Dois dias se passaram, e nada. O imbecil do Kamus continuava quieto, na dele, faltando mais que empregado ressaqueado em dia de segunda-feira. Quando ele aparecia, fazia as mesmas coisas de sempre: ficava calado no canto, fofocando com o Hexion, rabiscando no caderno ou humilhando os professores com aqueles desafios ridículos, como se alguém se importasse como se convertia uma integral no espaço de estados ou o que quer que fosse aquilo.

Mesmo assim, resolvi não me meter nisso. Uma coisa que eu sabia dele era que ele não costumava voltar atrás no que ele dizia. Então, se ele ia ferrar o Saffron, ele ia – nem que fosse na formatura.

Mas antes de isso tudo acontecer, eu consegui me meter em mais uma encrenca. Bom, na verdade, não foi exatamente uma encrenca: eu só fiz o que fazia todo dia, e o vovô resolveu enfrescar justo nesse dia.

Eu nunca fui muito de me relacionar com a família. E ela também nunca ligou muito pra mim também, então sempre estivemos quites. Por isso mesmo, quanto menos eu pudesse passar em casa, melhor. E como eles também não passavam muito tempo lá, dava na mesma se eu dormia em casa dia de semana ou não. Por isso, o melhor pra causar um pouco de noite sem arrumar problemas era sair de madrugada durantes os dias de semana e voltar antes de alguém da casa perceber que eu não tava lá. O que nem era tão difícil se você aprendia a molhar a mão das pessoas certas, como o porteiro do prédio e a empregada fuxiqueira do apartamento.

Era uma noite de quinta feira, o Kamus tinha me enrolado de novo, o babaca do professor tava mais de olho em mim do que nunca e eu não podia estar mais puto. E foi por isso mesmo que resolvi sair. Arrumei a primeira festa possível que vi, juntei meu dinheiro e peguei um táxi direto pra Office. Não era exatamente o meu lugar preferido, mas pelo menos me deixavam entrar sem a porra da identidade.

Mais uma noite pra curtir sem ter que me preocupar com nada. Que bom que eu tinha cara de mais velho, porque assim as meninas davam mais mole na hora de se apresentar. Comprei umas duas doses de tequila só pra esquentar, mesmo, e fui atrás das garotas. Acho que só na primeira hora já tinha pegado umas 6 ou 7, sei lá. Até que tava divertido.

Por um minuto eu me senti como se não tivesse mais nada no mundo. Depois da quarta ou quinta dose eu já tava começando a ficar meio louco, dava pra sentir a batida fazendo meu peito sacudir, meu estômago e o resto do corpo todo junto esquentando a cada dose, com o sal fazendo o gosto da bebida ficar mais forte. (pra quem não sabe, Tequila geralmente é servida em bares desse tipo com sal e limão. Bota-se um pouco do sal na mão, lambe, toma-se a tequila e depois chupa-se o limão.)

Não lembro nem como foi que saí de lá, ou porque. Só sei que precisava ir pra casa, porque minha cabeça tava rodando legal e tudo que era claro demais na rua me dava vontade de dar risada. Tentei lembrar quanto eu gastei, pra ter uma noção do quanto de bebida eu tomei.

O problema é que ou eu tava muito atordoado pra sentir as coisas, ou a minha carteira não tava mais no bolso da minha calça.

Puta que pariu. Merda, caralho, porra, cacete. Era só o que faltava. Agora eu tava na rua, sem dinheiro e longe de casa. E nem sabia que horas eram. Eu não tava nem conseguindo enxergar os ponteiros do relógio direito, que dirá adivinhar as horas naquilo ali.

Bom, pelo menos meu maço ainda tava lá. Sentei na calçada e comecei a fumar um cigarrinho, mas acho que o segurança não gostou muito da ideia. Começou a berrar alguma coisa sobre menor de idade na porta e juizado e eu achei melhor sair dali. Não tava a fim de bater naquele cara, porque se eu pudesse, eu teria batido muuuuito nele.

Ok, talvez eu tivesse bebido demais também.

Só sei que resolvi voltar andando pra casa. Eu não lembrava muito bem onde era, e nem como chegava lá, mas a cidade não podia ser tão grande assim, certo? Era só sair andando, uma hora ou outra eu ia cair numa rua que eu conhecia e ir andando pra casa de lá.

