República de Tigres
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Silêncio. Novas risadas.
Os cinco mascarados começaram a andar ao redor dos dois, assustando-os ainda mais, preferindo ofensas sobre a sexualidade deles, inclusive, citando também negros, pobres... Minorias.
Na oportunidade, Colin tentou correr, mas o ato foi falho quando o empurraram de volta pra roda. O leonino ouviu um grito de dor escapar de Caine e quando o olhou, o assistiu receber uma chave de braço por um deles, enquanto outro socavo-o no estômago.
Colin tentou defender o amigo, mas acabou recebendo um chute nas costas, de sua boca teria saído um grito, mas a dor foi tanta que apenas abriu os lábios, sem voz alguma. Em seguia recebeu um soco no estômago e no rosto.
Sua visão em Caine persistia, ainda tentando alcançá-lo.
Caine, da mesma forma, tentava se desfazer dos braços e dos socos recebidos, mas acabou sendo socado no rosto, o sangue desceu por seu nariz e tudo começou a girar. Ele foi lançado no chão e, em seguida, recebeu chutes e mais chutes de dois garotos, que começaram a rasgar suas roupas à medida em que depositavam socos em seu corpo.
Colin gritou, mas foi puxado pelo braço e, da mesma forma, caiu no chão como Caine. O primeiro pisão foi no seu braço, o que o fez se encolher para se proteger dos próximos. Mas como ignorar a dor de chutes? Talvez pensando na dor do preconceito, que ele estava sentindo naquele instante.
Colin recebeu chutes, socos, cuspidas e ofensas como um complemento da atitude horrenda.
Caine foi tratado da mesma forma, ambos sendo espancados.
Colin, ainda apanhando, estendeu sua mão, tentando segurar a do amigo, que gemia a cada soco recebido.
E então, ouviram uma voz.
Colin não conseguiu ver muita coisa, mas a voz era conhecida.
Joshua chutou o primeiro que viu a sua frente, fazendo o agressor cair no chão. O ruivo foi pego pelos braços por dois agressores, mas na força bruta, conseguiu se desfazer. Ele socou, em cheio, o rosto do garoto que tinha um pano cobrindo o rosto, em seguida usou do cotovelo para atingir o que estava tentando segurá-lo pela cintura.
O ruivo se virou e depositou um novo soco no que já estava ajoelhado, deu um segundo e um terceiro, fortes o suficiente para molhar sua mão de sangue. Joshua recebeu um chute nas costas, mas se virou no segundo em que ia ser agredido, retribuindo o chute.
Ele acabou segurando na mão de outro garoto que ia socá-lo, com força o suficiente, Joshua apertou o punho dele e o forçou a abrir a mão, tomou dois dedos do garoto e ficou encarando-o, ouvindo os gritos de dor do garoto, que ia dobrando os seus joelhos e caindo ao chão a cada vez que Joshua envergava o dedo dele, até que ouviu um estalo... Quebrando.
O ruivo, ciente dos gemidos de dor e usando daquilo como combustível, não viu um punho vindo em direção ao seu rosto. Ele caiu no chão e, quando tentou tornar a atenção aos agressores, viu que o que teve os dedos quebrados, estava correndo, Joshua viu o garoto que tomou três socos e estava caído desacordado, estava sendo arrastado por outros dois.
O se levantou e tentou segurar o quinto, mas o que apenas conseguiu foi arrancar o pano que cobria metade do rosto do agressor, mas não teve visão para ver as feições dele, com isso o deixou ir quando notou os espancados caídos no chão.
Joshua, ainda de pé, aproximou-se de Caine, desacordado e de Colin, que horrorizado e tendo o rosto tomado por sangue, o encarava, chorando.
A dor...
O preconceito
Os dedos ensanguentados tocavam os pés do ruivo, suplicando por ajuda.
