança. — O olhar dele transmitia uma urgência muito real. Como se ele soubesse exatamente o valor de cada minuto ali.

Sara olhou para o namorado, sentindo um aperto de culpa. A sensibilidade de Nick era uma de suas maiores qualidades, e o fato de ele ter percebido a mudança em Grissom só tornava tudo mais real — e mais perigoso para o relacionamento deles.

- É... ele mencionou que tem trinta dias de licença médica — Sara murmurou, lembrando-se da conversa no apartamento de Grissom. — Disse que quer usar esse tempo para consertar o que quebrou.

- Trinta dias é muito tempo para criar falsas esperanças e pouco tempo para mudar uma vida inteira de ausência — Liz sentenciou com a crueza típica de sua idade, cruzando os braços e encostando-se na cadeira. — Amanhã o Dudu vai almoçar com ele. Vamos ver se ele não vai se atrasar ou cancelar em cima da hora por causa de uma "reunião de emergência".

Dudu olhou para a irmã, o entusiasmo murchando um pouco.

- Ele não vai cancelar, Liz. Ele me deu a palavra dele.

Sara esticou o braço e acariciou o ombro do filho caçula, tentando blindá-lo da amargura da irmã.

- E ele vai cumprir, filho. Vamos focar no seu almoço de amanhã e torcer para que seja um momento especial entre vocês.

O restante do almoço seguiu com conversas mais amenas, mas o clima havia mudado. Para Sara, cada risada de Dudu era um lembrete de que Grissom estava cumprindo o que prometera. E para Nick, a sombra do ex-marido de Sara, que antes parecia um fantasma distante e soterrado pelo trabalho, agora ganhava contornos bem reais, caminhando a passos firmes em direção ao centro da vida daquela família.

No dia seguinte, o domingo amanheceu com céu nublado, trazendo uma brisa mansa que convidava a desacelerar.

Na casa de Sara, o movimento começou cedo. Dudu já estava arrumado desde às dez da manhã, vestindo sua camiseta favorita e checando o celular a cada cinco minutos. Na sala, o clima era de uma expectativa silenciosa. Sara fingia ler um artigo acadêmico no notebook, mas seus olhos insistiam em se desviar para o filho, compartilhando da mesma ansiedade miúda.

Nick estava na cozinha, terminando de passar um café, enquanto Liz permanecia trancada no quarto, recusando-se a fazer parte daquela contagem regressiva.

Às onze e cinquenta e cinco, o som de uma buzina discreta ecoou do lado de fora do portão. O celular de Dudu vibrou no mesmo instante.

- É ele! — o garoto anunciou, dando um pulo do sofá. — Ele chegou, mãe. Cinco minutos adiantado.

Sara fechou o notebook lentamente e se levantou. Uma mistura de alívio e surpresa preencheu seu peito. Grissom estava realmente cumprindo o acordo, sem desculpas, sem atrasos corporativos. Ela acompanhou o filho até a porta da frente, enquanto Nick aparecia na sala, segurando sua caneca de café com as duas mãos, observando tudo à distância.

Ao abrirem a porta, viram um carro de aplicativo parado na guia. Grissom desceu do veículo com um sorriso leve, vestindo uma roupa casual e confortável. Ao ver Sara e Dudu na soleira, acenou.

- Pai! — Dudu correu pelo pequeno jardim, abrindo o portão com entusiasmo.

- Oi, campeão! — Grissom o recebeu com um abraço apertado, fechando os olhos por um segundo para absorver o calor do filho. Quando se afastaram, ele olhou em direção à porta e encontrou o olhar de Sara. — Bom dia, Sara.

- Bom dia, Grissom — Sara respondeu, dando alguns passos até o início da calçada. Seus olhos castanhos analisaram o rosto do ex-marido, notando que, embora ainda houvesse um resquício da palidez hospitalar, o semblante de Grissom transmitia uma paz rara. — Grissom... por favor, não abuse. Nada de comidas pesadas ou muito esforço. O seu médico foi bem claro sobre o pós-operatório.

- Pode deixar, professora. Eu vou cuidar muito bem dele e de mim — Grissom garantiu com mansidão, e o uso daquele apelido antigo fez o coração de Sara errar uma batida, assim como no hospital. Grissom então olhou sutilmente para dentro da casa, captando a silhueta de Nick. Com um aceno respeitoso de cabeça para o namorado da ex, ele completou: — Prometo trazer o nosso campeão de volta antes das quatro.

