Rescue Me
22 A última conversa
Notas iniciais
True story.
CAPÍTULO FINAL!!!! Pensei milhares de vezes em quebrar em dois proque tá comprido DEMAAAAAAAAAAAAAAAAIS, mas como prometi que ia ser só um, aqui está...
Enfim, notas no rodapé. aproveitem.
“...o cobrirá com as suas asas, e debaixo delas você estará seguro. A fidelidade de Deus o protegerá como um escudo.”
Argh... que barulho é esse? Calem a boca, eu quero dormir...
“Você não terá medo dos perigos da noite nem de assaltos durante o dia. Não terá medo da peste que se espalha na escuridão nem dos males que matam ao meio-dia.”
Não, para com isso, não é hora de ficar dando sermão... eu tô cansado, vai embora... mas quem é o puto que tá narrando isso?...
“Ainda que mil pessoas sejam mortas ao seu lado, e dez mil, ao seu redor, você não sofrerá nada. Você olhará e verá como os maus são castigados.”
Espera, isso me soa familiar... essa voz... quem é?...
Quando eu finalmente abro os olhos, tenho a sensação de ter dormido por anos. Minha cabeça tá pesada pra caralho, meu corpo praticamente não se mexe e eu sinto meu estômago revirando de fome. De cara não consigo enxergar nada, tá tudo meio escuro e embaçado demais.
“Você fez do Senhor Deus o seu protetor e, do Altíssimo, o seu defensor; por isso, nenhum desastre lhe acontecerá, e a violência não chegará perto da sua casa.”
Eu já ouvi isso antes... queria pelo menos conseguir me mexer, mas o meu corpo tá muito duro...
O que aconteceu? Onde eu tô e o que eu tô fazendo aqui?
Quem sou eu?
“Deus mandará que os anjos dele cuidem de você para protegê-lo aonde quer que você for. Eles vão segurá-lo com as suas mãos, para que nem mesmo os seus pés sejam feridos nas pedras.”
Ok, pera lá. Vamos colocar a cabeça no lugar. E eu sei muito bem quem eu sou, obrigado. Só preciso lembrar... esse negócio me lembra de alguma coisa...
“Com os pés você esmagará leões e cobras, leões ferozes e serpentes venenosas...”
Esmagar leões e cobras. Eu lembro que tinha algo a ver com isso, uma discussão... não, não era isso...
Cobras e serpentes... aquela mulher... como era mesmo o nome dela?...
“Deus diz: 'Eu salvarei aqueles que me amam e protegerei os que reconhecem que eu sou Deus, o Senhor'.”
Eu salvarei... protegerei... proteger a quem, meu Deus?...
E de repente parece que veio tudo de uma vez. O julgamento. Eu tava no tribunal, a ex mulher do Saffron...
Meu Deus, eu levei um tiro... eu tô vivo... mas ele...
Ele...
Saffron...
– Quando eles me chamarem, eu responderei e estarei com eles nas horas de... oi?
Quem tá aí? Q-quem é? Porque não dá pra ver nada? Puta que pariu, o que...
– Sven, é você?...
Eu preciso enxergar... preciso saber do Saffron, cadê ele?... AI, caralho, isso dói...
– Calma, calma, não se mexe! – toc toc toc.... o que?... – Fica calmo, tá? Fica... calmo...
E ele põe alguma coisa no meu rosto. Era meu óculos.
Daí fica tudo claro. Percebo uma luz fraca na minha cara, um monte de aparelhos ao redor, e meu irmão com a cabeça por cima de mim, com cara de quem ia chorar.
– Azhi?... o que...
– Ah, Sven, graças a Deus... – ele deita por cima de mim, chorando. – Graças ao meu bom Deus, fiquei tão preocupado.... fiquei com medo de você não aguentar...
– E-ei... – o máximo que consigo é mexer o braço esquerdo, então tento usá-lo pra colocar a mão na cabeça dele. – Eu tô bem, relaxa...
– Você foi baleado... quando me chamaram e disseram que você tava no hospital, eu fiquei louco... vim pra cá o mais rápido que pude... e aí eu vi você, todo pálido... disseram que você perdeu muito sangue, que tava muito fraco e que um ferimento desses podia ter te matado rapidinho...
Não sei o que dizer. Acho que eu preferia ter morrido a dar tanta preocupação pro meu irmão. Ele é a única família que eu tenho, sangue do meu sangue e família de verdade, sem ser aquela gente nojenta de casa e aqueles irmãos que eu só conheço de nome.
– Há quanto tempo estou aqui?
– Uma semana...
UMA SEMANA?! Meu Deus, o que foi que aquela vadia fez comigo? Cara, eu juro que se encontrar ela na rua, eu... eu... ei, peraí...
– Azhi, o que é aquilo ali no sofá?...
De onde eu tava, só dava pra ver que tinha algo no sofá de visitantes, coberto com uma manta grossa marrom.
– Não é o que, é quem. Aquele é o...
Batidas na porta.
–Com licença... – um homem ruivo alto vai entrando, sem se importar muito com uma autorização. – Azhi, o médico já saiu, ele disse que... ué, Sven?...
Assim que ele entrou e chegou mais perto, eu o reconheci. É o irmão ruivo do Saffron, que me resgatou no dia que eu bebi demais e que eu também vi de relance na audiência do Leon. Só que ele não tava tanto com a família, tava junto de um outro grupo que eu não faço ideia de quem seja.
– Oi... – digo baixinho, começando a me sentir meio cansado.
– Ora, vejam só, a bela adormecida deu o ar da graça... – ele sorri, se aproximando mais da cama e botando a mão dele sobre a minha, sabendo que eu não ia conseguir dar um aperto de mão. – Já nos conhecemos, mas acho que nunca me apresentei direito. Vermillion Demeter, mas pode chamar só de Mille.
Agradeço o cumprimento só concordando – bem de leve – com a cabeça. Preciso reunir forças pra falar o que é realmente necessário. Nesse meio tempo, ele solta minha mão e se vira pro Azhi.
– Tá vendo? E você que não acreditou no que o papai disse... eu falei que ele só é meio maluco, mas ele tava certo de novo!
– É, acho que tinha razão, Mille...
E do nada a coisa veio na minha cabeça de novo. O velho loiro falando comigo.
“Ele está esperando você. Trate de não deixá-lo esperando muito tempo.”
Bom, isso tem duas explicações óbvias... ou ele tava me esperando porque tava bem, ou...
Engulo em seco.
– Azhi, cadê o Saffron?
Os dois sem entreolham de repente, e isso não é bom sinal. Não mesmo...
– Ele não soube ainda... – diz Azhi bem baixinho.
– Claro que não, ele tava dormindo! O que você queria? – responde Mille sem delicadeza nenhuma. – Na verdade, era sobre ele que eu queria falar com você...
– O que aconteceu? – digo, já ficando meio nervoso com aquela enrolação toda.
– Bom, a Rafaela deu 3 tiros no Saffron... um foi no braço, mas pegou de raspão, o outro entrou pela coxa mas não foi tão grave assim... demos sorte de a vadia não ter uma boa mira, além disso acho que ela se atrapalhou com o escuro e a arma...
– Então ele tá bem?!
– Não exatamente... o outro tiro ela conseguiu acertar, a bala se alojou no fígado e passou muito perto de atingir um dos rins... ele teve que passar por uma cirurgia pra retirar um pedaço do fígado e tava na UTI até ainda há pouco... só que...
O rosto dele fica sério de repente. Ele engoliu em seco e olhou pra parede.
Não... isso quer dizer que...
– A gente não esperava que fosse assim... no máximo até amanhã de manhã vão ter levado ele embora...
– Embora? – repete o Azhi, falando o que eu queria poder dizer. Aquilo só pode ser mentira. – Pra onde? Não me diga que...
Mille abaixa a cabeça, franzindo o rosto, e me encara como quem diz pra eu aguentar firme.
– HÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ, ELE TÁ INDO PRO QUARTO! HAHAHAHAHAAHAHAHAH!!!
... filho de uma PUTA! Cara, eu juro por Deus que um dia dou um tiro nele e sequestro a mulher dele só pra ver ele passar pelo mesmo susto!!! Eu quase enfartei! Tô até me sentindo tonto de repente...
– Mille, por favor, não brinque com essas coisas de novo! – Azhi deu um soco forte no ombro dele, também irritado.
– Ahahaha, desculpe, eu não tive como evitar... é que a cara de vocês tava tão tensa, eu tive que sacanear um pouco...
... Vai sacanear o cu da arrombada da sua mãe, seu corno filho de uma puta!
– Tio?... – uma voz foi soando do outro lado do quarto. – É você?
E aí eu vejo que quem tava deitado no sofá era o Leon. Ele vai levantando, sonolento, e eu começo a me perguntar que horas são, até ver o curativo enorme no braço dele. Será que ele também levou um tiro?
