Rescue Me
12 O Japonês
Notas iniciais
Sinto muito se as postagens estão ficando com um hiato muito grande entre elas... com minha rotina nova eu mal tenho tempo pra escrever T_T E confesso que esses dias tive um bloqueio tão forte que me senti jogando vôlei... Mas não se preocupem, eu não abandonei a RM o/ E se os capítulos estiverem demorando muito, sintam-se à vontade pra mandar PMs ou Tweets me cobrando :3
- Sabemos que as plantas conhecidas como briófitas são seres com morfologia bastante simples, conhecidos popularmente como "musgos" ou "hepáticas". São organismos pluricelulares, sendo que apenas os elementos reprodutivos são unicelulares, enquadrando-se no Reino Plantae, como todos os demais grupos de plantas terrestres.
Eu não podia estar mais puto. Mesmo depois de um dia inteiro, eu não conseguia parar de pensar no Saffron e no caso dele com aquele molequinho mequetrefe. O que tava acontecendo nesse colégio, afinal? Eu saio pra investigar uma coisa e de repente descubro que todo mundo é viado, e ainda por cima que meu professor tava flertando com um aluno?- Algumas espécies de briófitas podem ser resistentes tanto à imersão, em ambientes totalmente aquáticos, como a desidratação. Elas também apresentam três tipos de reprodução diferentes. Quais são eles?A frase nem saiu direito da boca do Hitori e ele já tinha levantado a mão.- Sim, Akio?- Gamética, espórica e vegetativa, sendo que no caso vegetativo ela pode ser por fragmentos, propágulos, aposporia e apogamia!- Sim, está correto. Pode se sentar. Assim, vemos que, com a evolução para Pteridófitas...Porra de moleque interesseiro. E ainda por cima era puxa-saco. Cara, QUE ÓDIO! Dava vontade de puxar uma arma e arrancar a cabeça dele ali mesmo, na sala de aula... Como ele tinha coragem de se meter com o Saffron? O que ele tava querendo? Qual era o plano dele?- ...Sven?- O que é, merda?!Ok, eu falei sem pensar. Depois é que eu fui ver que quem tava me chamando era o professor — outro que não valia nada. Eu só não falei nada que ele devesse ouvir porque eu respeito muito a Sophia, e por um golpe do destino eles tinham um caso.- Sven, se a aula não estiver do seu agrado, talvez você devesse passear um pouco do lado de fora pra esfriar a cabeça... — sugeriu Hitori, apontando a porta. — E por favor, quando voltar traga a autorização de entrada do diretor, sim?Era só o que me faltava. Respirei muito fundo e saí da merda da sala, pensando onde eu ia descansar até o final do dia. Como estava sem muitas opções, acabei indo pro jardim do lado da quadra, justamente o lugar que tava me estressando daquele jeito. Se pelo menos ontem eu não tivesse ido pra lá...Menos de dois minutos depois, eu já tava deitado lá. Hoje o dia não tava tão bonito assim, o céu tinha uma ponta de azul, mas a maior parte dele tava nublado e com um tom meio cinza. No máximo até amanhã ia cair uma tempestade digna dessa época redor ano. E pra variar, eu não tava preocupado.O pessoal que tava treinando hoje no ginásio não tinha as gatinhas de ontem, só um bando de moleques do fundamental que eu não sabia e nem queria saber de qual série eram. Dava pra ouvir perfeitamente a professora Lenna (que por sinal tinha uns peitos bem razoáveis) mandando os moleques do treino de futebol pro chuveiro. Eu como não tinha nada pra fazer resolvi mexer no meu gravador, pra ver se tinha alguma coisa interessante ali.A maioria dos registros legais de se ouvir eu já tinha transferido pro PC, então só desliguei o treco e deixei no meu bolso, por pura preguiça de pegar a mochila. Lá longe, do outro lado do ginásio, ia saindo a Lenna tagarelando com os pivetinhos que ela tava treinando antes. Enfim, paz. Com os moleques longe, eu ia ter alguns minutos de paz antes que a ruiva descesse com mais pirralhos pra treinar pênaltis. Talvez se eu conseguisse dormir antes dela voltar, ia poder ficar numa boa até o final do horário de aula. Mas nem isso eu podia fazer mais. Quando tava me dando vontade de fechar o olho, começo a escutar uma molecada gritando dentro do ginásio.- Anda, passa logo a merda do dinheiro, moleque!