- Divirtam-se — Sara murmurou, cruzando os braços para se proteger do vento frio e da turbulência que aquela presença sempre causava em seu íntimo.

Dudu entrou no banco de trás, juntamente com o pai, e o motorista deu a partida, sumindo pela rua arborizada.

Sara permaneceu na calçada por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde o carro estava. Quando voltou para dentro, Nick a esperava perto do sofá. Ele deixou a caneca de café na mesa de centro e se aproximou, envolvendo a cintura de Sara em um abraço terno.

- Ele está realmente tentando, não está? — Nick perguntou baixinho, encostando o queixo no ombro de Sara.

- Parece que sim, Nick... — Sara suspirou, deixando a cabeça pendendo para o lado. — É estranho. Eu passei anos implorando por esse Grissom. Ver que ele finalmente apareceu, justamente agora que a nossa vida está nos eixos, parece uma peça pregada pelo destino.

Nick apertou o abraço, o silêncio sendo a única resposta que conseguiu dar. Ele sabia que contra o Grissom ambicioso do passado, ele tinha todas as vantagens; mas contra esse novo Grissom, desarmado e focado em recuperar o amor da família, a batalha seria muito mais difícil.

O almoço de Dudu e Grissom foi em uma cantina italiana acolhedora e sem o agito dos grandes shoppings. Grissom escolheu uma mesa reservada no canto, onde os dois puderam conversar sem interrupções.

Entre uma garfada de massa leve e outra, Dudu despejou todas as novidades de sua rotina. Falou dos amigos da escola, das matérias que mais gostava e, claro, de seus planos para o futuro no futebol. Grissom ouvia tudo com uma atenção quase reverente. Ele não pegou o celular uma única vez. Deixou o aparelho guardado no fundo do bolso, decidido a dar ao filho o que ele mais havia sido privado: sua presença absoluta.

- Sabe, pai... — Dudu começou, diminuindo o ritmo da conversa enquanto mexia no refrigerante com o canudo. — Eu fiquei com muito medo de você morrer quando a mamãe nos contou do coma.

Grissom pousou os talheres, sentindo o peito contrair de leve. Ele esticou a mão sobre a mesa e cobriu a mão do filho.

- Eu sei, filho. E o papai sente muito, muito mesmo, por ter feito você passar por esse susto. Eu passei muito tempo focado nas coisas erradas, achando que o trabalho era o mais importante. Mas quando eu fechei os olhos naquele hospital, a única coisa que eu queria era ter mais uma chance de estar aqui, exatamente como estamos agora.

Dudu sorriu de canto, os olhos marejados de uma sensibilidade que lembrava muito a de Sara.

- A Liz diz que você vai esquecer a gente depois da licença médica e quando voltar a trabalhar. Que isso é só porque você levou um susto.

Grissom engoliu o nó na garganta. As palavras da filha doíam, mas eram o espelho exato do estrago que ele próprio havia causado.

- A sua irmã tem motivos para pensar assim, Dudu. Eu falhei muito com ela e com você também. Mas eu prometo para você, e vou provar para ela, que essa chance que eu recebi não é temporária. O meu coração mudou de verdade.

O almoço seguiu leve, preenchido por risadas e promessas de novos encontros. Para Grissom, cada minuto ao lado de Dudu era um bálsamo, uma pequena vitória na contagem regressiva de seus trinta dias. Ele estava reconstruindo as pontes, tijolo por prejuízo, ciente de que o tempo corria implacável em suas veias, mas determinado a deixar apenas amor por onde passasse.

Às quinze e cinquenta e cinco, outro carro de aplicativo estacionou novamente em frente à casa de Sara. Dudu desceu rindo de uma piada que o pai havia contado, trazendo na mão uma sacola com um doce que Grissom fez questão de comprar para ele e para a irmã.

Sara já o esperava na varanda, acompanhada por Nick. O alívio no rosto da professora era evidente ao ver o filho retornar exatamente no horário combinado, radiante e transbordando a energia leve que só uma tarde bem aproveitada poderia trazer.

- Foi incrível, mãe! — Dudu correu até Sara, entregando a sacola. — A gente conversou sobre tudo, e o papai prometeu que vai me levar para escolher uma chuteira nova no próximo fim de semana. E olha, ele comprou esse bolo de rolo que a Liz adora. Cadê ela?