– Ei... – Mille atravessa o quarto e senta do lado do garoto. – Desculpa, te acordei?
O ruivo passa a mão na cabeça dele e embrulha ele com a manta de novo. Dá pra ver que ele tá me olhando por cima do ombro, mas não diz nada.
– Azhi, já tá tarde, acho melhor deixar você e o Sven conversarem... – diz Mille, pegando o Leon no colo. – Eu vou botar o Leon pra dormir na cama dele.
O moleque faz uma cara de chateação ao ouvir isso.
– Mas...
– Vamos, não seja desobediente. Além disso, tenho uma coisa pra contar sobre o teu pai, mas só vou contar se você estiver na sua cama... – e virou-se pra nós. — E aproveitando que o Sven acordou, será que podemos resolver aquele assunto amanhã?
Azhi concorda com a cabeça. Leon não diz mais nada, apenas abraça o pescoço do tio, como um sinal de que podiam ir andando. Mille mete a mão no bolso, puxa uma máquina fotográfica e tira uma foto minha deitado. Em seguida, se despede com um aceno de rosto, e assim que os dois saem porta afora, Azhi senta na beirada da minha cama.
– Azhi... o que aconteceu? – o susto vai passando, e eu vou começando a me sentir melhor de um modo geral. Parece que minha voz se lembra de como deve sair pra eu conseguir falar. – Parece que tudo virou de cabeça pra baixo... porque o Leon tá assim? E a guarda dele? E que assunto é esse?
Ele toma um longo suspiro antes de falar.
– De fato, aconteceu muita coisa enquanto você estava se recuperando... e por falar nisso, como está se sentindo? Desculpe, fiquei tão exaltado quando te vi acordado que...
– Ei, relaxa. Eu tô bem, vaso ruim não quebra.
– Tem certeza de que já se sente melhor? Não acha melhor descansar mais ou pouco? Eu não quero entrar em um assunto delicado desses se você for ficar estressado, você passou por poucas e boas...
– Azhi, eu... – pensei em perguntar o que aconteceu no meio tempo em que estive acordado, mas... melhor começar do começo. – Quando foi que eu cheguei aqui? Que dia é hoje?
– Bom... já faz uma semana que você tá no hospital. Os seus ferimentos foram bem mais leves que os do Saffron ou do Leon...
– Pera, o que aconteceu com o Leon?
– Calma, calma, eu vou chegar lá! Como eu dizia, você se feriu bem menos do que eles, porque aquela mulher só atirou de raspão em você, e mesmo o Saffron teve bastante sorte. Se aqueles tiros tivessem sido mais precisos, o irmão dele com certeza não estaria brincando conosco a essa hora.
Como não tenho como negar isso, apenas espero ele continuar. Mais um longo suspiro e ele retoma o papo.
– Segundo as imagens que o pessoal conseguiu captar no circuito interno, o Leon saiu do tribunal logo depois de vocês. Ele deve ter acordado, sentido falta do pai, e como não achou ele lá dentro, resolveu procurar do lado de fora. Ouviu a voz do Saffron, fez a curva em um beco e deu de cara com vocês. Minutos depois, aparece a Rafaela, desesperada e com uma faca pequena na mão, atingindo ele. A polícia recebe uma denúncia anônima, dizendo que tinha uma pessoa naquele beco que matou duas pessoas e estava prestes a matar a terceira, e logo depois a viatura e a ambulância chegaram... e foi por muito, muito pouco que vocês não morreram. Se o resgate tivesse demorado pra chegar, eu não sei o que teria acontecido.
Apesar de o tom de voz dele ser sério e firme, ele treme enquanto narra isso. Parece que a cena vai se formando na cabeça dele, e do jeito que ele tá falando a coisa parece assustadora. Bem, pra mim foi. E não foi pouco.
– Foi horrível, irmão... – falo, depois de um tempinho. – Na hora eu não vi nada, só entendi o que tava pegando depois que veio o tiro, mas na hora nem dei bola, achei que tinha feito coisa errada o suficiente pra merecer aquilo, mas o Saffron... ele só tava ali por minha culpa, eu não sei o que eu faria se ele tivesse morrido de verdade...
Abaixo um pouco a cabeça, e ele passa a mão por cima dela pra me acalmar. Essa era uma coisa que ele sempre fazia quando eu era menor. Só que mesmo assim, lembrar de quando éramos menores também não me anima muito, então ele segue em frente.
– Você podia ter morrido mesmo. O seu caso foi diferente do Saffron, que ficou bem ferido durante o tiroteio. No seu, o seu corpo estava tão desgastado que um ferimento mais grave podia ter mandado você pra uma conversa eterna com o Criador. Só a quantidade de sangue que você perdeu naquele beco é de assustar qualquer médico. E não venha me dizer que foi por culpa dos tiros, porque eu sei muito bem que o Arceus tem dedo nisso.
Eu até abri a boca pra falar isso, mas ele me cortou bem na hora.
– Azhi...
– Eu não devia ter deixado você voltar... – resmungou ele, chateado. – Se eu não tivesse te deixado sair de Morro Doce, nada disso teria acontecido... você estaria seguro, não teria passado por nada disso...
– Eu precisava fazer aquilo!
– Aquele homem podia ter te matado! E você já estaria morto se eu não tivesse tirado você de lá do sítio! – ele afunda o rosto nas mãos, completamente decepcionado.
– Você não tem culpa de nada, eu que resolvi me meter nessa sozinho.
– Pois é, Sven, o problema é que você sempre esquece de que nunca está sozinho de verdade...
– Claro, você fala isso porque não era você que tava com o cu na mão no dia do julgamento. – falo, e se pudesse ainda faria o gesto com a mão pra ver se isso entra nessa cabeça religiosa dele. – Não era pra você que o Saffron tava olhando com sangue nos olhos.
– É isso mesmo que você pensa que aconteceu? Ele salvou sua vida lá atrás.
– Não tô falando do tiroteio, Azhi...
– Nem eu.
Pera, pera que agora eu fiquei confuso. Que história é essa?
Ele entende pela minha cara e começa a explicar.
– O irmão dele, o que esteve aqui no quarto, tem contatos na polícia. Foi assim que ele ficou sabendo que vocês foram baleados. E o Saffron falou com o irmão pra denunciar seu avô Arceus por maus tratos através desse contato.
Isso só pode ser mentira.
– Como é que...
– Seu avô tá na iminência de ser preso, Sven. O Saffron fez a denúncia, os policiais foram investigar e seu corpo deu as provas que faltavam. Como você já tava mesmo no hospital, cheio de médicos ao redor, ninguém se incomodou pra aproveitar a ocasião e fazer um exame de corpo de delito em você. Mesmo porque, a pessoa que internou você e estava cuidando de você autorizou.
– E quem era essa pessoa?
– Frank Demeter.
Claro. Com o filho internado, as responsabilidades dele passam pro pai. Mille deve ter contado da denúncia pra ele, e ele resolveu assumir enquanto o Saffron tava no hospital.
E a minha mente começa a recordar que antes de eu começar a conversar com ele pessoalmente, ele tava no telefone com alguém.
“Não precisa falar mais nada. Só... dá andamento nisso, tá?”
Acho que nem em mil anos vou esquecer essa frase, mesmo por causa do semblante dele. Mas naquele momento minha cabeça tava tão a mil que mal reparei nisso.
Como eu não dei atenção pra isso antes?
– A queixa-crime está quase toda pronta, mas sem o seu depoimento eles não podem fazer nada. – prossegue Azhi. – Estávamos esperando você se recuperar pra depois cuidar disso, Mille irá trazer um policial pra falar com você sobre a denúncia. Não tenho muita certeza disso, mas se o que ele disse estiver certo, o Arceus vai ser indiciado por crime de tortura e pode pegar dois anos de prisão.
Ele tava me protegendo. De novo. Mesmo com raiva, magoado, deprimido, ele tava do meu lado.
– Acho que vou dormir agora, Azhi...
Ele passa a mão na minha cabeça de leve.
– Qualquer coisa que precisar, basta me chamar e eu estarei aqui.
Concordo acenando com a cabeça, e ele vai andando até o sofá. De repente lembro do Leon deitado ali.
– Você tava cuidando dele? – pergunto baixinho.
– Sim, ele tem estado bastante incomodado esses dias... tudo isso está sendo bem difícil pra ele, e ele não tem o pai do lado pra ajudá-lo, pelo menos por enquanto... – e ele abre um sorriso que faz o rosto dele inteiro brilhar. Azhi é apaixonado por crianças. – Ele é um menino tão amável, me contou que não gosta de ficar o tempo todo sozinho no quarto, então ele vem pra cá e eu leio histórias pra ele... — e ergueu a Bíblia no ar, na minha direção. – Só as enfermeiras que não gostam muito, mas até mesmo a família dele já acostumou...