Os olhos castanhos de Colin encarava Joshua, de pé, apenas retribuindo o olhar. Em seguida o pequeno desceu os olhos ao amigo, onde o encontrou desacordado, imaginando o pior. Colin não conseguia pronunciar uma palavra, apenas lavava o rosto com as próprias lágrimas em um choro silencioso, embora acompanhando de alguns gemidos de dor, súplica.
O leonino olhou ao redor: escuro. Onde estavam as pessoas daquela universidade?
Colin sentiu mãos em sua cintura, ajudando-o a ficar de pé. Mas ele se negou a se levantar, arrastou-se, embora com o corpo todo dolorido, cada parte, sem exceção, até mesmo os dedos das mãos que foram pisoteados, segurando na mão de Caine, tocando em seguida no rosto do amigo.
— Caine! Acorda, amigo, por favor, acorda! — falava enquanto ainda chorava.
Novamente ele sentiu mãos em sua cintura, sendo obrigado a se afastar do amigo caído. Colin dessa vez chorou alto, gritando pelo nome do amigo.
Colin começou a estapear Joshua, querendo se desfazer das mãos dele, ainda que não tivesse força e seus movimentos gerassem dor em seu corpo, ele estava desesperado pelo simples fato de vê Caine apagado.
Ouviu-se um rugido.
Joshua apenas sentiu um soco diretamente no meio de suas costas, em seguida vários socos seguidos que o fez arquear o corpo tentando se proteger. Quando ele se virou, viu um Danion completamente furioso, tomado por lágrimas e ódio.
Nem Colin ou Joshua esperavam aquilo. O ruivo usou dos braços para se proteger dos vários socos sem intervalos que eram proferidos contra ele.
— Danion! — Colin gritou.
Mas o branquelo não o escutava. Como ele escutaria se na sua mente o que ele viu foi um Colin chorando pelo amigo caído, sendo pego por Joshua com as mãos ensanguentadas e o namorado caído, apagado no chão com braços e pernas estiradas.
Colin caiu no chão quando Joshua deu um passo pra trás sem vê-lo.
Hábil, Joshua fechou a mão no pescoço de Danion, imobilizando-o. O ruivo pôde ver, sobre os ombros dele, Clara segurando o Arthur em seus braços, desesperada ao celular.
Danion e Clara estavam indo ao encontro do Caine, a garota quem pensou na surpresa de levar o bebê pra passear, Caine certamente ficaria feliz.
— Solte-o! — Colin gritou, as voz rouca por tanto gritar.
Joshua obedeceu imediatamente. Danion caiu ajoelhado no chão, os olhos tomados em ódio, erguendo-se rapidamente para bater mais uma vez no ruivo, mas então a voz do leonino o silenciou:
— Ele nos salvou! — Colin gritou. — Joshua nos salvou.
O choque.
E então o ruivo, não perdendo tempo, ajoelhou-se e tomou Caine em seus braços.
Danion ainda ficou parado, petrificado. Seus olhos observavam um ponto fixo, sem qualquer propósito. Os pensamentos o deixaram com ânsia de vômito, o ódio permanecia lá, mas a verdade veio como um peso sobre seus ombros, esmagando-o.
Como descrever o sentimento? Não havia como, mas se ele pudesse falar, era uma mistura de angustia, ansiedade e medo. Três sensações misturadas que o fez tomar um choque de realidade muito grande.
Tamanho foi o susto, que tudo ao seu redor parecia está em câmera lenta. Ele assistiu o mover dos lábios do Colin, Joshua se levantando, os braços de Caine pendendo... Tudo lentamente, sem áudio algum.
Joshua lembrou-se.
Ele entregou Caine aos braços de Danion, que aceitou ainda sem reação.
O ruivo odiava o seu sangue e temendo ter algum corte pelo corpo, embora tivesse tomado apenas um soco na boca, que o fez cuspir sangue, e chutes nas costas, entregou o pequeno rapidamente para os braços do leonino, sem nem pensar duas vezes se Danion estava paralisado ou não.
