Notas iniciais
Tem barba, tem melanina. Tem audácia, tem nobreza.

Kai ouvia a voz da Melissa e ao mesmo tempo encarava o loiro de olhos fechados. Ele até conseguia ler os pensamentos do Brandon, tendo em vista que a situação em que se encontrava era das mais embaraçosas possíveis.

— Qual mentira você vai contar agora? — Kai questionou.

Brandon abriu os olhos.

— Está pelado dentro de um box de um banheiro com um cara, cuja a pele é escura. Hein? Qual a desculpa dessa vez? Quem sabe você pode dizer a ela que eu entrei no aqui e tentei te forçar a algo. Isso acontece no mundo lá fora, você sabia?

— Kai, por favor... — Brandon balançou a cabeça e sua expressão foi tão triste, que até mesmo o coração duro do mexicano foi capaz de se compadecer, embora não demonstrasse. — Não fale assim...

— Então me diga o que fará.

— E-eu não sei... — admitiu, temeroso.

— Covarde. — disse o mexicano.

Kai abriu o box do banheiro e puxou a toalha, imediatamente enrolando em sua cintura, embora deixando propositalmente parte da nádega a mostra. Completamente molhado, ele deu de cara com Melissa ao abrir a porta. A loira arregalou os olhos, assustada.

Fingindo está com pressa e com a cara mais cínica possível, começou dizendo:

— Desculpe me ver assim, é que estou com pressa. Brandon tá no banheiro revoltado porque eu invadi o box e me molhei rapidinho. — ele elevou o tom de voz desejando que o loiro escutasse.

Kai estava convencido de que Melissa pudesse cair naquela mentira, afinal, o piso do banheiro estava molhado por suas pegadas, ele estava de toalha e sequer se enxugou, sua atuação foi convincente e, a expressão da garota era de quem acreditava naquilo.

— Oh, céus, mil perdões por invadir o quarto assim. E-eu vou me retirar pra você se trocar. D-diga ao Brandon que estou esperando lá embaixo. — falou, constrangida.

Melissa apressou-se em sair do quarto quase que levando sua mão ao rosto por tamanho constrangimento de ter visto as nádegas do mexicano. Claro que aquela não era a primeira vez que ela via uma bunda masculina, inclusive já viu a do Brandon, mas a situação em si era embaraçosa.

Quando Melissa saiu do quarto, Kai fechou a porta e, naquele instante, ele refletiu sobre a ação feita.

Era verdade que Brandon não sabia o que fazer, talvez mentisse de novo. Talvez. Talvez apenas ficasse calado. Viver nesses talvez era aterrorizante, mas segundo a covardia do loiro e vendo-o daquela forma, Kai resolveu facilitar as coisas.

Talvez o mexicano não estivesse pronto pra outra mentira — que, ironicamente, mentiu pra livrar o tigre.

Kai finalmente se enxugou e pôs a toalha na cabeceira da cama. Ele buscou pela cueca e a vestiu.

Brandon saiu pelado para o quarto completamente sem saber o que falar. Pareceu ter desaprendido. Ou apenas não tinha condições de dizer alguma coisa depois do que o mexicano havia feito; livrando-o, entretanto, reafirmando a covardia dele.

Kai vestiu uma calça, perfumou-se e usou uma camisa verde. Em seguida foi até o espelho e arrumou os cabelos. O mexicano estava ciente da presença do outro, mas continuou a agir como se ele não estivesse ali.

Brandon, quieto, o assistia se deslocar pelo quarto, indo de uma ponta a outra recolhendo a toalha, guardando-a. Quando o mexicano saiu do banheiro, Brandon ia abrir a boca pra falar alto, mas foi interrompido.

— Amanhã aparecem aqui pra buscar minhas coisas.

O tiro em palavras.

— O quê?! — Brandon até mesmo saiu do seu lugar, indo até o Kai.

— Estou indo embora.

— Kai, não... Por favor, não...

— Nós dois sabemos que se eu ficar aqui vai ser pior.

Brandon o agarrou.

A lágrima do olhar do mexicano despencou. Mas ele precisava ser forte, sustentar esse peso em seu peito era difícil, entretanto, precisava se afastar. Consumia-lhe o ódio se permanecesse perto do Brandon, tendo que suportar as mágoas. Afastar-se, muitas das vezes é eficiente para que um sentimento como esse amenize.

— Me solte. — pediu.

— Eu não posso deixar você ir.

— Você deve.

— Kai, por que tem que ser tão difícil?

— Não são respostas que eu possa te dar. Agora me solte.

E cedeu o loiro.

— Eu juro, Kai, eu juro que me esforço. Mas...

O mexicano abriu a porta, incapaz de permanecer ouvindo. Era sofrimento demais estar dentro daquele quarto com ele.

Brandon não correu atrás. Não forçou mais. Talvez reconhecesse que também fosse melhor assim, afinal, havia novamente o magoado, ainda que sem dizer uma palavra, mas suas ações deixaram sua covardia explícita.

A questão nesse momento não era a cor do Kai, mas sim o fato de ele mais uma vez não contar a verdade pra garota. Kai estava farto de sustentar aquela mentira ou suportar uma nova mentira que Brandon poderia contar para ela.

Brandon admitia que tinha medo de que Melissa descobrisse que a relação dele com Kai foi mais íntima do que ela imaginava. A cena do banheiro literalmente poderia entregá-lo — assim pensava o loiro.

Desolado, Brandon aproximou-se da sua cama e sentou-se. Se lembrou da sua discussão com Sean.

Brandon não precisou dizer que estava expulsando o Kai. Entretanto, Kai saiu justamente por causa dele.

[Início do Flashback]

— Quero ver se vai continuar assim com ele pra sempre. Quando será a segunda vez que cometerá o mesmo erro? — o moreno o encarou. Dessa vez Brandon não soube o que responder. — Por enquanto faz tanto pra se redimir com ele, mas sei que vai errar novamente... E vai errar mais de uma vez.