Ele atravessa o quarto e apaga as luzes. Em seguida, sinto ele pressionando os lábios na minha testa.
– Descanse em paz, irmão.
–---------
O outro dia me traz uma sensação bem diferente do anterior. Dessa vez parece um dia de verdade, tem luz entrando pelas frestas das cortinas. O barulho também mudou, dá pra ouvir carros e um pouco de conversa de lá de fora. Mas o melhor mesmo é que meu corpo finalmente resolveu reagir e agora eu consigo sentir meus membros de novo, todos perfeitamente no lugar.
Agora com a luz e a força dá pra ver o estrago. Tomei um tiro no braço esquerdo e outro na lateral também esquerda do corpo – meu braço teve que ser engessado e tem um curativo pequeno na minha cintura. O bom é que mesmo com isso eu consigo me mexer, só vai ser foda porque eu sou canhoto e a vadia conseguiu estragar meu melhor braço dessa vez. O resto parece bem, apesar de uns hematomas aqui e ali e ainda por cima meu braço direito ainda tá meio machucado.
Estico um pouco a mão pra pegar o óculos que ficou na cabeceira e de repente o quarto entra todo em foco de novo. Azhi não tá aqui, mas dá pra ouvir o barulho do chuveiro e tem uma muda de roupa separadinha no sofá. Se antes eu queria saber urgentemente quanto tempo eu fiquei dormindo, agora preciso saber é quanto tempo ele passou aqui comigo.
Bom, aí é uma questão de lógica. Se Morro Doce fica a mais ou menos 1200km de distância, isso dá umas 14 a 18 horas de viagem em uma velocidade razoavelmente alta. Como a estrada é ruim pra caralho, o número sobe pra umas 20, até 24. E se o Azhi tiver vindo dirigindo, pode arredondar esse número pra 26 a 30. Somando o tempo de paradas pra dormir, comer, mijar e abastecer... é, foi uma viagem longa. Ele deve ter perdido pelo menos uns 2 dias inteiros pra chegar.
Mas a pior parte não é essa. Se meu avô tá mesmo na iminência de ser preso, não vai ter bom comportamento que salve o Azhi de ser massacrado na frente da “família”. E mais ainda se descobrirem que ele me deixou fugir e me acobertou esse tempo todo...
Ei, olha só, deixaram o café da manhã... bem, acho que essa pensadeira toda pode esperar. Pena que não tem café preto, só com leite e aguado. Coisa mais horrível, os pacientes estão doentes, fracos e raquíticos e ainda tem que ficar sem café decente? Olha, sinceramente, só não reclamo mais porque nem lembro quando foi a última vez que eu comi. E essa torradinha até que tá boa...
Só que nem comendo eu consigo relaxar. Penso em tanta coisa ao mesmo tempo que minha cabeça tá uma zona. As palavras do Mille e do Azhi ficam indo e voltando na minha cabeça – e olha que aquela foi só a conversa preliminar.
Coincidência ou não, nessa hora alguém dá uma batidinha na porta do quarto, e aparece uma mulher negra, dessas que usa rastafári e com o par de olhos mais bonitos que eu já vi. Não fosse pelo vestidinho meio avacalhado ela até ia parecer uma modelo.
– Oi... – ela dá um sorrisinho e fecha a porta com cuidado. – Você deve ser... Sven Anselm, é isso?
– Quem quer saber? – sinceramente, ela não tem cara de médica, e eu não tô com paciência pra visita logo de manhã. Na verdade, nem sei se quero ter aquela conversa. Sei muito bem o que ela veio falar, e ainda nem tive cabeça pra pensar nisso direito.
– Meu nome é Ana, eu sou da polícia civil. Era pra eu ter vindo aqui com uma assistente social, mas infelizmente tivemos alguns problemas, então eu acho que vai ser só a gente, mesmo...
– Seja lá o que for, sou inocente. – resolvo adiantar. – Será que não podem me deixar descansar? Eu tô internado, sabia?
Pra completar ainda mais a festa, a porta abre de novo, e uma moça loira entra. Ela tem um jeitão meio sério, olhos azuis ligeiramente puxados, e tá usando uma roupa bem simples – calça jeans, uma blusa regata amarela e uma jaqueta cinza meio folgada.
– Ué, já tá aqui, Ana? E a Maíra?
– Ah, não pôde vir... – explica a morena. – Estamos meio atolados lá no DP, parece que mandaram uns menores de rua pra lá e ela tá presa com os garotos.
– Sei... – a loira faz uma cara de desagrado, provavelmente por imaginar um monte de moleques trogloditas subindo pelas paredes de uma delegacia de polícia. É, eu também não ficaria feliz se fosse o responsável por essa delegacia. – Bom, o que temos até agora?
– Acabei de entrar, estava me apresentando ao Sven...
– Bom, você se importa de começarmos logo? Sabe como é, não é só você que tem uma pilha de problemas em cima da mesa....
E como se não bastasse já ter duas pessoas me enchendo o saco, a porta abriu de novo, e entrou mais um cara – dessa vez é um branquelo com cabelo castanho e olho verde.
– Eu deixo o posto por um minuto, e quando volto você vai conversar com uma testemunha sem sequer se apresentar decentemente?
– Ah! – ela imediatamente bate continência, e a morena até se virou de frente pro cara. – D-desculpe, sensei...
Era só o que me faltava. Um monte de investigadores malucos pra bater papo comigo no quarto.
– Desculpe nossa falta de indelizadeza, não queremos atrapalhar sua recuperação e nem lhe tomar muito tempo. – diz o homem, trancando a porta e se aproximando da cama com a mão estendida. — Eu sou Xavier Light, sou perito de primeira classe da Polícia Federal. Essa aqui é minha parceira de unidade, Alia Michiru, perita de segunda classe, e uma querida amiga nossa, Ana Silveira, que é delegada da Polícia Civil.
– Prazer... – não tenho muito o que falar aqui, então só sacudo a cabeça e deixo eles começarem.
– Bem, você já deve saber por que estamos aqui, não é? – quem abre a conversa é a Ana. — Seu irmão mais velho já lhe falou que queríamos conversar com você?
– Mais ou menos...
– Estamos aqui pra conversar um pouco sobre o seu futuro, como você já deve saber seu avô foi denunciado por maus-tratos e queremos saber se você quer levar essa denúncia em frente.
– Bom, olha só, eu não vou discutir esse assunto agora, primeiro porque não sei de nada direito ainda, e segundo porque não tô preocupado com o meu futuro, quero saber qual é o futuro do Leon. E aí, dá pra gente falar disso ou não?
Tá certo que desafiar a polícia pode me fazer ser preso, mas o pouco que meu cérebro consegue raciocinar me leva a crer que eles não vão levar um cara que foi baleado em cana. Isso me dá a chance de arriscar um pouquinho – e pela cara que a Ana fez, ela sabe das coisas.
Xavier solta um longo suspiro e recua até a parede. Alia faz o mesmo.
– Ana, leve o tempo que quiser. – ele diz. — Não temos pressa.
Isso é um sinal bem claro de que vou ganhar o que eu pedi. A Ana também pega fôlego e começa a falar.
– Acho que você tem razão em querer saber dele, afinal, vocês ficaram amigos... pois bem. Como você já deve saber muito bem – ela fala isso olhando pro meu braço, — a Rafaela Silferit, ex-esposa do seu professor Saffron, tentou matar a você, a ele e ao filho em um dos becos perto de onde estava tendo a audiência do garoto, e claro que...
– P-peraí, ela tentou matar o Leon?! – falo, chocado. Até que ponto essa vadia ia chegar?!
– Ainda não sabemos se ela realmente tentou mata-lo e se arrependeu no meio do caminho ou se ela atirou por acidente. – diz ela, olhando pro teto. – Uma câmera de segurança de um prédio vizinho conseguiu captar algumas imagens das ruas paralelas ao beco em que vocês foram baleados.
– Vimos que ela estava acompanhada de um homem, ela se aproximou do local a pé com ele e ele ficou algumas ruas mais afastado. – completa Alia. — E junto com o homem havia pelo menos mais 3 motos, o que indica que eles provavelmente estavam seguindo o Saffron já há um tempo. Devem ter começado a seguir você também. Fosse qual fosse o resultado do julgamento, no mínimo iam matar o Saffron ou sequestrar o Leon caso o resultado não fosse favorável a eles.
– ... então é verdade o que o Saffron disse? Que ela já tinha comprado a juíza faz muito tempo?