Joshua se virou para olhar o Colin, mas o viu de pé, recebendo a ajuda de Clara com o Arthur nos braços. O bebê, certamente, não fazia ideia do que estava acontecendo, entretanto, começou a chorar.
— Dan... — a voz de Caine, fraca e quase inaudível, tomou os ouvidos do branquelo.
Danion finalmente desceu seus olhos à face do namorado e o viu com olhos quase fechados.
— Dan... Eram muitos. — falava. — Eram muitos... E-eu não consegui fugir... — e as lágrimas desceram através dos seus olhos.
Os lábios de Danion tremeram, enquanto as lágrimas também molhavam o seu rosto.
— Vai ficar tudo bem... — murmurou o branquelo, sentindo o gosto da própria lágrima.
— O Colin, Dan... Eles também pegaram o Colin. — disse sem conseguir enxergar o amigo.
— Vamos levá-lo ao hospital. — falou o branquelo.
— Não... — falou o líder dos águias.
— Você precisa! Olha só pra você... — disse ao observar as vestes sujas do namorado.
— Eu não posso ir para o hospital. — Caine falou. — Eu não posso! Eu estou bem, eu não quebrei nada.
— Eu não vou correr o risco. — disse o branquelo.
— O Arthur! O Sebastian! A Lydia! E-eu não posso Dan, eles não podem saber...
— Caine... — Danion tentou falar.
— Por favor... — implorou. — Me leve pra casa.
Todos eles ouviram um som alto e agudo, perceptível ao se tratar de um carro destravando. Joshua, não tinha dito nada enquanto se afastava até o seu automóvel ali próximo.
E Danion não pensou duas vezes, carregando Caine ele foi até o automóvel do Joshua. E esqueceu quem era o Joshua.
Clara, com Arthurzinho no braço, não pôde fazer muito pelo líder dos leões, que sentia dificuldades ao andar. Ela estava desesperada com toda aquela cena, tanto é que nem mesmo percebia a lágrima que desceu de seu olho.
Joshua foi até o pequeno e o levantou do chão, imediatamente o levou para o carro, pondo no banco de passageiro e nem mesmo lembrou-se de por o sinto.
Através do espelho retrovisor, os olhos do branquelo foram aos do ruivo, que entendeu o sinal. Ele pisou no acelerador, mas imediatamente desfez a ação.
Em cinco minutos o carro já estava entrando na Quadra Nove e estacionando em frente à república dos águias. O ruivo quem se responsabilizou de abrir a porta do carro mais uma vez.
Clara foi a primeira a descer, abrindo a porta de sua república e gritando pelos moradores daquele lugar.
Danion desceu em seguida, ainda temendo machucar o namorado. Caine talvez pudesse ficar de pé, mesmo com todos os ferimentos e dores, mas reconhecendo quem era Danion, melhor seria ficar em silêncio.
Colin saiu do carro mancando, gemendo a cada passo. Joshua posicionou-se ao seu lado, dando-lhe o braço para que ele pudesse apoiar.
Naquela altura, os leoninos já estavam saindo de sua república e os águias soltavam gritos de desesperos seguidos de questionamentos.
— Quem fez isso?! — uma voz atravessou por entre os moradores postos no gramado dos águias. — Quem fez isso?!
A voz era de quem Colin tanto ansiava ouvir. A voz que o fazia estremecer. Naquele tom levemente grave ganhando peso sobre o desespero que ela conseguia transmitir.
Quando Colin olhou para trás, não resistiu, o seu choro pareceu ter multiplicado. O pequeno largou o braço do ruivo e, mancando, deu apenas dois passos, pois logo o seu namorado estava com os braços abertos, envolvendo-o.
Sean estava com os pensamentos deturpados diante o que tinha visto. Seu namorado com as roupas sujas e vermelhas e o rosto banhado em sangue. Ele olhou ao redor, olhando nos olhos de todos os leoninos e águias, repousando nos olhos de Joshua ao ver que o ruivo tinha as mãos ensanguentadas.
