República de Tigres
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Todos os leoninos estavam contente reunidos dentro da república, mais precisamente na sala onde conversavam sobre o processo de classificação, cada um contando suas experiências. A que mais gerou gargalhadas foi, sem sombra de dúvidas, a história de Connor fugindo do bode e em como aquilo poderia ter sido uma história trágica.
O modo como ele contava era tão dramático que causou ainda mais gritos esganiçados de Patrick que tinha uma gargalhada bem descontrolada.
— Vocês estão rindo agora, mas na hora eu juro que vi minha vida passar pelos meus olhos. — Disse ele encostando-se ao corpo do namorado, que coçava a cabeça e revirava os olhos ouvindo aquelas palavras.
— Esse filho da puta quase acabou com tudo, eu tinha a oportunidade de pegar a caixa e sair ileso e ele vai lá e traz o bode pra cima de mim. Você consegue ser muito burro, Connor. — O branquelo, acabando de se levantar, falou.
— Eu corri pra você achando que você seria capaz de me ajudar. Cara, era um bode muito violento, você não conseguia ver através dos olhos dele o quão maligno ele era?
— Só você pra aguentar isso, Ian. — Disse Danion ao se dirigir para cozinha.
— Como você descobriu o seu enigma, Julius? — Colin perguntou.
— Não sei. Eu saí do auditório, onde estava acontecendo o desafio do Marcus, muito p... — Julius então se lembrou de como tinha saído do auditório, extremamente chateado e insultando o amigo de todos os nomes possíveis. — Bem, eu não sei, só sei que decidi ir ao prédio de medicina e lá estava a caixa me esperando, juro que ela até sorria pra mim, feliz por ter sido encontrada.
— O que tinha mesmo escrito?
— “Willis” com as duas aspas.
— Círculo de Willis ou Polígono de Willis. — Ian tomou a palavra. — É o nome dado a um conjunto de artérias que leva o sangue até o cérebro. Já estudei isso com o William enquanto ele ainda era nosso líder, na verdade, eu só absorvi algumas informações enquanto ele estudava, servi mais como um avaliador fazendo as perguntas de um questionário que ele havia recebido.
Os calouros ficaram admirados com a inteligência de Ian, realmente era digno de ser chamado como o leonino mais inteligente da sua geração. Não era à toa que já estava fazendo uma pós.
— Como não podíamos usar o celular, isso impossibilitou que pesquisássemos, caso contrário teríamos ido direto para o prédio de medicina se soubéssemos o que era esse Willis. — Danion, voltando com um copo com água, disse.
— Afirmação óbvia, não é, Danion? — Colin falou. — Fica aí querendo bancar o inteligente na frente do Ian.
— Ah, vai tomar no teu cu. — falou o branquelo se sentando.
Todos riram.
Julius comia uma barra de cereal enquanto ouvia seus colegas conversarem. Marcus estava de pé, próximo ao corredor que dava em direção a cozinha. Os dois não tinham trocado uma palavra desde que haviam voltado.
Se não estivesse brigado, Julius já estaria bem empolgado falando sobre o desafio do colega e o quão estressante foi, porém ele permanecia chateado.
— Me da um pedaço. — Marcus pediu ao se sentar ao lado dele.
— Não. — disse, seco.
Incrédulo, Marcus franziu a sobrancelha.
— Vai mesmo me negar um pedaço? Porra, que deu em você que tá tão chato?
— Nada. — o garoto se levantou e se retirou da sala.
Ninguém tinha percebido aquilo, todos estavam muito empolgados em suas conversas paralelas.
Marcus, ainda espantado com a ação do amigo, levantou-se e o seguiu. Julius estava na cozinha, puxando uma tangerina da fruteira enquanto nem mesmo havia terminado a barra de cereal.
— Fala logo por que você tá de cara comigo. Somos parceiros, Julius.
— Eu não quero. Estou de mal humor, dá licença?
— Assim você parece aquela garota que beijou há duas semanas. Tão chata que foi por isso que você desistiu de ficar com ela.
Julius quis rir ao se lembrar disso, mas manteve-se na postura de quem estava chateado.
— Tudo isso é por causa do desafio?
— Você foi um pé no saco ali. — admitiu. — Porra, eu só queria ajudar e você me tratou daquela forma.
Marcus bufou, mas relaxou. Considerava Julius, às vezes, bem dramático em algumas situações. Na verdade ele era bem pirralho, apesar da idade que tinha, sendo até mais velho, por oito meses, que Marcus.
— Eu estava estressado, você não viu? Se estivesse no meu lugar aposto que você estaria na mesma situação.
— Mas você é muito competitivo, nem mesmo deixou eu te ajudar. Nós tínhamos a opção de troca, mas você fez questão de seguir sozinho. — falou ele enfiando três partes da tangerina de uma só vez na boca.
— Porra, você queria que eu fizesse o quê? Aquela garota fazia questão de apertar a porcaria daquele botão e assim me desafiar. Eu não iria desistir tão fácil.
Cuspindo os caroços da tangerina, Julius disse:
— Viu aí? Muito competitivo. Se me deixasse participar até seria mais rápido de resolvermos aquilo. E olha, no final eu te ajudei e você nem me agradeceu.
— Você saiu do auditório e nem me esperou.
Nesse mesmo momento Patrick tinha passado pela cozinha e isso gerou silêncio entre os dois. Como Patrick não era inconveniente optou por fingir que não tinha percebido a discussão deles.
— Ah, que se foda. Eu não quero saber, estou com raiva. — disse apanhando a barra de cereal e ainda segurando a tangerina em outra e assim ia retornar para a sala.
Marcus respirou fundo e segurou em seu braço, puxando-o de volta e fazendo uma expressão bem cansada, como se só o que fosse dizer era o suficiente:
— Me desculpa se eu chateei você.
Julius na mesma hora tentou se fazer de difícil, mas não resistiu, as pontas dos lábios foram subindo e logo um sorriso foi se formando.
— Agora para de ser idiota e me da essa barra de cereal. — disse o moreno roubando-lhe o alimento.
— Eu só desculpo você porque estou de bom humor. Eu estava doido pra te contar que ontem fiquei com a Leyla, aquela garota da nossa turma que sempre me rejeitava.
— Foi por isso que você não dormiu na república, filho da puta.
— E perder aquela chance? Aliás, ela tem uma amiga e eu disse que queria te apresentar.
— Por que você vive me envolvendo nesses seus problemas? Já disse que eu prefiro escolher as garotas com quem quero ficar.
Lá fora, enquanto eles conversavam sobre garotas na cozinha, Carter e Edgar aguardavam alguém abrir a porta. Carter tinha nas mãos uma saco pela metade com salgadinho de milho que partilhou com o primo até que o mais velho rejeitasse.
Quem abriu a porta foi o próprio Colin que mostrou um sorrisão ao ver o amigo Edgar.
— Soube que o Ian voltou. — disse Edgar sem entrar, mas Colin tinha dado passagem para que ele fizesse isso, no entanto, Carter quem tomou a ação ao ficar impaciente com a demora do primo. — Vim cumprimentá-lo.
— E vai ficar aí esperando?
Dessa vez o loiro entrou, meio tímido ao perceber que todos os leoninos estavam ali reunidos e bem empolgados na conversa, pensou em pedir pra voltar outra hora, mas Ian tinha o visto e também sorriu tão intensamente quanto Colin.
— Eu o vi nas arquibancadas hoje pela manhã, mas o perdi de vista. — disse o loiro se aproximando para abraçá-lo.
— Eu troquei de lugar assim que a competição começou. Aliás, também torci por vocês dos águias.
— Fomos um bom time apesar de umas discussões entre o Luke e o Samuel. — revelou.
— Eles ainda estão nessa? Jurei que quando voltasse pra cá iria encontrá-los juntos. — Ian olhou para o lado. — Sente-se, Edgar, tem lugar pra você.
O loiro se sentou ao lado dele, Connor abriu mais espaço para ele se sentir a vontade.
— Tenho assistido aos seus vídeos, Connor. O último foi muito divertido.
— Sério?! — bobalhão, ele sorriu de ponta a ponta.
— Sim. Você realmente leva jeito pra coisa.
Connor não resistiu e deu-lhe um abraço de urso tão forte que Edgar ficou todo vermelho ao ser solto.
De pé, Carter ficou próximo da escada encostado ao corrimão, mas logo se sentou em um degrau e continuou comendo do seu salgadinho de milho enquanto olhava impacientemente para o corredor.
— Quem é ele? — Ian perguntou ao colega.
— Meu primo. O nome dele é Carter, ainda não está na universidade. Veio pra concluir os estudos aqui. Não sei se soube, mas minha avó faleceu, então ele veio comigo.
— Sinto muito. É impressão minha ou ele está procurando alguém? Ele não para de olhar para o corredor.
Edgar sorriu.
— Advinha? Ele se apaixonou pelo Patrick, um dos novos leoninos. Mas o Patrick não quer nada com ele, infelizmente, morro de pena.
— Coitado. Mal chegou e já se aventurou nos romances. A Quadra sempre proporciona isso. Aliás, como está você e o Joshua?
O diálogo deles seguiu assim que Edgar respondeu como estava a sua situação com o namorado.
Connor, vendo que estava sobrando naquela conversa, saiu do sofá e foi em direção ao Carter, sem que tivesse intimidade alguma, enfiou a mão no saco de salgadinho e não foi nada modesto já que sua mão voltou cheia.
— Égua! — disse o loiro. — ‘Cê nem pediu.
Toda a sala foi tomada por uma gargalhada alta de Connor que acabou chamando a atenção de todo mundo que conversava.
— Ian! Você precisa ouvir esse cara falando. Diz aí, garoto. — falou e olhou para o Carter.
— Quê? — perguntou Carter.
— O que você tinha dito quando peguei seu salgado.
— Mas que ‘cê quer que eu diga, uai? ‘Cê pegou quase o resto de todo meu salgadinho.
— “Cês” tão ouvindo isso? — brincou Connor imitando o modo como ele falava e rindo. — Fala de novo, fala de novo.
— Égua, garoto! — resmungou o loiro.
Connor voltou a cair na gargalhada com o jeito ainda mais forte que Carter havia falado.
— Adorei esse cara! — sibilou Connor.
— Ele é meu primo, Connor. Não cresceu na cidade como a maioria é só o sotaque dele que é diferente.
— E-eu não tô zoando. Eu só achei divertido e maneiro.
— Aproveita que você correu do bode e usa ele pra narrar o seu vídeo, combina. — Danion disse.
— Cala a boca! — Colin falou ao tapar a boca do amigo.
Edgar não estava levando aquilo na maldade, ele sabia que Danion costumava fazer piada a respeito de tudo e também era característica dos leoninos serem agitados daquela forma.
— Qual o seu nome? — Calvin perguntou.
— Você tá brincando que não sabe o nome dele, não é, Calvin? — Colin perguntou.
— Por quê? Eu sempre o vi, mas não recordo de terem me dito o nome.
— Carter. — respondeu o loiro comendo o salgadinho.
Todos ficaram impressionados como sotaque dele soou ainda mais forte ao pronunciar seu nome.
— Por que ‘cês tão rindo, uai?
— Não se preocupe, só é realmente diferente o modo como você fala. — Ian disse.
— Cara, você topa gravar um vídeo comigo? — Connor, vendo naquilo uma oportunidade de criar um novo vídeo, logo questionou.
Os demais presentes voltaram pras suas conversas paralelas.
— Vídeo pra quê?
— Pra o meu canal, você iria bombar na internet. “O incrível garoto que não fala como a gente”. — fez um gesto como se estivesse estampando aquilo no cartaz.
— Eu vou ser famoso é? — perguntou empolgado.
— Não tanto, mas vai ser. A gente só precisa planejar um tema. O que você faz?
— Nada, uai. Só moro aqui.
— É... não da pra pensar num tema só com isso.
— Você costuma jogar?
— Bola?
— Não. Jogos pra videogame.
— Não, nunca tive um.
— Então se você for igual ao Ian, vai gerar boas visualizações porque ele não sabe jogar e o pessoal acha engraçado.
— Égua, ‘cê quer o pessoal tirando com a minha cara?
Mas Carter deixou de prestar atenção na conversa no instante em que viu o Patrick aparecer na sala, mas rapidamente voltar, sem nem mesmo ter notado o garoto ali.
— Não, mas isso aconteceria. Já sei! — disse o garoto empolgado como uma lâmpada acendesse em sua cabeça. — Você não cresceu na cidade, não é? Vou pedir aos meus seguidores fazerem perguntas pra você e como era morar no...