– Não temos provas disso, mas é só uma questão de tempo. – comenta Alia, enquanto Ana abre uma pasta e remexe em uns papéis. – Mesmo porque, com todo esse tiroteio a audiência foi cancelada, mas temos um mandado de busca, cedo ou tarde vamos saber a verdade.
Parece que minha cabeça tá começando a trabalhar de novo. Penso em algo pra perguntar, mas antes disso, Ana me mostra o que tirou da pasta: um Samsung Galaxy Tab. Ela dá umas esfregadas de dedo nele e começa a me mostrar um vídeo, provavelmente o vídeo da tal câmera de segurança que eles falaram.
– Veja só, essa é a avenida Breves Figueredo, onde vocês estavam. Essa aqui é a passagem Fogueira, e esse aqui é o momento que vocês se aproximam.
A imagem é bem ruim, mas dá pra ver. A câmera foi posicionada em um ângulo meio diagonal, então dá pra ver a avenida correndo pra direita e uma curva no meio dela pra esquerda que leva ao beco. Engraçado, olhando assim penso como fui burro de não ter notado que a coisa tava meio deserta demais. Será que era coisa da Rafaela?
E poucos segundos depois, aparece a dupla. Me vejo andando com ele pela rua, com a comida em um saco, ainda num clima meio amistoso. Ele para um pouco antes do beco, aponta pra outro lado – lembro dele dizendo pra eu andar até a avenida e sumir da vida dele, e pra falar a verdade isso ainda me dá uma pontada no peito – e assim começamos a fazer mais gestos. Não dá pra ouvir, a câmera não deve ter captação de áudio, mas mesmo assim dá pra sentir a quilômetros de distância a tensão do momento.
Daí eu puxo o braço dele, e arrasto ele pro beco. Me pergunto se ele teria se safado se eu não tivesse feito isso; ele ia estar numa rua um pouco mais visível, mas se a própria polícia diz que a Rafaela tinha mais 3 motos com gente pronta pra atacar, o que eu podia ter feito?
– Agora, observe aqui, vê uma sombra se esgueirando pra perto do beco?
Aceno com a cabeça. Não tem nem como confundir aquele corpo de sanguessuga com Mal de Parkinson da Rafaela. Ela vai se aproximando, faz um gesto estranho com o braço, acho que pra carregar a arma, e entra no beco. Logo em seguida, vem os lampejos dos tiros – mesmo com a gravação ruim dá pra distinguir isso. Olhando assim de fora dá até um calafrio de ver.
E aí entra o detalhe foda. Pouco depois dos disparos, vejo uma forma pequena e clarinha correndo na direção do beco.
– Esse é o Leon. – como se precisasse me falar. A criatura vai, para bem na entrada do beco, ainda onde as câmeras captam, e fica alguns segundos parada ali, estática.
De repente, mais um lampejo e ele vai pro chão. Ele desaba pra trás parece tábua levando chute, e aquilo me dá uma sensação horrível. Então foi assim que ele ganhou aquele curativo no braço?
Mas aquilo não era o pior. Vejo a Rafaela aparecendo nas imagens de novo, correndo até o filho e se abaixando perto dele. E do nada ele começa a se remexer no chão, com ose tivesse possuído ou algo do tipo. Ele começa a se debater, e mesmo sem o som dá pra ver que ele tá gritando desesperadamente.
Isso... sei lá... sinto meu peito arder como nunca senti na vida inteira. Já senti ódio de muita gente, e já quis fazer mal pra muita gente também, mas ver o estado do Leon naquele beco, mesmo que muito de longe e com uma qualidade nojenta que nem aquela, e ainda por cima com aquilo sendo provocado pela mulher que supostamente pariu ele, me fez querer poder dar a ela a morte mais lenta e dolorosa possível.
Ainda com o sangue borbulhando, vejo o Leon parar de se mexer e ela sair correndo, desesperada, até outro canto, onde uma moto para na frente dela e ela sobe jogando algo algo na pista. Menos de três minutos depois, vejo uma silhueta feminina se aproximar do local e se abaixar sobre o garoto. Desisto de assistir o resto e entrego o tablet de volta a Ana antes que eu resolva parti-lo em cinco partes e enfiar cada uma em um buraco específico daquela vadia loira.
– Fui eu que trouxe vocês pro hospital. – diz Alia, calada há um bom tempo. – Ana é da polícia civil e conhece o irmão do seu professor. Apesar de não aparecer ninguém na filmagem e nem nas câmeras ao redor, alguém viu tudo e fez uma denúncia anônima pra polícia. Ela foi investigar, se deparou com os dois e reconheceu o Saffron... entraram em contato com o irmão, e como trabalhamos juntos ele me pediu pra ajudar.
– Pera, pera, pera. – digo. – Vocês trabalham juntos? Você e o tal do Mille? Vocês não são da Polícia Federal? Olha, não que a Rafaela não mereça levar um ferro, mas gente como vocês não tinha que estar procurando gente mais perigosa que uma mera assassina de beco?
– Bom, aí é que você se engana. – completa Xavier. – Temos interesse no caso, Sven. Lembra das pessoas na moto que comentamos?
– Sei, o que tem?
– Por um acaso você já ouvi alguém mencionar o nome do tal marido novo que a Rafaela arrumou?
– Não... – essa enrolação toda tá começando a me emputecer de novo.
– Já ouviu falar em um homem chamado Edvan Pinheiro Leite?
– E pra que eu vou querer saber de nome de macho? Pior ainda se for o macho que come aquela vadia!
– Pois é, o “macho” que come aquela “vadia” é mais conhecido como Peixe.
Peixe? Que porra de apelido é esse?
... espera aí, Peixe não é....
– Isso aí. – ele nota pela minha cara o que eu concluí daquilo e acena pra Alia. – Peixe, o traficante e assassino que está no topo da lista da Polícia Federal. Tráfico de drogas, prostituição, execuções, sequestros, roubos, extorsões... a lista do moço é bem cheinha.
Alia tira um distintivo do bolso e o abre bem na minha direção. Mesmo sem o óculos ia dar pra ler muito bem a palavra ENTORPECENTES escrita nele.
– Isso é motivo o suficiente pra você pra querermos pegar essa turminha?
– Isso não se trata mais de uma mulher que resolveu matar o ex. – termina Ana. – estamos falando de tráfico de drogas e de muitos outros crimes que não podemos nem mensurar. O pessoal da Federal levou muito tempo pra rastrear a conexão entre a Rafaela e o Peixe. E quanto mais conseguirmos chegar perto dele, melhor.
Quando eles finalmente terminam de falar, o silêncio parece pesar no quarto. Mais um pouco e dá pra tocar nele – e ele é duro que nem uma parede de cimento sem reboco. Sinceramente, não sei o que dizer. Como é que uma pessoa consegue atrair tanta merda pra sua própria vida como o Saffron conseguiu?
A grande questão aqui é saber se ela já era maconheira antes de pedir o divórcio ou decidiu se afogar no pó depois de ter dado o pé na bunda dele.
– Naquela hora, no vídeo... – comento, olhando pra Ana. – Quando ela se abaixa perto do Leon...
– Ela o esfaqueou. – Alia responde, enquanto a Ana vai virando um pouco pro lado como se aquilo mexesse tanto com ela que ficava difícil falar. A Alia falta cuspir no chão de raiva enquanto conta isso. – Ela tinha uma faca, provavelmente pro caso das balas acabarem, coisa do tipo. Pelo que ele contou no depoimento, ela dizia coisas do tipo “Mamãe vai curar você” e enterrava a faca no ombro dele pra tentar tirar a bala.
– Sejamos justos, ela conseguiu... – comenta Xavier por alto.
– Sim, ela tirou a bala, mas quase cortou todos os tendões dele no processo! – a loira de repente se exalta. – E se o menino ficasse aleijado, Xavier? E se ele nunca mais conseguisse mexer o ombro de novo?
– Se ele ficasse aleijado, seria outra situação. – responde ele em tom de quem encerra a conversa. – Como não ficou, só podemos agradecer a Deus.
– Vocês não vão deixar ela ficar com ele, não é? Aquela maluca NÃO PODE ficar com ele! Ela vai matar ele uma hora ou outra! – falo, ficando bem nervoso com tudo aquilo. Que diabo de gente é essa?
– Hmm, receio que isso não seja mais possível, Sven. – diz Ana. – A Rafaela se meteu em um lugar em que nem nós poderemos mexer com ela.
– O que, ela fugiu do país com a máfia? Ou ela tá presa?
– Ela morreu.
... morreu. ÓTIMO, MORREU. Até pra escapar a filha da puta tem sorte, fugiu de volta pro inferno que é de onde ela nunca devia ter saído!
– Como assim morreu? Como ela morreu? Onde?