- Mas eu já disse...- Eu não tô ouvindo você falar, fala mais alto!- AI! Me larga, seu... AAAAAAI!Pior é que de repente eu reconheci aquela voz. E aquilo me fez dar um pulo do banco e correr lá pra dentro mais rápido que num sei o que. E pra variar, o meu palpite tava certo: lá do outro lado da quadra tava o Leon, com a roupa do treino de futebol, tentando correr de uns moleques que mais pareciam que tinham comido fermento demais no lanchinho. Dei uma corrida, o mais rápido que pude, e assim que passei dos pivetes agarrei a cintura do Leon e empurrei ele pro lado, entrando no meio da briga.Claro que os trombadinhas não tavam esperando que um moleque do Convênio viesse socorrer a vítima deles, e fizeram uma cara meio esquisita. Até parece que eu ia deixar alguém mexer com ele. - Que feio, não é assim que se brinca de pega-pega... — e ainda balancei o dedinho pra eles, só pra fazer graça. - Quem é você? Não se mete, deixa a gente em paz!Um deles foi andando um pouco na minha direção, mas claro que eu não ia simplesmente recuar pra um monte de anões de jardim.- Eu sou pai dele, seu babaca. Por que, vai encarar?- Ah, então esse que é o namoradinho do seu pai, é, Leon?Os três começaram a achar graça. Aí eu perdi a paciência de vez. Também, não precisei falar mais nada, porque só a cara azeda que fiz calou a boca deles na hora. Bati o pé no chão, fingindo que ia correr, e os três vazaram dali mais rápido que o diabo correndo de um exorcista.
- E SE MEXEREM COM ELE DE NOVO EU VOU BATER EM VOCÊS ATÉ VOCÊS FICAREM DO TAMANHO DE GENTE DO MATERNAL! — gritei, só pra garantir. Claro que não foi preciso fazer muita coisa. Assim que os moleques botaram o pé pra fora do ginásio, me virei e vi o Leon sentado no primeiro degrau da arquibancada, com uma cara bem chateada.- Valeu...- Vem cá, seu pai disse que você era bom de briga, cadê aqueles golpes de karatê que você disse que sabia?- Eu tô há um tempo sem treinar, eles me cercaram e eu não consegui reagir... — explicou ele, ainda chateado.- Seu pai não pagava as aulas de karatê pra você?- Ele teve que cortar umas coisas, ficou ruim pra ele pagar tudo, ele disse que dava pra resolver se ele vendesse o computador, mas eu não quis... Pensando bem, de uns tempos pra cá eu tinha visto muitas vezes o Saffron fazendo contas e mais contas... Era por isso então? Mas mesmo assim, tinha algo estranho... Como de uma hora pra outra ele tava tão desesperado por dinheiro se ele continuava trabalhando nos mesmos lugares, com a mesma carga horária? O assunto tava deixando o Leon meio pra baixo demais, então resolvi deixar aquilo de lado e perguntar outra coisa.- Aqueles moleques vivem pegando assim no seu pé? - De vez em quando. Eles ficam mexendo comigo, mas se for só um deles eu até consigo revidar, só que eu prefiro deixar pra lá.- Ué, por que?- Porque o papai reclama quando o Shian vai parar na coordenação por causa dessas brigas, então eu não quero que ele fique chateado comigo também...Então era isso. O Saffron era tão viado que até as criancinhas de 10 anos da sala do Leon já tinham percebido que tinha algo de errado no jeito dele. Se bem que eu nunca tinha reparado que ele dava tanta bandeira assim... Nesse caso, só tinha uma explicação.- Esses moleques tem irmãos, não tem?- Acho que tem, o que isso tem a ver?O que tinha a ver? Tudo. Os mais velhos falavam mal, e os mais novos gravavam aquilo. Era meio que um círculo vicioso...Aproveitando que a gente tava sozinho ali, sentei do lado dele. Meti a mão no bolso pra tirar um cigarro e acabei lembrando que o gravador tava lá dentro. Bem, o Leon tava sendo bem sincero, talvez prolongar o papo não fosse tão ruim assim. Deixei o gravador ligado e fui acender o cigarro.- Sabe Leon, você devia dar menos trela pra esses babacas da tua sala. Precisa parar com essa frescura de se preocupar com o que o Saffron pensa e revidar! Tem que começar a se impor desde cedo, ora essa! - Tá, mas eu já disse que não tô mais lutando! Além disso, se eu brigar fora do Dojo eu vou acabar sendo expulso.- Ué, tem isso?