— Você não deve interferir na minha vida, Sean.

— Está na hora de saber quem é você de verdade, Brandon. — mostrou a seriedade do seu olhar profundo. — Não venha bancar o garoto gentil que demonstra ser, pois sabemos que você não é. Principalmente agora ao começar a agir como um Ferazza: frio e chantagista.

Brandon não conseguiu dizer nada mais. Sean caminhou até sua porta e segurou a maçaneta, antes de abri-la, olhou para o primo que voltou a se sentar no degrau da escada.

— Espero que dê um jeito de convencer o Kai de dormir hoje na sala. Quero apenas ver o que fará quando Charles chegar a conhecê-lo. Se eu não posso expulsar o Kai, é capaz de você mesmo fazer isso. Você é tão ruim quanto o Charles e eu.

[Final do Flashback]

Hugh estava deitado na sua cama. Ele estava pensando sobre diversas coisas ocorridas em sua vida; pelo tempo ocioso, aquilo era o melhor a se fazer. Apesar disso, partes dos seus pensamentos estavam voltados para Pietro, que sumiu desde que Colin fora espancado.

O fato de ele ser uma das suspeitas acabava piorando sua situação dentro da república e Hugh era o único a tentar defendê-lo com todos os argumentos possíveis de que o garoto não tinha relação alguma com aquilo.

O leonino foi desperto dos pensamentos quando seu amigo Calvin apareceu com um saco de papel bem conhecido pelos moradores — por que não dizer universitários? — da Quadra. Com o slogan da lanchonete, era fácil deduzir que havia lanche ali dentro.

— Trouxe pra você. — disse ele jogando o saco na cama de Hugh e imediatamente retirou sua camisa.

— Chegou cedo. — Hugh falou ao se sentar e verificar o que havia dentro do saco. — Quanto que deu isso aqui?

Calvin precisou ser rápido na resposta.

— Ah, sim. Fui direto da faculdade, por isso cheguei cedo. — em seguida olhou para amigo. — Comprei pra você, não se preocupe em me pagar.

— Se é assim, vou comer. Estava quase tomando coragem pra me levantar e fazer algo pra comer. O dia hoje só pediu descanso, estou atolado de trabalhos pra fazer.

Calvin sentou-se em sua cama e começou a retirar os sapatos e meias.

— Tenho que ler um artigo até amanhã à tarde. Vou ler parte dele hoje e amanhã concluo.

— E então, o que fez hoje? Alguma festa?

— Não. — sabia que Hugh era inteligente demais e dificilmente acreditaria nisso pela hora em que havia chegado, apesar de não ser uma regra o horário. — Um amigo meu me chamou pra fazer uma mudança. Só precisamos esvaziar a casa, não tinha muitos móveis.

Calvin então lhe mostrou algumas notas de dinheiro e sorriu e em seguida guardou no bolso.

— Tô pensando seriamente em me aventurar com você nesses trabalhos. Parece ser bem melhor do que trabalhar na lanchonete.

Calvin somente sorriu e preferiu não dar continuidade a conversa pra retirar a ideia da mente do amigo.

Sentado, Calvin ficou olhando-o enquanto o garoto comia. Sujando toda a boca, Hugh sorriu quando tentou se limpar. Calvin mais uma vez sorriu e coçou a cabeça.

— Vai deixar a barba crescer?

— O que você acha? Tô pensando seriamente em deixar crescer um pouco e depois ir à barbearia apenas para moldá-la e aparar.

— Você vai ficar mais sério do que já é. — sorriu. — É alto, forte e agora deixando a barba por fazer vai intimidar alguém só com o olhar.

— Isso é bom. — Calvin ficou de pé. — Alguma notícia do Colin?

— Ele já está melhor, passei lá. Sabe aquele jeitinho arisco dele? Bem, tá voltando...

— E o outro? — perguntou ao mudar o tom de voz. Facilmente Hugh deduziu a quem ele se referia.

— Ainda não apareceu.

Calvin percebeu pelo olhar de Hugh que o amigo sentiu desconforto a sua pergunta, por isso não insistiu. Até que pudesse fazer isso, mas ele reconhecia que o leonino já estava farto do pessoal da república falando a todo instante de Pietro ao relacionar com o espancamento do seu líder.

— Por favor, Calvin... — ele balançou a cabeça negativamente.

O tom de sua voz foi tão tristinho que Calvin pôde comprovar mais uma vez o quão saturado Hugh estava disso.

— Eu não ia falar nada.

— Mas todos estão. Eu sei que cada um tem suas razões para desconfiar dele. Posso me arrepender amargamente por isso e quebrar a cara, mas custa dar uma chance?

Calvin deu de ombros. Se abrisse a boca iria discutir o assunto que Hugh estava evitando, por isso somente fingiu estar procurando alguma coisa.

— Se alguém não entrar na república, você sabe que um de nós vai ter que ir ocupar a vaga do Billy, não sabe? E finalmente vamos nos livrar dele desse quarto.

Hugh franziu a sobrancelha, um tanto temeroso. Ele até evitou olhar para Calvin já que seus pensamentos já deduzia o que aconteceria e, provavelmente, pela lógica, ninguém aceitaria Pietro em um quarto senão o próprio Hugh.

Entretanto, Calvin iria relutar bastante em deixar Hugh dividir o quarto com o garoto.

— Vou dar uma volta. Quer ir?

— Vou ficar mais um pouco aqui.

— Por acaso você está o esperando?

— Calvin... — falou numa súplica.

O mais velho apenas revirou os olhos, caçou por uma camisa e a pôs no ombro, em seguida saiu do quarto definitivamente.

Hugh até pensou em se levantar e correr atrás do amigo, mas deixou sua falta de vontade o dominar. Continuou comendo todo o seu lanche. Em seguida jogou as coisas no lixo, ele limpou a ponta dos lábios com o dedo e o sugou.

O leonino buscou por seu violão que ficava ao lado da cama, caçou por uma palheta na sua gaveta e sentou-se próximo a cabeceira.