E andei. E haja andar. De repente a cidade era mesmo grande demais. Eu tava bem longe de qualquer coisa que remotamente lembrasse meu bairro. A rua tava deserta, a iluminação tava começando a deixar a desejar, e alguma coisa me dizia que os dois caras que saíram de dentro da terra e agora tavam me seguindo não queriam simplesmente perguntar as horas.

Mais essa agora. Eu não devia ter saído com o Bulova hoje. Perder a carteira com todo o dinheiro e os documentos, e ainda por cima ser assaltado. É, aquele não era meu dia mesmo.

A primeira coisa que tentei puxar do que sobrou da minha consciência foi que precisava ir pra algum lugar seguro ou com gente o bastante pra espantar aqueles caras. Mas eu tinha certeza de que já tava tarde o suficiente pra não ter gente bestando na rua que nem eu. E adivinha só: eu tava certo.

Nesse caso, o jeito era aplicar o plano B: correr. E foi exatamente o que eu fiz. Saí voando de lá o mais rápido que eu pude, e lógico que os caras vieram atrás. Tratei de sair entrando em tudo que era buraco, pra ver se despistava eles. O problema é que quando uma pessoa tá porre e inventa de sair correndo por um bando de rua escura em um lugar que ela não conhece, tem um risco monstruoso dela se perder ou acabar caindo numa cilada ainda maior. Adivinha de novo...

A minha cabeça tava numa vibe totalmente diferente. Eu continuava muito alto, mas a corrida fez o meu estômago virar do avesso e eu olhava pra baixo e sentia que tinha alguma coisa querendo subir minha garganta pra sair. Em frente, um muro gradeado de uma casa que fechava a rua. Atrás, quatro caras, isso porque um deles tava puxando uma faca pra me deixar com mais medo. De certa forma, até que ele tava conseguindo.

- Fica na tua, playboyzinho, que tu num tem mais pra onde corrê... vai passando o relógio e o sapatinho antes que nóis fique puto!

E lá foram os caras chegando em mim, e eu não tinha par onde correr. O muro da casa era alto demais pra pular, e a grade tinha arame farpado em cima. Bom, pelo menos não era uma cerca elétrica. Eu podia tentar brigar, mas eram quatro contra um, um deles tava meio que armado, e eu não era tão bom assim na Educação Física... na verdade, eu só não odiava tanto assim a professora Lenna porque os peitos dela pulavam quando ela andava naquela porra daquela quadra.

- Quer parar de graça, moleque? Anda logo e tira essa porra!

Por um minuto me distraí e só vi o punho vindo pra cima de mim. Como um baixinho miserável tinha força daquele jeito? A porrada dele veio direto no meu rosto, e eu bati de costa na grade. A tequila fez minha cabeça roda junto com a pancada, e eu não sabia mais o que fazer. Acho que nem me manter ali em pé eu tava conseguindo.

Que merda. Eu, porre, sem dinheiro, completamente sozinho e pronto pra ser no mínimo espancado por um monte de moleque querendo roubar minhas coisas pra comprar droga em alguma boca por aí. Ainda pensei em não sair de casa com o Reebok, mas não, eu tinha que sair com ele porque ele é mais bonito...

O cara falou mais alguma coisa, mas eu tava tão zonzo que não conseguia nem ouvir meu pensamento, e eu abri a boca e não saiu nada. Eu olhava meu braço e não sabia como tirar o relógio, não tinha certeza mais de que cor era minha roupa. Tava tudo meio embaçado. Afinal de contas, eu tinha tomado tequila ou alguém tinha posto algum tipo de cogumelo no meu copo? Porra! Sério, depois dessa, eu não bebo mais nada...

Aí eu senti alguma coisa no braço. Olhei, e vi que o cara tinha enfiado a faca no músculo, e que tava jorrando sangue. E aquele músculo era meu.

Se eu não tava sentindo nada, ou se tava tudo confuso pra mim, a dor ficou bem clara rapidinho. Sei que no minuto seguinte eu tava apoiando na grade com uma mão só, gritando simplesmente porque não sabia mais o que fazer. Outro cara veio e começou a puxar meu pé pra tentar levar a porra do tênis. Tentei chutar ele, mas com tudo aquilo junto, eu passei bem longe.