- Claro que tem! Quem é expulso leva uma surra de faixa de todo mundo da academia. Eu é que não quero passar por um negócio daqueles, não... Aquilo tem cara de doer pra cachorro.Dei mais uma tragada, enquanto pensava na próxima pergunta.- E a tua mãe, por que ela não paga essas coisas pra ti? Até onde eu sei ela tem dinheiro pra isso...Leon deu uma risadinha nasal que até me deu um certo medo. Ele era todo preocupado em falar bem do pai, mas com a mãe era assim?- Sven, a minha mãe num tá nem aí pro que eu faço... Era bem estranho ouvir isso da boca dele. E pela cara que ele tava fazendo, era doído falar isso também.- Achei que você gostasse dela... Pelo menos foi o que pareceu pra mim.- Eu gosto, mas isso não quer dizer nada... Sabe, ela paga o colégio, as aulas extras, essas coisas. Se eu pedir algo novo pra ela ela compra, se eu disser que gosto dela ela vai ficar feliz... Mas sei lá... Ela fica o tempo todo fora, e quando tá em casa tá sempre conversando com o marido dela ou no celular com alguém.... É meio chato você falar tudo e a pessoa só dizer que sim, que tá, como se fosse algo padrão, sabe?Por um segundo me perguntei que tipo de educação o Saffron dava pra esse menino pra ele falar coisas como "algo padrão", mas aquela não era a questão ali. E eu entendia como ele se sentia. - É por isso que você gosta mais do seu pai do que dela?- Não sei... Eu gosto dela também, sabe? Só que... Eu não entendo como o papai consegue fazer tanta coisa e ainda assim a gente passa mais tempo junto do que a mamãe, que volta cedo do trabalho e nunca tem tempo pra mim... Ele abaixou um pouco a cabeça e se escorou em mim. Eu, meio sem graça e sem opção, acabei passando a mão na cabeça dele.- Quando o papai Tá ocupado corrigindo as coisas do colégio, ele Pede emprestado o DVD do cara que mora no apartamento de cima e aluga algum filme que eu gosto, aí ele senta do meu lado e diz "Ah, vou assistir isso só porque você quer ver!", e fica sentado do meu lado corrigindo as coisas, mas eu sei que ele odeia ver TV quando tá trabalhando sério, e ele faz isso pra gente não ter que ficar muito longe... Me diz, Sven, porque a mamãe não faz esse tipo de coisa também? Eu não tinha o que responder. Fiquei calado, fumando só pra não ter que responder nada, enquanto ele ficava lá, mostrando pela primeira vez que não era uma criança tão sabe-tudo assim. Esse era o tipo de coisa que o Saffron nunca ia conseguir ensinar pra ele. Talvez porque ele mesmo não tinha uma resposta pra isso.Depois de um bom tempo, ele se acalmou e levantou pra correr um pouco mais atrás da bola. Parece que ele tinha se animado mais. Até arriscou fazer um gol. - Ô Sven, você não tem aula mais hoje?- Ah.... Não — respondi na hora.- Eu já tenho que ir, você não vai ficar chateado de ficar aí sozinho?- Não, relaxa... — de repente, algo me fez pensar, e olhei pro relógio. — Mas olha só, num tá cedo demais pra você ir procurar seu pai?- Ah, não vou atrás dele não! — ele falou, sorrindo. — Hoje vou pra casa do Yuki, o papai tava querendo conversar com o Akio, então eu pedi pra ele pra ir pra casa do Yuki e ele deixou, daí a tia Lenna vai me deixar lá em casa mais tarde...Ah, não, vai tomar no cu. Sempre ele. SEMPRE ELE! O que mais esse moleque ia fazer pra atrapalhar minha vida? Mas se ele tava achando que eu ia simplesmente deixar isso barato, tava muito enganado!- Ei, Sven, pra onde você vai?- Pegar uma carona! — disse, já correndo pra entrada. — A gente se vê mais tarde!Enquanto eu tentava sair voando pro estacionamento, ainda deu pra ouvir ele gritando:- Mas como assim, mais tarde?!