Ele primeiro verificou se as cordas estavam todas afinadas. Hugh sabia um pouco de afinação, mas sempre recorria ao uso do afinador, mas pela preguiça de procurá-lo, arriscou em afinar o violão pelo conhecimento.

Feito isso, entoou o primeiro acorde; o som pareceu agradável aos seus ouvidos.

Hugh fez uma longa pausa olhando para seu violão, olhou para porta por um instante e abaixou a sua cabeça. Em seguida as primeiras notas da música Jolene — Dolly Parton.

Ele nem mesmo havia planejado tocá-la naquele instante, apenas relembrou de quando a ouvia quando era muito garotinho quando seu avô, naquela época, ouvia bastante a música,

Hugh até mesmo havia esquecido a música, nunca a tinha pego pra ensaiar, por isso só sabia entoar os primeiros acordes.

Hugh repetia os mesmo acordes de modo com que parecesse seguir o ritmo da música, ainda que um acorde ou outro faltasse. Até que novamente levou seus olhos à porta, sendo que nesse momento alguém estava lá: Pietro.

O leonino parou de tocar imediatamente e ficou encarando-o.

Pietro, a princípio, o encarou da mesma forma. Em seguida adentrou ao quarto.

Hugh largou o violão e deu um salto da cama e colocou-se à frente do garoto, impedindo-o de prosseguir.

— Onde você estava?

Pietro só o olhou de relance e o afastou para o lado, dando continuidade aos seus passos até suas coisas.

— Pietro, onde você estava? — insistiu o leonino. — Estão pensando que...

— Que eu bati naquele garoto? E se foi eu, o que você vai fazer?

Hugh não acreditou nas palavras. Poderia até ser verdade, mas Hugh não conseguiu sentir a verdade em Pietro. Não sabia como, apenas sentia que ele mentia.

— Para com isso, se ouvirem...

— Você acha que eu não ouvi eles falando disso assim que eu entrei? Me ameaçaram. Bando de filhos da puta. — revelou enquanto sentou-se no chão.

Hugh não conseguiu dizer nada.

— Vai ficar aí parado olhando pra mim?

— Onde você estava?

— Por aí, caralho. — Pietro virou o rosto e abriu sua mochila.

— Custa ter que reconhecer que eu tento livrar sua cabeça aqui dentro?

— Do que adianta? Não vai mudar a imagem que seus amigos têm de mim e, que, afinal, não muda em nada em minha vida. Odeio todos vocês.

— Eu desisto. — falou e levantou as mãos. Pietro estava mais insuportável do que o comum.

O leonino de cabelos encaracolados voltou pra sua cama.

Pietro sentou-se no chão e começou a revirar sua mochila, tentando encontrar alguma peça de roupa. Fazia tempo em que ele não arrumava nada e tudo ali estava uma bagunça, inclusive vestes com amassos.

— Quer que eu o ajude a arrumar suas coisas?

Pietro olhou pra trás e o viu deitado com a cabeça repousada no travesseiro. Hugh e sua bondade mais uma vez conseguindo a atenção do outro.

— Não precisa. — respondeu, seco.

— Tudo bem. — não insistiu.

Dessa vez Hugh ficou em total silêncio.

Os minutos seguiram e nada da voz serena do Hugh ecoar pelo quarto.

Pietro não gostou e nunca iria admitir que estava odiando aquele silêncio. Talvez estivesse acostumado com a insistência do garoto; o único a pelo menos se importar com ele dentre todos os colegas que tinha.

— Há cordas desafinadas. — comentou, finalmente o indesejado da república.

Hugh o olhou franzido a sobrancelha e depois se sentou e olhou para o violão.

— Você toca?

— Isso não importa. Você não tem noção de afinação? Por que sinceramente... Todo mundo hoje em dia pega um violão e já acha que é músico.

— Eu tento, não sou tão bom quanto o meu primo Connor que sabe bastante de música. Ele costumava cantar pro namorado dele aqui nesse mesmo quarto que estamos.

— Não conheço e não quero o conhecer.

— Tem algum dia que você consegue ficar de bom humor?

Pietro somente mostrou-lhe o dedo do meio.

— Mas você realmente toca? — questionou se se importar com o gesto obsceno.

— Já disse que isso não importa.

Pietro retirou sua camisa e desistiu de revirar suas coisas e busca de algo melhor pra vestir. Ele somente aproximou-se da cama de Hugh e puxou o colchão que ficava embaixo dela.

Já deitado, Pietro repousou sua cabeça no travesseiro, cruzou os braços e fitou o teto.

Hugh permaneceu sentado, mas não retirou os olhos de Pietro, desejando ler os pensamentos dele, tendo em vista que ele parecia tão pensativo enquanto encarava o teto.

— Pare de me olhar. — Pediu agressivo.

Hugh até tremeu quando ouviu a voz tão repentina a ponto de assustá-lo já que estava viajando em pensamentos.

O leonino de cabelos encaracolados deitou em sua cama com a cabeça embaixo das mãos e passou a fitar a cama vazia de Calvin, mas em seguida, não resistindo, tornou a olhar para Pietro que, ironicamente, já estava encarando-o.

Naquela troca de olhares mútua, Pietro olhou de relance pra porta e em seguida para Hugh.

Como um leão que salta pra dar o bote, ele fez isso com o objetivo de tomar os lábios do garoto.

Pietro levantou-se do colchão, assustando Hugh, tocou-lhe os fios encaracolados e entreabriu os lábios já aproximando seu rosto ao dele.

— Hugh, você os garotos vão pedir pizza, você quer? — Julius invadiu o quarto falando.

No mesmo instante, Pietro o largou e deitou-se na cama. Tudo foi tão rápido, que ele pareceu correr uma maratona de tão ofegante que ficou, o coração saltando sem parar.

Sem conseguir pronunciar uma palavra, Hugh com olhos arregalados, encarou seu primo.

— Hein? — reforçou Julius sem perceber algo estranho no quarto.

