Requiem Aeternam

16 O Magnum Mysterium


Notas iniciais
Quem aqui sentiu saudades?!

A pequena confraternização de Slughorn começaria dentro de duas horas. Despedi-me de Tom assim que soltou seus braços envoltos em meu corpo, encarando-me num misto de arrependimento e prazer. Existiam coisas sobre mim que o fascinava, eu estava ciente disso, porém, confesso que sua traição à minha confiança me incomodara mais do que faria a uma Auror experiente.

No fundo eu já imaginava que algo assim aconteceria: as coisas estavam calmas demais. Era 31 de dezembro de 1942, o último dia de um ano fatídico. Quanta desgraça o acompanhara, e eu nem havia vivido a realidade comum para me culpar de qualquer inércia. Uma jovem mulher jamais seria capaz de modificar algo naquele curto prazo, infelizmente.

Contudo, eu já sustentava algumas pequenas mudanças nos relacionamentos contratuais de Riddle, fosse com seus Comensais, ou comigo mesma. Naquela noite, a de seu aniversário, prometi a mim mesma que voltaria aos dormitórios antes da meia noite. Faria uma pequena ceia, sozinha e reflexiva, concentrando minhas energias em Victoria. Como estaria minha irmã nesse dia em questão?

Tom notou minha frieza, mas não me questionou. Provavelmente tomara minhas atitudes como as de uma menina ingênua cuja perspicácia ia pouquíssimo além do bom senso, afinal, estávamos apaixonados. Ri de desgosto. Devo ter aproveitado um ou dois momentos, não mais do que isso. Eram extraordinariamente calculados.

— Você chegou cedo. — comentou, adentrando o espaço quente do Salão Comunal. — Antes de mim, inclusive.

— Estou aproveitando a solidão. — disse-lhe, não levantando os olhos do livro "Magia aplicada a níveis impossíveis" que havia comprado ainda naquele ano. Estava quase no fim.

— Ainda magoada?

Ergui meu olhar com superioridade, queimando-o como pude.

— Eu? Está enganado. Esqueci absolutamente tudo no momento em que você se declarou para mim, mais cedo. Pode vasculhar minha mente o quanto quiser, Tom. — falei com sinceridade, considerando o fato de que havia magia negra demais em cada ação futura que o envolvesse e a mim, na tentativa de me desvendar, ficaria louco. — Não vai encontrar nada.

Tom deu a volta, parando o corpo esguio coberto por uma grossa capa preta na frente da crepitante lareira onde eu lia. Ajoelhou-se para mim, tirando o livro dos meus olhos com certa irritação.

— Eu testei sua mente desde o primeiro momento que me encontrara na sala de visitas, no orfanato, Valery. Não preciso da varinha para fazer isso.

Anotei mentalmente a informação.

— E então?

— Você parece ser mais forte que eu. Isso eu não entendo. Ao mesmo tempo, te sinto frágil.

Sorri, erguendo-me devagar. Ele notara as barreiras intransponíveis do espaço-tempo que corrompiam minha personificação, fosse fisicamente, quanto mentalmente. Minha existência naquele plano era uma reta infinita apenas para um lado, pois ele era o ponto de convergência. Tom era inteligente demais para sua idade, assenti, completando meu raciocínio. Entretanto, minha condição era inteligível para seus poderes no presente.

— Você consegue escutar o pensamento de qualquer pessoa? — perguntei sincera. — Não precisa forçar as barreiras da mente quando as invade?

— De onde veio isso? — rebateu. — Achei que estivéssemos falando de outra coisa.

— Estamos atrasados. — comentei, pegando o livro de volta. — Pode ir na frente. Tenho que fazer uma coisa.

— O que seria? — franziu o cenho, confuso, mas não me impedindo de sair pela passagem em direção às escadas superiores.

— Te encontro depois.

Caríssimo(a).

Perdoe-me por não ter contigo antes. Outras atividades ocuparam-me o tempo. Segue um anexo de informações como me foram solicitadas. Espero que o animal seja capaz de levá-las em segurança... Infelizmente não é muito, a família mantêm-se reservada de escândalos após o incidente mencionado adiante.

Sigo à disposição.

Ass. Sir E.G.&co

Estava ainda mais frio fora dos enormes muros de Hogwarts. O corujal aberto fazia sons sibilantes da ventarola que zanzava pelos cantos até a alta torre onde me encontrava agora. Estremeci, segurando firmemente a carta que mudaria um pouco o curso desta façanha. Fui otimista ao pensar que Gatwick conseguiria as informações dos Riddle antes de Tom, e este não me decepcionara.

— Dará a você as informações que Tom busca. — enfatizou-me Dumbledore, segurando uma das várias memórias de Tom em suas mãos longas e brancas, uma delas, manchada de negro pela maldição não detectável do anel que jazia inquieto sobre sua mesa. — Será muito mais fácil, assim. Talvez você presencie uma tragédia.