----------Foi a cena mais bizarra que eu já vi na minha vida.Um olhava pra cara do outro, sem saber o que fazer. Ele tava todo encolhido, parece até esposa que vai conhecer a sogra pela primeira vez. Ou talvez fosse uma coisa dos japoneses mesmo, eu nunca entendi o comportamento deles direito, muito calados como se qualquer coisa fosse atacar eles de repente.Apesar de ter uma mesa na nossa frente, e de ter biscoito e Soda Limonada (era o refrigerante preferido do Saffron, nunca tinha coca mas sempre tinha Soda), ninguém tinha coragem sequer de tocar na comida. Eu encarava ele, ele me encarava, e a gente continuava naquele clima estranho, enquanto eu ria por dentro de ter provocado aquilo.Eram oito da noite, o desgraçado do Akio tava morrendo de vergonha na minha frente, e o Saffron tava trancado lá na cozinha, fazendo alguma coisa decente pra gente jantar. Eu não podia estar me sentindo mais vitorioso. Se eu tinha uma oportunidade pra separar esses dois, era essa.Por essa você não esperava, seu filho da puta magrelo e sem sal, pensei enquanto encarava ele. Achou que ia ficar numa boa com ele, mas não eu tô aqui, e comigo aqui eu tenho certeza que você não vai ter coragem de falar dos seus draminhas pessoais sem graça com ele, né?- Não estão entediados nem nada, né? — o Saffron saiu tão de repente da cozinha que me deu até um susto. — A TV tá ligada, se quiserem assistir alguma coisa, podem ir lá, não precisam ficar esperando o jantar que nem duas varetas pregadas no chão...- N-não se preocupe, estou bem aqui... — o Akio falu isso sorrindo, meio forçado pra disfarçar que tava morrendo de vontade de sair correndo. — Por favor, fique à vontade...- Ô Sasa, me faz um favor, aproveita que tu tá indo pra cozinha e me traz um gelo, esse refri tá quente e sem graça...Aquilo era um absurdo. Quem, em plena adolescência, fala "estou"? Aquele garoto não existia, sério, não era possível. Só pela gracinha, também resolvi apelar. E não fiz questão nem de estender o copo. Pra ele, diga-se de passagem: empurrei o copo na mesa na direção dele, que nem bartender mandando cerveja pelo balcão.
Claro que o Akio ficou escandalizado quando me viu agindo daquele jeito na casa dos outros, mas eu não tava nem aí. Por mim, ele podia até ser filho do Papa, e eu ia tratar o Saff do mesmo jeito. Não, pera, acho que se ele fosse filho do Papa ia ser bem menos ruim pra ele do que ele sendo quem ele era, o amante do Saffron. E por falar nisso, o próprio Saffron, claro, educadinho do jeito que era, estranhou bastante aquilo.- Vem cá, tá achando que eu sou garçom, é? — ele falou, fazendo uma cara bem irritadinha. — Além disso, você vive aqui quase o tempo todo, você já tem liberdade o suficiente pra ir lá se servir.Aquilo surtiu um efeito bem melhor do que o esperado. O japinha pau de virar tripa ficou mais sem jeito do que ele já tava, e fez uma cara amarrada de "droga, eu não devia ter vindo aqui". Sucesso total. E como o Saffron tava quase me jogando o copo, tive que levantar pra ir me servir. - Ah, e tem mais uma coisa, — continuou ele. — Volta a me chamar de Sasa que eu te jogo daqui da sacada usando só dois dedos. Rindo, eu entrei na cozinha, enquanto o sabor da vitória enchia minha boca. E quando eu achava que a coisa não podia melhorar, veio mais surpresa pela frente.O Saffron terminou de fazer o jantar e foi logo servindo a gente. O prato do dia era sopa de carne com brócolis, uma coisa que eu sabia que o Leon adorava e que só podia ter sido feita pensando nele. O Saffron também tinha um gosto especial por essas comidas de coelho, era a única coisa que ele realmente comia em uma dosagem humana. Infantil, mas humana. Eu já falei que o Saffron come terrivelmente mal? Pois é.Sentamos os três pra jantar, e o Akio mal conseguia tocar na comida de tão sem jeito que tava. Acho que ele comeu só pra fazer a vontade do dono da casa, porque ele não tava com fome, não. Só pra garantir, eu continuava encarando ele esquisito de vez em quando, pro caso dele sem querer recuperar um pouco da autoconfiança dele.Mas ainda tinha mais coisa por vir. O Saffron ficava puxando assuntos corriqueiros, tipo aula e programas de TV e umas bandas muito estranhas que ele e o Akio curtiam, mas nada servia pra amenizar o clima. O moleque tava travado demais pra tentar relaxar. Então, só pra dar o golpe de misericórdia, resolvi apelar.