– Isso é outra coisa que não sabemos afirmar. – volta a falar Xavier. – A polícia militar acionou a gente porque achou o corpo dela em Santa Luzia, jogado em um beco de um bairro aparentemente respeitável, sem relação com tráfico ou bandidos. Tudo bem que todo bairro tem seus pés-de-chinelo, mas ela era quase um peixe fora d’água ali.
– Santa Luzia não é uma cidade a quase 500km daqui? O que ela tava fazendo lá?
– Provavelmente na fuga não planejou muito bem a rota... – continua ele. – O fato é que ela estava sozinha, em um bairro que não tinha nada a ver com ela, morreu de um jeito tão cruel que só descobriram quem ela era por causa do DNA, e o pior de tudo: não temos suspeitos nem testemunhas e todos que teriam interesse na morte dela tem álibis firmes o bastante porque estavam neste hospital.
Dou de ombros.
– Ué, ela não era traficante? Podia ser dívida, ou briga de rival. Ela não soube se defender e dançou.
– Não é coisa de traficante. – responde Alia na hora. – Traficantes odeiam deixar provas, geralmente eles matam e queimam até os ossos, pra pessoa sumir definitivamente. O corpo dela foi deixado no meio de um bairro residencial, com braços e pernas deslocados e o crânio e mais algumas partes do tronco esmagados com algum tipo de objeto de metal. Quem quer que tenha sido a encontrou no caminho e fez questão de mostrar que estava com raiva.
– Sven... – Xavier aproveita a folga pra se aproximar da cama e sentar. – Sei que pra você não vale a pena falar sobre isso porque ela tá morta e não podemos mais fazer nada, mas qualquer coisa que puder nos falar sobre ela ou sobre o Peixe pode nos ajudar a tirar gente realmente perigosa das ruas. Sei que não podemos fazer nada pra ajudar você e o Saffron, mas se tiver qualquer coisa pra nos dizer...
– Tá, eu já entendi – suspiro. – Mas não vou ser de muita utilidade pra vocês, só conheci a Rafaela no julgamento e antes disso tava no interior com meu irmão. Por mais que eu queira, não tenho nada pra falar sobre ela além daquilo que todo mundo já sabe.
– ... Certo.
– E tem mais uma coisa, eu tô cansado desse vai e vem de assunto. Quero saber com quem o Leon vai ficar e pronto.
A Ana olha pra mim, depois sorri sentada na cadeira.
– Com a Rafaela fora do páreo, o processo se perde porque não tem quem dispute a guarda por ela. Além do mais, depois do depoimento dele no juizado, a assistente social do meu departamento conversou com ele, e achamos que a melhor coisa no momento é ele voltar pra perto do pai. Por mais difícil que seja a situação, nesse momento é o que os dois querem. E se a coisa ficar realmente complicada, o avô e os tios se ofereceram para dar amparo no que eles precisarem.
Até que enfim uma boa notícia depois de tanto tempo. Isso faz meu coração ficar quilos e quilos mais leve. Bem, um problema a menos.
Mas isso traz à tona um tópico que eu ainda não queria discutir: meu avô. Só de lembrar daquele velho senil eu já fico com ódio de novo. E dito e feito, esse é o comentário que a Ana faz logo em seguida:
– Sven, sobre aquilo que falamos sobre seu avô... já pensou em algo a respeito?
Bem, já tenho uma breve noção do que vou dizer mesmo não sabendo muito bem do que se trata. Mas no fim, sou poupado de responder porque a porta abre de novo, e vejo Mille entrar trazendo o Leon de mão dada com ele.
– Ei, Sven! – ele entra, animado, com o Leon calado e colado nele. – O Azhi tá aí? Preciso levar um papo com... – a voz dele se perde, e ele observa as visitas. — Ah... olá, pessoal...
– Vermillion Demeter! – sibila Alia, deixando sair seu lado víbora. – Onde esteve todos esses dias? Estávamos esperando notícias suas urgentemente!
– Bem, como eu dizia, tô indo nessa! – ele tenta recuar, mas Alia o puxa pelo colarinho da blusa.
– Eu ainda não terminei com você! Onde você esteve? E acima de tudo, o que aconteceu com aquelas fotos da casa em Lago Azul? Não me diga que atrasou de novo a missão porque ficou batendo fotos aleatórias e flertando com mulheres!
– Hmm, me desculpe Alia, mas acho que flertar com homens não faz parte da minha natureza, mas pode tentar dar uma palavrinha sobre isso com o Sven...
– EI! – grito na hora. — Não sou viado!
– E você cale-se que temos que conversar bem baixinho! – responde ela de volta pra ele, empurrando ele pra fora. – Xavier, me acompanha? Acho que nosso trabalho terminou por aqui.
– Tudo bem, me espere lá fora, só me dê mais um minuto...
Os dois saem, e Xavier, já a caminho da porta, tira um papel do bolso e me dá na mão. Achei que fosse um cartão dele ou algo do tipo, mas na verdade é uma xerox de um bilhete comum, escrito originalmente em um bloquinho de papel do hospital.
“Desculpe a demora, queria poder ter feito mais.
K.”
– Deixaram isso na sua mesa, aqui no quarto do hospital, logo que você deu entrada. Achei que devia saber, talvez te traga alguma informação importante...
E com mais um sorrisinho, ele saiu do quarto. Ana levanta também, olhando pro Leon, e me cumprimenta com um sorriso.
– Voltarei em outra hora pra terminarmos a conversa, ok?
Com isso, fico sozinho no quarto com ele. O barulho de chuveiro já parou há muito tempo, mas sinto que o Azhi só vai sair do banheiro quando tiver certeza de que não vai interromper absolutamente nada – o que pode demorar mais um pouquinho.
Ele a princípio não diz nada. Enquanto ele para na frente da minha cama, vou vendo um pouco melhor o estado dele. Diferente do jeitão animado de sempre, ele agora tá sério que nem segurança de puteiro. O curativo do ombro dele agora tá menor, e como ele tá de regata dá pra ver as cicatrizes dos cortes que ele levou da mãe. Feias do jeito que tão, acho que vão ficar pra sempre. Pena.
A boa notícia é que eu acho que ele teve alta, porque ele não tá mais com roupa de hospital. Nem tudo pode ser tão ruim assim. Ele deve ficar com o avô até o Saffron sair do hospital, e depois vida nova. Espero que a vadia tenha pelo menos deixado uma pensão pra ele antes de explodir a própria cabeça por aí.
– Papai também ganhou uma dessas. – ele diz, apontando pra xerox da carta que eu acabei de pegar. – É do tal do K, né?
– É. – mostro pra ele. – Você sabe quem é?
– Não. – ele abaixa a cabeça e lê. – A nossa é diferente, ele disse “Sinto muito se não pude ser útil como deveria”, alguma coisa assim. O papai disse que acha que sabe quem é, mas não me disse quem porque disse que não tinha motivo pra ele estar lá na hora, daí eu num sei quem é.
Dou um suspiro e me esforço pra sentar direito na cama. Em seguida, dou um tapa no colchão, e ele sobe pra sentar do meu lado.
– A médica me deu alta hoje. Você vai ter alta quando?
– Não sei, acho que só vou saber amanhã ou depois.
– Você se machucou muito?
– Ah, um pouco... é preciso mais que um tiro ou dois pra me derrubar!
Ergo o braço pra fazer pose, mas antes disso ele puxa meu punho. (curiosidade biológica: punho = parte do corpo que liga o braço e a mão, pulso = pulsação.)
– Você levou um tiro aqui?
– Levei. Bem... – aponto. – aqui.
– E no outro braço, o que aconteceu?
– Eu caí de um prédio e dei um jeito nele, mas já passou.
– Deve ser uma droga ficar aleijado dos dois braços.
– Ei, eu não tô aleijado! Olha aqui, ó! – e começo a girar o braço direito. – Dói um pouco, mas não quebrou nem nada, o Hitori deu um jeito nele e ficou bom.
– A tia Sophia disse que você torceu o braço porque seu avô te bateu. Isso é verdade?
Tsc, sempre direto...
– É, é sim. Mas não se preocupe, é preciso mais do que umas porradas de um velho gagá pra me derrubar!
Ele fica um longo tempo em silêncio, pensativo.
– E seu avô vai ficar de castigo?
– Ahn?
– Olha só, eu acho que todo mundo que bate demais em uma pessoa tem que ficar de castigo. É que nem no meu dojo de karatê, só que lá a gente tem que fazer flexão e se for muito sério leva surra de faixa. Daí o seu avô vai ficar de castigo também?
Nessa hora lembro do que o Azhi comentou sobre a prisão do velho.
– ... provavelmente.
– Ele vai levar uma surra de faixa também?
– Acho que ele vai levar um outro tipo de castigo... – um que envolva homens maiores que ele em celas super apertadas, pra ser mais exato. Ou não. Mas tá, já chega de falar disso. – E o teu pai?
