Rescue Me

18 A audiência


Notas iniciais
02:27 da manhã, e eu aqui escrevendo. Estão satisfeitos? Espero que sim. E só pra constar, eu tive que trabalhar na segunda do feriado...
Uma coisa, o Leon toca uma música durante esse capítulo. Quando a hora for oportuna, ouçam isso aqui: http://www.youtube.com/watch?v=qqJLQXyWmIw
Não é exatamente o que eu imaginei, mas foi o cover mais aproximado que eu consegui.
Queria estender os agradecimentos de sempre a três pessoas: ao Kerd que me deu forças pra escrever esse capítulo (por mais que ele não saiba disso), à Hamano Chiaki que ficou gritando "ESCREVAAAAAA" no msn quando eu tava sem ideias, e à Grell e à Alois do twitter @Fujoshi_BR que além de terem gostado da história andam divulgando por aí.
Acho que é só... obrigado pro estarem acompanhando! Esse capítulo teve um processo bem engraçado, porque eu tive ideias boas, mas todas quebradas e sem relação... foi difícil juntar tudo, mas acho que ficou até bom no final.

Do nada, o silêncio vira um chiado, que vai virando um bate-papo sem fim na sala da audiência. Cada uma das criaturas daquela sala agora olha pra mim, e se não olha, olha pro lado pra falar de mim com a pessoa mais próxima. E bem devagar, o senso de realidade vai voltando pra mim, e percebo o que acabei de fazer.

- Ah, não... isso não tá certo...

Aparentemente ainda não tenho problema nenhum. E pelo menos o advogado tá ali, então não deve ser tão ruim assim. Ele me olha de um jeito ansioso, mas ao mesmo tempo confiante. Vai entender.

- Não, pera lá...

Bem, acho que chegou a hora de dar uma olhada na situação.

Confesso que imaginei a sala exatamente como qualquer um imaginaria um tribunal – aquela coisa típica de filme americano, com os bancos e a bancada do júri e uma plateia de 30 pessoas. Mas a realidade tá bem longe disso, e isso até me deixa feliz, acho. Pra começar, a sala nem é grande. E só tem duas mesas, uma na horizontal onde fica o juiz e mais um escrivão, eu acho, e outra vertical, onde de um lado tá a defesa e do outro a acusação.

- Senhor?...

- Pelo amor de Deus, isso deve ser um sonho... Isso, um sonho... anda, Saffron, acorda, você tem que dar aula....

Ah, e o Saffron tá tendo uma crise. Bom, eu não o culpo, eu também teria se me visse depois de ferrar minha vida e... ah, deixa pra lá. Como ele tá com cara de quem vai se enforcar com as próprias tripas, resolvo deixar ele um pouco de lado. Não conheço muita gente dali, na verdade acho que só conheço o Saffron mesmo. E o Leon não tá em parte alguma. Que diabo de audiência familiar é essa se o assunto da audiência nem tá ali?

E então eu percebo ela. A vadia. Sentada ali na cadeira, com aquele ar de mesquinha que tá apostando em quanto tempo o Saff leva pra cair duro no chão. Não dá pra negar que ela é bonita – sempre achei isso, desde quando vi a cara dela no álbum de fotos – e olhando assim na real a gente vê que é verdade mesmo. Rosto lisinho sem uma ruguinha sequer, narizinho arrebitado, cabelo loiro com mechas douradas (já comi mulheres o bastante pra entender o que elas fazem no cabelo) e um megahair com as pontas enroladas digno de funkeira. Não, pera, funkeira usa o cabelo liso.

Sem dúvida, era a Rafaela. Tá certo que nas fotos do casamento ela tinha uma carinha de Lolita que tava aprendendo o que era sexo e agora tá mais parecendo a Bruna Surfistinha, mas era ela sim, sem sombra de dúvida. Do lado, tava sentado um cara alto, fortão, daqueles que malha o bíceps pra compensar o vácuo cerebral.

Um professor viado tendo um ataque de pelanca, uma vadia falsificada com peitos maiores que um balão de doce de aniversário de criança, e um orangotango que pra ficar perfeito só faltava meter o dedo no cu e cheirar. É, tô vendo que esse julgamento vai ser de alto nível.

E por falar em julgamento, o meu parece que vai começar. A juíza, que por sinal dava um bom caldo mesmo sendo cinquentona, vira pra mim e começa a falar, com uma cara bem irritada.