- Vem cá, Akio, afinal de contas o que você veio fazer aqui? — perguntei, com uma carinha de quem não quer nada. — pegar aula particular não foi, as tuas notas em português são boas...E ele travou de vez. Meu, eu só não morri de rir na hora mesmo porque o Saffron ia estranhar. Ele olhou ao redor, como se a televisão ou o relógio de parede fossem ajuda ele, e falou baixinho:- Eu só... Só queria conversar...E daí, do nada ele levantou, mais duro do que pedra, e quase derramou a sopa na mesa. - Eu... Eu acho... Que já tá meio tarde, preciso ir...O Saffron olhou pra ele, meio afoito, mas sem saber o que dizer pra ele ficar.- Akio... N-não precisa ter pressa, se quiser ficar mais um pouco... Você nem comeu nada direito!- Heh, olha quem fala...- Não, eu.... Eu preciso mesmo ir...- Akio, eu te dou uma carona, não precisa ter pressa, eu só vou...Mas ele já tinha batido o pé e virado na direção da porta. Eu tava mais feliz que mendigo depois de ganhar na mega-sena, mas continuava com a mesma carinha de antes. Eu tinha conseguido me livrar dele, de repente até de vez!Mas uma coisa me fez cancelar a comemoração. Na hora que ele abriu a porta pra ir embora, ele deu de cara com um molequinho loiro, vestido com a roupa do futebol e com a chave da porta na mão.- Ahn, Leon?!Ele fez uma cara de espanto como se o Leon não visitasse há meses. Eu? Bem, eu tava me sentindo como se de repente alguém me dissesse que meu bilhete premiado foi jogado no incinerador.- Aki! — ele fez uma cara de felicidade tão absurda que me deu mais raiva ainda. Em seguida, deu um pulo e se jogou na cintura dele pra dar um abraço. — Que bom te ver aqui, eu pensei que você fosse embora mais cedo e que eu não ia te ver!Mas o pior pra mim, é que a expressão do Akio mudou. Total. Ele olhava pro Leon de um jeito super carinhoso, como se ele fosse o menino mais lindo e fofo do mundo. Bem, ele até podia ser, eu admito que o moleque é bem legal. Mas na hora quase morri de raiva. Por que diabos aquele porrinha tinha que ser tão oferecido? Por que ele não podia vomitar em cima do Akio e chamar ele de bosta?- Chegou bem na hora, filho. — ele foi lá tomar a benção do pai dele, e eu fiquei olhando com cara de tacho. — O Akio tava jantando com a gente... Fiz aquela sopa que você gosta, viu?- Aeee! Você não esqueceu! — ele falou isso todo contente, como se tivesse acabado de ganhar uma bicicleta. Ou, no caso dele, uma coleção completa de carrinhos Hot Wheels. — Valeu, pai...Aquilo tava ficando bem ruim. O Leon trouxe de volta o clima de cumplicidade que todo mundo sentia quando tava na casa do Saffron, e isso tava arruinando meus planos de expulsar o Akio por desconforto pessoal. E pra completar, ele ainda arrematou:- Ué, você veio pra cá também, Sven? Achei que fosse pra outro lugar, você saiu desesperado depois que eu falei que o Akio ia conversar com o papai, daí eu achei que você fosse pra casa de motorista...Foi a gota d'água. O Saffron sacou na hora o que eu tava fazendo, e me olhou com uma cara de ódio indescritível. Era tanta raiva que nem combinava com ele. Enquanto isso, o Leon empurrava o Akio pra se sentar de novo, comer o jantar com ele, e ele foi correndo na cozinha pegar um prato pra comer com todo mundo.A vantagem disso é que o clima com o Leon ali ficou tão leve que todo mundo tava conversando sobre tudo. Menos, eu, claro, que tava puto com o jeito que tudo terminou. Além disso, o Saffron de vez em quando me olhava, com uma expressão que queria claramente dizer "deixa só meu filho dormir que você vai ver uma coisa".Mas aí...- Ah, pai, sabe que o Sven me ajudou pra caramba hoje?Saffron fez uma cara bem estranha, Akio idem — se bem que, em se tratando de mim, eu não culpo a eles por terem pensado que era mentira ou algum tipo de engano infantil.- Hmm, sério? E como foi isso?- Aqueles moleques da B que ficam me enchendo o saco... A tia Lenna foi subir, eles vieram pra cima de mim pra tentar me bater, aí o Sven não deixou!Saffron fez outra expressão meio sinistra. Comecei a me perguntar se eu não tinha entrado por engano em um enterro.- Agora você deu pra bater em moleques de 10 anos, é?