— E-eu, e-eu... — Colin tentou dizer, soluçando, apertando roupa do namorado e encolhendo seu rosto no peito dele. — Eu tentei, Sean, eu tentei... Eram muitos. E-eu não pude proteger o Caine, eu não pude me proteger.
Sua voz estava tão pesada em seu choro, que ela era semelhante a gemidos de dor a cada palavra pronunciada, chegando a falhar ao final da fala.
— Shhh! — disse o moreno, beijando-se a cabeça, pouco se importando com a sujeira. Em seguida sua mão foi até sua nuca do pequeno, subindo até os cabelos. — Vai ficar tudo bem.
— Nós precisamos cuidar dele. — Hugh falou aproximando-se.
Sean era tão egoísta ao se tratar do Colin, que olhou para Hugh, como se o obrigasse a se afastar. Como um animal que deu a luz e não deixava ninguém se aproximar do seu filhote. O leonino deu um passo pra trás.
— Eles pegaram o Caine, e-eu preciso cuidar do meu amigo. — Colin falou, ainda soluçando, desfazendo-se do abraço do namorado.
— Shhh! Você também precisa de cuidados. — falou o moreno para ele.
— Eu não posso deixá-lo sozinho. — falou, olhando-o nos olhos, em seguida olhou pra trás, vendo a porta dos águias aberta.
Colin, mancando, deu as costas para o namorado, os colegas abriram caminho para ele passar. Mas rapidamente ele sentiu mãos envolverem sua cintura, imediatamente o corpo do namorado estava abraçado ao seu.
— Eu quem não posso deixá-lo mais sozinho. — murmurou. A voz beirando a tristeza.
— E-eu preciso vê-lo, eu sou o culpado, eu deveria protegê-lo! —exclamou, a voz esganiçando em choro. Por favor, Sean... — ele balançou a cabeça negativamente, voltando a afogar seu rosto no peito do namorado. — Eu não posso deixá-lo sozinho, e-eu não posso...
— Nós cuidaremos do Caine, Colin. Você precisa de cuidados.
A voz de Edgar tomou os ouvidos do pequeno. Colin sentiu uma mão repousar em seu ombro, mas não se atreveu a olhar já sabendo que era do amigo.
Edgar recém tinha saído da sua república quando ouviu os gritos de Colin no gramado.
Sean nem mesmo reagiu ao toque de Edgar em Colin, talvez o respeito por Edgar fosse maior por qualquer outro, incluindo o próprio Caine nessa lista.
Colin estava sendo tratado como uma jóia preciosa aos braços do moreno, que envolvia em um abraço como se fosse seu escudo, protegendo-o de qualquer mal.
Edgar em seguida levou seus olhos para o ruivo, que estava parado próximo dali, em silêncio. Joshua fez um sinal com a cabeça e em seguida deu as costas, voltando para o seu carro. Edgar não contestou, respeitando o tempo que o namorado também precisava e acrescentando ao fato de que ele não se sentia bem na presença de todos ali presente.
Edgar olhou para Sean mais uma vez e fez um aceno com a cabeça, Sean entendeu o recado.
Sean tomou o namorado no braço, feito uma criança, e começou a caminhar enquanto abriam caminho para ele passar. Ele atravessou a rua e por pouco não chutou a porta de sua república no desespero de abri-la.
Ele subiu as escadas esquecendo-se de trancar a porta de entrada. Mas o que era esse detalhe diante a necessidade de cuidar do seu namorado?
Sean pôs o namorado no chão em frente à porta do seu quarto e a abriu, ela não estava trancada, pois ele a deixou aberta quando saiu do quarto correndo ao avistar o namorado machucado através da janela — seu lugar preferido na casa.
Colin deu um passo, mas gemeu de dor. Seu pé doía muito, por isso ele estava mancando.
Sean virou-se imediatamente, o gemido do seu namorado chegava a perfurar seu coração de tamanha forma que ele não se reconhecia.