- Então, senhores, quem de vocês vai começar a me explicar o que tá acontecendo aqui?

Olho ao redor, tentando me orientar naquela zona. A única informação relevante que tenho até agora é de que ninguém tá feliz em me ver ali, e não acho que isso vá mudar tão cedo, então é melhor eu começar a pensar em algo decente pra fazer, e rápido. Daí eu viro pro lado, e vejo o homem de terno sorrindo pra mim.

- Meritíssimo, permita-me explicar – ele levanta a mão, pedindo um pouco de atenção dos presentes, enquanto um guarda tenta dar água pro Saffron. – Esse rapaz se chama Sven Anselm, ele é um dos responsáveis por um fato marcante que aconteceu na vida do jovem Leon, e eu o convidei pra vir aqui para dar seu testemunho.

E bem na hora que o Saffron tava começando a se acalmar, ele engasga e cospe a água toda em cima da mesa. A juíza não gostou nadinha disso. Nem o guarda.

- Ah, que bom, meus parabéns... – diz a juíza, fazendo uma cara séria. — E porque você acha que eu vou ouvir um moleque baderneiro e esfarrapado só porque ele foi amiguinho do garoto do caso?

- Bom... – essa é minha vez de agir. – Primeiro, porque eu não sou um amiguinho qualquer, eu convivi com ele, e sei mais coisa dele do que muita gente que tá aqui nessa sala. Segundo, porque eu tenho como provar tudo que digo. – mostro o pendrive com os arquivos de áudio. – E terceiro, porque meu nome tá nos autos e você não vai poder me impedir.

Bom, a parte dos autos eu não sabia se era verdade ou não, mas eu preferi acreditar no que o Azhi falou. A mulher olhou as listas, fez uma cara de desagrado, e depois acenou com a cabeça.

- Está certo. Sente-se.

Foi o suficiente pro Saffron entrar em parafuso de novo.

- Peraí, ele vai DEPOR?! – grita ele, já sem a compostura. – É assim então, ele chega sem mais nem menos e vai poder depor no meu caso?!

- Senhor Saffron, se ele está nos autos, ele vai depor! — responde a juíza, também sem compostura nenhuma. Ela mais parecia alguém que tá rezando pra isso acabar logo antes que ela perca a hora na manicure. – Ou por acaso está com medo do que ele possa dizer contra o senhor?

Obviamente ele não tem argumento contra isso, então ele senta, calado, com uma expressão de derrota estampada na cara. A juíza aponta uma cadeira pra mim mais ou menos no meio da mesa dela, entre ela e uma escrivã, e eu vou me encaminhando pra lá. Hora do show começar.

Daí eu viro de relance pra mesa, e vejo uma pessoa se aproximar do Saff. E o mais incrível, idêntico a ele. O mesmo cabelo loiro, os mesmos olhos clarinhos, tudo. Ok, umas ruguinhas a mais, ar de mais idade, mas ainda assim... se a genética for generosa como foi com o pai, vou ficar muito feliz de ver o professor envelhecer. Heh.

Isso, claro, se um dia ele me perdoar.

Ele deitou a cabeça na mesa de um jeito desolado e agora tá olhando pro vazio, como se tivesse acabado de descobrir que vai morrer em poucas horas. Resolvo não olhar mais tanto pra cara dele, isso tá começando a me deixar nervoso de novo. A única coisa que eu preciso mesmo pensar é em como vou convencer essa juíza conservadaça e ainda assim mal-amada de que o melhor pro Leon é não ficar com a mãe.

E falando em mãe, viro sem querer na direção da Rafaela – e ela tá sorrindo. Não o sorriso de alguém que tá se divertido (até porque se ela tivesse se divertindo ali ia ser no mínimo estranho), e sim aquele risinho de deboche, como quem diz “Eu já ganhei esse caso, seu merda”. Lá vai meu sangue ferver de novo.

Muito bem, vadia, você pediu.

- Então, er... Sven, é isso? – e falando em vadia, essa juíza deve ter entrado umas 3 vezes na fila da burrice. – Por que não começa nos falando como conheceu a família em questão?

- Família? – dou risada. – Se isso for família, eu não quero ver o que é o divórcio...

A reação foi instantânea. Em um instante a sala toda volta a me olhar feio. Acho que até a escrivã ia me olhar torto se pudesse.

E sabe o que é mais legal? Tô pouco me fodendo pra eles.

