No dia seguinte, sábado, o sol nasceu forte em Las Vegas, dissipando a névoa fria da manhã e trazendo um clima perfeito para o futebol.

No clube, a movimentação era intensa. Mães e pais se acomodavam nas arquibancadas de cimento, abrindo guarda-sóis e conversando alto enquanto o time de Dudu aquecia no gramado sintético. Entre eles, Sara tentava se concentrar na conversa com uma das outras mães, mas seus olhos castanhos insistiam em escanear a rampa de acesso do complexo esportivo a cada cinco minutos.

Ao seu lado, Nick exibia um sorriso tranquilo, segurando a garrafa de água gelada que havia trazido para o enteado.

- O Dudu está radiante hoje, amor — comentou Nick, ajeitando os óculos de sol. — Ele veio no carro o caminho todo comentando sobre esse jogo.

- É... ele treinou muito — Sara respondeu, a voz um tom mais distante do que pretendia, os braços cruzados sobre o peito como um escudo.

- Você está procurando por ele, não está? — Nick perguntou com suavidade. Não havia agressividade em seu tom.

Sara engoliu em seco, olhando para o namorado. A culpa, mais uma vez, fisgou seu peito.

- Ele prometeu ao Dudu que viria, Nick. Só não quero que ele quebre a cara de novo. Você sabe como o Grissom é com compromissos de família... qualquer ligação do escritório e ele simplesmente desmarca.

Liz, que estava sentada no degrau logo abaixo deles, mexendo no celular, soltou uma risada abafada e cheia de desdém, sem desviar os olhos da tela.

- Ele não vem, mãe. É óbvio que não vem — disparou a adolescente, a voz carregada de acidez. — Aposto que surgiu uma "reunião de emergência com um cliente importante" ou qualquer desculpa dessas. É sempre assim. Mesmo de licença médica, ele ainda é capaz de ir a algum compromisso de trabalho, em vez de vir aqui.

O relógio do placar marcou nove e cinquenta e cinco da manhã. Os dois times começaram a se perfilar no centro do gramado. Dudu, vestindo a camisa 6 do time de coletes verdes, olhou imediatamente para a arquibancada. Seus olhos buscaram Sara, que acenou e mandou um beijo, mas o garoto logo esticou o pescoço, procurando mais além. Não encontrou quem procurava. Seus ombros caíram de leve e ele se posicionou na linha lateral, de cabeça baixa.

Sara sentiu um aperto doloroso no peito. Ele mentiu de novo, pensou, uma onda de decepção misturada a uma raiva muito familiar começando a queimar sua garganta.

Faltavam dois minutos para as dez. O árbitro posicionou o apito na boca.

Foi quando um murmúrio sutil correu pela lateral da arquibancada. Sara ergueu os olhos e, no mesmo instante, Liz congelou com o celular a meio caminho do rosto.

Grissom vinha caminhando rente ao alambrado.

Ele não usava os terninhos estruturados de corte impecável ou os sapatos italianos que costumavam ser sua armadura diária. Estava de calça jeans leve, tênis brancos e uma camiseta preta básica, com os cabelos levemente bagunçados. A palidez do hospital ainda contornava suas feições, mas havia uma vivacidade nova em seus passos. Ele trazia uma pequena garrafa de isotônico na mão e os olhos fixos no gramado.

Ao perceber a movimentação, Dudu olhou para o lado. No mesmo segundo, o rosto do menino se iluminou de orelha a orelha. Ele ergueu o braço, acenando freneticamente.

Grissom parou junto à grade, bem na primeira fileira, exatamente como havia prometido. Ele fechou o punho e ergueu o braço no ar, gritando de volta:

- Vai lá, meu campeão! Acaba com eles!

O árbitro apitou, dando início ao jogo. Dudu correu para a bola com uma energia que não havia mostrado em nenhum minuto do aquecimento.

Grissom finalmente desviou os olhos do filho e olhou para cima, em direção aos degraus da arquibancada. Seu olhar cruzou diretamente com o de Sara. Não havia arrogância na feição do advogado, nenhum sinal de vitória; apenas um aceno de cabeça manso e um sorriso discreto. Eu cumpro as minhas promessas agora.

Sara soltou o ar que nem percebera que prendia, o coração batendo descompassado. Ao seu lado, Nick observava a cena em silêncio, sentindo que a presença daquele homem ali, tão desarmado e inteiro, era uma ameaça muito maior do que o antigo Grissom jamais fora.

Grissom começou a subir os degraus da arquibancada com calma, respeitando o ritmo do próprio peito. À medida que ele se aproximava, a tensão no pequeno grupo parecia se materializar no ar.

Liz voltou a focar no celular com os dentes trincados, adotando uma postura de pura negação. Nick endireitou a coluna, e Sara sentiu um arrepio familiar percorrer sua espinha ao ver o ex-marido parar a poucos degraus de distância.

- Bom dia — Grissom cumprimentou com suavidade. Sua voz era calma, desprovida da urgência que costumava ditar seu tom profissional. Ele olhou diretamente para o atual namorado de Sara e estendeu a mão. — Nick, certo? Sou o Grissom.

Nick, pego de surpresa pela cordialidade desarmada, piscou antes de aceitar o aperto de mão. O toque foi firme, mas sem nenhuma disputa velada de território.

- Bom dia, Grissom. Sim... Muito prazer. Fico feliz que esteja recuperado.