— Quando ‘cê quiser gravar algo só me chamar. — disse Carter sem nem da bola pra o que Connor falava.
O loiro logo se levantou e deixou Connor falando sozinho, ele foi até à cozinha onde lá encontrou Patrick sozinho preparando algo pra comer. Marcus e Julius já não estavam mais no cômodo.
— Oi. — disse o loiro com um sorriso no rosto.
Assustado, Patrick o olhou com estranheza.
— Trouxe pra ‘cê. — falou estendendo o saco quase vazio de salgadinho de milho.
Patrick olhou pra o saco e em seguida para Carter.
— Vazio?
— Égua! Aquele garoto comeu quase tudo. — resmungou.
Patrick não estava decepcionado com a história do salgadinho, ele estava surpreso com a presença do garoto ali. No lugar de Carter ele provavelmente não olharia pra cara de quem o rejeitou na lanchonete. Imaginou que quando encontrasse o loiro iria perceber a indiferença ou receber maus tratos, mas o garoto permanecia sendo o mesmo de sempre.
— Não fica triste, tá? Eu vou comprar mais pra ‘cê.
— Não estou triste, Carter. E não precisa. Eu tenho alergia a esses salgados.
— Égua! Eles são tão bons, como que ‘cê tem alergia?
— Tendo. Meu corpo fica coçando e criando calombos por toda a parte.
— Égua, cê tem azar, hein.
— Eles também fedem, então nunca me fez falta. — falou se sentando à mesa para comer o pão com geleia que havia preparado.
— ‘Cê desculpa eu por ter te pedido em namoro?— disse ele juntando-se ao garoto. — Eu ‘tava doido.
Patrick preferia nunca mais entrar nesse assunto.
— Tudo bem, acontece...
— Meu primo Edgar tinha me avisado, eu não tomei cuidado.
Era incrível a ingenuidade de Carter ao falar tão abertamente sobre o assunto. Patrick tinha que admitir que nessa situação, Carter era encantador, ele não fazia nada por maldade, mesmo após ser rejeitado, continuava com a mesma alegria de sempre.
— Você quer? — disse o leonino oferecendo sua refeição tentando mudar o assunto.
— Carter? — Edgar chamou da sala. — Eu já estou indo, você vem?
— Sim! — respondeu ao primo. — Eu vou ter que ajudar ele numa coisa. — agora falou com Patrick. — Fica pra outra hora nosso lanchinho, tá? Não se esquece de me convidar.
Carter sorriu e se afastou de Patrick. Connor agora estava sentado no lugar que antes ele estava e disse assim que o viu:
— Égua!
Carter não pôde deixar de rir com a péssima imitação, mas adorou ter conhecido Connor. Ele e Edgar se despediram dos colegas lá dentro e voltaram pra sua república, mas a conversa entre os demais não teve fim.
Danion olhou para o relógio e revirando os olhos se levantou, despedindo-se dos colegas e subindo para o quarto do primeiro andar. Ele tinha algo a fazer, embora não estivesse com a menor vontade.
[...]
Caine não conseguia se conter de tanta felicidade. Sorridente, em frente ao espelho, ele acabara de encaixar o último botão de sua camisa. O líder dos águias vestia preto, dos pés à cabeça. A camisa estava enrolada pelas mangas até os cotovelos, a calça estava bem ajustada em suas pernas e os sapatos sociais brilhavam.
— Eu estou um pouco nervoso. — Caine falou para Gale e Clara.
Clara estava jogada na cama do amigo observando as anotações da última aula do garoto, embora não estivesse entendendo nada, mas gostava de como era a letra de Caine, considerando-a uma das mais bonitas que já tinha vista.
Gale estava sentado na mesma cama, porém mexendo em seu celular.
— A mãe dele nunca gostou de mim, mas ela também não dava a mínima para a minha presença naquela casa. — revelou a Clara.
— Eu não sei se vocês me disseram, mas ela sabe que o Danion é gay? — Gale questionou.
— Acho que sabe. — Clara disse.
— Danion contou aos pais sobre mim. — Caine falou ao finalmente se afastar do espelho.
— Então menos uma preocupação a se tomar. — Gale falou. — Seria muito constrangedor você aparecer como namorado dele e ela não fazer ideia da sexualidade do filho.
— Isso me faz lembrar quando Ian conheceu os pais do Connor. — Caine sorriu.
— O quê?! — Gale até largou o celular nesse momento.
— É isso mesmo que você está pensando. Connor apresentou Ian aos pais como namorado, mas os pais do Connor acreditavam que o filho era hétero. Bem, não teve problema nenhum, mas imagina como deve ter sido engraçado e constrangedor pro Ian? — explicou o pequeno.
— Gente, que loucura.
— Caine, se aquela velha chata cheia de plástica te tratar mal, você pode me chamar, está bem? — Clara se sentou na cama dizendo isso. — Eu amava roubar alguns esmaltes da coleção que ela tinha no quarto. Sinto saudades de aparecer lá, meu estoque de esmalte tá acabando.
— Vocês só falam da mãe dele, mas e o pai? — Gale perguntou.
— É uma múmia. O pai dele só vive envolvido com o trabalho. Se alguém morrer dentro daquela casa, ele não vai dar a mínima. Sabe alguém que não liga pra nada? Esse alguém é o pai do Danion. Ele é bem ausente da vida familiar, até acho que ele deve ter amante.
Em meio as conversas, Caine ouviu o som da buzina da moto do namorado.
— Bem, vou indo. Danion não está de bom humor por causa dos jogos, então é melhor eu não perder muito tempo aqui. Até depois.
— Nos conte tudo quando chegar. — Gale falou.
— E me ligue se precisar de qualquer coisa. — Clara finalizou.
Caine deu um sorriso rápido e saiu do quarto em passos apertados até finalmente sair da república e encontrar o namorado já usando capacete e o esperando.
O pequeno subiu na moto e pôs o capacete que o namorado tinha entregado. Depois de verificar que o pequeno estava seguro, Danion deu partida. Eles nem conversaram, Caine até reconsiderou o momento ao achar que não seria uma boa ideia visitar os pais do namorado com ele estando tão péssimo no humor.
Custou pouco mais de uma hora de moto o trajeto até uma das casas dos pais de Danion. Casas esta em eles quase nunca estavam presentes, já que era apenas usada para situações de trabalho nas regiões de Seattle.
Logo de início o pequeno Caine ficou surpreso com o fato de haver uma cancela. Uma cancela eletrônica em uma casa? Aquilo era demais.
— Seja bem vindo novamente, Mr. Salladric. Seus pais estão aguardando. — disse uma voz que saiu de alguma caixa de som no muro coberto por folhas.
— Da pra abrir logo essa merda?
— Desculpe-me, senhor. — disse o porteiro, nervoso.
O homem estava atrás de uma parede de vidros escuros, mas que era possível ver seus traços se moverem lá dentro de onde ele costumava ficar. Era até perceptível ver o microfone pelo qual ele falava. Ele costumava ter medo do Danion, já que o branquelo, em todas as vezes em que estava hospedado naquele lugar, acabava sujando-o com alguma coisa nas vezes em que ele abria a janela para mostrar o belo sorriso programado e ordenado pelos donos.
A cancela levantou e Danion entrou. Ele passou por um caminho contornado de palmeiras gigantes, belas e com luzes refletoras abaixo delas. Não era uma simples casa. Não! Era uma mansão. Extremamente bem arquitetada, a mansão em que Danion morava, embora não tenha crescido ali, era de uma beleza radiante. Ao final do caminho de palmeiras, havia uma giratória, que servia para retornos de automóveis, com uma enorme estatua de um homem nu com asas ao centro.
Logo após estava lá a mansão, ainda mais bela que o momento em que Caine a viu distante.
A moto do branquelo foi estacionada na giratória e ele retirou o capacete, pouco se importando com os cabelos bagunçados. Caine desceu da moto e estava mais uma vez encantado com o que via, até se esqueceu de retirar o capacete.
Considerava a riqueza de Danion, mas se aquela era apenas uma casa, imagina as outras? Logo de entrada havia uma piscina iluminada com duas palmeiras gigantes numa área térrea dentro dela. A casa de dois andares também estava toda acesa, bem iluminada, com áreas toda tomada por janelas quadradas. Era uma casa branca, com pilares sustentando o teto na área externa.
— isso tem o dobro da minha casa. — Caine falou retirando o capacete.
— Isso significa que sua casa ainda é grande. Você é rico, Caine.
— Mas você chega a ser mais rico que eu. Não que isso importe, eu não sou interesseiro...
— Eu sei. — o interrompeu já prevendo o discurso que ele daria por conta da riqueza do Danion. — Por que tivemos que vir aqui? Ainda da tempo de desistir.
— Poxa, Dan, eu sonho em conhecer seus pais e você quase nunca os menciona, raramente os visita. Não acha que é um bom momento para avançarmos nossa relação?
— É uma pena que você não acredite quando eu digo que meus pais não estão nem aí pra mim. Mas eu não estou aqui por eles. — falou desviando o olhar.
— Não? Como assim?
— Vamos e você vai saber.
Caine tratou de acelerar os passos quando viu que o namorado já estava por quase dois metros longe dele. Assim que se aproximou do branquelo, Caine envolveu seu braço ao dele e ambos passaram pela piscina.
Quando menos esperou, Caine já estava dentro da casa, no salão principal, que era tão amplo e espaçoso a ponto de imaginar sua voz ecoando e ricocheteando as paredes. Até o piso era belo, com detalhes artísticos. As paredes douradas, rica em quadros considerados valiosos. Um lustre aceso sobre o teto, um piano de caldas branco próximo a uma estatueta.
Um divã ficava próximo a escada giratória que tinha o corrimão dourado e levava pra um andar de parte visível para Caine, onde ele pode ver nitidamente que a partir daquele andar, a cor vermelha predominava.
— Você fica aqui me esperando que eu já volto. — disse o branquelo afastando-se do namorado.
Caine ficou exatamente no lugar que havia parado. Ele resolveu não se mover com medo que de alguma maneira pudesse derrubar um dos vasos do salão, mesmo estando bem distante deles. Quieto, o garoto pôs as mãos no bolso e continuou a apreciar todo detalhe do lugar.
Sem que percebesse, aproximando-se de Caine, uma cadela da raça maltês com pelos que davam inveja a qualquer um, passou a cheirar os pés do intruso. Com o susto, Caine deu um passo para trás e olhou para o chão até finalmente avistar o animal.
A cadela não latia, pelo menos ele teve essa sorte. Imagina chamar toda a atenção da aquela casa por causa de um latido? Se bem que ele achou improvável toda a mansão ouvir se considerar o tamanho do lugar.
— Ei, você! — uma voz feminina chamou-lhe a atenção. — Você é o novo empregado?
Caine tomou um susto ainda maior quando ouviu aquela voz tão cheia de autoridade. Quando se virou pra trás, quase pisou na cadela por tão desatento que havia ficado. O pequeno se deparou com uma mulher de estatura mediana, com cabelos curtos e castanhos, com um rosto esticado e nariz tão fino que parecia ter sido esculpido e os lábios volumosos a ponto de parecerem estranhos do ângulo em que Caine via, o que deixava explicito que foram feitos graças a plástica.
O garoto não conseguiu responder, pela postura da mulher, ficou óbvio de que aquela era a mãe do Danion. Ele já a viu, mesmo com Danion não tendo foto dos seus pais, mas fez uma vasta pesquisa na internet a respeito de um dos casais mais poderosos de Seattle quando se trata de negócios.
— Saia logo daqui e vá servir o jantar. Vou acabar tendo uma conversa séria com a Lea. — disse a mulher já se retirando do cômodo.
A cadela acabou por segui-la. Caine se olhou dos pés a cabeça não acreditando que ela o havia confundido com um empregado da casa. O pior é que ele não conseguiu dizer uma palavra sequer, acabou ficando tão nervoso. Caine engoliu em seco, mas não estava ofendido, mas já havia sentido a pressão de estar ali no pouco tempo presente.
Danion voltou minutos depois acompanhando de uma mulher com os cabelos grisalhos, mas muito brancos, com trajes claros de que ela era uma empregada, embora alguns detalhes de sua roupa fossem mais sofisticados, como por exemplo, o laço que ela tinha no pescoço.
Seus olhos eram bem gentis, aparentava ter mais de cinquenta anos, baixinha e robusta, com rugas próximas aos olhos exprimidos por conta do sorriso tímido. A princípio, ela parecia constrangida, estava atrás de Danion, como uma garota que se esconde nas pernas da mãe.