- Ok, ok, vou tentar ser objetivo... a Rafaela eu nunca conheci, não pessoalmente, tô vendo ela pela primeira vez aqui. Já o Saffron... ah, esse já conheço há um tempão. Ele era meu professor no colégio.

- Colégio?

- É, lá no Silvério. Foi lá que eu conheci o Leon também. Moleque legal, ele. Aliás, eu acho que ele só não é mais legal por causa dessa gente mentalmente desestabilizada que cuida dele.

O clima vai começando a ficar pesado, e a minha diversão só vai aumentando. Olho de canto de olho, e vejo o Saffron travando na cadeira. O único que parece que não tá preocupado é o pai dele, que tá sentado do lado, que só me olha como se tivesse tudo sob controle.

- Certo, e por que tem tanta certeza assim de que o ambiente em que ele vive é ruim? Você viu ou ouviu alguma coisa dele?

Daí eu começo a dar risada.

- Essa foi boa, hein, dona? Se eu ouvi? Eu tava lá. Fiquei um tempo na casa do Saffron, Acha que eu não sei como ele trata o menino?

- Certo, continue.

- Fiquei acho que uns meses convivendo com eles. Eu vi cada passo que eles davam dentro de casa. Vi tudo que o Saffron viva falando pro Leon. Incrível, sabe? Acho que vocês só acreditariam se tivessem lá, eu mesmo só acredito por causa disso. Por sinal, ele explicou como ele ganhou aquela cicatriz que ele tem no cotovelo?

A juíza tá começando a ficar tensa também. O Saffron, então, parece que vai escorrer pelo chão a qualquer momento. No bom sentido. Se é que tem um bom sentido nisso. Ok, o sentido menos ruim.

- Isso tudo é muito bonito e comovente – diz o homem de terno – mas você precisa provar o que diz...

- Ah, eu sei disso. Mesmo porque, eu disse que vocês não acreditariam nas coisas que eu vi. Aí eu tomei a liberdade de gravar umas coisas que ocorreram e colocar aqui.

Na hora que eu levantei o pen drive e mostrei, a sala inteira parou. Meu, como é bom ter o poder – literalmente – na sua mão. Fora que o Saff tá começando a entrar em pânico de novo. Até levantou a cabeça da mesa...

Uma das assistentes pega o pen drive da minha mão e leva até um computador pra acessar os arquivos. Tem quase uns 40 arquivos de áudio ali. Levanto da mesa e vou até o pc.

- Posso ir colocando os arquivos pra rodar na ordem que eu quiser?

A juíza deu de ombros. Beleza.

- Bom, eu tenho muita coisa pra falar, mas como todo mundo tá com pressa, eu vou tentar ser mais direto. – digo, dando play em um dos arquivos. – Espero que dê pra todo mundo ouvir...

E aí, em meio a barulho e chiados, a sala toda vai se calando pra ouvir a voz que começa a sair do alto-falante.

- Sven, a minha mãe num tá nem aí pro que eu faço...

Silêncio. Com certeza não era aquilo que a plateia tava esperando. Até o Saffron tá olhando a caixa de som, surpreso. A cara da vadia, então...

- Achei que você gostasse dela... Pelo menos foi o que pareceu pra mim.

- Eu gosto, mas isso não quer dizer nada... Sabe, ela paga o colégio, as aulas extras, essas coisas. Se eu pedir algo novo pra ela ela compra, se eu disser que gosto dela ela vai ficar feliz... Mas sei lá... Ela fica o tempo todo fora, e quando tá em casa tá sempre conversando com o marido dela ou no celular com alguém... É meio chato você falar tudo e a pessoa só dizer que sim, que tá, como se fosse algo padrão, sabe?

- É por isso que você gosta mais do seu pai do que dela?

- Não sei... Eu gosto dela também, sabe? Só que... Eu não entendo como o papai consegue fazer tanta coisa e ainda assim a gente passa mais tempo junto do que a mamãe, que volta cedo do trabalho e nunca tem tempo pra mim...

Pra falar a verdade, ainda lembro da expressão dele quando me falou isso. Foi uma das muitas vezes que as palavras dele me fizeram ter pena do Saffron e da vida medíocre que ele leva. Não sei o que é pior, ter um filho legal que nem o Leon e não poder ficar com ele, ou ter que aturar a vaca da ex-mulher.