Ele estava se segurando.
O moreno, delicadamente, segurou o namorado pela cintura e o ergueu do chão, tornando-se uma cadeira móvel, pois o Colin parecia estar sentado em seus braços.
Sean caminhou diretamente para o banheiro, pôs o Colin em cima da pia. Foi até a banheira e puxou a proteção que faria toda a água limpa descer. Para aguardar, ele sentou-se no vaso sanitário com a tampa fechada, afastou as duas pernas e repousou os cotovelos nas coxas, observado o namorado silencioso, embora ainda chorando.
— Eu queria ser forte igual a você. — disse o pequeno, tocando a própria face para enxugar a lágrima. Ele viu suas mãos sujas e com sangue.
Sean não pensou duas vezes antes de se levantar do lugar que estava e se aproximar do pequeno, segurando em sua mão.
— Você é mais forte do que eu. — falou olhando-o.
Colin pôde perceber o tremor na voz do namorado, sua tonalidade não era a comum.
— Não sou, Sean. Eu não tenho músculos, eu não sou alto... E-eu não consegui proteger o Caine. — seu choro começou a ganhar força
Cada vez em que Colin pensava no ocorrido, ele conseguia ouvir perfeitamente os gritos de dor do Caine, como se a cena estivesse mais uma vez acontecendo. Ele jurava sentir novamente os socos, chutes e cuspes em seu corpo.
— Eu não sou você. — continuou o pequeno.
— Você é melhor do que eu. Você é a melhor e mais forte pessoa que eu já conheci. — falava, não mais conseguindo segurar o que estava sentindo.
Sean o silenciou com o dedo, percebendo que ele novamente iria se lamentar.
— Eu sou forte? — Sean perguntou olhando no mais fundo dos olhos castanhos. Colin apenas balançou a cabeça positivamente. — E por que eu me sinto tão fraco agora?
Colin sentiu. Ele observou o olhar marejado do seu namorado. Ele assistiu a lágrima descer do olho direito de Sean, formando uma gota abaixo do queixo e despencando.
Mas Sean rapidamente deu as costas, enxugou a lágrima e esfregou o nariz. Ele observou a banheira que já estava pela metade, verificou a temperatura na torneira, abriu a gaveta do armário, puxou uma toalha e a repousou sobre a pia.
O moreno voltou ao namorado. Colin não o deixava de olhá-lo, sequer desviou o olhar daqueles olhos negros, do abismo.
Sean tocou na camisa do pequeno e, delicadamente, levantou o braço dele, de modo com que fizesse a manga da camisa passar por ele. Repetiu o processo com o outro lado e, puxou a camisa, bagunçando o cabelo do namorado.
Os olhos negros vagaram pelo corpo do menor e sentiu seu coração sufocar no momento em que presenciou os vários hematomas espalhados pelo corpo do pequeno.
Sean fechou o punho, respirou fundo. Não podia perder o controle.
Mais uma vez pôs Colin no chão, sempre sendo o mais delicado possível. Ele sozinho retirou os sapatos do namorado e foi quando Colin gemeu mais uma vez ao tentar retirar o do pé esquerdo, região onde ele sentia mais dor.
Era quase insuportável vê-lo naquele estado. Tudo isso porque ele só conseguia visualizar o seu namorado sendo espancado a cada vez que gemia por dor.
Sean levou seus dedos ao botão da calça de Colin, desceu o zíper e a retirou do corpo do garoto, mais uma vez tomando cuidado. Quando a última peça restou, Colin olhou para a banheira vazia.
Ele sentiu sua cueca repousar em seus pés.
Não havia constrangimento algum da parte dos dois, apenas o cuidado do maior sobre o menor.
Sean voltou a pegar Colin pela cintura e pernas, o colocou dentro da pia e puxou o pequeno chuveiro móvel, preso a própria banheira. Ao ligar, ele verificou novamente a temperatura da água até levá-la ao braço do namorado.