— É ele. — disse o branquelo olhando para Caine.
Caine ainda não entendia o que acontecia. Quem era aquela mulher e por que ele estava sendo apresentado a ela?
— Olá. — disse a senhora estendendo a mão pequena para Caine.
O pequeno logo retribuiu o aperto de mão com um sorriso no rosto.
— Você queria tanto conhecê-lo e aqui ele está. — Danion falou. — O único garoto que conseguiu me aguentar até agora.
— Para com isso, Mr. Salladric, você é amado por todos que te conhecem.
— Mr. Salladric? Lea, não é assim que você me chama.
— Desculpe-me, querido, é que estou nervosa e... E na frente de alguém, acabo adotando a formalidade que cabe a mim nessa casa.
— Tudo bem, eu entendo. Só você pra aguentar meus pais por tantos anos. — Danion agora olhou para o Caine. — Não vai falar nada?
— A-ah, o-oi. — disse sem graça.
— Está é Lea, a governanta da casa e também a mulher que tomou conta de mim durante todos esses anos. O único motivo pelo qual eu apareço na casa dos meus pais.
Constrangida, Lea não disse nada. Ela era uma senhora muito bondosa e tímida, mas quando se trata de organização, ela acaba tomando uma postura de líder, foi por isso que é e continua sendo a governanta da casa até os dias de hoje.
— Meu nome é Caine, Lea. Prazer em conhecê-la. — Caine não sabia se era correto falar que Danion nunca a tinha mencionado, talvez a senhora pudesse ficar ofendida.
— O prazer é todo meu, sempre quis conhecê-lo. Desde que Danion apareceu aqui dizendo que estava namorando, era meu sonho conhecer a pessoa que havia finalmente conquistado o coração do meu menino.
Danion revirou os olhos, mas sorriu. Era muito melação.
— Agora vocês precisam se dirigir para a sala de jantar. O jantar já vai ser servido e Laila, sua mãe, odeia atrasos.
— Teremos tempo para conversar depois. — disse o branquelo.
Lea deu um último sorriso para Caine e se retirou apressadamente. O branquelo ainda permaneceu parado enquanto encarava o namorado completamente absorto pela situação.
— Lea é o motivo de eu não ter fugido quando menor. Na verdade, eu fugi algumas vezes, mas sempre me achavam. Porém, se eu quisesse que não me achassem, acho que teria conseguido, mas Lea era a razão pelo qual eu não fazia isso.
— Por que nunca me contou sobre ela?
— Depois conversamos sobre isso, agora vamos.
Danion segurou o namorado pelo pulso e o guiou pela casa até que chegassem à sala de jantar. Era um espaço bem luxuoso, com uma mesa grande, embora apenas quatro lugares estavam marcados com os pratos e talheres. Em uma das pontas já estava a mãe do Danion, surpresa ao avistar Caine, garoto este que ela havia confundido como o novo empregado da casa. A outra ponta ainda continuava vazia.
Caine e Danion sentaram-se lado a lado, isso porque Danion retirou as coisas do lugar que deveria sentar pra ficar ao lado do namorado. O branquelo odiava comer de acordo com as regras de etiqueta, mesmo tendo sido educado para isso e já fazia bastante tempo que não realizava esse ato. Enquanto isso, Caine conhecia as regras de etiqueta e estava seguro.
— Ele vem? — Danion perguntou para sua mãe.
A pergunta se referia ao pai dele.
— Não. — respondeu ela com a cara fechada, não estava feliz com o marido desmarcando o compromisso em cima da hora.
— Então por que o prato dele está aqui?
— Deixe-o aí.
— Não é surpresa pra mim ele não aparece. — riu entre os lábios o branquelo.
Caine ficou desconfortável com o que acontecia. Danion era o mesmo de todas as formas possíveis: o mesmo garoto debochado até com a própria mãe.
Por uma parte, Caine agora conseguia compreender mais do próprio namorado a se deparar com o ambiente familiar dele.
— Então é esse o seu namorado? — ela perguntou ao levantar a taça e olhar para um dos empregados e imediatamente foi servida.
— Sim. Ele é lindo, não é?
— Achei que fosse o empregado.
— Todo mundo pra você é empregado.
Nesse mesmo momento o prato de entrada do jantar começou a ser servido. Caine agradeceu com um sorriso simpático e encontrou Lea parada próxima a porta, em silêncio, por conta de Laila que estava ali. Mas pelo olhar dela, ela não conseguia esconder a felicidade de ver Danion ali.
— E qual o seu nome, garoto?
— Desculpe-me. — disse Caine limpando a boca no guardanapo. — Me chamo Caine. Caine Luduzi. É um prazer conhece-la.
Ouvir o nome e o sobrenome de Caine pareceu deixar a mulher impressionada. Algo havia chamado a sua atenção a ponto de fazê-la escapar um sorriso e Caine, confuso, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada. — respondeu, mas sem convencer ninguém ali presente.
— Sempre quis conhecê-la, Danion me falou muito ao seu respeito.
— Falou? — ela olhou para o branquelo que comia com um sorriso suspeito com na face.
— Falei. — o branquelo repousou os talheres no prato. — Declarei todo meu amor por você.
— Pra vida que nós demos a ele, realmente, declarar seu amor por mim e pelo pai dele é obrigação.
— Claro, claro. — falou o branquelo segurando-se para não discutir mais uma vez com ela. Ele não podia estragar o momento que Caine tanto esperou. — Eu não vou comer isso aqui. — disse afastando o prato. — Lea poderia me trazer um hambúrguer sem salada?
Ela balançou a cabeça e imediatamente se retirou.
— Aliás, se você também quiser outra coisa, pode falar. — disse ao namorado.
— Estou bem. — respondeu o pequeno.
— Irá dormir hoje aqui, Caine? — Laila perguntou.
— Sim. — Danion respondeu instantaneamente.
Caine não sabia daquilo, nem mesmo cogitava isso. Se já foi difícil conseguir um jantar, imagina uma noite inteira naquela casa?
— Então vou pedir para que preparem o quarto de hospedes.
— Você é muito engraçada, mãe. — Danion sorriu. — Nós dormimos juntos, bem juntos. Abraçadinhos. Adoraria que meu pai estivesse aqui pra ouvir isso.
— Nos meus anos de juventude isso não era permitido. Realmente, muita coisa mudou de lá pra cá.
Logo os pratos de Laila e Caine foram retirados da mesa e o prato principal da noite foi servido. Eram frutos do mar, Caine não estava muito satisfeito, mas não podia se desfazer daquilo sem causar nenhum desconforto. O tentáculo do polvo em seu prato o deixou incomodado, mas ele pôs o melhor sorriso no rosto e começou a saborear a refeição, embora não estivesse ruim, não era a melhor coisa que já havia comido na vida.
— Como é sua família, Caine?
— Eu tenho dois irmãos, sou o filho mais novo. Meu pai e meus irmãos são ruivos, menos eu e minha mãe. Eu sou quase ruivo, quase... — sorriu. — Em geral, já está todo mundo encaminhado na vida. Meu irmão mora com a namorada dele, minha irmã casou e eu ainda estou estudando, mas quase me formando. Mesmo distantes somos bem unidos, mantendo contato sempre.
— Sabia que o cabelo do Caine é mutante? A depender da luz do sol ele parece que é ruivo. — brincou o branquelo mais como uma provocação do que uma brincadeira. Ele realmente queria irritar a mãe. — Ele também tem sardas, pouquíssimas, quase invisíveis, mas se você chegar perto consegue ver.
— Interessante. Adoraria conhecer seus pais.
— Sério?! — perguntou Caine empolgado.
— Claro. Acho que daríamos super bem.
— Mãe... — Danion logo mudou o semblante.
— O que foi? Não acha que seria uma boa ideia? — ela quem agora sorria provocativa.
— Nós já discutimos sobre isso. Nem ouse... — ameaçou o branquelo.
— Algum problema? — Caine interrompeu.
— Nenhum, querido, nenhum... — Laila falou. — Bem, acho que não vou esperar para a sobremesa, estou satisfeita. — disse a mulher dando um último gole no vinho. — Fico feliz em tê-lo conhecido, Caine, aposto que nos veremos mais vezes...
— Ótimo!
— Meu marido também precisa conhecê-lo. Peça para que Danion marque outro jantar.
— Pode deixar. Farei isso com o maior prazer e entrarei em contato com os meus pais. Sempre quis um momento assim.
— Eu também... Eu também... — disse se retirando da sala de jantar.
Danion se levantou agressivamente ao afastar sua cadeira, deixou o namorado sozinho e seguiu a mãe. Deu pra ouvir alguns gritos vindos do interior da casa, especialmente a voz de Danion que se sobressaía, mas eram palavras soltas que iam desaparecendo cada vez mais que eles se afastavam. Caine ouviu apenas duas palavras: Namorado e Negócios.
O hambúrguer que Danion havia pedido chegou ao seu prato sem que ele estivesse presente. Caine, solitário, não deu continuidade a sua refeição. Ficou em seu lugar, novamente desconfortável, sabendo que em algum cômodo próximo dali, filho e mãe discutiam por algum motivo que ele ainda não fazia ideia.
— Posso me juntar a você? — disse Lea atrás de Caine.
— Claro. — disse ele sorrindo, mas não conseguindo disfarçar o quão triste estava começando a ficar.
— Você quer comer outra coisa? Pelo visto, você não gosta muito de frutos do mar.
— É...
— Traga-me outro hambúrguer. — Lea pediu ao empregado mais próximo.
— Eu posso comer o do Danion. — disse o pequeno já dando uma mordida na comida do namorado.
— Sem salada. — acrescentou a governanta ao empregado que logo se retirou. — O Danion come o próximo que vier.
— Eu fiz mal em aparecer aqui? — perguntou olhando-a nos olhos.
— Não, não fez. Danion e sua mãe vivem discutindo e fique triste pensando que o que você acabou de ver é por sua culpa. Infelizmente eles são assim desde que o Danion passou a ter discernimento da realidade.
— Senti que tem algo relacionado a mim. Os pais do Danion não aceitam a sexualidade dele?
— O pai dele não, mas não é uma coisa que faça revirar a família de cabeça pra baixo. Ele apenas admite que não concorda, mas deixa o Danion viver, contanto que ele não mencione que namora um garoto. Já a Laila tem a mente mais aberta, no entanto é a mais complicada ao seu tratar da vida do filho.
— Ela me pareceu tão querida.
— Ela é. — sorriu a mulher.
— Mas para o Danion ela parece não ser. Danion diz que você é o motivo dele ainda aparecer por aqui.
— Eu quem trocava as fraldas dele quando ele ainda era um bebê. Quando o vi, pela primeira vez, me encantei pelos olhos azuis esverdeados tão brilhantes que ele tem. Um bebê risonho, mas muito risonho. Infelizmente meus patrões não tinham tanto tempo para cuidar dele e eu acabei ficando responsável por quase todos os afazeres de uma mãe. Eu o levava pra escola, já que ele não gostava de ir com o motorista sozinho. Assisti aos jogos em que ele participou ainda no colegial, ia nas reuniões, o levava pra passear... Tantas coisas. — dizia ela com emocionada.
— Ele não me fala muito sobre sua vida e o relacionamento com os pais. Agora eu compreendo...
— Mas os pais dele nunca deixaram que nada faltasse na vida dele.
— Mas não deram o que você deu: amor e carinho.
Ambos se assustaram quando o branquelo apareceu novamente na sala de jantar, coçando a cabeça e dando um sorriso largo, embora seus olhos estivessem vermelhos e úmidos.
— Voltei, já comeu? — questionou o branquelo ao namorado.
— Sim. — disse Caine apenas tendo comido metade do hambúrguer.
— Vamos para o quarto? Preciso fumar.
— Vamos. — o pequeno se levantou.
— Quer que eu peça pra que levem seu hambúrguer? — Lea perguntou.
— Pode ser. — sorriu o branquelo. — E sorvete de creme. Agora vamos ou você vai me trocar pela Lea?
— Oh, não... — Lea falou constrangida. — E-eu...
— Não teria problema, ela é realmente uma ótima companhia. Sabia que vocês iriam se dar bem.
— Depois conversamos, Lea. — Caine disse olhando para a mulher.
— Passarei no quarto para entregar a comida. Caso precisem de alguma coisa é só ligar que eu subirei imediatamente.