— N-não.

— Você tá bem?

Ele confirmou com um aceno de cabeça.

— Ok. De qualquer forma vou pegar uma fatia pra você. — disse saindo do quarto.

Hugh o assistiu sair do quarto e, no momento em que isso aconteceu, ele olhou para Pietro, mas o garoto estava de costas para ele.

Pietro odiou-se. Mais uma vez não resistiu a tentação.

Hugh engoliu em seco.

[...]

Estavam os dois separados por três metros de distância; O leonino ao lado esquerdo, na perspectiva de quem chegava ao refeitório, e o tigre ao direito. Ambos sozinhos. Calvin estava só porque Kai não tinha aparecido na universidade e Hugh teria aula somente ás 14hrs. Charles sempre foi sozinho desde que chegou à Quadra.

Difícil era pra Calvin prestar atenção em sua comida enquanto o via ali um pouco distante, comendo com postura de quem tinha assistido algumas aulas de etiqueta, com ar pomposo e olhar de desprezo a todos aqueles que passavam e empurravam as cadeiras vazias de sua mesa.

Por outro lado, Charles sabia que o outro estava o olhando, mas dessa vez os papeis se inverteram e foi ele quem preferiu fingir que o leonino não estava ali. Entretanto, sua personalidade não é uma das mais pacíficas do mundo, por isso, no momento em que pôs o garfo e a faca na bandeja, arrumou a manga da camisa, ergueu o punho em direção ao Calvin e exibiu o dedo do meio, em seguida Charles sorriu.

Foi então que Calvin somente bebeu do seu suco, balançou a cabeça negativamente e voltou sua atenção à comida.

Satisfeito, Charles aprumou-se na cadeira e continuou a comer.

Seu humor até poderia estar péssimo pela presença de Calvin que, segundo o tigre, estava dividindo o mesmo espaço que ele, mas, de fato, tornou-se péssimo quando seus olhos foram até uma das entradas do refeitório e ele viu as duas pessoas que mais odiava em sua vida — podendo incluir Sean nisso.

Assim que o viu, Dimitri não perdeu tempo em sorrir. Naquele momento, seguro de si, tratou de enroscar seu braço ao de Jamie e o puxá-lo para uma mesa que, ironicamente, era ao lado da que Calvin estava.

Sem demonstrar resquícios de vulnerabilidade, Charles permaneceu comendo. Nada o atingiria, não importava o que. No menor ataque verbal de Dimitri, ele já estava pronto pra rebater e, geralmente, sair vitorioso na batalha de argumentos.

— Que vontade de ir lá.

Jamie apenas o olhou e ficou em silêncio.

— Eu não vou sossegar até acabar com ele.

— Qual seu outro objetivo de vida?

Mas Dimitri não respondeu quando viu Charles ficar de pé. O tigre simplesmente deu as costas e seguiu o caminho dos banheiros.

Dimitri rapidamente colocou-se de pé. Calvin, vendo aquilo, passou a observá-lo e deduzir o que iria acontecer.

— Vem, vamos. — Dimitri, sem olhar pro namorado, começou a dar os primeiros passos.

— Nós acabamos de chegar.

— E você acha que eu vou perder essa chance de irritá-lo?

— Dimitri...

Jamie percebeu que ele não tinha o ouvido ao ver que o namorado já estava afastado da mesa, caminhando sozinho sempre olhando pra onde Charles estava indo.

Charles entrou no banheiro no exato momento em que um grupo de garotos estava saindo. Imediatamente o tigre dirigiu-se para uma das cabines, arqueou as costas e abriu o zíper de sua calça. De onde estava conseguiu ouvir a porta do banheiro ser aberta e em seguidas pegadas.

Quando fechou o zíper, ele deu descarga e abriu a porta da cabine.

Encostado a pia estava Dimitri com um sorriso de ponta a ponta enquanto Jamie, quieto, de braços cruzados, o olhava.

— Veio pedir autógrafo? — Charles questionou sem mostrar nenhuma surpresa. Aproximou-se da pia, ligou a torneira e olhou-se no espelho.

— É verdade que seus pais se separaram? — Dimitri perguntou ao desencostar-se da pia.

Charles não o respondeu. Lavou suas mãos em silêncio.

— Boatos que foi após a festa.

— Você adoraria sair nesses boatos. É tudo o que você mais gosta, virar notícia, virar boato... Pena que nas vezes em que conseguiu foi tendo que usar o meu nome pra difamar, e que com isso me exaltava cada vez mais.

Na batalha de argumentos, Charles era realmente um mestre.

Como seria discutir com Colin? Uma discussão pra saber quem reina nas respostas certeiras a ponto de fazer o outro perder a cabeça.

— Como está sua mãe sem seu pai? Soube que até que ela deixou de trabalhar no hospital por causa disso.

— O que quer, Dimitri? — Charles virou-se. — Posso facilmente enfiar sua cabeça e a do Jamie em qualquer privada desse banheiro. — Charles olhou para Jamie. — Aliás, como consegue se aproximar de mim? Não deveria sentir vergonha?

Jamie não falou nada. Dimitri ficou olhando-o esperando com que ele rebatesse, mas Jamie não se deixou levar por isso, apenas fez um aceno com a cabeça.

— Soube que seu irmão vai casar, parece que ele é o filho queridinho do seu pai. Iria adorar ver a cara do seu pai no dia em que você se assumiu quando jurou estar apaixonado pelo Jamie. Foi muito fácil ele ter conseguido fazer sua cabeça pra você ir contra sua família.

Charles sentiu. Mas se negava a parecer atingido por aquilo. Nunca iria demonstrar vulnerabilidade na frente dos dois.

— Quanto foi o orçamento do seu aniversário? Porque sinceramente... Você acabou destruindo com uma festa daquele nível... — continuou.

— Não acha que tá na hora de mudar, inovar, renovar... Sei lá, qualquer coisa... Isso é muito repetitivo.

Dimitri sorriu.