– Tá bem... ele já tá no quarto, o médico liberou ele pra receber visita o tempo todo e ele tá num quarto agora. Daí a gente pode ficar sozinho com ele que ninguém enche muito o saco, só as enfermeiras, mas as enfermeiras a gente tem que deixar entrar porque elas tem a medicação, e tal. E outra, o tio Mille gosta de ficar olhando pra bunda delas quando elas se abaixam, ele empurra a escada pra baixo da cama e quando elas vão ajudar o papai a sair da cama elas se abaixam pra puxar a escada e ele fica olhando pra elas.
Hmm, é um truque interessante... pena que pra mim não daria certo porque eu estaria em um ângulo desfavorável pra ver a bunda dela quando ela se abaixasse. Mas no fundo, eu fico me perguntando se o Mille é tão cuzão assim que precise ficar fazendo essas coisas pra ver uma bunda de perto.
– E você fica olhando também?
– Ah... de vez em quando.... – ele fica olhando pro teto, meio sem jeito, e de repente se assusta e vira pra mim rápido. – V-v-você num tá gravando isso né?!
Aquilo em faz rir, de verdade. Olhando assim dá a impressão de que não dou risada há anos.
– Não, não estou. Primeiro porque eu não teria como ter conseguido um gravador, acordei ontem já aqui no hospital e minhas coisas tão com o meu irmão. E segundo, acho que não preciso mais, já que agora não tem mais ninguém pra te ameaçar e vocês vão poder viver juntos de novo.
Isso faz ele se calar de novo. Ele suspira, olhando pra parede, até falar comigo de novo, mas ainda sem manter contato visual.
– E-eu só queria dizer que sei o que você quis fazer... sabe, sobre ter gravado as coisas. – e como se ele já não tivesse com a cara virada o suficiente, ele continua torcendo o pescoço pra olhar pro outro lado. – Eu só queria fazer as coisas direito. Era pra ter dado tudo certo, eu não queria que ninguém se machucasse, nem que a mamãe ficasse com raiva de mim...
Me inclino um pouco mais pra frente e ponho a mão na cabeça dele. Sei lá, nunca tive jeito com crianças, mas acho que é uma coisa que ele podia ter agora.
– Vem cá. – dou um puxão leve, e ele se aproxima de mim. – Você não é culpado de nada. Você é só um garoto de 10 anos, nem devia ter sido metido nisso pra começo de conversa.
Ele se vira pra mim e deita a cabeça no meu colo, triste. Nesse momento, percebo duas coisas: um, que ele não tá necessariamente me acusando, ou se responsabilizando, ele só quer desabafar, e essa parece ser a primeira vez que ele faz isso. E dois, que ele só ficou atolado no meio desse processo todo porque eu insisti em usar as gravações.
Talvez se eu não tivesse usado o Saffron teria perdido a causa, mas pelo menos o Leon não ficaria se remoendo desse jeito. Difícil.
– Ei, Leon...
– Hm?
– O teu pai... ele tá muito puto comigo? Quero... falar uma coisa com ele...
Ele olha pra mim, pensativo. Depois, pega o papel que o Xavier me deu, levanta da cama e pega um lápis em um dos armários.
– Eu ainda não perdoei você por ter traído a gente. Acho que você devia encolher pra alguém segurar uma lupa em cima da sua cabeça em um dia de sol, mas o vovô disse que é ruim só pensar no que a gente quer e que a gente tem que abrir mão de vez em quando.
Ele termina de escrever na costa do papel e me entrega. Apesar de a letra dele ser meio torta, dá pra reconhecer com um pouco de facilidade a escrita: “Bloco B, 5º andar, apto 5061”.
– Fala com ele... ele já pode receber visita. É muito chato ficar sozinho aqui no hospital, não tem nada pra fazer, e eu não posso ficar com ele porque eu sou criança. O tio Mille vai me levar pra casa do vovô depois.
Só mesmo não conhecendo o Leon pra achar que ele é criança, viu?...
A essa altura o rosto dele já ficou sério de novo. Ele deixa o lápis no lugar de novo e vai andando pra porta.
– Vou atrás do titio... diz pro Azhi que eu mandei oi.
– Pode deixar.
E sai. Fico olhando por um tempo pro papel, pensando no que seria meu próximo passo. Um fodidamente longo e difícil passo, pelo visto.
–---------
Quase 5h da tarde, e eu me vejo na porta do quarto dele, esperando o momento certo pra entrar. Depois de almoçar decentemente como não comia há anos, tomar um banho pra tirar aquele cheiro de álcool (de hospital, não de bebida), de acertar umas coisas com a Ana e de uma longa e exaustiva conversa com Azhi, estou aqui. Mas não quero pensar em coisas já resolvidas agora. Eu tenho um pepino muito maior pra resolver dentro desse quarto, e não posso deixar nada me atrapalhar.
O problema é que já faz um tempinho que tô olhando pra essa maldita porta e não tenho coragem nem de bater. Tudo bem que foi o Leon, o próprio filho dele, que disse pra eu vir aqui e até me deu o número do quarto, mas será que ele não podia ter dito pelo menos se ele ainda tá com raiva de mim ou não?
Difícil. Mesmo porque, o Leon ainda tá meio puto com esse negócio de eu ter gravado as conversas, então depois do show de análise que ele deu falando da relação do Saffron pra Rafaela na frente de todo mundo no tribunal, nada me faz pensar que na verdade ele fingiu que tá tudo numa boa entre a gente pra depois me trollar fazendo eu vir aqui falar com o pai dele e ele me encher de pedrada.
A essa hora não tem mais exame, e ele também já deve estar bem acomodado no quarto, então teoricamente tenho todo o tempo do mundo pra ficar aqui esperando. Me pergunto o que ele tá fazendo lá dentro, se tá dormindo ou se tá fazendo medicação, ou até assistindo tv, porque parece que não tem mais nada decente pra se fazer quando se fica doente que não seja comer e ver tv. Parece uma vida boa, mas não é.
Bom, o fato é que não posso passar o resto da vida dando uma de segurança aqui no quarto dele. Até porque, eu saí do meu quarto sem autorização, e se uma das enfermeiras descobrir que eu tô aqui eu tô bem ferrado, mas foda-se, já me ferrei bem mais em outras vezes. Então, depois de mais um último suspiro (que falta faz um cigarro), abro a porta e entro com um passo só.
E depois do susto inicial, percebo que o quarto dele é muito parecido com o meu, só que com a cama e o banheiro virados pra direita, e não pra esquerda. Como imaginei, a tv tá ligada em alguma novela besta, e ele tá sentado na cama, agora olhando pra ver quem foi que entrou.
– ... Sven?
Só o olhar dele pra cima de mim já me deixa putamente ansioso. Parece que de repente eu lembro como essa conversa pode ser séria. Cara, que vontade de ter um maço de cigarros agora, e mais ainda de poder acendê-los aqui dentro.
E ele abre um sorriso. Não é simplesmente mostrar os dentes e sorrir, até porque esse sorriso é meio fechado, sem dentes. Sei lá, não sei explicar. Ele dá um sorrisinho, é a coisa mais babaca do mundo, mas aquilo vem pra cima de mim como se quisesse me matar. Ele tá feliz de me ver, mas ao mesmo tempo tá cansado, e tem uma coisa na cara dele que eu não gosto muito, mas não sei o que é.
– Ei, vai ficar parado aí? – ele diz, virando a cabeça. – Senta aí...
Bom, não tem como conversar se eu não chegar perto dele, então acho que é um pedido válido. Conforme vou entrando no quarto, observo que a cara dele tá mais redondinha. Aliás, não só a cara, ele inteiro tá mais... inchado? É, acho que é essa a palavra. A pele dele tá mais tufada por causa do tanto de soro que ele não deve ter tomado. Dizem que pra fazer cirurgia do fígado tem que ficar um tempo sem comer.
Como ele tá de pijama, não dá pra ver o curativo, mas dá pra ver que a perna dele tá esticada por cima da cama e enfaixada com uma tala, e o braço esquerdo dele tá com uma faixa também por causa da bala. Ele não tá ruim de saúde, só com o aspecto um pouco cansado.
Ao mesmo tempo que me sinto aliviado de ver que tudo deu certo e que ele não morreu, sinto minha cabeça pesar pensando em tudo que vou dizer. Nem sei direito por onde começar, ou pior, nem sei se vou conseguir começar, porque até pra andar me sinto duro feito pedra (e isso não tem nada a ver com o meu pinto). Mas uma parte de tudo isso se dissipa quando eu percebo que ele tá com uma pilha de papéis por cima do colo, olhando um livro que tá na mão dele e segurando a caneta na outra.
– Saffron...
– Senta aí, pode pegar aquela cadeira...