Danion deu as costas rapidamente e Caine o seguiu sem questionamentos, sem falatório. Saber que Danion chorou era de partir o coração.
[...]
Charles estava de frente para o espelho, pensativo. Inquietamente olhava para seu relógio de pulso desejando que os minutos não passassem tão rápido como ele estava considerado. Nada mais frustrante do que manter uma batalha interna consigo mesmo.
Por diversas vezes ele olhou para o celular, pensou em cancelar tudo e permanecer em seu quarto. Qualquer coisa poderia retirar de sua cabeça a ideia de ir transar com um homem. Homem este que por sinal era desconhecido, tudo o que tinha dele era a lembrança de sua voz ao telefone que ainda assim era semelhante a de alguém e ele não conseguia imaginar quem.
Seus cabelos penteados com gel, um típico penteado de garoto pomposo, quase divido ao meio. Ele trajava uma camisa rosa com botões e manga curta, vestia também um short branco cujo as pontas próximas ao joelho haviam dobras da grossura de dois dedos. Seus sapatos eram tão delicados como o visual que ele estava trajando. O típico mauricinho de filmes.
Charles sentiu seu celular vibrar e o recolheu da cama, notou que havia uma mensagem de um número que já não era mais estranho. Mais uma vez estava se odiando por não ter ocultado seu número no dia da ligação.
“Você vem? Já estou aqui.”
00:53
Charles mais uma vez se olhou no espelho, manteve os olhos em seus próprios olhos. Por que o desejo lhe consumia tanto? Fazia tanto tempo. Uma vez que conheceu o mundo do sexo era realmente complicado se manter sem por bastante tempo. Mas tudo estava indo tão bem, maldita hora em que encontrou o maldito papel que continha o número.
Tudo isso por que era gay? Considerou que isso tornava tudo ainda mais complicado. Se realmente fosse hétero poderia ter qualquer garota que quisesse e assim apresentar a sua família.
Julga tanto o Sean, mas essa é sua única saída pra se manter com a boa imagem pra os familiares. Uma vez que já os enfrentou, sabe do peso que é tê-los contra. E talvez fosse ainda mais complicado se rebelar contra eles novamente. Dessa vez o seu avô já veio contatar o Sean, assim como neto favorito, ele foi calmo demais para a imagem que todos os Ferazzas têm dele, mas certamente com Charles a coisa seria pior. Seu pai já lhe ameaçou o suficiente para ele continuar sendo o hétero que a família tanto se orgulha.
“Estou nervoso.”
00:57
Respondeu sendo sincero, pelo menos a pessoa ainda não sabia quem ele era e nunca iria saber. Se quisesse bastava apenas trocava de número.
“Vai ficar tudo bem. Eu prometo fazer o serviço direito sem te forçar a fazer nada. Se quiser, pode aparecer aqui e eu tento deixar você mais tranquilo. Talvez para tomar apenas o vinho que comprei a pedido seu.”
00:58
Charles sabia que Reece não queria perder a grana, era óbvio. Além disso ele estava em um quarto que provavelmente não era dele, fora o fato de que gastou comprando o vinho. Às vezes esse meio de ganhar grana tem suas desvantagens. Não era a primeira vez que Reece tinha clientes que desmarcavam em cima da hora.
O tigre se sentou na cama, olhou para o seu celular receando responder, estava realmente nervoso com toda a situação. Mas o seu interior fervilhava por vontade, ainda mais quando isso está misturado a adrenalina de ir pra cama com um garoto de programa. Que loucura era essa que ele estava fazendo? O garoto queridinho dos familiares seguindo o caminho da promiscuidade.
— Charles, tem um táxi aqui fora te esperando! — Brandon gritou de lá debaixo.
Charles então respirou fundo e digitou:
“Estou indo.”
01:00
Charles tomou coragem. Se arrependeria das duas formas, indo ou não indo. Só de pensar em ter seu pescoço tomado já o deixava excitado e isso era visível pelo volume que se formou entre suas pernas, por isso ele parou em frente a porta, respirou fundo para controlar a ereção e saiu.
— Vai sair? — Brandon perguntou assim que o viu descer as escadas.
— Vou tomar um banho de sol no gramado da nossa república.
Kai quase cuspiu toda a pipoca que mastigava, apesar de achar tamanha grosseria, ele achou cabível a resposta idiota que o loiro havia feito. Mesmo não se dando bem com Charles, ele considerou que a resposta foi cabível a situação.
— Se tem um táxi me esperando e eu estou vestido assim, é lógico que vou sair, Brandon.
— Quanta grosseria, eu na verdade só estou perguntando indiretamente pra onde você vai.
— Sair com amigos de faculdade. Não tenho hora para voltar. — ele olhou para o Kai, sabia que ele era mais inteligente que o primo pra detectar uma mentira.
— Posso ir com você? Não queria ficar sábado a noite em casa.
— Não, não pode. Tchau. — disse abrindo a porta e vendo o taxista de pé em frente ao táxi o aguardando.
— Ele está nervoso ou é impressão minha? — Brandon perguntou ao Kai.
— Ele está mentindo. — Kai disso agora olhando pra ele.
— Como você sabe?
— Por que ele sempre é seguro de si, mas agora estava diferente do que sempre foi. Talvez ele não vá se encontrar com amigos, mas com alguém especial.
— Meu primo tá namorando? — Brandon sorriu animado.
— Talvez sim, talvez não. Vai que seja coisa da minha cabeça.
Mas a conversa ficou pra trás no instante em que Charles entrou no táxi digitando:
“Acabei de pegar o táxi.”
01:03
“Estou aguardando. Lembra-se do endereço?”
01:03
“Sim. Não quero ser visto por ninguém. É seguro?”
01:04
“A esta hora não tem ninguém transitando por aqui. Basta usar o interfone.”
01:04
“Qual a possibilidade de eu não me prejudicar com isso?”
01:05
Dessa vez a mensagem não foi respondida no mesmo instante. Como odiava esperar, Charles fixou os olhos na tela do celular até que recebesse a mensagem, mas só nesse momento de espera ele já pensou novamente em cancelar tudo.
“Zero.”
01:08
Charles não digitou mais nada. Ele guardou o celular no bolso e encostou-se no banco, vendo todas as luzes nos postes de iluminação passar rapidamente aos seus olhos. Não demorou muito para chegar ao local dito para o motorista.
Após pagar, Charles desceu do táxi e olhou para o apartamento. A torre era realmente próxima e o apartamento não chegava a ser tão acabado como os que ele viu até chegar ali. Não era dos melhores, mas era arrumado. Talvez fizesse sentido Reece aumentar o valor.
Charles caminhou até onde estava o interfone e pressionou no botão que continua o número dez. Em segundos ele ouviu o “clic” da porta sendo destravada. O tigre olhou para cima, achando que alguém estava o vigiando, mas nada podia ver senão janelas fechadas.
A porta fez barulho quando ele a empurrou, por isso resolveu apressar os passos e se dirigir para dentro do prédio que não tinha elevador, o que o fez resmungar ao saber que tinha que subir as escadas.
Após subir até o quarto andar, ele buscou pela porta com o número dez e parou em frente a ele. Esfregou as duas mãos na bermuda, respirou fundo, segurou no colarinho da sua camisa até finalmente decidir apertar a campainha.
Charles abaixou sua cabeça e fitou o chão.
O som de chaves girando. A maçaneta descendo. A porta abrindo devagar. A tensão para o momento tão esperando.
Charles viu primeiro os pés de Reece, logo subiu os olhos devagar por cada detalhe do corpo dele; o viu de cueca cinza e uma camisa branca com botões abertos até que seus olhos verdes param exatamente nos olhos azuis de Calvin.
Ele entreabriu os lábios ao arregalar os olhos não acreditando no que estava vendo. Era o Calvin em sua frente tão assustado quanto ele.
Eles ficaram parados de frente um para o outro sem dizer uma palavra por um minuto ou mais. Era surreal demais aquilo que estava acontecendo.
Charles engoliu em seco e balançou a cabeça negativamente, imediatamente ele deu as costas, mas não esperou ser puxado pelas mãos grandes de Calvin que o pôs para dentro do apartamento trancando a porta logo em seguida.
Quando Charles ameaçou gritar Calvin não teve outra alternativa senão silenciá-lo com a mão. Seus olhos azuis estavam bem próximos dos olhos verdes dos garotos transpassava seu medo só através daquele olhar.
— Você não pode gritar. — falou o leonino mais como um pedido do que uma ordem.
Charles acabou mordendo a sua mão, Calvin gritou de dor e a retirou da boca dele. Nesse instante o tigre correu para a porta, mas não conseguiu girar a chave a tempo. Calvin o tomou pela cintura e o virou, fazendo-o encostar-se com força na madeira.
— Me larga!
— Eu não vou te fazer mal, garoto! — falou o leonino.
— Isso só pode ser uma vingança do Dimitri.
— Dimitri? — questionou confuso. — Quem é Dimitri?
Para Charles tudo aquilo estava sendo filmado para mais uma vez ele ser exposto.
— Confie em mim, isso não é plano de ninguém. — Calvin falou.
Mais uma vez Charles ameaçou gritar, mas Calvin foi obrigado a novamente o silenciar com a mão, dessa vez usando a outra já que a direita estava mordida.
Charles se esperneou, mas não tinha força o suficiente, por mais que tentasse. Sem contar que ele estava numa posição que o desfavorecia, assim sem chances de defesa ou realmente partir pra agressão. Até mesmo a mão de Calvin pressionava ainda mais forte a sua boca impossibilitando-o de mordê-la.
— Prometa que não vai gritar. — pediu.
Charles não respondeu, apenas mantinha seus olhos fixos nos azuis do garoto.
— Prometa. — pediu novamente.
Charles tentou balançar a cabeça e Calvin entendeu aquilo como um sim, embora não acreditando muito no que ele estava dizendo, mas assim mesmo liberou os lábios do garoto devagar.
— Eu sou o Reece — Calvin falou quando o viu em silêncio. Ele o soltou na porta, mas não antes arrancou as chaves dela. — Não estou aqui para prejudicar você.
— Como eu sou burro, como eu sou idiota, como eu sou estúpido... — o tigre dizia para si mesmo. Ele acabou se sentando no chão ao deslizar seu corpo pela porta.
Charles escondeu seu rosto nas próprias pernas ainda murmurando palavras que o rebaixava.
[...]
Ele não conseguia dormir de maneira alguma. Tentou de todas as formas possíveis, contou carneirinhos, estrelas, dedos... até objetos do quarto pra ver se o sono o abraçava, mas nada acontecia. Patrick já estava cansado de ficar no seu quarto, por isso foi até a sala e se lançou no sofá, talvez lá pudesse apagar com mais facilidade. O leonino estava desejando estar na mesma situação que os demais membros: apagados em suas camas.
Odiava esses momentos de insônia que costumava ter, apesar de que isso nunca mais havia acontecido. E olha que ele tinha regulado o seu sono e lembra-se perfeitamente de ter acordado às 7 horas e 38 minutos, mas agora eram quase duas da madrugada e nada de dormir, apenas alguns bocejos.
Olhou pro visor do seu celular apagado e quando o acendeu jurou ter ficado cego, já que seus olhos estavam adaptados ao escuro e não a luz. Até que sua visão aceitasse a luz ele passou a mexer no aparelho em busca de algo que o distraísse, talvez alguma leitura — e ele pensou realmente e se levantar do sofá e buscar um livro pensando na possibilidade do sono o tomar de vez enquanto lia —, mas tudo o que viu foram as várias ligações que rejeitou de Carter, horas antes enquanto tentava estudar, mas o loiro insistia em conversar com ele através do celular.
Patrick ainda não sabia como Carter tinha conseguido seu número, mas descobriu ser ele quando recebeu algumas mensagens com erros ortográficos e também o famoso “égua” que o garoto costumava usar.
O leonino revirou os olhos e ligou para Carter, mesmo que estivesse muito tarde. Se ele foi idiota em atrapalhá-lo no estudo, agora pagaria por isso e Patrick descontaria a frustração da insônia perturbando-o.
Lá na república ao lado, Carter acordou como uma tartaruga, extremamente lento e caçando o celular perdido em sua cama, soltou alguns resmungos e nem mesmo viu quem é que estava ligando.
Samuel reclamou com toque do celular, mas Carter tratou de atender e assim evitar problemas dentro do quarto.
— Égua, quem que me liga essa hora?
— Eu. — falou o leonino bem rígido.