— Mais uma. — acrescentou Snape, com semblante cansado, na tentativa falha de amenizar o estrago da maldição no corpo idoso do Diretor.

— Devo abordá-lo? Dizer a ele das coisas que sei?

— Primeiro, Tom questionará sua genética bruxa, e é natural que o faça, estando em Hogwarts. — Dumbledore pousou a memória em sua vitrine calmamente. — Não vai ser uma relação imediata com os Gaunt. Sinceramente, eu creio que só os tenha descoberto após o paradeiro dos Riddle.

Portanto, a família trouxa veio antes.

"MISERÁVEIS CRIAM DISCÓRDIA EM VILA DA REGIÃO", Hangleton Village, setembro de 1923. Mencionava o suposto filho dos Riddle e o filho do velho encrenqueiro Gaunt, apesar de não utilizar nomes reais para detalhamento.

"MORADORES DE L.H. PEDEM QUE GOVERNO DESAUTORIZE LIMINAR QUE PREVÊ PORTE PERPÉTUO DE TERRA A ESTRANGEIROS DESERTORES", Hangleton Village, março de 1924. A par das consequências da guerra de 1918, o artigo dispunha de uma lista de assinaturas dos moradores locais onde se podia ler claramente a caligrafia de Thomas e Mary Riddle.

"FILHO DE TRADICIONAIS SE ENVOLVE COM MOÇA INCOMUM E OFERECE RECOMPENSA PELO PARADEIRO DO CASAL...", Hangleton Village, s/d, 1925. Aqui, com certeza, tratavam de explicar de maneira trouxa o que havia acontecido com o inquestionavelmente ético Tom Riddle — novamente, sem mencioná-lo. O jovem fora, de modo perturbador e violento, tirado do vínculo familiar por uma mundana sem referências, e levado por ela para longe, onde pudesse controlá-lo.

Dumbledore tinha razão. Não seria difícil para Tom prever o que acontecera.

"...Consegui com muito sacrifício..."

Congelei. Não pelo frio entorpecente que pairava sobre minha face embranquecida, ou por ter parado no meio do caminho de volta, entre a neve fina que insistia em voar a minha volta.

Uma foto imóvel e comum mostrava um casal totalmente incomum. Sr. e Sra. Riddle. S/d, Londres, 1925. O homem jovem usava um belo terno recortado sob medida, sapatos lustrosos, limpos, de ótima aparência mesmo com a fotografia estando surrada em tons de sépia, amassada e bastante desgastada nas bordas. Ele não sorria. Seu rosto etéreo não expressava sequer uma emoção, fosse de contentamento pela celebração, ou por mísero esforço. A mulher, em sua melhor vontade, tentava permanecer ao lado dele como se pudesse fazer parte daquele cenário indigente, vestida com um traje muito maior que seu pequeno e torto corpo, os cabelos mal escovados caindo-lhe sobre o rosto deformado enquanto olhava para baixo em sinal de submissão.

Sr. e Sra. Riddle. Tom e Mérope.

Surpreendi-me quando o calor voltou a me tocar o rosto numa expressão de incrível realização da mais inimaginável das façanhas: nem Tom, nem Dumbledore, ou qualquer interventor do passado teria aquela relíquia. O registro de casamento deles, provavelmente guardado em algum cartório de Londres, demarcado, mas sem data definida além do ano promissório.

Aquele documento seria de fato inacessível para Tom, já que demandaria uma fortuna em sua investigação. Não me faltava dinheiro. Recompus minha energia e apertei o passo, guardando cuidadosamente os artefatos de volta no envelope para lacrá-los magicamente no dormitório mais tarde. Mas, antes, espiei novamente a foto dos Riddle, percebendo traços de ambos homem e mulher no filho que eu tão bem conhecia e, mesmo que sua boa aparência tivesse decorrido especialmente do pai, anseio de Mérope antes de morrer, havia muito dos Gaunt que mesmo ela não conseguiria negar.

A maldade, ingênua, sim, mas ainda má, para conseguir tudo o que se deseja.

— Achamos que não viria mais, Srta. Westwood! — Slughorn cumprimentou-me visivelmente alterado. — O Tom aqui já estava ansioso... — confidenciou-me mais baixo, rindo em seguida.

— Eu precisava ir ao corujal, senhor. Tinha esperanças de receber alguma mensagem...

— E recebeu? — perguntou inquieto, bebericando uma bela taça âmbar.

— Não, senhor.

— É melhor estar atenta ao aqui, ao agora, Valery. — disse ele, olhando-me profundamente com ares paternos. — O hoje é nosso maior presente! Um brinde!