– Saffron, você tá trabalhando?
Ele faz uma cara meio sem jeito, obviamente frustrado por eu não ter ignorado isso.
– Ah, tô só dando uma olhada nas coisas, como eu fui demitido do Silvério e vou ficar uns meses sem trabalhar por causa da licença médica, preciso pensar em algum jeito de me sustentar nesse meio tempo...
– Você. Levou. Um. Tiro. – respondo, puto da vida, bem pausadamente pra ver se ele entende isso. – Você. Saiu. Da. UTI. Ontem. Custa pelo menos uma vez na vida descansar?
Antes mesmo que ele possa falar mais alguma coisa, começo a recolher tudo quanto é papel e caneta de perto dele. Empilho tudo na cabeceira e finalmente sento na cadeira que ele falou.
– Você já se sente melhor? – ele pergunta, apontando pro meu braço. – Você também deve ter passado por umas poucas e boas aqui no hospital, seu irmão me falou que você dormiu quase 2 dias inteiros antes de te sedarem...
– Que nada, vaso ruim não quebra. – dou um suspiro pra tentar parecer tranquilo.
– ... Quer parar com isso?
– Isso o que?
– Isso de ficar brincando com a sorte.
– Não estou, se fosse assim eu já estaria em Las Vegas.
Ele suspira.
– Não foi isso que eu quis dizer...
Desculpa, seu loiro burro, mas o assunto aqui não sou eu.
– Soube que o Leon vai ficar com você no final das contas.
– Ah, sim... – ele sorri de novo. – Fico feliz que tudo isso tenha acabado, tá certo que não foi exatamente o final feliz que eu esperava, mas dizem que tudo está bem quando acaba bem, então...
Ele solta um longo suspiro, e todo o ar animado dele vai embora. De repente percebo que ele não tá nem aí se ele perdeu um pedaço do fígado ou não, mas a reação dos outros a isso parece ser uma coisa que realmente o atormenta.
– O Leon parece bem agora. – falo, pra tentar amenizar as coisas. – Ele foi me visitar no quarto hoje.
– Ah, sim, o papai me falou... ele gosta de você, sabe? Acho que ele sente falta do tempo que vocês podiam ficar juntos em casa, apesar de tudo. E agora depois de tudo isso com a mãe dele, eu não sei como ele vai reagir...
– Ele já sabe que a v... Rafaela morreu?
– Não íamos ter como esconder isso dele... – ele vai ficando com um semblante meio pesado. – Além disso, acho que é melhor ele saber toda a verdade. E com tanta coisa passando na minha cabeça, não posso perder tempo pensando em como vou esconder as coisas dele ou inventar desculpas pros erros dos outros.
Mais um suspiro.
– Foi você mesmo que contou?
– Foi o Mille. Eu tava na UTI ainda, só fui saber do que aconteceu depois do tiroteio há uns 3 ou 4 dias atrás, quando liberaram as visitas. Ele que contou ao Leon e a mim, na hora certa claro, e ficou fazendo companhia pra ele durante o enterro da Rafa.
Rafa? Como assim, Rafa? Desde quando você chama aquela puta desse jeitinho?
– Sei que não tivemos uma relação muito boa, Sven, mas não acho que ela merecia uma morte dessas. É um pouco difícil pra mim acreditar que alguém no mundo, por mais cruel ou maligno que seja, mereça morrer assim. Achei que ela se tornaria livre depois do divórcio, mas parece que isso só serviu pra ela se afundar mais...
– Saffron... – não tô gostando do rumo dessa conversa... o jeito que ele fala, a expressão dele, parece até que... que... ah, não, puta que pariu... – Não vem me dizer que... que você ainda sentia alguma coisa por ela...
Ele olha pra mim de novo, de um jeito tão sério que parece até que ele tá vendo a minha alma. E aí, ele dá um sorrisinho fraco, desses mais amarelados que dente de fumante (mas o meu dente é bem branquinho).
Ah, puta que pariu, mano.
– É isso que você acha?... – ele completa, me deixando confuso de novo.
Ficamos em silêncio por um tempo. Ele pega o controle remoto, desliga a televisão e fica olhando pro lado da janela, pensativo. Sinto que agora quem vai desabafar é ele. Levanto da cadeira e sento na cama, mais ou menos perto dele, e assim que ele me vê ali volta a falar.
– A situação mais difícil que eu já passei na vida foi, de longe, o divórcio da Rafa. Quando ela engravidou, eu pensei "não tem problema, estamos juntos e vamos resolver isso juntos", e também foi assim na compra do apartamento e na hora de arrumar emprego... Ela e o Leon, a partir daquele momento, eram sempre meu apoio, minha motivação pra fazer tudo. E mesmo quando nós começamos a brigar, eu deixava tudo pra lá, achava que ia passar...
“Daí ela apareceu um dia dizendo que tinha conhecido uma pessoa, e que ia embora... Você tem noção do que eu senti naquele momento? O meu mundo ruiu, ela era tudo que me orientação, e de repente ela dizia que não queria mais nada... Mas o pior foi quando ela disse que não queria mais saber do Leon, como se ele fosse... Descartável, sabe?... Ele é NOSSO filho, e ela foi embora sem sequer olhar pra trás, e ainda teve a coragem de me dizer depois que não gostava do jeito que ele parecia comigo...
“Eu tive que engolir tudo, Sven. Engoli porque a partir daquele momento eu ia ter que ser tudo pro Leon, mesmo não conseguindo sequer cuidar de mim... E eu acho que só aguentei tudo aquilo porque sabia que eu era responsável por ele, que não podia me deixar abater... Mas como é que você consegue viver e ser pai e cuidar de uma criança sabendo que ele chora porque acha que a mãe dele não ama ele, e ouve a mãe dizer que odeia o filho porque se parece com o pai?....
“Quer dizer, o que eu fiz de tão errado assim pra ela além de me odiar, odiar a ele também? Meu Deus, Sven, ela tentou me matar... E não só isso, ela tentou matar a ele também... Você tava lá, você viu, ela... Ela puxou uma arma e atirou, como se não fosse nada... E você... Você podia ter morrido também, você tava todo ferido e foi lá pra me ajudar, e acabou levando um tiro também, e agora você Tá aqui no hospital também e.... E.... Meu Deus, você tem noção de como eu me sentiria se eu perdesse você? Tem noção de como eu me sentiria se uma pessoa que eu amo fosse embora assim, por culpa de um ódio desenfreado que nem o dela?....
Nesse momento, sinto que ele é, ao mesmo tempo, a pessoa mais forte e mais frágil que eu já tinha conhecido em toda minha vida. Ele tava ali, se expondo, falando tudo que tinha no coração dele e que ele não ousaria contar pra ninguém. E justamente por isso, ele tava muito nervoso, tremendo e quase à beira de perder o controle. Acho que se ele fosse uma mulher, já teria tido um ataque de choro há muito tempo. Por ser homem — e tentar manter a cara de um — ele só fica com aquela cara de choro, com o olhar perdido e fazendo força pra não ceder mais aos sentimentos que guardou pro tanto tempo.
Já eu sinto que preciso acalmá-lo. Ver ele ali, todo machucado por dentro e por fora, me dá aquela sensação de que um buraco vai se abrir no meu peito e começar a sugar o quarto a qualquer momento. E preciso fazer alguma coisa, só não sei o que.
E justamente por não saber, faço a primeira coisa que me vem à cabeça. Me aproximo um pouco mais dele na cama, pego o rosto dele com a mãos, pra fazê-lo me olhar, e o beijo.
Óbvio que a primeira reação dele é o susto. Mas em uma questão de segundos, ele cede e abre a boca, puxando a minha língua com a dele de um jeito suave e calmo, como se tivesse esperado anos pra fazer isso. Quem sabe ele tenha esperado, mesmo. Quem sabe ele não tenha sido o único que ficou esperando por isso.
Depois de um longo tempo em que não consigo pensar em mais nada, sinto ele apoiando as mãos dele no meu peito e me afastando devagar. Quando ele finalmente me solta, percebo a burrada que fiz olhando pra cima e vendo ele me olhar com uma cara de choque.
... fudeu.
– P-p-p-po-p-po-popo... – ele nem consegue falar! Puta merda, por que foi que eu fiz fazer isso? – Por que fez isso?!
– E você ainda pergunta?! – meu Deus, eu tô gritando. Eu tô tremendo. Eu tô vermelho. E-e-eu não sei... ah, que merda!... – Se quiser eu faço uma redação de trinta linhas!
– Mas... – ele tá tão vermelho e em choque quanto eu, acho que isso é um ponto a meu favor... – Mas... você sabia? Você sabia que eu... que você.... ah, o que eu tô dizendo... – ele respira fundo e me encara, e isso me dá vontade de sair correndo. – Sven, eu... eu queria ter dito antes... é que... ah... é que você armou pra cima de mim e eu não sabia o que fazer!