Bem nessa hora, a grade virou e eu caí pra trás. Não teve nem jeito de me preparar, senti minha cabeça batendo de novo no chão... e rodando mais um pouco. Tava tão zonzo que não deu pra entender nadinha do que o cara falou. Só sei que quando eu olhei, ele tava torcendo o braço de um de um jeito que o cara não parecia humano. Os outros tavam jogados no chão, se retorcendo. Mais alguém passou por mim, vindo de dentro da casa, e começou a fazer uns gestos pra mim. Por alguma razão ele parecia familiar...

Saffron. Eu lembrava muito bem daquela expressão dele: o formato do rosto, as linhas meio suaves, a cara de novinho demais. Só que ele tava muito puto, de um jeito que eu nunca tinha visto, e pela cara que ele tava fazendo tava berrando com a única pessoa que sobrou em pé na rua. Que ironia. De todas as pessoas, justamente ele foi me achar.

Abri a boca pra tentar falar com ele, mas grogue do jeito que eu tava, assim que eu abri a boca senti o vômito subindo. Ainda tentei levantar a mão pra tapar a boca, mas meu corpo tava muito pesado. Não teve como. E, obviamente, ele fez uma cara de nojo. Estranho. Eu nunca tinha visto ele fazer uma cara assim... será que era isso que ele pensava de mim esse tempo todo?

Aí eu apaguei de vez.

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Fechei os olhos, mas não consegui dormir. Quando abri de novo, vi alguma coisa muito clara no teto, que me deixou mais tonto do que eu já tava. Tinha alguma coisa no meu braço, mas eu não sabia o que era.

Bem, pelo menos eu tava em algum lugar macio. E vomitar me deixou muito melhor. Eu já tava até ouvindo as pessoas... será que tudo aquilo tinha sido efeito do susto?

- Pai, ele tá sangrando muito, isso daqui num tá funcionando...

- Meu filho, só cala a boca e deixa ele aí.. eu já não mandei o Shi ir lá ligar? Daqui a pouco ele volta, esse menino vai ficar bom num instante...

Eu tentava, mas não conseguia ver o Saffron. Minha cabeça não subia. Sempre que eu tentava, parecia que meu pescoço ia quebrar. E de tanto tentar, um deles viu.

- Ei ei, vá com calma. Tá tudo bem aí?

Foi aí que o cara chegou mais perto e eu percebi a vibe que eu tava. O cara não tinha absolutamente nada que fizesse ele parecer com o Goma. O rosto lembrava de longe, mas esse cara era velho, com cabelo vermelho. E ele não era formal e engomadinho que nem o Saffron. Será que era por causa dos olhos? Os olhos deles eram muito iguais. Lembro disso por causa da hora que fui fingir que tava passando mal...

- Opa, você tá ficando vermelho! Seu braço ainda tá doendo? Eu vou pegar um analgésico...

Porra, doendo? Aquilo era apelido. Acho que eu nunca tinha sentido nada assim antes. Eu tava completamente imprestável, e o buraco no meu braço era o menor dos meus problemas.

- Onde eu tô?... – foi a única coisa que eu consegui perguntar.

- Você quase foi assaltado na porta da minha casa... eu ouvi alguém gritando, fui lá fora e te vi jogado, daí eu e meu irmão te trouxemos pra dentro. Eu não sei cuidar muito bem dessas feridas e tal, mas eu já chamei uma pessoa pra te tratar.

Mesmo com o corpo pesado daquele jeito, ainda consegui ter um calafrio. Se ele tivesse chamado a ambulância, iam me levar, e iam fazer o prontuário, e iam chamar meu responsável... e aí eu tava ferrado de vez. Mas pelo menos eu tinha ficado com minhas coisas... seria mais fácil de dar uma desculpa. Podia até botar a culpa no motorista, de algum jeito bem bizarro.

Aí eu notei que tava sentindo os pés um pouco arejados demais. Fiz um esforço do caramba pra tentar olhar pra eles... e cadê meu tênis? E meu relógio? E pior ainda... por que eu tava usando uma camisa cinza que mais parecia um pijama?

Isso sim me deu vontade de vomitar. O que aquele cara tinha feito comigo?

- Deixei suas coisas ali em cima, tive que trocar sua roupa, você vomitou em si mesmo... – explicou ele, como se tivesse lido minha mente. – A farra hoje deve ter sido boa, né? Quantas você entornou pra ter chegado aqui nesse estado?

Olha, taí uma coisa que eu realmente queria saber. Só que nem deu tempo de falar isso pra ele, porque nessa hora o outro irmão dele, que me ajudou lá fora, saiu de uma porta e foi me ver jogado no sofá. E gelei ao ver que eu tava reconhecendo aquele cara, e que ele também tava manjando a minha cara.