As mãos das quais Colin estava acostumado a receber toques rudes, agora eram tão leves ao lavar o seu braço. O moreno segurava o chuveiro com uma mão e com a outra ia retirando todo o excesso de sujeira e sangue do seu namorado, vendo a água transforma-se numa mistura de vermelho e preto.
Sean se lembrou da vez em que Colin foi até sua casa e cuidou dele depois de ter apanhado do William. Não era uma espécie de retribuição, e sim obrigação por tê-lo como o grande amor da sua vida. Mas a lembrança de como Colin o cuidou, mesmo que naquela época o moreno fosse insuportável e estivesse levemente alterado após beber, o fez novamente ter certeza do seu amor por Colin.
A água molhou os cabelos do pequeno e foi de lá onde saiu o maior excesso de sangue. Colin gemeu baixinho quando os dedos de Sean passaram a esfregar seu cabelo.
— Quantos eram? — o moreno perguntou, consumindo-se pelo ódio, mas não deixando transparecer.
— Cinco. — respondeu, assoando o nariz.
Sean fechou seus olhos e até parou alguns segundos de esfregar a cabeça do namorado. E sua mente foi tomada por imagens aleatórios de como Colin gritava sendo espancado, mesmo que não assistisse isso, ele podia jurar que estava presente em pensamentos.
— Sabe quem são?
Colin balançou a cabeça negativamente.
— Você sentiu. — disse o pequeno.
— Senti. — a voz saiu em um murmúrio.
— Você entende agora porque eu preciso aprender a me defender? — e o olhou.
Sean não conseguiu olhar em seus olhos depois da indagação. Sentia-se tão culpado que pôde ouvir seu coração condenando-o.
— Eu só queria ter força pra proteger meus amigos, assim como fazia o William. — e novas lágrimas banharam o seu rosto. — Pra proteger você. — e contraiu os lábios, trêmulos pela voz chorosa. — Eu só queria ser forte.
Sean, sentindo o coração não mais condenando-o, mas literalmente sendo esmagado em seu interior, segurou a mão de Colin, fechou os dedos do pequeno e a levou até ao seu próprio rosto.
— Você conseguiu. Você socou o meu rosto.
Colin por alguns segundos ficou encarando-o. Ele não tinha levado a ação a sério, mas achou tão amorosa a representação do seu namorado.
O líder dos leões abriu sua mão, tocando a bochecha do namorado com os dedos, encarando-o. Colin conseguia ler os olhos negros de Sean, por isso o amava tanto ao reconhecer que ele estava realmente preocupado com seu estado.
— Não se sinta culpado. O mundo é injusto, no mundo há covardes. — falou ainda o tocando.
Foi quando Sean levantou-se de repente, largando o chuveiro e dando as costas para o namorado.
Primeiro ele apoiou as duas mãos na pia, em seguida olhou-se pro espelho. As lágrimas beiravam ao precipício dos seus olhos.
— Eu vou separar suas roupas. — falou rapidamente, e saiu disparado.
Ao chegar no armário, onde dividia algumas roupas com Colin, despencou em lágrimas. Sean necessitou morder uma camisa, contendo o rugido que preso em seu peito. Ele chorou, de fato.
Sean nunca foi um homem de expor suas lágrimas, seja pra qualquer ocasião. Nem quando perdeu o seu melhor amigo ele se sentiu dessa forma.
A verdade era que quando se tratava de Colin, nada mais importava ao seu redor. O pequeno era o único a por abaixo todas as armaduras do tigre. As muralhas de aço, o coração de gelo, o escudo de titânio... Toda essa defesa não era nada quando se tratava de Colin. Um simples olhar do leonino o desmoronava de tal forma que ele não se reconhecia.
E vê-lo daquela maneira; machucado, com hematomas, a voz chorosa e extremamente triste, Sean não era nada. O tigre rendia-se ao leão.
Sentia-se horrível, culpado. Colin tanto o insistiu pra aprender a lutar e ele simplesmente provocou o namorado, retardou o processo de aprendizagem. Brincou.