– Eu armei pra você? A culpa é toda sua! Ninguém mandou você ser besta!
– ... como é que é?
– Você nunca deu a mínima pra mim, você só me xingava e me chutava pro lado porque eu não sou bom que nem o Akio ou estudioso que nem o Davkas!
– Sven, do que está...
– Se você não fosse burro e tapado como é teria percebido que o que eu queria há muito tempo era que você olhasse pra mim!
E aí eu calo a boca. Ele também se cala, chocado, olhando pra mim como se... sei lá. Só sei que essa seria uma boa hora pra aliens invadirem o hospital e resolverem me abduzir e abrir minhas entranhas. Isso se eles não forem invisíveis e já não estiverem me abduzindo, porque essa palpitação acelerada e essa falta de ar não devem ser normais. Pelo amor de Deus, eu nem consigo olhar pra cara dele direito!
Ele fecha os olhos e vira o rosto. Meu Deus, ele vai me bater. Ele vai virar um soco na minha cara e eu vou ter que explicar pra enfermeira como foi que eu me bati daquele jeito dentro de um hospital. Talvez ele me perdoe se eu falar agora... talvez ele entenda... Ahhh, por que as coisas com homens tem que ser tão complicadas?! Com mulheres é tudo tão mais fácil... será que a presença de peitos me acalma?
Daí ele abre a boca e começa a rir. E não é simplesmente rir, ele tá se rachando de rir! ELE TÁ RINDO DA MINHA CARA!
– Sven, você é o cara mais sem noção que eu já conheci na minha vida! – ele diz, entre risos, só pra me deixar mais puto ainda. Cara, QUE ÓDIO! – Você achou... que... – e volta a rir de novo, completamente sem fôlego.
– Ah, claro, pode rir da minha cara, sou um idiota mesmo! – grito, empurrando ele pra longe. Faço menção de levantar, mas ele me puxa pelo braço me fazendo cair de bunda sobre a cama dele de novo. – Que é, tá a fim de me zoar mais um pouco é?
– Olha, da próxima vez que quiser dizer a alguém que está apaixonado, experimente não arruinar a vida dele no processo. – ele diz isso sorrindo. – Aliás, eu prefiro que você não queira se declarar pra ninguém nunca mais na vida.
– P-por que?... – mesmo com toda a vergonha e raiva, não consigo evitar a pergunta.
– Porque me deu muito trabalho pra ter você perto de mim... – ele diz, ficando vermelho também, mas ainda com o sorriso. – Dane-se os outros, eu quero que você se declare pra mim e pra mais ninguém...
Acho que meu peito nunca deu um solavanco tão forte na vida. Tento virar pro lado, mas quando eu vejo, ele já tá se inclinando pra vir pra perto de novo. Nesse exato momento, olhando pra ele com os olhos meio fechados, o rosto completamente vermelho, é que eu percebo o quanto eu desejei que isso acontecesse. Daí pra frente, tudo é automático: fecho os olhos, deixo o rosto ir um pouco mais pra frente até que sinto os lábios dele se esbarrando nos meus.
A sensação é completamente diferente do que eu imaginava. Não é como se fosse diferente de beijar uma garota, porque teoricamente bocas são todas feitas do mesmo material, mas ainda assim... é algo dele, sabe? O jeito que ele puxa o ar quando chega mais perto de mim, os lábios dele se esfregando nos meus pra depois puxarem a minha língua e voltarem com a mesma delicadeza de antes. E o pior: ele tá simplesmente imóvel, sem mexer nada além do que tem do pescoço pra cima, mas me provoca como nunca nenhuma garota, nem mesmo a mais safada delas, me fez reagir durante toda a minha vida.
Uma breve pausa pra retomar o fôlego, e ele me olha de um jeito quase impressionado, enquanto o peito dele sobe e desce pra tentar estabilizar a respiração.
– Tem certeza de que quer isso? – ele pergunta, voltando a ficar sem jeito. – Você sabe, somos homens... e eu sou seu professor...
– Não é mais...
– Sim, mas... você sabe que isso vai ser complicado, seu avô nunca vai deixar você....
– Ah, Saffron, foda-se todo mundo. – digo, já pra encerrar aquela conversa de uma vez. – Além do mais, meu avô vai ser preso, e eu acho muito bom.
– Você acusou o seu avô mesmo, então.
– Ué, não foi você que começou o processo? Se arrependeu, foi? Aquele velho precisa aprender umas poucas e boas.
Ele me olha como se estivesse meio em dúvida, mas suspira.
– Tem certeza disso?
– Porra, Saffron, aquele velho é um...
– Não falo do seu avô. Falo da gente. – ele puxa minha mão sobre a dele. – Tem certeza de que quer isso?
Apesar de eu ter certeza do que digo – e só agora eu percebo isso direito – ainda é meio constrangedor falar, mas ainda assim eu arrisco.
– Olha, eu nunca falei tão sério em toda a minha vida.
Dessa vez eu resolvo avançar sobre o Saffron, que agora é meu recém-adquirido namorado. Volto a beijá-lo, meio ansioso, e de repente ele me puxa pelo braço menos fodido, passando os dedos pelo meu cabelo. Vou empurrando ele na direção da cama, o beijo indo um pouco mais fundo, enquanto tento me ajeitar com ele com todas essas coisas de hospital e feridas que ainda não sararam.
É uma sensação incrível. Posso sentir a respiração dele misturada com a minha, a pressão dos lábios dele nos meus, o calor da pele dele que antes eu só conseguia sentir por um breve golpe de sorte. Agora você é meu, Saffron. Quando eu finalmente achei que tivesse te perdido, eu dei a volta por cima e te consegui.
Você é meu.
– Com licença... – ouço um estalo na porta, e em menos de um segundo já tô do outro lado do quarto, encostado na parede, vendo a enfermeira entrar. – Senhor Saffron, a sua janta...
A mulher entra, coloca a bandeja sobre a mesinha e de repente fica olhando dele pra mim, de mim pra ele. Porra, o que foi?! Será que tá meio na cara que a gente tava...?
– Senhor Saffron, está se sentindo bem? – ela pergunta, olhando pra ele. – Seu rosto está vermelho... acho melhor tirar a sua pressão!
– Ah... estou bem, Marília, n-não precisa se preocupar! – ele diz, meio nervoso. – Deve ser só a fome...
– Tsc, não sei não, você me parece estar com taquicardia... esses sintomas são perigosos, ainda mais pra você que acabou de sair da UTI! – e ela vira pra mim. – E você, rapaz, não é melhor voltar pro seu quarto? Daqui a pouco vão começar a servir a medicação da noite...
– Ei, espera aqui, quem é você pra... – começo a reclamar, mas por cima do ombro dela o Saffron acena que não com a cabeça. “Pode ir”, ele diz só com o movimento da boca. – Tá... deixa pra lá, vai..
Vou andando pra porta, meio chateado, mas aproveito pra dar uma última olhada nele enquanto a tal da Marília vira de costa pra pegar o estetoscópio. Ele abre um largo sorriso pra mim e põe um dedo na frente dos lábios, pedindo segredo. E claro que eu vou obedecer. E mesmo depois de sair do quarto, nada consegue tirar o sorriso que eu levo.
Porque afinal de contas, essa foi a nossa última conversa como meros conhecidos. Mesmo com todas as idas e vindas, o resultado final é que meu plano deu certo. E era só uma questão de tempo até eu poder clamar meu prêmio. Por um motivo muito simples.
Eu venci.
Notas finais
Sim, esse é o capítulo final! Aí estão todas as respostas de vocês (e talvez algumas perguntas a mais). Depois de quase um ano, fico muito feliz de ver o desfecho dessa história.
Espero ter surpreendido vocês. Me esforcei MUITO pra entregar esse final, e espero que ele tenha correspondido à expecitativa de vocês. Tomara que a espera tenha valido a pena...
Pra quem tiver gostado (ou até quem não gostou), deixe um comentário nas reviews e tal, mesmo quem nunac deixou review, pra eu saber se consegui chegar onde vocês queriam ou não, se tinham coisas a melhorar e tal... apesar de eu gostar pra caramba de elogios, não esqueçam que é só com críticas que um autor melhora!
E eu agradeço MUITO a todo mundo que leu comigo e chegou até aqui. Mesmo que eu não saiba quem você é, sei que você está aí em algum lugar lendo isso e agradeço a você todo esse tempo que passamos juntos. Pensei muito em tudo que escrevi pra agradar vocês!
Beijos, e até a próxima! \o/
(ah, esse é o último capítulo mesmo, mas eu não comentei nada sobre um epílogo~ fica a dica.)
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