— Fala isso, mas eu sei que está odiando ter que me ouvir falando essas coisas. Assim como odeia me ver com o Jamie, que, aliás, ontem inauguramos juntos a nossa nova cama... — provocou e enroscou o braço no pescoço do namorado.

Charles cuspiu.

— Acho que preciso usar uma dessas privadas pra vomitar. — rebateu.

— Vomitar? Só porque eu beijo esses lábios que você já beijou? Que, aliás, eu beijava após você beijar. Lembra-se da sua primeira vez com o Jamie? Você era virgem, não era? Depois daquilo Jamie me procurou e, alguém mais experiente, fez o que você não tinha feito tão bem.— sorriu.

Charles fechou o punho.

— Está vendo aí? — Dimitri olhou para o namorado e sorriu. — Jamie sempre...

— Jamie sabe que sua mãe traia seu pai com o nosso professor? — o interrompeu. — Pera, com o professor e com o... Como era mesmo o nome dele... Céus, eu esqueci. — Charles tocou a própria testa, atuando. — Ah, era o carinha lá da coordenação.

Foi aí que Dimitri já não tinha a mesma expressão de antes, rapidamente ele adotou um olhar furioso. Jamie não sabia de nada disso.

— Olha só, parece que ele não sabe e, pelo visto, nem mesmo você sabia que eu tinha conhecimento disso. Soube até que você ficou com mensalidades quitadas todas as vezes em que ela transava com o coordenador.

O poder que Charles tinha pra rebater as provocações de Dimitri equivalia ao ódio que ele estava sentido por todas as provocações recebidas por ele.

— Desgraçado! — Dimitri, com raiva, tentou partir pra cima do tigre com um soco.

Charles na mesma hora soube se defender, quando somente se abaixou e segurou Dimitri pelo punho, girando-o.

— Solte-o! — Jamie na mesma hora interveio, puxando o braço do namorado e afastando Charles que deu um passo pra trás.

— Podem vim os dois, eu dou conta. — sorriu, embora estivesse sentido ódio.

Jamie apenas deu de ombros e segurava Dimitri que tentava se desfazer de seu braço, insultando aos berros o tigre dentro daquele banheiro.

— É assim que ele grita quando estão transando? Credo, como você consegue?

— Me larga, eu vou partir a cara desse desgraçado.

— Vamos embora. — Jamie falou firme.

A passos pesados, ele puxou o namorado que ainda continuava a insultar Charles. O tigre, sorrindo os acompanhou com os olhos até que eles desaparecessem ao atravessar a porta.

Em seguida, Charles desabou com os braços na pia, respirou tão forte como se estivesse tentando recuperar ar. O clima ali dentro estava tão tenso que ele não havia percebido que tinha prendido a respiração.

Olhando-se no espelho, ele assistiu seus olhos tornando-se marejados. Lembrar que tinha sido o culpado pela separação dos seus pais o deixou daquela forma. Odiava relembrar a discussão que os pais tiveram enquanto ele ainda estava na maca do hospital.

[...]

Pela aproximação de um dos banheiros da república com o seu quarto, Samuel diversas vezes entrava no cômodo somente com uma toalha. Banhava-se e voltava pro seu quarto enrolado nela.

Novamente isso acontecia.

A água molhava o seu cabelo retirando todo o excesso de shampoo, após sentir que estava tudo tranquilo, ele desligou o chuveiro, puxou a toalha e começou a se enxugar já caminhando até a frente do espelho, onde lá perderia alguns segundos enxugando os fios dourados em sua cabeça.

Samuel percebeu que precisava fazer a barba, mas pela preguiça que estava e, pelo horário, pois logo mais teria aula, resolveu deixar pra outra hora.

Ele enrolou a toalha em sua cintura e abriu a porta do banheiro, no momento em que estava caminhando para o seu quarto, foi surpreendido pela última pessoa que ele queria ter visto.

Luke saia do quarto naquele instante e, como um provocador nato, pôs a mão na parede do corredor, impedindo a passagem do loiro.

— Da uma giradinha. — brincou.

— Vai se foder e me deixa passar.

— Só se me der um beijinho. — fez bico, fechou os olhos e aproximou seu rosto ao do loiro.

Samuel somente revirou os olhos e bateu no braço dele, assim liberando a passagem. Luke, nada satisfeito, puxou a toalha do loiro no momento em que ele passou. A bunda branca do loiro ficou exposta a ponto de fazer o moreno sorrir de ponta a ponta ao relembrar dos dias que enfiou o rosto ali, mordeu, estapeou e coisas intimas que sua imaginação — diversas vezes fértil — o proporcionava.

— Filho da puta! — bradou o loiro, roubando a toalha novamente e se enrolando no mesmo instante. — Qual o seu problema?

— Esse. — olhou pra baixo e mostrou o volume formando-se na bermuda de tecido fino, típica de um jogador de basquete.

Ao ver aquilo, Samuel não pôde negar aos seus pensamentos que sentia falta de transar com Luke, mas também não seria babaca a ponto de ceder a isso. Seria estupido da sua parte e a última coisa que ele sentia pelo moreno era apenas raiva.

— A do meu namorado é melhor.

Samuel foi tão certeiro em rebater a provocação de Luke que o moreno ficou tão desnorteado e sem graça, que seu rosto passou a mudar pra um tom avermelhado.

— Vai se foder.

— Fodemos ontem.

— Qual é, Samuel, conta outra, você não está namorando porque gosta dele.

— Mas eu gosto.

— Corta essa. O garoto não é o seu tipo, ele é burro pra caralho.

— Olha como você fala dele! — o ameaçou.

— Mas ele é. Todo tapado, só fala besteira. Você não iria se prezar a namorar alguém daquele jeito.

— Luke, você já observou como você é? Nem eu me prestaria a namorar com alguém como você.

— Ah, nem vem, nós tínhamos as melhores transas. Vem, vamos agora pro meu quarto... Eu sei que você quer. — o segurou pelo braço.