- Quando o papai tá ocupado corrigindo as coisas do colégio, ele pede emprestado o DVD do cara que mora no apartamento de cima e aluga algum filme que eu gosto, aí ele senta do meu lado e diz "Ah, vou assistir isso só porque você quer ver!", e fica sentado do meu lado corrigindo as coisas, mas eu sei que ele odeia ver TV quando tá trabalhando sério, e ele faz isso pra gente não ter que ficar muito longe... Me diz, Sven, porque a mamãe não faz esse tipo de coisa também?

A gravação termina, mas o clima de festa continua. Festa pra mim, porque pro resto é de enterro. E eu quase me vejo dançando em cima do caixão. Do nada, tudo mudou. A Rafaela, que antes tava com uma cara de cu feliz, agora tá parecendo que vai socar alguém. E o Saffron tá com cara de quem tomou esse soco.

E não é que a miserável abriu a boca pra falar? Ah, não vai não.

- Meritíssimo, eu...

- Gostaria de lembrar a todo mundo que está aqui que essa é meramente a primeira gravação... – falo mais alto, cortando mais forte que jogador de vôlei em final mundial. – Eu tenho no total mais ou menos umas 7 horas de áudio. Bom, claro que ninguém vai querer ver tudo hoje, mas como me encarregaram de selecionar os trechos mais pitorescos... ah, falando nisso, tem outro aqui bem legal, querem ver só?

E sem esperar resposta, dou enter antes que alguém diga que não.

- Irch va brenne inderlich.

- Não, é Ich verbrenne innerlich. Verbrenne é uma palavra só.

- Ah, tá. Foi mal.

- Tá, vai de novo aí.

E a voz dele começa a ecoar, fina do jeito que se espera de um moleque que ainda não sabe o que é puberdade, pelo na cara e punheta.

- Komm und rette mich, ich verbr… verbenn… ver… droga!

- Ei, relaxa. Tão novo e já tá estressado? Anda, baixa esse treco aí e repete. Verbrenne.

- Verbrainne.

- Não, o som é mais forte, ó, “Verbrenne”. Tem que sair da garganta.

- Verbrenne?

- É, verbrenne.

- Ah, acho que saquei agora.

- Beleza, toca aí.

- Komm und rette mich, ich verbrenne inn… AI, PÔ!

Bom, tanto na gravação quanto na vida real eu começo a rir. Ele tava tocando violão, e nessa hora a corda arrebentou e foi bem na cara dele. Foi muito engraçado, a bochecha dele ficou umas duas horas vermelha.

- AHAHAHAHAHAHA, QUE DEMAIS!

- Cala a boca, Sven!

- Foi mal, parei...

- Agora não dá pra tocar mais! Bosta... o pior é que o papai vai encher o saco perguntando como é que eu arrebentei essa corda.

Ser criança é muito legal, principalmente porque você percebe que tem gente que foi bem educada o suficiente pra não usar porra como vírgula.

- Arrebentou tocando, ué. Fala isso pra ele. Ele não vai te negar um jogo de cordas. Além disso, se ele não tiver dinheiro eu pago.

- Sério?

- Sérião.

- Heh, valeu...

- Bom, e você tá ensaiando pra que mesmo?

- Ô Sven, você é retardado ou o que? Eu falei isso há 5 minutos atrás, o papai gosta dessa banda e queria tocar pra ele...

Claro que eu não sou retardado, mas como não tava gravando antes tive que pedir pra ele repetir.

- Ah, tá, foi mal. Mas ainda acho que era melhor você ter pego a versão em inglês, ia ser muito mais fácil pra você cantar, teu pai não ia achar menos bonito.

- Não, eu quero tocar essa aqui, essa versão ele curte mais. E tem outra, acho que a minha família toda vai aparecer, quero que fique perfeito esse negócio senão meus tios vão ficar me zoando.

- Família toda, é?

- Bom... família do meu pai, né? Minha mãe não curte música, já te falei isso. Pra ela é tudo barulho.

- É só tu e a tua mãe?

- Não, ela tem marido. Mas eu não curto ele, ele é mó chato.

- Chato como?

- Ah, mano, sei lá, ele é mó inútil, parece que num sabe fazer nada direito! Não sei nem como ele conseguiu ganhar tanto dinheiro, acho que ele ganhou na loteria.

E eu acho que foi roubando, mas não vem ao caso.

- Tua mãe gosta dele?

- Eu acho que gosta, né? Eles casaram...

- Esse negócio de acho não é coisa de quem sabe o que tá falando, não.

Ele ficou um tempão calado antes de responder de novo.