- Está no quarto, querido — Sara respondeu, sorrindo com o entusiasmo do caçula enquanto passava a mão pelo cabelo dele. — Vá lá levar para ela. E trate de tomar um banho para tirar o cheiro do restaurante.

Dudu assentiu, despediu-se de Grissom com um aceno animado e entrou na casa, deixando os três adultos em um compasso de espera silencioso.

Grissom deu dois passos à frente, parando perto do portão de ferro. Ele olhou para Nick e, em seguida, fixou os olhos em Sara.

- Entregue no horário e sem nenhuma comida pesada, como prometido — Grissom disse, o tom de voz calmo e desarmado, com as mãos guardadas nos bolsos da calça.

- Obrigada por cumprir o horário, Grissom. O Dudu precisava disso — Sara admitiu, dando um passo na direção do portão, impulsionada por uma força que ela mesma mal conseguia controlar.

Nick percebeu a sutil mudança de dinâmica e, com a sensibilidade que lhe era peculiar, deu um passo para trás.

- Vou ver se o Dudu precisa de ajuda com o banho e checar como a Liz está. Com licença, Grissom — Nick despediu-se de forma cortês e entrou, deixando o advogado e Sara face a face na calçada.

O silêncio de domingo se instalou entre Sara e Grissom. O vento fresco balançava as folhas das árvores da rua, e a distância de poucos metros parecia, ao mesmo tempo, um abismo e uma ponte prestes a ser atravessada.

- Você fez o Dudu muito feliz hoje, Grissom — Sara quebrou o silêncio, a voz caindo para um tom mais íntimo, despido da defensiva de antes. — Eu não via esse brilho nos olhos dele há muito tempo.

- Eu só dei a ele o que era meu dever dar desde o início, Sara: meu tempo e o meu coração por inteiro — Grissom respondeu, dando um passo mais perto da grade. — Eu sei que a Liz não quis o doce e provavelmente vai jogar fora, mas... eu precisava tentar. Eu vou continuar tentando. Todos os dias.

Sara olhou para o ex-marido, sentindo uma onda de emoção apertar sua garganta. O Grissom orgulhoso e focado em metas havia dado lugar a um homem que aceitava a rejeição com paciência e que lutava com uma mansidão quase dolorosa.

- Você realmente mudou, não é? — Sara murmurou, os olhos castanhos buscando alguma mentira ou encenação no rosto de Grissom, mas encontrando apenas uma transparência cristalina.

- Eu não tive escolha, Sara. Quando você vê o fim de perto, você descobre que a única coisa que deixa rastro no mundo é o amor que a gente entrega — Grissom esticou a mão, tocando de leve uma das barras de ferro do portão, bem próxima de onde Sara estava apoiada. — O almoço com o Dudu foi maravilhoso. Mas... eu estaria mentindo se dissesse que a minha tarde estava completa. Faltava você e a Liz na mesa.

Sara engoliu em seco, recuando um milímetro, assustada com o impacto daquelas palavras em seu próprio peito.

- Grissom, por favor... O Nick está lá dentro — Sara relembrou, a voz trêmula. — Eu escolhi um caminho seguro. Ele me dá paz.

- Eu sei, e eu respeito isso — Grissom aceitou com uma serenidade que quebrou as defesas de Sara. — Mas paz não é a mesma coisa que o fogo que a gente tinha, Sara. Eu não vou forçar nada, e não vou desrespeitar a sua vida. Só quero que saiba que eu estou aqui. E que cada um dos meus dias agora é para provar que eu posso ser o homem que você sempre mereceu ter ao seu lado.

Grissom deu um sorriso triste, mas determinado, deu as costas e caminhou em direção ao carro que lhe trouxe.

Sara permaneceu estática junto ao portão, assistindo ao veículo afastar-se pela rua até sumir na esquina. Ela levou a mão ao peito, sentindo os batimentos acelerados. A calmaria de sua vida com Nick parecia, de repente, a calmaria que precede uma tempestade inevitável.

O cronômetro invisível do universo continuava a girar. Quatro dias dos trinta haviam se transformado em lembranças, e Grissom avançava com o coração nas mãos, sem saber que o destino guardava suas próprias cartas para o final daquela contagem.


Notas finais
O homem tá tentando de verdade.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.