— Para com isso, Luke. — se desvencilhou. — Larga de ser babaca e vai pegar os garotos que você encontra a cada esquina.

— Porra, hein? Eu sou muito melhor que esse seu namorado. Para com essa ideia maluca de namorar aquele garoto, eu sei que você sente falta, vem, vamos...

— Luke, você só piora as coisas e piora a imagem que eu tenho de você. Acha mesmo que eu seria capaz de traí-lo? Quem cheira a infidelidade aqui é você. Agora, se me der licença, eu vou me trocar e mais tarde encontrar o meu namorado. Por que não chama o Gale pra transar com você?

O loiro deu as costas imediatamente, conseguindo alcançar seu quarto próximo. Luke até tentou alcançá-lo, mas bateu de cara com a madeira.

Luke estava vendo o quão decidido Samuel era.

No passado, suas idas e vindas com Samuel não duravam mais que uma semana. Hoje ele percebia que estava começando a perder nas provocações que facilmente conquistavam o loiro.

Luke chateou-se.

[...]

Quando Colin saiu do banho encontrou seu namorado vestindo uma camisa vermelha.

Sean virou-se ao ouvir o barulho da porta sendo aberta e viu seu namorado, já vestido, encarando-o. O hematoma em seu rosto visível partiu-lhe o coração.

— Estou horrível. — comentou o pequeno ao sair do banheiro.

— Está lindo. — tentou confortá-lo.

— Você nunca foi de dizer isso. Não vai adiantar.

Colin caminhou mancando até a cama e se sentou. Sean, do seu lugar, puxou uma cadeira e ficou frente a ele.

— Você não precisava ter faltado aula hoje. — comentou o pequeno.

— Isso é o que menos importa agora.

— Preciso voltar pra minha república. Preciso ver o Caine.

— Amanhã. — falou assim que e o namorado concluiu a frase.

— Eu não posso ficar aqui, Sean. Eu não vou abaixar a cabeça, eu vou ser forte. Os que me bateram vão saber que eu sou mais forte do que eles imaginam.

Sean amou ter ouvido isso. Era Colin, seu namorado, reafirmando sua personalidade forte.

— Eu vou cuidar de você hoje.

Colin sorriu pela primeira vez aquele dia.

— O que foi? — perguntou o moreno.

— Às vezes é estranho te ver nessa situação: tão amoroso, tão dedicado.

Sean não respondeu.

— Acha que conseguiríamos morar juntos?

E novamente o moreno não respondeu.

— É estranho, não é? Às vezes eu paro pra pensar em como será nossas vidas depois daqui. E se não der certo no final?

— Quer mesmo falar sobre isso?

— Não. Mas você não se pergunta sobre isso? Você foi meu primeiro amor, mas eu li uma vez que o primeiro amor não significa que é o único. E se você se interessar por outro alguém?

— E se você se interessar por outro alguém? — rebateu.

O pequeno não respondeu, dessa vez foi ele quem ficou sem palavras.

— Isso me aborrece, Colin. — Sean levantou-se e deu de ombros, caminhando para a janela do seu quarto.

— Me desculpe. — disse o pequeno ao se levantar mancando. — Você tem razão. Ian e Connor estão bem. William e Octavio estão bem. Estão todos bem... Não seremos a exceção.

— Não precisamos falar sobre isso. Precisamos viver.

Colin aproximou-se do namorado e o abraçou pelas costas, repousando sua cabeça ao corpo do namorado.

— Eu amo você. Essa é a maior certeza que eu tenho na minha vida.

Sem pudesse olhar o rosto do namorado, Colin somente o apertou no seu abraço. Sean abaixou sua cabeça, tentou olhá-lo atrás através de seus ombros, mas imediatamente voltou a olhar pra frente. Detalhe: sorrindo.

Sean virou seu corpo de modo com que pudesse ver melhor seu namorado. Com Colin à sua frente, ainda abraçando-o, ele somente beijou-lhe a testa e em seguida desceu seus lábio ao do namorado que recebeu o beijo e retribuiu no mesmo instante.

— Seu aniversário está chegando. — Observou tocando o cordão que tinha dado ao namorado com os números que tinha forte significado.

— Acho que vou pra Aroma e passar com meus pais. — Sean ficou olhando-o em silêncio. Colin, achando que tinha concluído de falar, achava estranho o olhar que recebia do namorado, até o moreno manter firmeza no olhar. — E, claro, com você.

Não demorou muito pra alguém bater na porta do quarto. Se as batidas fossem as mais comuns, Sean ignoraria. Mas alguém batia descontroladamente.

Sean já não era uma simpatia de pessoa. Largando Colin, ele foi até a porta e a abriu.

— Vim ver como meu amigo está. — Danion falou entrando. — Já que você parece está mantendo-o em cativeiro.

— Quem o deixou entrar aqui?

— Eu preciso de permissão? — Danion o olhou cinicamente. — Oi, Colin! — Danion passou por Sean e foi até o amigo. — Caine está perguntando por você.

— Como ele está? — por mais que soubesse que Sean estivesse odiando aquilo, saber que Danion tocou no nome do amigo, o fez ignorar as expressões de puro ódio do moreno.

— Está bem. Nesse momento tá com a Clara alimentando o bebê do capeta.

— Dan! — o repreendeu.

— Que seja. — deu de ombros e sentou-se na cama do Sean, remexendo-se propositalmente para provocar o moreno. — Eu vim te levar pra república, agora é nossa vez de cuidar de você. Os leoninos estão te esperando, sabia?

— Ele vai ficar aqui de novo. Depois ele aparece.

— Porra, é só atravessar a rua. Acha mesmo que até lá um carro vai passar e atropelar ele?

— Você tem amor por esses dentes? — Sean ameaçou avançar.

— Tenho. Por isso agora serei dentista. — saltou da cama. — Eu só vim avisar que os leoninos querem te ver e o Caine também. Aliás, Caine estava comentando do seu aniversário, Colin.

Colin apenas olhava para como Sean reagia à presença de Danion. O pequeno temia o pior.