- Eu não bati! Eu só fiz eles se afastarem do Leon! Além disso, quem vê aqueles moleques pensa que eles são filhotes de baleia, só pode, aquilo não tem tamanho de uma criança normal de 10 anos, tipo o teu filho... - É verdade pai, ele botou moral na galera... Se não fosse por ele eu ia voltar todo quebrado pra casa!Isso fez o Saffron esquecer um pouco a carranca e o sermão que tava na ponta da língua dele, com meu nome escrito. Isso ia me dar um pouco mais de tempo.Eu já disse que amo aquele moleque?- Deixa isso pra lá, Saff, o importante é que o Leon está bem... – o Akio começou a passar a mão na cabeça dele. E o pior, o Saff realmente levou a sério o conselho. Nossa, que vontade de quebrar a cara dele... aliás, vontade de quebrar a cara dos dois. Eles não combinavam. Era nojento. Como é que eles tinham ido parar juntos, afinal? O jeito deles era completamente diferente, eles não tinham afinidade, não tinha nenhum motivo racional pra eles estarem juntos! Até eu combinava melhor com o Saffron do que ele!... epa. Como é que é?- AH! – o Leon de repente deu um berro e bateu na mesa, e no susto eu acabei pulando da mesa também. – Sven, eu tenho uma coisa muito legal pra te mostrar! - Coisa... legal? – aquilo não era bom. Seja lá o que fosse, nunca dava pra confiar em um moleque de dez anos.- É! Anda, você vai gostar, eu tenho certeza! Anda, vem logo, vem logo, vem logo!!!Pois ele nem esperou pra eu dizer alguma coisa. Ele levantou e saiu me puxando pelo braço. Eu, como não tinha muita escolha, só deixei ele ir me levando até o quarto todo bagunçado do pai dele que era mais bagunçado ainda.Aquele quarto já era uma zona de guerra por si só, mas a coisa hoje tava bem feia. Tinha mala e roupa pelo chão, e o Leon ainda completou jogando a mochila dele de aula por lá. A primeira coisa que ele fez foi pegar a guitarra e tirar ela do estojo. - Foi muito legal você ter ido me ajudar lá no ginásio – ele comentou meio de leve, enquanto dava uma afinada nas cordas. Pra um menino de 10 anos, ele tinha uma obsessão meio estranha em afinar a guitarra dele. Das duas uma, ou ele era fanático por um som perfeito, ou o instrumento que o pai dele comprou pra ele era usado e as cordas afrouxavam muito facilmente.- Heh, você ficou tão feliz assim? — como não tinha lugar pra sentar, e ele tava na beirada da cama, eu acabei deitando meio do lado dele.- Ah, sei lá... eu não conheço muita gente que faria isso. Se o papai ou o tio Shian tivessem lá, tudo bem, mas aposto que se fosse algum outro aluno da sua sala eles não iam nem ligar...- Você não gosta do pessoal da minha turma, é?- Não muito... todo mundo tem cara de ser mó chatão. Eu subo de vez em quando, quando tem alguma coisa pra resolver com o papai. Todo mundo lá é chato e fica enchendo o saco dele.- Até o Akio?- Ah, não... o Akio é legal. Ele não fica sendo chato com o papai.Senti que isso era uma indireta, mas depois lembrei que o Leon não tava na hora que eu tava perturbando o Saffron. E mais a mais, quando ele começou a tocar, eu reconheci na hora que era Nickelback – ele não ia tocar aquilo se tivesse com raiva de mim. Conversamos alguns dias antes sobre bandas favoritas, e eu falei que uma das que eu gostava era Nickelback. Na verdade, eu acho que a Pink só não levava meu pódio de preferência porque ela não tinha peitos. Aquele silicone nojento dela não me engana.- Você tirou essa música naquele dia, foi?- Foi, você disse que gostava de “How You Remind Me”... – ele abriu um sorrisão, e o sorriso dele me lembrava o do Saffron. Era engraçado, eles tinham um sorriso de família que fazia qualquer um ficar meio feliz.- Tirou sozinho?- Ah... não, eu pedi pra minha professora me ajudar a tirar... – ele deu uma risadinha meio sem jeito, e eu acabei rindo também, de novo. – Mas valeu a pena, ela é legal...A gente ficou um bom tempo meio quietos, enquanto ele tocava. Dessa vez deixei a vergonha de lado e cantei com ele um pouquinho. Quando a música terminou, o Leon ficou me olhando, surpreso.- Você canta bem, Sven. – ele disse, rindo de novo- Digamos que é uma coisa que eu gosto... – o comentário dele me deixou mais relaxado. Acomodei mais a cabeça no travesseiro. O Saffron podia ter todos os defeitos do mundo, mas a cama dele era uma beleza.