Aquela voz fez Carter quase despertar instantaneamente, por isso ele se acomodou melhor na cama, apesar de estar realmente preguiçoso para tal. O loiro quase ficou cego ao tentar ver no visor que horas eram e tornou a falar:
— ‘Cê tá bem, cabrita? Que ‘cê quer me ligando a essa hora?
Patrick não pôde deixar de rir com aquela voz tão marcada pelo sono chamando-o de cabrita. O garoto nem estava insultando-o, pelo contrário, mostrou preocupação.
— Não estou com sono. — disse com sinceridade, mudando todo o discurso que tinha preparado.
O leonino na verdade não esperou que Carter atendesse, tudo o que ele queria era apenas encher o saco do loiro com várias ligações que achou que seriam rejeitadas por conta do horário.
— ‘Cê quer dormir comigo? Tem espaço aqui na minha cama, quer dizer... ficaria um pouco apertada por conta do meu tamanho, mas a gente daria um jeito. Não que a gente vá fazer alguma coisa... Sei lá, né?
— Nunca que eu vou dormir com você, Carter.
— Égua, ‘cê é malvado. Eu só quis ajudar... — Carter acabou pensando alto demais e deixou escapar a frase: — Se bem que dormir com você seria bom demais.
— Da pra parar de ficar me cantando pelo celular?
— Foi mal.
Por um instante eles não falaram nada. Impaciente, Carter prosseguiu:
— Então...
— O quê?
— Você me ligou. — bocejou o loiro logo em seguida.
— Então eu vou desligar. Tchau, Carter. — Patrick sabia que estava agindo estranho, por isso sentiu uma fisgada de constrangimento.
— E-espera, cabrita. Égua! ‘Cê é muito bravo, uai. ‘Cê quer que eu vá aí ficar com você até que pegue no sono?
Ofereceu o garoto sem quaisquer intenções obscenas. Carter, mesmo com sono, sacrificava uma boa noite dormindo apenas para o conforto do leonino que certamente odiaria passar a madrugada em claro, no tédio.
Patrick lutou para dar uma resposta. De imediato, teria dito “não”, inclusive a palavra estava na ponta de sua língua, mas ela só estava lá porque respostas de negação para Carter era quase que obrigatórias em todos os diálogos. No entanto, tê-lo presente não seria de todo o mal, pelo contrário, teria com quem conversar para que assim a madrugada não fosse tão chata.
— Pode ser. Eu vou deixar a porta aberta. — disse se levantando e já realizando o que havia dito.
— Eu ‘tô indo, vou por só uma bermuda e uma camiseta.
— Está apenas de cueca? — perguntou e sua voz se alterou.
— Sim, uai. Qual o problema?
— Nada, nada... Venha logo. — disse e desligou o aparelho celular.
Carter largou o celular e demorou alguns minutos na cama. Ele olhou para a cama do Samuel, mas rapidamente retirou os olhos dela para assim não acabar pegando no sono mais uma vez. O loiro vestiu a bermuda e a camisa aos avessos sem que percebesse isso, em seguida saiu do quarto sem causar barulho.
Não havia realmente ninguém acordado. Por isso foi tranquilo sair da república sem que alguém fizesse questionamentos, embora não tivesse problema nisso, já que agora ele era um garoto independente.
Carter caminhou descalço pelo gramado, acelerou os passos com medo de toda aquela calmaria e escuridão e entrou na república dos leões fazendo barulho ao fechar a porta.
Quando viu Patrick prestes a gritar, ele imediatamente pediu desculpas apenas com a expressão facial.
— Não teria aceitado você aqui se a proposta fosse acordar toda a minha república.
— Eu estava com medo. Você já viu como está escuro lá fora? Vai que passa um bandido.
Depois de concluir o que tinha dito, Carter sentou-se no sofá sem nem mesmo pedir permissão. Se uma vez já entrou naquela república, essa oportunidade é o suficiente para fazer com que ele se sinta de casa.
— Só tem você acordado? — questionou o loiro.
— É claro que sim, se mais alguém estivesse acordado eu não teria ligado pra você.
— Égua, mas ‘cê precisava ter me falado isso?
— É que você costuma fazer umas perguntas bem idiotas.
— Você tá atacado assim por quê?
— Deixa pra lá, vamos mudar de assunto.
— Tem alguém que mexe muito com você, não é? — Carter perguntou sem se preocupar com o fato de parecer invasivo.
O loiro acabou se deitando no sofá, no entanto sua cabeça acabou repousando nas coxas de Patrick. Carter não estava dando a mínima pra tanta aproximação, ele só queria realmente se deitar, e para isso tinha que por a cabeça em algum lugar.
Franzindo a sobrancelha, Patrick o olhou, mas não disse nada. Não esperava tê-lo com a cabeça em sua coxa, poderia até se levantar propositalmente, assim afastando-se dele, mas optou por deixa-lo ali. O leonino reconhecia que ele merecia, já que foi acordado e certamente seu corpo suplica por um lugar confortável.
— Hein, cabrita? — perguntou tocando-lhe o queixo e fixando seus olhos ao dele.
— Não gosto do rumo que essa conversa vai tomar, Carter.
— Você me disse que estava interessado em outra pessoa. Quem seria?
— Sinceramente? Você deveria voltar pra sua república. — respondeu chateado.
— Tá, tá! Desculpe! Não ‘tá mais aqui quem perguntou.
Carter não conseguiu compreender a chateação dele. Patrick nunca disse de fato por quem ele estava interessado, muito menos era visto com alguém.
Por alguns minutos ambos ficaram em silêncio. A falta de assunto incomodava a ambos e mesmo Carter sendo alguém que fala bastante, em especial assuntos aleatórios e sem sentido, naquele momento ele não conseguia pensar em nada.
— Como era sua vida antes da Quadra?
Patrick quem quebrou o gelo. Surpreso com a pergunta, Carter, da posição que estava, viu que ele não o olhava.
— ‘Cê quer saber como era minha vida na fazenda?
— Sim.
— É bom saber mesmo, quem sabe você seja meu futuro namorado. Tem que saber da vida do namorado, certo? — sorriu brincalhão.
Patrick dessa vez o encarou, o rosto vermelho como um pimentão, mas não de constrangimento. Quer dizer... era constrangimento e raiva ao mesmo tempo.
— Nós lá costumávamos dormir bem cedo. Eu estaria dormindo desde as 20:00 horas. É que bem, como eu trabalhava bem cedinho, eu precisava acordar cedo. Às vezes 04:30 da manhã, às vezes 05:00 horas... Se eu passasse disso, minha mãe me matava.
— Credo! Isso é muito cedo.
— Mas ‘cê se acostuma. Como eu cresci naquela rotina, não tive dificuldades. Claro, só quando menorzinho, já que eu só me preocupava em brincar, mas ainda pequeninho eu fui educado pra fazer as coisas na roça. Com oito anos eu já tirava leite da cabra.
— Você realmente iniciou muito cedo. O que mais você fazia?
— Eu geralmente cuidava dos animais, minha irmã e eu. Ela ficava com as galinhas, colhia ovos, alimentava e eu ficava cuidando dos cavalos e da cabra. Também ajudava a cortar lenha com meu tio Toby. Eu só não cuidava na horta como minha mãe e nem da cozinha como minha tia Nora.
— Não sabia que você tinha uma irmã. Qual o nome dela? — perguntou finalmente começando a olhá-lo.
— Tenho uma irmã e um irmão. Eu sou o mais velho, minha irmã do meio se chama Georgia e meu irmão caçula se chama Louis. Ele é um pestinha.
— Você se dava bem com eles?
— Bem por demais, uai. Georgia e eu brigávamos, mas logo estávamos juntos. Nossa mãe também nos obrigava a pedir desculpas um ao outro. Já o Louis é um capeta, mas muito amoroso. Ele quebrou o dente ao cair do cavalo. Ninguém até hoje sabe como ele tinha conseguido subir no cavalo... Poderia ser algo mais trágico.
— Sei mais ou menos como é isso... Irmãos são assim mesmo. Mas vem cá: Nora e Toby são os pais do Edgar?
Carter suspirou e até coçou a cabeça antes de responder. Não sabia se deveria contar, afinal, a história não pertencia a ele e nem sabia se o primo ficaria confortável tendo a morte dos seus pais espalhada, no entanto, ele não via Patrick como uma pessoa de má índole.
— Os pais do meu primo morreram. Mas tudo bem, já faz um tempo, eu era bem pequeno. O Toby é irmão da minha mãe e também da falecida mãe do Edgar. A Nora é mulher dele. E ah, minha mãe se chama Lilian.
— Tadinho do Edgar, deve ter sido difícil. Quer dizer, foi difícil. Mas não é legal falar de tristeza. E por que você desistiu da escola enquanto morava lá?
— Porque a escola era longe. Mas não só isso. Era difícil dividir tempo com os trabalhos da fazenda e as aulas. Tia Nora nunca gostou da ideia de eu ter desistido de estudar, só que quando minha avó adoeceu eu acabei preferindo ficar apenas na fazenda. Eu nunca fui o garoto mais inteligente da turma e sempre que eu voltava da escola eu estava morto de cansado, esperava só a hora do jantar pra finalmente ir dormir. Tia Nora pedia pra me ajudar nos exercícios, mas eu já estava querendo dormir. Só meu primo e minha irmã que gostam de estudar mesmo, pois pra mim é muito chato.
— Não está pensando em desistir da escola daqui, não é?
— Não, mas ainda assim odeio estudar. Se eu parar de estudar dessa vez, tia Nora vem até aqui me bater. E eu também vim pra Quadra com a proposta de terminar meus estudos, assim não posso abrir mão dessa chance. Eu até que estou indo bem, aqui é diferente da fazenda, eu tenho mais tempo pra me organizar.
Patrick, vendo-o daquele ângulo, tinha mais uma vez concluído que ele tinha lindos olhos azuis.
— Mas agora eu quero ouvir ‘cê contando sobre você, cabrita. ‘Cê disse que era gordo e que tem alergia a salgadinho de milho. Acho que só sei disso. Ah! Que ‘cê também tem alguém... E só.
Carter soltou um enorme bocejo e se acomodou ainda mais sobre as coxas do garoto, dessa vez ficando de lado, em posição fetal.
— Bem, eu tenho um irmão gêmeo.
— O quê?!
— É isso mesmo que você ouviu. Mas ele não estuda aqui, resolveu seguir os estudos em outra universidade. Somos diferente em praticamente tudo, só em aparência física mesmo que somos iguais, fora que ele tem cabelos longos, enquanto eu prefiro não deixá-los crescerem tanto. O nome dele é Peter. Eu sou filho de policiais e todos os meus amigos tinham medo deles por causa da profissão, mas eles são tão legais que ninguém imagina-os prendendo pessoas. Minha vida não foi tão... Como posso dizer? Não trabalhei desde pequeno, quer dizer... Nunca trabalhei, tive uma infância legal. Eu era gordo, como você já sabe...
E Patrick contou toda a sua vida sem parar. Falou da sua fase na escola e como era chato ouvir piadinhas, de sua mudança, falou da quase separação dos pais, falou de como costumava pregar peças nos amigos dos pais usando do fato de ser gêmeo, falou de algumas viagens feitas e de como foi parar na universidade de Seattle e o porque da faculdade de jornalismo. Ele realmente abriu o livro, sempre cheio de detalhes, nem sequer havia percebido que seus dedos deslizavam sobre os fios loiros do garoto deitado em sua perna, fazendo um cafuné, no entanto, enquanto ainda contava a sua história, ouviu um ronco. Um ronco leve, baixinho, seguido de um assovio a cada final.
Carter havia pegado no sono. Patrick sentiu uma súbita vontade de estapeá-lo, mas não conseguia acordar aquele garoto que parecia um anjinho dormindo, mesmo que quando acordasse fosse aquele ser inconveniente que vivia a irritá-lo.
O leonino revirou os olhos, mas não o acordou de maneira alguma. Apenas encostou-se no sofá, estirou os braços no encosto e fechou os olhos. Ele respirou fundo e soltou um longo bocejo.
Insultou Carter mentalmente e ficou pensando em toda a história que o loiro havia contado, estava pelo menos esperando dar dez minutos para acordá-lo e retirá-los de suas pernas, mas esses dez minutos não chegaram já que o leonino acabou também pegando no sono. E um maravilhoso sono, apesar da posição em que se encontrava.
[...]
— Admite logo que você planejou tudo isso. — Charles, sentado numa cadeira e de braços cruzados, questionou.