Outros continuavam suas conversas sem notar minha presença. É claro que Riddle imediatamente acercou-se, trazendo consigo uma taça de champanhe borbulhante. Ofereceu-me, e recusei prontamente.

— Vou beber antes de você. — disse, entendendo minha consternação. Virou parte do líquido numa única golada, sorrindo graciosamente. — Está bom. Provavelmente contrabandeado, e de qualidade questionável, imagino, amanhã teremos que nos hidratar em dobro por conta disso...

Tomei o restante da taça, tossindo subitamente pelo amargor do gosto da bebida. Era realmente boa, mas forte, um tanto fermentado. Tom abriu ainda mais seu sorriso vendo-me degustar até a última gota.

— Eu estava conversando com Jean Baptiste Houdebourgh, aquele rapaz de sobretudo vermelho. — disse ele, manejando a cabeça levemente para onde Jean, o mais jovem Auror de sua classe, trocava ideias com os demais. — Ele enfatizou que a guerra bruxa, assim como a guerra trouxa, está para terminar.

— Otimismo? — revirei os olhos, servindo-me de mais bebida. Sabia que os confrontos estender-se-iam por pelo menos mais dois anos. — O que o leva a pensar assim?

— Enfraquecimento dos exércitos, suponho. Mas ele não me pareceu uma pessoa que circula pelas ruas de Londres na véspera de ano novo.

— Talvez seja a escassez de alimento, suprimento, recursos básicos para confronto em terra, falta de munição, pessoal qualificado, entre outros... — enumerei, refletindo que seria meramente impossível que as guerras cessassem no ano anterior a 1945, antes do confronto final entre Dumbledore e Grindelwald, cujo paradeiro era desconhecido após os eventos na década de 30. Sua relação com o professor de Transfiguração tinha sido finalmente encerrada.

— Você viu o que eu vi muitas, muitas vezes, Valery. Estar aqui hoje é algo recente. Com ou sem guerra, a miséria percorre as ruas das cidades grandes independentemente do feriado. Ano novo para quem, certo?

— Tem razão. — Algumas coisas não mudariam de uma época a outra, como a pobreza, a natureza perversa do ser humano, ou a discriminação. Contudo, ainda estava me acostumado com as sirenes dos ataques aéreos, com a correria para as estações de metrô, as chamas tomando conta dos cantos da cidade em que havia crescido e amado com todo meu coração. Londres em 1943 não seria diferente da de 1942. Seria pior.

— Quer ir embora? — perguntou-me de repente.

— Tom Riddle! — do outro lado, caminhando em passos largos, um rapaz alto vinha em nossa direção. Seu rosto era notável, belo em sua estranheza — os olhos tingidos de negro como se a tinta escorresse pela pálpebra, caricato. Não o reconheci.

— Wiglaf. Não imaginei que estivesse aqui.

— Slughorn insistiu. Parece que tinha pessoas para me apresentar antes que eu ingressasse no último ano, afinal.

— Como se você precisasse disso. — comentou Tom displicente e sarcástico, quase íntimo do homem a sua frente.

— Permita-me que eu a cumprimente, Srta. Valery Westwood. — adiantou-se, beijando minha mão num ato cavalheiresco. — Sou Wiglaf Sigurdsson, da última geração corvina.

Pisquei atônita.

— O que quer dizer? — questionei-o num átimo, simplesmente sem entender o que a última geração corvina significava.

— Oras, Tom, você não disse a ela? Bem, nós somos 4. — confidenciou sem delongas. — Grisha, Lazarus, Tom e eu. Somos herdeiros diretos dos fundadores de Hogwarts.

Encarei Tom com curiosidade. Ele me olhou de volta despreocupado.

— Isso é o que ele acha. — riu em deboche. — Ainda não comprovamos essa teoria.

— Logo será provada! Estamos na fase de desenvolvimento. Claro, demora tempo até maturar todo o poder que essa genética pode proporcionar e, sendo o mais velho, sempre fui o mais atento aos detalhes por aqui. — gesticulou. — Tom não é apenas um excelente bruxo a nível escolar: tem talentos que o próprio Slytherin valorizava com, digamos, exclusividade... — sussurrou. — Devia mostrar a ela.

— Numa outra ocasião. — Tom disse secamente, olhando-me de modo significativo.

— Apenas os dignos são agraciados com dons mágicos extraordinários. Não vejo a hora de conhecer os seus, Srta.

Sorri para ele educadamente.

— E o que o faz pensar que eu seja extraordinária, Sr. Sigurdsson?

Wiglaf encarou Tom e sorriu, pressionando seu ombro como o de um amigo secular.

— A propósito, feliz aniversário, Tom Riddle.

Notas finais
Recomendo fortemente prestigiar a obra italiana independente: "Voldemort: Origins of the Heir" no youtube.