- Sven, você já namorou antes né?

- Já.

E pode ter certeza disso.

- E como é?

- Como é o que?

- Ah, ficar com uma garota.

- Vem cá, por que tá perguntando isso?

- É que sei lá... um casamento é a mesma coisa de um namoro, né?

Ah... bom, não é, mas na hora eu não achei uma boa destruir o sonho dele. Vai que ele vira viado também.

- .... digamos que sim.

- Então por que as pessoas ficam felizes quando namoram e ficam tristes quando se casam? Se é a mesma pessoa, e o namoro e o casamento são a mesma coisa, eles não deviam ser mais felizes no casamento que no namoro?

- Acho que sim...

- Então por que a minha mãe odeia meu pai?

Bom, essa era uma pergunta que eu não ia saber responder tão cedo. E isso mexeu com o pessoal da sala, também, que a essa hora tá encarando a caixa de som como se o Leon fosse sair sangrando dali de dentro.

- Leon...

- Eu vi, Sven! Eu vi o jeito que ela olha pra ele! Eles nem se falam direito! E o papai nunca fala dela, e ela nunca fala dele, e ela quando fala nunca fala direito, é só falando coisa ruim dele!

- PROTESTO! – grita a Rafaela, do nada, ficando em pé na sala e assustando todo mundo. Voou pena pra todo lado quando ela levantou. – Meritíssimo, esse menino entrou aqui do nada, chegou bagunçando toda essa audiência expondo provas que nem tem base, eu não vou aceitar nenhum argumento que venha desse aí!

- Ora, o que foi, Rafinha? – o pai do Saffron levanta de novo, todo sorridente. – Ficou nervosa, foi?

E aí eu gelei. Eu conheço essa voz. Foi o cara que falou comigo no telefone, o tal do Frank. Mas o que...

Bom, não dá tempo de pensar nisso com o pau quebrando aqui e agora.

- Isso é uma questão de razão, Frank! Eu não vou aceitar um depoimento desses, em que um moleque todo ferrado desses usa um monte de edição de áudio, e quando fala por si mesmo só fala merda!

- Não, Rafaela, isso não é uma questão de razão. – dessa vez foi o Saffron que se levantou, com uma expressão séria que eu nunca vi na vida. E é tão fora do normal dele que é quase assustador ver ele assim. – Eu vou dizer o que acontece, o que acontece é que você nunca ouviu seu filho falar assim pra você, e nem vai ouvir, porque você passa tanto tempo ocupada com seus problemas saídos da sua cabeça de loira oxigenada que nem por um minuto lhe passou pela cabeça que o Leon poderia sentir sua falta. Você acha que sentir saudade é simplesmente quando uma pessoa está fisicamente afastada da outra, mas a sua mente é tão fechada e ignorante que você não sabe o que é sofrer pela falta de uma pessoa que está do seu lado o tempo todo e que está sempre diante dos seus olhos.

Ela fecha a boca, e eu também acabo fechando por impulso. É a primeira vez que eu vejo ele reagir, e uma reação dessas virou a mesa de um jeito espetacular. Ele nem parece mais o viado derrotado que tava que nem um bundão na mesa há alguns minutos atrás.

Será que esse é o efeito que o Leon causa no Saffron?

- Basta, vocês dois! – olha, e não é que a juíza ainda tá lá? Heh. – Eu não vou aceitar picuinhas e discussões de baixo calão aqui no meu tribunal! E vocês todos, sentem-se agora ou eu mando suspender essa sessão!

Todo mundo senta, mas com um puta receio. A juíza apontou o dedo pra galinha da Rafaela.

- Não temos como averiguar a legalidade dessas gravações agora, dona Rafaela, mas eu sugiro que a senhora se defenda dos argumentos apresentados aqui em vez de ficar fazendo críticas infundadas.

O pamonha que tava do lado dela levanta, fala alguma coisa no ouvido dela e puxa ela pelo braço pra fazer ela colocar a bunda na cadeira de novo. Tô começando a achar que esse cara é cafetão dela, só pode.

- Por favor, Meritíssimo, repare que as conversas parecem bastante tendenciosas no sentido de desvirtuar a imagem de boa mãe da minha cliente, e justamente por isso devem ser muito bem avaliadas antes de serem consideradas como prova, isso se forem tomadas como tal.

- Pois é, o problema é que as gravações não desvirtuam a boa mãe que a sua cliente é, porque ela não tem nada de boa mãe que possa ser desvirtuado – ri.