Calvin estava sentado sobre a cama ainda trajando as mesmas roupas. O quarto estava justamente arrumado para o momento íntimo. A luz foi regulada deixando o quarto numa penumbra, o vinho estava entre duas taças ao lado da cama e sobre a mesa de cabeceira havia um gel massageador como foi pedido pelo cliente e três preservativos.
A cama tinha dois travesseiros brancos e seu cobertor era preto com uma grande coroa dourada estampada. Do lado esquerdo, cerca de dois metros, ficava a entrada pra o banheiro e ao lado uma pequena entrada pra cozinha apertada.
Apesar de bem estruturado externamente, o apartamento era pequeno. A sala e o quarto praticamente eram a mesma coisa, mas como Calvin só utilizava aquele quarto para momentos íntimos, ele achou melhor não acrescentar nada além da cama. No entanto, uma pequena televisão estava fixada na parede ao lado da porta de entrada.
— Diz logo! — exaltou-se o tigre.
— Dizer o quê?
— Por que está fazendo isso? Quem o mandou?
— Ninguém. Não estou sendo pau mandado de ninguém.
— Eu não posso ser idiota a ponto de cair nisso. Quem quer que esteja planejando me queimar, vai se ver bem comigo. Poderia abrir essa maldita porta e me deixar ir embora?
— Não no atual estado em que você se encontra. Acha que eu sou louco de deixar você voltar pra Quadra e espalhar o que acabou de ver? — Calvin o encarava.
Charles preferia não ficar olhando muito naqueles olhos azuis tão intensos.
— E é isso que farei, não importa quando você abra essa porta. Todos vão saber que você é um garoto de programa.
— Agora você acredita que eu sou um garoto de programa? — Calvin o pegou desprevenido.
Charles contraiu os lábios, encarou Calvin por alguns segundos, mas então desviou o olhar e encostou-se na cadeira ainda com os braços cruzados, só que dessa vez ele levantou um pé e o pôs sobre a coxa.
— Não pensa na possibilidade de perguntarem como você descobriu que eu sou garoto de programa?
Outra pergunta que deixou Charles sem respostas. Sua vontade era de se levantar ali e estapear todo o rosto do leonino.
— Eu sou um tigre e você um leonino. Eu sou nobre, eu tenho status. Eu convenceria todos eles.
— Você é apenas um garoto mimado que nem mesmo saiu das fraldas. Ainda nem mesmo aprendeu a viver e acredita que essa postura agressiva vai fazer com que todos tenham medo de você, no entanto, é o contrário que acontece. Você é uma piada.
— Não fale assim comigo ou eu juro que não vou responder pelos meus atos.
— E o que você vai fazer? Você é um garoto mimado. — repetiu. — Mimado!
— Escuta aqui! — Charles se levantou da cadeira, mas não partiu pra agressão, somente apontou para o rosto de Calvin. — Quem você pensa que é pra falar assim comigo? Você ganha a vida se prostituindo e acha que tem moral pra me advertir em alguma coisa?
Calvin, sentado, praticamente ficava na mesma altura que ele. Olhava-o nos olhos, mas não respondia nada. Optava pelo silêncio, preferia deixá-lo falar sozinho, assim encerraria a discussão.
— Eu vou contar pra todos!
— Eu troquei mensagens com você. Acha que não tenho provas suficientes para também derrubar a sua máscara de garoto hétero? Sean adoraria saber dessa informação.
— Me dê seu celular. — estendeu a mão.
Calvin negou com a cabeça.
— Me dê seu celular! — gritou.
— Eu já disse que não darei.
Charles esfregou a testa e impacientemente andou pra trás, de modo com que não soubesse mais o que fazer na presença do rival. Tinha acabado de entregar um dos seus maiores segredos nas mãos de quem mais detestava dos leões.
Calvin se levantou da cama, foi até a garrafa de vinho e a abriu, em seguida pôs a bebida nas duas taças reservadas para o momento. Mesmo que estivesse tendo que lidar com o garoto mais insuportável que conheceu, achou que dando-lhe algo para beber o deixaria mais calmo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Aqui. — disse estendendo o copo ao garoto.
— Recuso. — disse se afastando. — Não vou ficar aqui nesse quarto como se eu fosse um cliente seu.
— Acha que se eu soubesse que era você eu realmente teria prosseguido com aquela ligação? Talvez eu até tivesse... — disse a última frase baixinho e soltou um sorriso leve.
— Não me provoque mais. — Charles disse ainda de costas pra ele.
— Você é a pessoa mais complicada que eu conheço. — disse o leonino sentando-se novamente na cama. — Consegue ser até mais complicado que meu líder. Ou talvez não... Na verdade não sei... Talvez Colin realmente seja pior que você.
Charles se virou e semicerrou os olhos para ele.
— Mas acho que o Colin não seria capaz de acabar com uma festa de aniversário como você. Aquilo foi bonito de se assistir.
— Essa é nossa diferença. Àquele dia eu era o aniversariante e você apenas o empregado. Vê que não deveríamos estar nos comunicando? Meu sangue é nobre, meu estilo de vida é outro. — falou encostando-se na parede e cruzando os braços.
— E serei empregado no casamento do seu irmão. — revelou e estendeu a taça que bebia como se estivesse fazendo um brinde no ar, como se essa informação fosse deixar o garoto ainda mais irritado.
— Mandarei tirar seu nome da lista.
— Minha mãe é empregada dos seus pais há anos, ela sempre esteve por trás das festas em que eles organizam. Duvido muito você convencê-los de retirá-la de lá.
— Você acha que eu não sou capaz? Está duvidando muito de mim. — falou afastando-se da parede, aproximando-se de Calvin e tomando a taça de vinho que havia rejeitado. — Sou muito capaz de convencer meu pai e meu irmão.
— Não teria feito isso após o dia que nos beijamos?
Charles o olhou novamente com os olhos semicerrados, bebeu toda a taça de vinho num único gole, enxugou a boca e disse:
— Passei a escovar mais os dentes desde o dia em que isso aconteceu.
— Parecia que você tinha gostado. — ele sorriu e isso acabou deixando Charles sem graça.
E realmente tinha gostado. Calvin nunca tinha tocado em lábios tão grossos e macios ao mesmo tempo, com uma língua experiente a ponto de fazê-lo adormecer e o melhor era a barba roçando em seu queixo e pescoço em intervalos alternados.
— Nem mesmo morto eu teria gostado daquilo. — disse ele aproximando-se da garrafa de vinho e preenchendo o copo. — Você se acha demais. Tão ridículo que escolheu o nome Reece para o anonimato.
— Encontrei numa marca de camiseta que eu usava no primeiro dia em que passei a trabalhar com isso. — revelou.
— Eu não quero saber da sua vida como garoto de programa. Eu não te perguntei nada.
Charles já estava na terceira taça de vinho.
— Você acha que eu queria ter essa vida que eu tenho? — mesmo recebendo a grosseria do tigre, Calvin prosseguiu. — E não é apenas disso que eu sobrevivo. Não tenho muitos clientes, sejam homens ou mulheres. A necessidade pelo qual busco essa maneira é apenas para manter a saúde da minha filha.
“Filha?” Charles pensou. Ele nunca que ia imaginar que Calvin era pai, nem mesmo cogitava na cabeça que ele chegava a ser hétero após o beijo que tinham dado no banheiro.
— Não vai me fazer sentir pena de você. — disse ele largando a garrafa e voltando ainda com o terceiro copo de vinho pela metade.
Calvin ficou de pé, ele depositou a taça vazia sobre a mesa de cabeceira e retirou a camisa. Charles dessa vez não conseguiu desviar os olhos daquele corpo todo detalhado em músculos tão destacados, em especial na parte do abdômen e tórax, fora os braços grossos.
— Eu vou deixar você ir. — disse o leonino. — Vai me custar caro, mas não vou trancafiar você em um quarto.
Engolindo em seco após despertar dos pensamentos impuros ouvindo a voz dele, Charles não disse nada, olhou pra sua taça com vinho e a ficou balançando-a.
— Se está reclamando pelo valor do quarto que vai ter que pagar, eu te darei o dinheiro, pelo menos cumprirei com minha parte.
— Eu não preciso do seu dinheiro.
— Não precisa? — disse finalmente o olhando-o nos olhos. — Quem fez um discurso emotivo a menos de três minutos atrás?
— Poderia receber o dinheiro de qualquer um, menos o seu dinheiro. Eu não preciso dele pra mais tarde você esfregar na minha cara. Você é previsível, garoto.
Charles não disse nada, bebeu o resto do vinho, mas voltou a olhar pra taça, dessa vez vazia. Os pensamentos tomavam-lhe conta.
— Está aqui a chave. — disse ele pondo-a sobre a mesa de cabeceira.
Calvin deitou-se sobre a cama, pôs os dois braços embaixo da cabeça e fixou o teto.
Por um instante o quarto foi tomado pelo silêncio, Charles o observava de relance, mas optou por não dizer uma palavra, pois novamente travava uma batalha contra si mesmo. Calvin não conseguia pensar em outra coisa senão em como faria para escapar com novas mentiras caso o garoto contasse para todos o que ele realmente fazia em seus sumiços.
Charles se levantou, caminhou até a mesa de cabeceira, pôs a taça vazia sobre ela, olhou para o Calvin e disse:
— Eu pago pra fazer sexo com você. — disse firme, sem remorso algum, tomando coragem para dizer as palavras olhando em seus olhos.
Calvin, que até então não pensava em nada daquilo, somente o olhou sem nenhuma expressão de surpresa, sentou-se na cama e se manteve encarando-o.
— Assim você não recusa o meu dinheiro.
— E se eu continuar não precisando dele?
— É você quem está complicando as coisas por puro orgulho.
Silêncio e olhares.
Começando a ruborizar por tanto que encarava os olhos azuis de Calvin, Charles se irritou. Ele apanhou as chaves com força e caminhou em direção a porta, mas antes mesmo que pudesse girar a maçaneta, o tigre foi pego pela mão, virou-se e foi lançado contra a porta que tremeu, em seguida, bem a centímetros de sua boca, uma outra boca parou.
Os olhos arregalados de Charles denunciaram o quão surpreso ele havia ficado, mas uma respiração prolongada também revelou o quão prazeroso havia sido a ação tomada pelo leonino.
Ambos os olhos se comunicavam desejosos.
— Eu não posso perder tempo. — disse o tigre. — Ou você faz aquilo que eu pedi ou você me deixa ir.
— Tem certeza?
— Nós iremos transar, não nos apaixonar. É a sua profissão, não é?
— Se é pra ser assim, farei do jeito que pediu.
— Que faça valer a pena que valor que me foi cobrado. Não me trate como uma pessoa frágil só porque salvou minha vida uma, duas vezes. Eu não estou aqui pra brincar.
Calvin ficou surpreso com o que tinha ouvido; Charles era o que era dentro e fora do quarto.
E dada a informação, Calvin não perdeu mais tempo. O leonino tomou o tigre pelos lábios que logo se rendeu ao suspirar quando sentiu um toque firme em sua cintura que desceu até a nádega e apertou a região.
Esse beijo, por Charles, era superior ao primeiro dado por eles. Tinha tanta excitação envolvida que Charles não conseguia conter alguns tremores em seu corpo. Era beijo com uma boa pegada e o principal: ambos tinham a mesma intensidade em desejo de consumo.
Charles foi erguido contra a porta e forçado a ter suas pernas envoltas da cintura do leonino. Calvin o levou aos beijos até à cama e o jogou sobre ela. Em seguida retirou os sapatos do garoto, sem pressa, logo após as meias foram retiradas.
De joelhos, Calvin beijou os pés de Charles o que por segundos fez o tigre já começar a sentir pequenos arrepios em seu corpo. No entanto, a ação não durou muito tempo e logo o leonino começou a desfazer o botão do short branco do garoto que sem constrangimento algum permitiu que ele fizesse aquilo.
Mas Charles não conseguia olhar pra Calvin, nesse caso ele se sentia tímido, por isso tinha os olhos na garrafa de vinho sobre a mesa de cabeceira. Quando o short branco passou pelos seus pés junto da cueca, ele sabia agora que tinha se entregado por completo. A pessoa com quem tanto entrou em conflito agora sabia como ele era exatamente da maneira que havia vindo ao mundo: nu.
Charles era liso e isso Calvin pôde comprovar. E seu membro era considerado mediano e bem uniforme, o que só afirmava que Charles era realmente perfeitinho de corpo como um bom narcisista que ele era.