— Liguei por Leonard, ele me deu sugestões. Festa a fantasia.

— Eu não quero festa.

— Não é escolha sua. E bem, pegaria mal pra você cancelar uma festa que começou a ser comentada hoje.

— O quê?! — Colin o olhou surpreso.

— Fui à aula hoje, avisei ao bloco. Certamente a notícia já está se espalhando.

Colin somente encostou sua mão à testa e cobriu os olhos. Não acreditava no que tinha ouvido. Era Danion... Duvidar por quê?

— Faz tempo que não tem festa na Quadra.

— Já chega! — Sean perdeu a paciência e segurou o branquelo pelo braço, arrastando-o para fora do quarto. — Da próxima vez que entrar no meu quarto assim, juro que te expulso daqui na porrada.

Danion não teve tempo de rebater com uma provocação, pois a porta foi fechada imediatamente. O moreno somente ouviu palavrões do lado de fora, mas não deu bola.

Quando Sean voltou a olhar pro namorado, o encontrou sorrindo e observando o amigo que tinha acabado de sair da república ainda lançando insultos para a janela do quarto.

— Do que está rindo?

— É o Danion. Por que eu ainda fico surpreso com essas coisas?

— Esse garoto é um babaca.

— Mas é meu amigo. — o defendeu sorridente. — Não seria ele se não fizesse essas coisas.

— Insuportável... — falou revirando os olhos.

Colin amou a visita inesperada do seu pilar.

William não tinha deixado de ser o pilar de Colin, entretanto, apesar de ter Sean também como seu pilar, o pequeno havia ganhando um novo: Danion Salladric. Estranho, mas verídico.

[...]

Calvin até pensou em se levantar e ver o que estava acontecendo dentro do banheiro. Mas parte de si era orgulho e, lembrando-se de quem era Charles, melhor seria deixar isso quieto. Entretanto, estava sendo impossível conseguir comer sem pensar no tigre problemático.

Desde a festa, desde aquele maldito dia em que se viram pela primeira vez, sem que pudesse perceber, Calvin sentia uma absurda preocupação com o garoto. E, ironicamente como se fosse planejado, tornou a vê-lo, separados apenas por uma rua que dividia as repúblicas.

Não mais aguentando, Calvin largou seu prato e se levantou, rumou ao banheiro e quando ia se aproximando, viu que Jamie e Dimitri já estavam saindo. Pela reação dos garotos, o leonino pode deduzir que sozinho o pequeno tigre conseguiu dar conta dos dois.

Por uma ação de impulso e odiando vê-los, Calvin enrijeceu seus músculos do braço e ombro e a passos firmes, tombou em Jamie que não olhava pra frente, pois estava encarando o namorado.

Com um baque forte, Jamie caiu no chão.

— Da próxima vez, olha por onde anda. — disse o leonino coçando a barba e seguindo em frente.

Jamie, perplexo, não conseguiu dizer nada.

Calvin, sem se importar e até mesmo fugindo da sua índole, seguiu caminhando.

O leonino chegou ao banheiro, abriu a porta. No momento em que adentrou, teve tempo de ver Charles afastando-se da pia e molhando o rosto.

O tigre, que segundos antes chorou, ergueu a cabeça, esfregou o nariz e fingiu que nada tinha acontecido, apenas preocupou-se em enxugar a face.

— Era só o que faltava. — Charles disse. Os olhos frios observavam Calvin através do espelho.

— Tá tudo bem? — Perguntou, mesmo sendo recebido com grosseria.

— Por que não estaria? — a indagação veio imediatamente.

— Não sei. Talvez...

— Cala a boca. Não deveria nem dirigir a palavra a mim. — Não o deixou concluir.

— Como você é chato, hein. Eu sei que você estava chorando. Talvez consiga imaginar o que tenha acontecido aqui. Aqueles garotos provavelmente...

— Que direito você acha que tem de se meter em minha vida?

Charles indagou aproximando-se do leonino e apontando o dedo na face dele.

Calvin somente coçou a testa e revirou os olhos.

— Juro pra você que vou quebrar todos os ossos do seu corpo se novamente você acha que tem o direito de se meter em minha vida. Você não imaginou nada, você não sabe de nada do que aconteceu aqui. Você simplesmente não viu nada! — as palavras saíram quase que atropeladas por tão rápidas que foram pronunciadas.

— E o que são esses olhos vermelhos? — uma simples pergunta pôs abaixo tudo o que Charles tinha dito.

Odiando a audácia de Calvin, Charles não pensou em outra coisa senão o empurrá-lo. Paciente, o leonino somente arqueou as costas e ficou em seu lugar. O tigre o odiou mais ainda justamente por perceber que Calvin não tinha reagido e parecia debochar dele.

Um segundo empurrão Calvin tomou e deu alguns passos pra trás.

— Vamos, bate em mim! — pediu o tigre, ainda avançando em empurrões contra ele. — Não quer bancar o valentão? — sua voz ia elevando. — Bate em mim! — bradou e conseguiu estapear o rosto do leão.

Charles parou. Os olhos verdes fixaram na própria mão que ia afastando-se do rosto do leonino.

Calvin somente umedeceu os lábios com a própria língua e esfregou a face ardida. Ele fechou os olhos e estralou o pescoço.

Não deu outra.

Sua mão forte e grande cravou no pescoço do tigre e foi arrastando-o até a parede. Charles sentiu o impacto e até deixou escapar um gemido.

Com os olhos bem arregalados, ele sentiu a pressão dos olhos azuis do leonino sobre os seus.

Ainda que fosse forte e bom de briga, não tinha mais força que o outro, que facilmente conseguiu prendê-lo contra a parede.

Mas Charles não demonstrava medo, não iria simplesmente mostrar que era fraco diante aquele corpo enorme.

— E agora? — sorriu provocativo. Um sorriso lindo por sinal, acompanhado do olhar que exalava poder, seriedade e, tendo que admitir, sexy. — Faça o que tem que fazer antes que eu ache uma abertura e afogue seu rosto numa privada dessas.