- Você também teve aula de canto?- Ah, por aí... - o Akio também canta direitinho, mas ele gosta mais de livros do que de música... – isso me tirou o sono de novo. Por que sempre que tava tudo bem o Akio dava um jeito de se meter? – E a voz dele é meio aguda... fica um pouco estranha na hora de cantar, sempre dá a impressão de que ele tá fazendo falsete.Por mais despretensioso que tivesse sido o comentário do moleque, eu fiquei com raiva de ter ouvido falar naquele cachorrinho de olho puxado de novo. Minha primeira providência ao chegar em casa ia ser arquitetar um jeito de me livrar dele. Leon começou a tocar outra música, acho que era Our Lives do... ah... como era o nome daquela banda mesmo? The Calling? Enfim, ele tocou aquela lá, e eu levantei da cama.- Ué, onde você vai? – ele até parou de tocar quando eu levantei.- Banheiro.Antes que ele perguntasse alguma outra coisa, eu dei no pé, e nem sequer bati a porta pra não atrapalhar ainda mais o ensaio dele. Nem eu sei porque resolvi sair, eu só queria um minuto pra botar meus pensamentos em ordem. Mesmo assim, a música tava ecoando pelo corredor, numa baladinha meio enjoada. Pessoalmente, já tinha ouvido músicas melhores deles.Não era uma música que o Leon tava acostumado a tocar, então ele de vez em quando errava a nota, parava, e retomava. Ou então ele ainda tava ajeitando a afinação da guitarra. Mas eu tinha certeza absoluta de que, por mais confuso que ele tivesse, não tava numa dúvida tão grande quanto a minha.Por que eu me irritava tanto com o Saffron? Por que ver ele com o Akio me subia uma raiva daquelas? Por que de uns tempos pra cá eu tava tão destinado a pisar no Akio até ver ele se misturar com a poeira do chão, quando passei meses querendo acabar com a raça do Saffron?
Na verdade, o problema todo era o Saffron. Ele me tratava de um jeito tão casual que eu quase me sentia parte da família dele. Ele fazia de tudo pra me deixar confortável, coisas que eu nunca vi ninguém fazendo. E em troca, eu tava distribuindo informações pessoais dele por aí, pensando em acabar com toda a carreira profissional dele que já não era lá grande coisa.O que eu tava fazendo ali?Talvez fosse hora de ir embora. Como minha mochila tava na sala, fui andando pra fora do apartamento. Dane-se se o Leon tava me esperando lá no quarto. Meu humor não estava pra papo, mesmo que fosse ele.E falando em humor, o meu ainda ia ficar bem pior. Quando botei o pé na sala e me virei, vi o Saffron abraçando o Akio. Os dois nem repararam em mim, e continuaram no maior chamego, inclusive com direito a beijinho na bochecha daquele Terrier japonês.- Bem... vou tentar falar com meu pai essa semana. Você vai me ajudar, não vai, Saff?- Não se preocupe... se você disser a ele como se sente, ele vai entender. Vai ser muito difícil ele aceitar, nenhum pai aceitaria facilmente assim, mas o importante é você ficar de bem com ele.- Eu... vou tentar. Obrigada de novo, Saffron.Como eu ainda tava mais invisível que o Snake do Metal Gear em modo Stealth, entrei no corredor de novo, fui até a porta do escritório e dei uma santa porrada na porta. Depois, fui andando com passos firmes pra sala de novo, e quando voltei eles já tavam indo pra porta depressinha. Só assim pra eu me livrar daquele moleque.Eles ainda se despediram de um jeito bem basicão, como se eu não soubesse de nada, o Saffron deu tchauzinho, e bateu a porta. Eu dei a volta e fui pegar minha mochila que tava atrás da mesa, perto da parede, como se ele fosse parte do cenário.- Já vai?Acho que ele perguntou aquilo só pra se entrosar. Era a coisa mais óbvia do mundo, e ainda assim, ele tinha a coragem de abrir a boca pra falar aquilo.- Não, só to vendo se os ratos não roeram minha mochila nesse meio tempo que deixei ela no chão.Terminei de me ajeitar, e ele foi se aproximando. O Leon, lá no quarto, trocou de música e passou a tocar Still Loving You, do Scorpions. Aquilo era a prova de que o mundo tava acabando. Como um moleque daquele tamanho conseguia tocar Scorpions? Aquilo nem era do tempo dele!Aquilo era, como dizem por aí, uma puta falta de sacanagem. O que aquele moleque tava tentando fazer, criar algum tipo de clima romântico?