Charles tinha uma pinta preta próxima a pele que protegia a glande e mesmo sendo numa parte íntima, era relativamente fofa.
Calvin então se concentrou nos botões da camisa rosa do tigre. A cada botão retirado ele dava um beijo na região livre, assim fazendo Charles fechar os olhos, pois a região em si era sensível ao toque dos lábios do leonino, causando leves cócegas.
No final, Charles já estava sem nenhuma peça de roupa e Calvin montado sobre ele. O toque bruto das mãos de Calvin em seu queixo o fez olhá-lo nos olhos, mas o tigre não disse uma palavra.
— Quero que fique de costas. — pediu ao sair de cima dele.
Charles obedeceu sem pestanejar. Ele se deitou de bruços e com os braços estirados. A visão obtida por Calvin foi maravilhosa; ver todo aquele corpo rendido e despido em toda sua entrega para mais tarde ser consumido. Nunca que iria dizer a ele, mas a bunda de Charles era uma das mais belas já vista. Não era pequena, mas também não era grande. Chegava a parecer tão macia por tão lisa que era, assim deixando o leonino com uma baita vontade de mordê-la.
O tigre sentiu o peso de Calvin sobre a cama desaparecer, mas não ousou em ver o que ele estava fazendo. Não deu dez segundo e logo pode sentir um líquido um pouco pastoso, liso e cheiroso tocar as suas costas, mas a melhor sensação veio nos toques das mãos fortes do leonino.
Calvin massageou a região próxima ao pescoço, o que fez Charles realmente relaxar o corpo de tal modo que ele sentia que dormiria a qualquer momento. Calvin era tão preciso nos pontos considerados tensos, seus dedos brincavam com leveza, mas ao mesmo tempo empenhava pressão. Os polegares foram brincando e descendo sobre a espinha cervical do garoto que vez ou outra soltava alguns suspiros.
Era Calvin realizando o que exatamente Charles havia pedido ao telefone.
O mesmo líquido foi depositado sobre as nádegas do tigre, ali Charles passou a língua por seus lábios ao sentir os toques na região. Eram tão precisos quanto os toques dados por Calvin em seu pescoço, mas esquentou mesmo quando esse mesmo toque ia se aproximando do prato principal.
Charles soltou um suspiro quando a palma da mão de Calvin passou deslizando por entre as suas nádegas, toque leve, indescritível. Aconteceu outra vez e o tigre engoliu em seco desejoso.
Calvin ousou em segurar uma das nádegas e a afastar com força, assim exibindo o ponto que Charles mais queria que fosse tocado. O mesmo líquido que desceu sobre sua pele, agora caía exatamente ali, em maior volume.
O leonino largou o gel na cama e com o polegar, passou a massagear entre as nádegas de Charles que começou a gemer internamente, recusando-se a abrir os lábios e deixar seus gemidos escaparem. Novamente a palma da mão de Calvin passou na mesma região, dessa vez com um pouco de mais força e em seguida ele começou a pressionar as redondezas com os demais dedos, causando diferentes sensações no garoto de bruços.
A medida que os toques foram se intensificando, Calvin fez algo que Charles não estava esperando. Uma de suas mãos desceu por entre as nádegas de uma vez e mergulhou abaixo do corpo do garoto, tocando suas bolas e massageando-as levemente.
E seguiu com as duas regiões sendo massageados, sendo a de trás a mais prazerosa para Charles que não negava em admitir isso ao gemer internamente sempre que o polegar de Calvin fazia leves movimentos circulares na região mais sensível.
Calvin olhava para aquele corpo de costas e demorava a acreditar que era Charles ali. Quem acreditaria nele se um dia chegasse a contar pra alguém o que estava acontecendo naquele quarto? Era difícil de imaginá-lo tão rendido assim, tão cheio de prazer, tão entregue as suas vontades carnais, tão submisso.
Por isso Calvin largou as bolas do garoto e tornou a mão para as nádegas, afastou uma delas e quando viu aquele pedaço de carne rosado, não poupou em penetrá-lo. O dedo indicador do leonino pouco a pouco ia sendo introduzindo lá.
Calvin assistiu os dedos dos pés do tigre se dobrarem, seu corpo se contorcer um pouco, talvez não por prazer, mas simplesmente pela dor do corpo estranho sendo introduzido ao seu. E aquilo nem se comparava para o que viria depois. Calvin tinha dedos grandes, mas não tanto quanto aquilo que carregava entre as pernas.
Quando por fim todo o dedo foi introduzido, Calvin pegou o mesmo gel que já estava utilizando e derramou entre as nádegas de Charles e aos poucos começou a retirar seu dedo e a introduzi-lo, repetindo a ação sempre que considerado necessário para preparar o garoto.
Não tardou até que um segundo dedo fosse introduzido e Charles dessa vez abrir os lábios e deixar o primeiro gemido explícito escapar, diferente dos outros que eram bem sucintos.
Era maravilhoso para Calvin aquele dois dedos desaparecer e reaparecer sempre que era introduzido em Charles, garoto este que tinha até mesmo afastado mais as pernas para melhor receber a ação.
Charles era preparado daquela forma por quase dez minutos, sendo realmente estimulado para que mais tarde tivesse uma explosão de prazer ao chegar ao ápice. Fato esse que realmente iria acontecer tão maravilhosamente pelo tempo em que não chegava ao orgasmo transando, bem diferente das suas masturbações que nem mesmo eram rotineiras.
Calvin deu dois leves tapas na região do joelho de Charles e ele sabiamente entendeu o recado. Seu corpo se ergueu, embora a cabeça permanecesse ainda repousada na cama com os braços estirados.
Com o corpo tão entregue, a bunda empinada, Calvin continuou estimulando-o com os dedos e também deslizando a palma da mão por entre as nádegas do garoto. Até que Charles gemeu ainda mais alto ao sentir o toque que não era de dedos e nem de mãos, era leve, muito leve e quase não parecia encostar na região, mas era extremamente prazeroso e delicado.
O toque era macio e ao mesmo tempo úmido; a ponta da língua de Calvin agora tomava conta da região. Mas por pouco tempo foi somente a ponta, pois logo ele caiu de boca, com volúpia, realmente fazendo gemer cada vez o tigre que já contorcia os dedos das mãos pressionando o lençol da cama.
Era uma língua já experiente, disso ele podia garantir. Talvez por isso Charles não demonstrasse nenhum desconforto, mas apenas prazer. Era esse o seu dever: causar o máximo de prazer em seu cliente. Charles jamais reclamaria, e se reclamasse Calvin o faria admitir sobre constrangimentos o quão vulnerável ele estava.
Estimulando por cerca de quinze minutos, Calvin o fez novamente se virar na cama, posicionou-se entre as pernas do garoto e tornou a brincar com a língua entre as nádegas de Charles que estava com as pernas sendo seguradas e erguidas.
Breve durou aquela ação, pois a língua de Calvin subiu pela virilha de Charles, passou pelas bolas e engoliu de uma vez por todas o pênis do garoto. O tigre soltou um novo gemido, ainda que estivesse surpreso pela atitude do leonino, já que o que esperou dele fosse algo mais limitado, visto que garotos de programa, se héteros, preferem não por um pênis na boca.
Após parar de sugá-lo, Calvin voltou novamente com os dois dedos por entre as nádegas do tigre até penetrá-lo, os outros dois dedos da mão livre foram até a face do garoto, onde ele os introduziu na boca do Charles.
— Olhe pra mim. — Calvin pediu.
Em sua submissão, afinal, era o que ele gostava no ato, Charles obedeceu. Calvin com os dois dedos o fez entreabrir os lábios, e admirou aqueles lábios vermelhos e úmidos molhando o seu dedo.
— Chupe-os. — ordenou.
Dessa vez Charles demorou para agir, mas fez. Os lábios macios foram sugando os dedos de Calvin.
— Eu quero que você balance a cabeça se quiser que eu continue mexendo em você...
E seus dedos remexeram dentro do garoto, mas não na boca, e sim onde Charles mais estava sentindo prazer.
Charles fechou os olhos, gemeu baixinho e balançou a cabeça. Calvin novamente remexeu os dedos. Charles mordeu o próprio lábio e movimentou a cabeça. O leonino sorriu e se retirou de dentro do garoto.
Calvin ficou de pé, caminhou até a mesa de cabeceira, pegou o preservativo, abriu a gaveta e retirou de lá o lubrificante.
Charles assistiu tudo aquilo em silêncio, mas ansioso pra parte que mais desejava: o momento em que teria Calvin dentro dele. Seu corpo tremeu no instante em que viu o leonino retirar a cueca e revelar seu membro ereto que antes já marcava na veste.
Ao sentir os olhos de Calvin sobre si, Charles imediatamente deitou de lado na cama, numa posição que não pudesse vê-lo mais. Apesar de tudo, Calvin continuava sendo o mesmo garoto que ele tanto detestava, e relembrar isso enquanto estavam prestes a transar, o fazia sentir raiva e desejo ao mesmo tempo.
Charles o odiava, no entanto jamais admitira que sentia uma vontade absurda de gemer no ouvido dele. O que o confortava era a ideia de que aquilo era pago, tudo feito sobre a ideia de sexo pago, sem intenções românticas incluídas.
Calvin não voltou pra cama, ele sentou numa cadeira de frente pra o Charles, repousou seu corpo no encosto dela, esfregou o pênis enquanto o olhava. Com um dedo ele pediu para o garoto se aproximar e o tigre se levantou da cama, nu, sem constrangimentos, e caminhou até ele.
O leonino rasgou a embalagem do preservativo, entregou ao Charles e tornou a esfregar o próprio membro, dando-lhe o sinal de que ele deveria por lá.
Por dez segundos Charles o encarou, as vezes sentia que Calvin o desafiava, como se ele não fosse capaz de fazer certas coisas justamente por terem contato apenas em momentos de conflito. Calvin testava sua submissão.
O tigre ajoelhou-se entre as pernas do leonino, segurou na ponta do preservativo e o posicionou sobre a glande do pênis dele, devagar foi descendo a camisinha até que ela cobrisse boa parte da extensão.
Ele continuou esfregando-a até que se certificasse de que estava bem encaixada, em seguida ficou de pé e assistiu Calvin passar lubrificante em seu pênis.
Charles o olhou novamente, tocou no ombro de Calvin e o empurrou com força, assim fazendo-o ele novamente se encostar na cadeira. O mais novo dos Ferazzas não perdeu mais tempo. Ele afastou suas pernas e fez com que a cintura do leonino ficasse entre elas, logo tocou o pênis do garoto e o posicionou bem onde queria.
Ele olhou nos olhos de Calvin.
Ele sentiu.
A glande sequer passou e ele parou ali.
Charles envolveu seus dois braços sobre o pescoço de Calvin e repousou o rosto na curva do pescoço do leonino. Calvin cravou as duas mãos na cintura do tigre e relaxou ainda mais o corpo para que melhor o garoto ficasse sobre ele.
— Devagar pra não se machucar. — sussurrou o leonino.
Charles sorriu com um suspiro.
— Eu não preciso que se preocupe comigo. Não vim aqui pra brincar de sexo, eu vim aqui porque eu paguei. Ao telefone eu não pedi pra você ser romântico.
— Como você...
— Shh! — pediu por silêncio. — Lembre-se de mim agora como seu rival: venha com força.
E Charles desceu devagar, com pequenas pausas para relaxar, suportou, mas se encaixou por completo. Ele sentiu a dor, rangeu os dentes, mas não daria o prazer de Calvin assisti-lo resmungando.
Calvin amou ouvir aqueles gemidos em seu ouvido, eram tão bons e pareciam musicados. Eles se intensificavam, depois voltavam a ficavam leves, fraquinhos, desaparecendo...
— O que está esperando? Aqui quem controla é você agora. — disse o tigre entredentes, ainda sentindo a dor ao se adaptar-se.
Sua voz era pequena, nem mais parecia o garoto autoritário da república da frente. Era mesclada em gemidos.
Calvin sorriu, apertou a cintura do garoto e moveu a cintura. Charles sugou o ar, pois o movimento em si doeu, ele engoliu em seco, mas nada disse. No entanto, Calvin sabia que ele ainda não estava completamente adaptado ao corpo estranho dentro de si.
O leonino, mesmo sendo ordenado a não ter cuidado, ia se movimentando com calma, deliciando-se com os gemidos leves em seu ouvido, mas se surpreendeu quando sentiu as duas mãos de Charles tocarem o seu maxilar e em seguida sentir o toque daqueles lábios sobre os seus, implorando por um beijo caloroso que pudesse suprimir a dor sentida.