— O último que encostou na minha face teve os dois braços quebrados e passou alguns meses no hospital. Eu fui parar atrás das grades por alguns dias.

— Bem típico...

— Cala a boca! — agora foi ele que pediu.

— Acha que consegue? Acha que por acaso vai conseguir me fazer calar a boca? Seu tamanho e sua força não me intimidam. — falava ainda sorridente e isso acabou desnorteando Calvin, que sentiu o corpo formigar.

— Como ainda consegue ser assim mesmo se encontrando em desvantagem? — perguntou observando os lábios dele.

— Já enfrentei problemas maiores que você. — falou encarando-o, dessa vez observando a barba que tornava Calvin ainda mais sério.

— Você realmente não vai calar a boca?

— Não. E se você demorar, eu quem vou calar sua boca com um soco. Está achando que eu...

E o inesperado aconteceu.

Não resistindo ver aqueles lábios se movendo, Calvin o silenciou com um beijo.

A princípio, Charles demorou pra saber o que tinha acontecido, tanto é que ele arregalou os olhos, mas não recuou, apenas permaneceu sentindo os lábios do outro sobre os seus.

A mão forte de Calvin desvencilhou-se do pescoço do tigre e foi repousando no ombro do tigre, que naquele momento, ergueu sua mão numa ação parecendo que iria afastar o corpo do outro, mas aconteceu que elas espalmaram no tórax do leonino.

Charles não resistiu.

Ele deu passado pra língua do outro invadir a sua boca e, assim, guerrear com sua língua. Os olhos foram perdendo força e se fechando, como alguém que dormia enquanto assistia a TV.

Aquele era o segundo homem que Charles havia beijado em sua vida. Talvez o tigre não fosse o mais experiente do mundo, mas se fosse comparar aos beijos dados em Jamie, Calvin ganhava de lavada.

Ele sabia brincar com a língua e tinha lábios tão bons que não resistiu e acabou mordendo o inferior.

Não houve pausas sequer para recuperar o fôlego. Eles davam conta de um beijo duradouro.

A mão de Calvin foi descendo do ombro, passando pelos braços do tigre e repousando na cintura do garoto que, inevitavelmente, aproximou seu corpo ao de Calvin, acomodando-se melhor naqueles braços que passou a envolver seu quadril. Tamanha foi a aproximação, que tanto Charles, quanto Calvin, sentiram as ereções espontâneas formando-se e, esfregando-as propositalmente, apimentaram ainda mais aquele beijo.

O tigre acabou descobrindo que estava amando sentir a barba do outro roçando em seu queixo. Era a primeira vez que beijava um homem com barba.

Charles já havia esquecido-se de quem ele era e, principalmente, quem era Calvin. Um dos seus maiores desgostos na Quadra. Estava tão extasiado pelo beijo que sentiu vontade de permanecer ali por horas.

Passos e vozes foram ouvidas.

Assustado e, com muito medo de ser descoberto aos beijos, num impulso, Charles agarrou a mão de Calvin e o puxou para uma das cabines, fechando a porta tão rápido que não deu tempo sequer dos garotos o verem.

Esperto, Charles pôs os dois pés na privada, temendo que pelo espelho os estranhos pudessem ver quatro pés dentro de uma só cabine.

Ele fez sinal de silêncio ao levar os dedos ao próprio lábio, ofegante e finalmente pudendo recuperar o fôlego perdido no beijo, Charles podia ouvir seu próprio coração bater tão acelerado que imaginou enfartar ali dentro.

Calvin não deixou de olhar pra ele um segundo, não estava assustado — talvez um pouco. Porém, prevalecia em seus pensamentos o fato de ter beijado aquele garoto a quem detestava tanto.

Conversas paralelas ecoaram pelo banheiro, portas de cabines foram abertas, barulho de descarga, torneiras ligadas e novamente passos e vozes se distanciando.

Charles finalmente desceu da privada, abriu a porta e pôs a cabeça pra fora. Percebendo que novamente se encontrava sozinho com Calvin, ele tornou a olhar o leonino. Dessa vez não com aquele olhar de desprezo que esbanjava ódio.

Seus olhos verdes voltaram a olhar pros lábios entre a barba do leonino e, não resistindo novamente, foi ele que retornou aos beijos com Calvin que, sem nem pensar duas vezes, correspondeu.

Charles fez questão de abrir espaço pra Calvin beijar seu pescoço, provavelmente querendo sentir mais da barba roçando na região, pois não imaginava que aquilo fosse tão bom.

Porém, diferente do beijo anterior antes de serem interrompidos, Charles voltou a realidade.

“O que estou fazendo?” Pensou.

Imediatamente espalmou suas mãos no tórax do outro e o empurrou tão forte que foi possível ouvir o barulho do corpo chocando-se com as paredes da cabine.

— Que merda é essa? — perguntou, franzindo a sobrancelha, confuso.

Calvin somente passou a língua nos lábios e também franziu a sobrancelha, tão confuso quanto o tigre.

Charles esfregou o próprio rosto acreditando que aquilo era um sonho — ou pesadelo. Olhou para Calvin uma última vez e saiu da cabine com passos tão apressados que parecia correr.

Calvin, sozinho, permaneceu dentro do banheiro.

— O que aconteceu? — questionou-se o leão, baixinho.

E, mais uma vez, provando as teorias da rivalidade entre as duas repúblicas, um tigre e um leão estão aos beijos.

William e Octavio. Ian e Connor. Sean e Colin.

Calvin e Charles.

Notas finais
Eu não demorei tanto, mas demorei. Bem, meu tempo ficou ainda mais apertado UHASUHAHUS. Eu ganhei uma bolsa na universidade, isso é muito bom, obviamente, mas agora eu estou dando aula e, inclusive, preciso corrigir prova, por isso deixarei pra responder os comentários do capítulo anterior em breve!!! Beijo, amo vocês! ♥