A Rafaela levanta e ameaça ter outro chilique, mas o advogado cala a boca dela de novo. Olho pro Saffron, e ele tá calado no canto dele, com cara de quem chupou jiló. Quem se pronuncian primeiro no meio dessa guerra fria é a juíza.

- Henrique, o que você acha?

O cara que me recebeu quando eu cheguei — e que eu pensei que era advogado — abre a boca pela primeira vez desde aquele momento.

- Nesse primeiro momento não me parece nada inválido. Acho que devemos, no mínimo, ouvir tudo com atenção, e no fim da sessão se for o caso mandar pra um laboratório...

- Eu já disse que não vou aceitar isso, dona juíza! – e a vadia levanta de novo, apontando pra mim. Ah, que vontade de rir... – Vão mesmo tomar como prova um monte de lixo que um moleque de 15 anos trouxe? Ora, faça-me um favor, ninguém sabe quem ele é, ou de onde veio, e que motivos ele tem pra estar aqui, só o que se sabe dele é que ele não tem o mínimo de compostura pra estar em tribunal!

- Com licença, – interrompo — mas eu não estou sendo tendencioso como vossa Galinheza afirma tanto, inclusive tenho um jeito de provar que a única coisa que eu quero aqui é apresentar fatos.

- Ah, é? Então prove! Que argumentos você tem pra TENTAR nos convencer de que não está do lado desse aí?

Tenho que respirar bem fundo antes de responder.

- A maior prova de que não estou do lado dele — falo bem pausadamente — é que fui que eu o coloquei aqui. Fui eu que provoquei a confusão na escola que fez ele ser chamado pra esse inquérito de custódia.

E todo mundo se cala no mesmo instante. Tem até gente colocando a mão na boca, e coisa e tal. Eu, pra não ficar vermelho, ou virar pro Saffron, ou pior, os dois ao mesmo tempo, fico pensando pra me distrair em como arrumei palavras tão bonitas pra falar, tipo “inquérito de custódia”. Deve ser influência da Sophia.

- Ah, agora eu entendi tudo! – ela responde. – Você sacaneou o professorzinho, fez burrada e agora veio aqui se meter pra ele te ver como o herói! Que plano brilhante, não é? Só que ele não vai dar certo, porque o meu filho vai ficar COMIGO!

Ok, ela me desarmou nessa. Fudeu.

- CHEGA DE ESCÂNDALOS, SENHORA SILFERILE! – berra a juíza, com cara de quem tá com enxaqueca. – Mais um tumulto desses e vou mandar suspender essa sessão, estejam avisados!

E o silêncio reina de novo. Mas por muito pouco tempo, porque de novo outra pessoa levanta e resolve fazer um comentário inútil.

- Sven, isso que ela falou é verdade?

E dessa vez o felizardo é o Saffron.

Aquilo faz a Rafaela rir. Quando eu viro pra olhá-lo, percebo que aquela resposta é importante pra ele, é a resposta que pode fazê-lo sorrir pra mim de novo. Esse é o momento pelo qual eu tanto lutei. É a minha chance de desfazer tudo.

Mas olhando na cara da juíza, percebo que não vai ser agora que eu vou poder aproveitar.

- Claro que não. – digo o mais frio possível. – Tá se achando demais, hein, professorzinho? Até parece que eu ia parar a minha vida pra te tirar de enrascada. Já disse que a única coisa que eu vim fazer aqui foi mostrar os fatos.

E deu certo. A Rafaela tá caladinha no canto dela, a juíza parece meio impressionada, e o Saffron sentou na cadeira de novo, mas resolvi não olhar pra cara dele.

- Bem, acho que com isso já tivemos nossa cota de confusão por hoje – encerra a juíza. – Henrique, desculpe pela interrupção, tem mais alguma coisa pra dizer?

E lá vai o cara de novo.

- Meritíssimo, eu gostaria que levasse em conta que não temos como provar que essas gravações são de fato verdadeiras ou que não sofreram nenhum tipo de manipulação.

- Na verdade, meu caro, temos como provar, sim.

Bom, agora até eu não tenho o que responder. Olho curioso pra juíza, pra ver o que ela vai fazer, e não sou só eu, pelo visto. Ela, que não tá nem aí pra plateia, vira um pouco pro lado e fala pro guarda:

- Wellington, mande trazer o garoto aqui.

Notas finais
zzzzzzzz~