Ele beijava, mas ao mesmo tempo deixava escapar alguns gemidos e sua respiração pesada era audível.
Fazia muito tempo em que Charles não transava, por isso parecia como se estivesse perdendo mais uma vez a virgindade. No entanto, Calvin conseguia ser maior em todos os sentidos se comparado ao ex-namorado de Charles.
— Ei, você...
— Só fode e fica quieto. — vociferou.
Calvin não conseguiu esconder o sorriso com toda essa pressão recebida. Charles mesmo em toda sua submissão continuava tendo os mesmo traços mandões.
Aos poucos era perceptível como ele já estava mais relaxado, os movimentos de Calvin não estavam tão lentos como antes enquanto o tigre sentava sobre toda a extensão do pênis do leonino, transformando seus gemidos em algo que soava com mais prazer do que dor, talvez até um misto disso.
— Posso ir mesmo com tudo? — se atreveu a perguntar o leonino.
Charles só balançou a cabeça positivamente.
Isso foi mais do que o suficiente para Calvin ficar de pé, ainda dentro do Charles, o deitar sobre a cama e, num movimento único, fazer o corpo do tigre estremecer.
O gemido foi alto o suficiente para escapar pelos corredores. Charles estirou as duas mãos e apertou o lençol, entreabriu os lábios, virou seu rosto e mordeu uma parte do travesseiro a medida que ia recebendo novos movimentos dentro de si, cada vez mais intensificados e sem piedade.
Calvin segurava nas duas coxas do garoto enquanto o penetrava e o via delirar naquela cama, ao ponto de quase revirar os olhos e fazer os lábios sangrarem pelo tanto que ele mordia. Charles não tinha vergonha de nada daquilo que fazia, quem diria que logo ele estaria sendo tomado daquela forma?
O tigre voltou seus olhos à face do leonino que logo o encarou. O olhar de Charles era poderoso e raivoso, como se estivesse xingando mentalmente Calvin por estar fazendo aquilo, mas ao mesmo incentivando para que ele prosseguisse. Seus olhos realmente eram os mesmo de quando eles se encontravam na Quadra: cheio de raiva e desafiador. E era incrível vê-los assim enquanto era penetrado.
Charles entreabriu os lábios e deixou os gemidos escaparem, os movimentos fortes de Calvin faziam a cama tremer e ranger, o que fez Charles pensar que se novamente eles transassem, não seria mais naquela cama.
Calvin desceu o seu rosto até o do garoto e o tomou nos lábios, encerrando os gemidos, mas que breve escapara novamente através dos lábios do outro, abafados.
Depois de algum tempo as pernas de Charles começaram a doer devido a posição, por isso ele tocou a cintura de Calvin e o impediu de prosseguir. O tigre relaxou as pernas sobre a cama, Calvin saiu de dentro dele e retirou o preservativo, rasgou outro envelope de camisinha e tornou a se proteger.
Com as pernas bambas, Charles ficou de pé, olhou para o seu corpo vermelho e suado, embora aquilo ainda fosse considerado apenas o início da transa, mas Calvin já fizeram um grande estrago nele e isso ele poderia sentir.
O tigre não teve tempo de respirar, logo foi pego pela cintura, lançado sobre o armário e viu seu rosto no reflexo do espelho. Atrás dele, estava Calvin, sugando seu pescoço enquanto roçava o pênis entre suas nádegas. Charles afastou as pernas e se deixou ser penetrado.
A mão forte de Calvin segurou com volúpia o pescoço do tigre que se vendo através do espelho, arqueou as costas, entreabriu os lábios e aceitou o domínio do outro sobre isso, afinal, era disso que precisava a bastante tempo.
Os dedos de Calvin invadiram a boca do tigre e logo o fez virar a cabeça, mesmo numa posição considerada desconfortável, somente para beijá-lo enquanto o penetrava por trás de seu corpo.
— N-não para... — gemeu baixinho Charles.
Dessa forma, Calvin o empurrou pelas costas e Charles apoiou suas mãos no armário, o leonino cravou os dedos na cintura do garoto e sem carinho algum passou a penetrá-lo rapidamente. Os gemidos do tigre foram elevando-se a cada segundo, sendo obrigado a morder seu próprio braço para abafá-los e assim não acordar quem quer que estivesse dormindo nos outros quartos.
Calvin deslizou sua mão direta sobre os cabelos pretos daquele tigre, mas o carinho suspeito declarou sua intenção: com força ele fechou sua mão e passou a puxar os fios negros do garoto, tomando seu pescoço exposto enquanto fazia a cabeça dele pender para o lado.
Excitava ao Charles ver tudo aquilo pelo espelho e, melhor ainda, sentir todas as sensações provocadas por aquela dominação.
Novamente Calvin saiu de dentro do seu corpo depois de um tempo penetrando-o em frente ao espelho. Segurou Charles pelo pulso e o devolveu pra cama, no entanto, lá, Charles não ficou deitado de barriga pra cima. Ele permaneceu de costas, ajoelhou-se sobre o colchão, deitou seu rosto, arqueou o máximo que pôde as suas costas, deixando sua bunda empinada, numa visão magnífica para o leonino que lambeu os próprios lábios, sugou os dedos e deslizou por entre as nádegas do tigre, vendo o lugar penetrado completamente vermelho.
Calvin voltou a penetrá-lo naquela posição, ouvindo os gemidos como se estivesse suplicando por mais, ainda que já estivesse consideravelmente cansado e precisando do seu devido descanso, Charles não corria da luta. Se queria transar e sabia que mais tarde se odiaria por isso, então aproveitaria o máximo.
As duas mãos de Calvin apalpavam as nádegas de Charles enquanto o penetrava sem pausas, assistindo seu membro desaparecer dentro dele. Imaginem que ficaria gravada em sua lembrança eternamente, guardada no mesmo baú que ficam seus segredos.
Como podia estar sentindo tanto prazer transando com uma pessoa tão detestável? Há quem dizem que pessoas marcam vidas apenas pelo sexo bom, embora a personalidade seja um lixo.
Delirando-se naquele vai e vem, Calvin não aguentou por mais tempo, saiu de dentro dele, o empurrou na cama de modo com que ele ficasse de barriga pra cima e passou a se masturbar, mas rapidamente gozou sobre o abdômen do tigre.
Seu gemido foi tão forte que Charles jurou ter sentido o quarto tremer.
Ofegante, Calvin sentou-se na cama enquanto Charles também tentava respirar suavemente. Mas o leonino não parou por ali. Não era justo para o tigre não ter chegado ao ápice. Se como garoto de programa não fosse capaz de fazer seu cliente ir ao orgasmo, seria considerado péssimo.
Por isso ele aproximou do tigre, o pegou-lhe pelas pernas e as depositou sobre suas coxas. Assim, Charles ficou deitado da cintura pra cima na cama e as coxas repousadas sobre as de Calvin.
Com os dedos da mão direita ele invadiu as pernas do garoto e passou a penetrá-lo e com a mão esquerda ficou masturbando-o. A região de trás já estava sensível demais e pouco ardida, por isso o tigre se contorceu na cama e o prazer lhe consumiu imediatamente.
Como tinha que ir ao ápice, ele mesmo se permitiu que acontecesse. Logo novos gemidos tomaram conta do quarto e seu liquido descia pela mão do leonino.
Charles somente fechou os olhos, abriu os braços e respirou como se estivesse com falta de ar. Calvin sorriu e esfregou a testa com o braço.
Ambos estavam exaustos.
Nenhuma palavra sequer foi pronunciada, Charles virou seu rosto e enquanto ainda se recuperava fixou seus olhos no vazio. Enquanto isso, Calvin ainda admirava o corpo nu do garoto.
[...]
Charles chegou a sua república as sete da manhã.
Após o ato carnal ter sido consumado, ambos tomaram banho, separados e ainda assim sem manter nenhuma conversa. O tigre esperou com que Calvin pegasse no sono para finalmente conseguir sair daquele lugar e agora não sabia como olhar pra cara dele depois do que tinha feito. Só pensava em nunca mais sair da república dos tigres.
Ao retirar as chaves do bolso com ela veio a pulseira cinza que acabou roubando do garoto, tomada do leonino quando teve segurança de que ele estava em um sono profundo. Pelo menos isso iria adorar esfregar na esfregar na cara dele e lhe satisfazia se imaginar vendo-o aborrecido ao descobrir que teve a pulseira roubada. Eram as regras, afinal, as pretas tomam as cinzas.
Charles caminhou até a cozinha já sentindo os efeitos colaterais, ainda leves, sem comparados ao que viria mais tarde. Suas pernas, às vezes, fazia alguns movimentos involuntários e estavam doloridas.
Ele abriu a geladeira, retirou a caixa com suco de maçã, fechou a geladeira, caminhou até encontrar um copo e depositar o liquido lá. Charles arrastou um banco alto e teve dificuldades ao sentar. Tudo ardia, tudo doía. Ele até sugou o ar, mordeu os lábios e fechou os olhos insultando Calvin por ter feito aquilo com ele.
Através do reflexo torradeira espelhada, Charles percebeu que havia algo errado em seu pescoço. Imediatamente ele retirou do bolso, pôs na câmera frontal e verificou... Havia manchas, uma mistura de vermelho com roxo, em várias partes do seu pescoço, especialmente no lado esquerdo.
— Filho da puta! — disse baixinho ao guardar o celular.
Não fazia ideia de como iria esconder aquelas marcas de chupões, se fosse pelo menos um único, até poderia disfarçar com maquiagem ou um colarinho elevado.
Charles bebeu todo o seu suco e permaneceu alguns minutos ainda sentando, não querendo se levantar justamente para não sentir as mesmas dores que sentiu ao se sentar. Enquanto ali ficava, ouviu a campainha da casa ser tocada.
Ele não iria atender, ninguém poderia saber que ele estava acordado às sete horas da manhã de um domingo e com aquelas manchas no pescoço. Por isso quando ouviu os passos pesados de alguém descendo a escada, ele imediatamente saiu do banco e se enfiou embaixo do balcão da cozinha.
Quieto e com a mão na boca, temendo ser visto, Charles estava com os ouvidos atentos.
— Que merda você faz aqui, garota?
Reconhecia perfeitamente aquela voz; era a de seu primo Sean, ele acabara de acordar.
— Eu preciso falar com você, é urgente.
— Urgente um caralho, agora sai daqui e me deixa em paz. Você vem sete horas da manhã pra me encher o saco?
— Você não iria preferir ouvir o que eu tenho a dizer na frente de todos os moradores dessa república ou na frente do seu namorado. — disse ela.
Nesse momento Charles pôde imaginar a expressão de Sean completamente séria. Logo ele ouviu o som da porta da sua república ser fechada e os passos daqueles dois agora estavam próximos, eles provavelmente estavam na passagem da sala pra cozinha.
— Ficou nervoso? A culpa lhe persegue?
— Eu não quero perder tempo, diga-me o que tem pra dizer e vá embora daqui.
— Poderíamos repetir o que fizemos àquele dia...
— Não fizemos nada e se você insistir nisso, eu vou ser obrigado a dar um jeito de expulsá-la da Quadra. É melhor você parar com isso ou sofrerá as consequências.
Silêncio por curto período de tempo.
— Você está vendo não está? — a garota questionou.
Charles não fazia ideia do que aquela pergunta significava. Sem vê-los ele não podia imaginar o que se passava entre eles naquela situação.
— Pode tocar... — disse ela. — É seu, todinho seu. Você será pai, Sean. Aquela noite foi o suficiente para que eu ficasse grávida.
Charles preferiu não imaginar a expressão de seu primo após ouvir aquilo.
— Saia dessa casa. — vociferou o moreno. — Saia dessa casa! Eu não vou cair nessa conversa. Não aconteceu nada entre nós dois.
— Não aconteceu? Então por que você está tão nervoso? Nem mesmo você tem certeza disso. Do contrário, eu me lembro de tudo, lembro de todos os toques, de todos os gemidos...
— Saia!
Charles ouviu a garota gritar, por isso ele se atreveu a levantar um pouco a cabeça pra ver o que acontecia, mas era apenas Sean segurando-a pelo pulso e colocando-a para fora da república. Quando o primo fechou a porta com raiva, Charles novamente se escondeu para não ser visto.
Charles não queria encarar o primo naquele momento. Charles não queria estar na mente dele. Charles não queria ser ele.
Sean sendo pai?
Verdade ou mais um truque da vida tentando derrubá-lo?
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