- Você não cansa de ficar falando essas besteiras? – ele foi dando a volta na mesa enquanto recolhia a louça suja. – Sabe, se você fosse mais gentil coma s pessoas, talvez as coisas dessem mais certo pra você.- Até parece que eu tô preocupado com isso... Eu dei de ombros, mas ele sorriu. O jeito dele de agir era como se ele soubesse algo que eu não sabia. Aquilo não parecia bom, então tratei de ir separando a chave pra ir embora.- Bom, tô indo.- Aconteceu alguma coisa? Você parece que ficou com raiva de repente...- Nada. – resmunguei e fui andando pra porta.- Tem certeza?- Tenho. Até mais.- Você avisou pro Leon que tava indo embora?- TCHAU, Saffron! – enfatizei, gritando na cara dele. – Até...Mas nessa hora, ele me puxou e ficou me olhando. Parando pra pensar, eu nunca tinha visto ele com uma expressão daquelas. E vai ver por isso eu não fazia ideia do que ele tava pensando. Só que... sei lá, eu não queria mais ir embora... a primeira coisa que pensei foi em aprender um jeito de provocar aquela expressão nele. - Que foi, meu cabelo tá fedendo ou o que? – falei, pra ver se ele me soltava de novo. Ele continuava no mundinho dele, com uma cara de quem tava decidindo se ia aprontar alguma coisa ou não. Estranho... geralmente quem aprontava ali era eu.- Você sempre tem que soltar algum comentário sarcástico... isso é coisa da sua programação ou dá pra desligar? – ele começou a me girar, como se estivesse procurando um painel de controle.Eu tentei puxar o braço de novo, mas ele não largou. Aquilo tava começando a me irritar. Desde quando ele tinha resolvido ficar brincando comigo? - Porra, me larga!- Ei, agora que você falou, seu cabelo tá com um cheiro esquisito, mesmo... – ele chegou mais perto. Aquilo já tava me emputecendo. – Isso é cheiro de queijo?Dei mais um puxão, bem firme, e dessa vez consegui puxar o braço. Mas só de raiva, ele agarrou o meu braço de novo, e eu não tive tempo de reagir. Foi um empurrão tão forte que eu senti a minha cabeça batendo na parede. O lado bom da coisa era que ele tinha soltado meu braço. O lado ruim é que ele tava me abraçando, com os braços trançados na minha costa de um jeito que me deu até uma certa angústia.Por um minuto eu vacilei. O que tava pegando entre ele e o Akio que tava deixando ele tão nervoso assim? Ele não era do tipo de cara que fraquejava assim na frente de qualquer um, especialmente de um aluno mal-educado que tava querendo achar as melhores maneiras possíveis de ferrar a vida dele. De repente mil coisas passaram pela minha cabeça. Será que tinha algo a ver com o Leon? Será que o Akio tava sacaneando ele? Não, pera, a Sophia tinha falado de uma audiência... mas quando tinha sido isso? Quando ia ser?Eu não lembrava mais há quanto tempo frequentava a casa dele, mas tinha percebido finalmente uma coisa importante: eu era o único que tinha tanto acesso assim à vida dele, e ainda assim não sabia nada dele. Ele era um pouco mais baixo que eu, então do jeito que estávamos, eu me sentia quase na obrigação de acolher ele.Foi quando eu tava colocando a mão na cabeça dele que ele disparou.- Se era isso que você queria, não precisava ter ficado provocando o Akio pra chamar a atenção...E mesmo com nós dois ali, sozinhos, ele insistia em falar do Akio. Sempre ele. Bom, eu avisei que tudo na minha vida dava merda, não avisei? Aí, só pra completar, eu meti um soco nele.
Notas finais
E assim a história vai entrando nos capítulos mais sombrios... A partir daqui, a narrativa vai ganhando mais sangue e violência, então se você ainda não saiu correndo essa é sua última chance XDDDDD
Queria agradecer as reviews que ganhei, isso realmente me surpreendeu o_o E de novo, eu não vou abandonar a RM. Prometo não demorar muito com as próximas atualizações x_x
Queria agradecer as reviews que ganhei, isso realmente me surpreendeu o_o E de novo, eu não vou abandonar a RM. Prometo não demorar muito com as próximas atualizações x_x
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