- Obrigado. Eu também estou — Grissom sorriu de canto e, em seguida, voltou-se para a filha mais velha. — Oi, Liz.

- Oi — Liz murmurou, sem tirar os olhos da tela do celular.

O advogado engoliu em seco, sentindo a ferroada, mas não recuou. Ele sabia que precisaria de muito mais do que um sábado de futebol para curar aquela ferida profunda. Por fim, seus olhos azuis encontraram os de Sara. Havia uma cumplicidade silenciosa ali que os dois anos de divórcio não tinham sido capazes de apagar.

- Você veio — Sara disse, quase num sussurro, como se ainda estivesse processando a imagem do ex-marido de tênis e camiseta no clube social.

- Eu prometi, não foi? — Grissom respondeu, acomodando-se em um espaço vazio no degrau logo abaixo deles, ficando de frente para o campo, mas perto o suficiente para manter a proximidade. — Não pretendo quebrar mais nenhuma promessa.

No campo, o jogo corria acirrado. Dudu estava impecável na lateral esquerda. A cada desarme que fazia ou a cada passe bem-sucedido, ele buscava com os olhos a fileira da arquibancada. E Grissom estava lá, de pé, torcendo, aplaudindo e vibrando como se aquele campeonato escolar fosse a final da copa do mundo.

Sara observava a cena em silêncio. Era inevitável comparar aquele Grissom com o homem que, no passado, passava os jogos do filho respondendo e-mails no celular corporativo ou que simplesmente delegava a presença ao motorista do escritório. A mudança era tão drástica que chegava a ser assustadora.

- Ele realmente parece outra pessoa — Nick comentou baixinho com Sara, aproveitando o momento em que Grissom havia descido novamente até a grade para gritar instruções de incentivo para Dudu. O tom de Nick carregava uma preocupação genuína. — O jeito que ele olha para o Dudu... dá para ver que ele está inteiro aqui.

Sara apertou os lábios, sentindo o peito oscilar entre o alívio de ver o filho feliz e o pavor de saber o quanto aquela nova versão de Gil Grissom balançava suas próprias estruturas.

- Eu não sei o que aconteceu naquele hospital, Nick — Sara confidenciou, a voz baixa. — Mas parece que o Grissom de antiga simplesmente... sumiu.

Aos trinta minutos do segundo tempo, Dudu recebeu a bola no meio-campo, driblou o primeiro marcador e cruzou com precisão para o atacante, que cabeceou direto para o fundo da rede. Gol. O apito final do árbitro soou logo em seguida, selando a vitória do time por dois a um.

Lá embaixo, Dudu nem esperou a comemoração com o time terminar. Ele correu na direção da arquibancada, o rosto suado e vermelho, apontando para a grade.

- Você viu, pai?! Você viu o passe?! — o garoto gritou, segurando no metal.

Grissom desceu os últimos degraus quase correndo, esquecendo-se por um segundo da cicatriz recente em seu peito, e se inclinou sobre a grade para puxar o filho para um abraço apertado.

- Eu vi, campeão! Foi perfeito! Você foi o melhor em campo! — Grissom exclamou, beijando o topo da cabeça do menino, sentindo o cheiro de suor e infância que ele havia negligenciado por tanto tempo.

Sara, Nick e Liz desceram logo atrás. Dudu se soltou de Grissom e abraçou Sara e Nick, recebendo os parabéns de todos.

- Vamos comemorar no shopping? — Dudu sugeriu, animado, olhando para os três adultos e a irmã. — Comer aquele hambúrguer gigante?

Um silêncio desconfortável desceu instantaneamente sobre o grupo. Sara olhou de Nick para Grissom. O convite inocente de Dudu colocava o passado e o presente na mesma mesa.

Grissom, percebendo a hesitação de Sara e o desconforto sutil de Nick, deu um passo para trás com uma maturidade que surpreendeu a ex-esposa. Ele ofereceu um sorriso compreensivo.

- Ah, campeão, o papai adoraria, mas eu ainda preciso passar no hospital para pegar o resultado de uns exames de rotina com o Dr. Albert — mentiu com suavidade, poupando Sara de uma escolha difícil. Ele estendeu a garrafa de isotônico para o filho. — Vá comemorar com a sua mãe, sua irmã e com o Nick. Você mereceu. Mas... o que você acha de almoçar comigo amanhã? Só nós dois?

Os olhos de Dudu brilharam instantaneamente.

- Eu quero! Pode ser, mãe? — ele olhou para Sara, pedindo autorização.

- Claro que pode, querido — Sara respondeu, o olhar fixo em Grissom. Uma onda de gratidão silenciosa invadiu seu peito pela atitude sensata e protetora do ex-marido.

Grissom despediu-se de Dudu com um beijo na bochecha, acenou cordialmente para Nick e Liz — que apenas deu de ombros — e caminhou em direção à saída do clube. Antes de sumir pelo corredor de acesso, ele olhou uma última vez para trás e encontrou os olhos de Sara.

Apenas três dias haviam se passado desde a sua volta da morte. Ele havia vencido a primeira batalha. Mas enquanto caminhava em direção ao carro de aplicativo, Grissom sentiu uma leve pontada no peito, um lembrete físico de que o relógio invisível do universo continuava sua contagem regressiva.

Trinta dias passam rápido demais quando se tem uma vida inteira para reconstruir.