Era o eremita da sala, Shian Demeter. Um dos caras que mais chamava a atenção (dos outros, porque eu não tava nem aí), por ser o mais alto da turma; por ter o cabelo azul, no maior estilo de quem quer chamar a atenção, e ainda assim afastar todo mundo; por ter recusado todos os pedidos pra jogar no time de basquete; por já ter dado o fora em um monte de garotas sem ter dado sequer uma justificativa (e ter agarrado outras que a gente nem acreditava); por bater em mais de 90% dos alunos da escola (exceto talvez o Kamus e o Hexion).

Ah, claro, e por ser um dos Demeter. Irmão mais novo do meu querido professor de português, pra ser mais exato.

Ok, agora eu tava fodido mesmo.

- Ei, tá melhor já? – ele falou, olhando pra mim com a cara fechada de sempre. Ele não era o mais comunicativo de todos, na verdade, corria um boato de que ele tinha uma fobia de pessoas tão grande que só estudava na Silvério Franco porque o Saffron insistiu. Mas quem podia acreditar em boatos?

Como eu não tava muito a fim de trocar uma ideia com ele, só fiz que sim com a cabeça. O ruivo mais velho continuava botando aquela porcaria fedorenta na minha cabeça.

- E aí, Shi, conseguiu telefonar?

- Uhum, daqui a pouco tão batendo aí na porta, vê se você abre. – o mais novo foi se afastando. — Eu já vou dormir. Já cumpri minha cota de interação social por hoje.

- Credo, que mau humor... – riu o ruivo. – Quem te vê falando assim pensa até que você não se divertiu espancando aqueles caras.

- Eles só tiveram o que mereciam. – o eremita já tava era saindo, tava gritando pela porta pra terminar de falar sem olhar a nossa cara. – Porra, Mi, eu avisei pra eles, não ponham a porra da cara de vocês na minha alameda de novo, minha família quer dormir em paz e esse caralho aqui não tem nada a ver com vocês. O que custava eles levarem a porra dos trouxas pra outra rua? Mas não, ah não, eles sempre vem espancar alguém aqui na frente de casa, pra mamãe ficar louca por causa do barulho e o papai ficar puto querendo chamar a polícia tamanha quatro da madruga.

O ruivo num parecia estar com cara de quem tava muito preocupado. Na verdade, acho que ele tava achando graça.

- Ah, mas veja bem, se não fosse por você seu nobre colega de sala estaria machucado agora...

- Tu falando assim até parece que eu tô feliz com isso. – ele voltou pra sala. E dessa vez, já tava de cueca, pronto pra dormir, com mais um cigarro na boca. E um cigarro que eu conhecia muito bem...

- Ei, devolve o meu maço! – porra, aquele cigarro era caro!

- Esse aqui? – ele ainda fez questão de me mostrar a caixa. – Foi mal, mas num devolvo não. Pensa bem, considere isso como um pagamento pelo favor que a gente te fez.

Eu só não levantei pra tomar aquilo de volta porque primeiro, eu não ia querer aquele cigarro todo babado com saliva de macho nem que me pagassem, e segundo, a minha cabeça ainda tava com o carrossel ligado. E os cavalinhos tavam num trololol hipersônico lá dentro. Mas no fim, eu nem precisei me mexer, porque o ruivo puxou o cigarro da boca dele e espremeu no chão.

- Ei, qual é!

- Ninguém fuma aqui dentro dessa casa. Papai deixou isso bem claro. E você não vai querer desobedecer ele, vai?

Os dois falavam aquilo de uma maneira como se um vulcão tivesse acabado de explodir e a lava fosse cair na cabeça deles a qualquer minuto. Eu tinha visto a sombra do cara antes na sala, ouvi ele e o ruivão conversando, mas não vi a hora que ele saiu nem nada da cara dele. Mas só por garantia, eu me lembrei de que, se um dia eu fosse voltar a essa casa, eu devia esquecer meu maço, de propósito.

No fim, não tinha mais nada o que fazer. O eremita foi saindo pela porta, o ruivo se ajeitou numa cadeira, e eu também resolvi mandar tudo pra merda. A essa hora, era só esperar a polícia, ambulância, o que quer que eles tenham chamado, pra me levar pra casa. Ajeitei a cabeça de novo e tirei mais um cochilinho.