Da mesma forma que Colin disse querer ser forte pra proteger os seus amigos, Sean desejou ser forte para protegê-lo dos cinco espancadores. O moreno seria capaz de matar se visse algum deles em sua frente agora.
A teoria de Colton se confirmava sobre o líder dos tigres deixar de ser o rei no jogo de xadrez: “Sean transformou-se em um peão a partir do momento em que conheceu o Colin. É isso o que o amor faz, o deixa vulnerável.”.
Seus pensamentos associavam o momento ao desespero de ver Colin quase morrer no incêndio provocado por Colton. A vulnerabilidade tomava-lhe conta, mas era transpassada em fúria no momento em que entrasse em contato com os culpados.
Sean levou uma mão ao rosto e o esfregou brutamente, sendo obrigado a conter as lágrimas. Ele usou a mesma camisa que mordeu e enxugou o rosto, esfregando diversas vezes o nariz a ponto de deixá-lo vermelho.
O moreno voltou ao banheiro com uma cueca, bermuda de tecido fino e uma camisa cinza, que não pertencia ao Colin, mas ao tigre, presente que tinha ganhado do Octavio.
Depois de por na pia, Sean voltou para a banheira e viu Colin de cabeça baixa. Ele tomou o chuveiro mais uma vez e molhou as costas do pequeno esfregando-as.
Colin levou seus olhos aos do namorado e notou que ele tinha chorado, o nariz vermelho e os olhos também vermelhos, além dos cílios úmidos, davam-lhe a certeza disso. Colin preferiu não falar nada. Reconhecia que Sean odiava chorar na frente dos outros ou, pior que isso, reconhecia que Sean não era acostumado a chorar, talvez seu choro só reafirmasse os sentimentos do moreno.
— Eu não vou me render. — disse o pequeno ainda choroso, embora chorasse menos que minutos atrás. — Eu não vou deixar que eles me vençam.
Sean não falou uma palavra depois do que ouviu. Apenas alimentava seu ódio.
Após retirar todo o excesso de sangue e sujeira, Sean limpou próximo ao ralo da banheira e o tampou. Em seguida ligou a torneira e a aguardou encher com Colin ainda lá dentro.
— Eu tive tanto medo. — Colin o olhou. Era interessante observar que as expressões raivosas de Colin não existiam, ele parecia uma criança manhosa, triste.
O moreno permaneceu olhando-o. Seu olhar era um equilíbrio entre revolta e serenidade.
— O Joshua nos salvou... Teria sido pior se ele não aparecesse... F-foi horrível, Sean. Eles me xingaram, me cuspiram, me bateram sem pausas...
— Shhh!
O silêncio prosseguiu até a banheira encher. Sean voltou a banhar o namorado, sequer conseguindo retirar os olhos dele.
Ao final do banho, Sean retirou Colin da banheira e o pôs de pé ao seu lado. Ele buscou pela toalha no armário e passou a enxugar o namorado tão preocupado que não se esqueceu das aberturas entre os dedos das mãos e pés. Ao enxugar o cabelo do Colin ele tomou mais cuidado, ao perceber que o pequeno tinha um ferimento próximo a orelha.
Sean largou a toalha no armário e ajoelhou-se com uma cueca em mãos. Colin pôs os dois pés nas aberturas e assistiu o namorado levantá-la. Fez o mesmo com a bermuda de tecido fino.
O moreno voltou a tomar Colin nos braços, pegou a camisa em cima do armário e o levou até a sua cama, sentando-o em cima dela. Sean mexeu em seus produtos e perfumou o namorado, em seguida colocou-se a frente dele e começou a pentear os fios castanhos do pequeno que estava de cabeça baixa e olhos fixos nos próprios pés.
A camisa foi colocada ao final de tudo. Sean parecia fazer do namorado um boneco no momento em que enfiou os braços dele nas magas da camisa.
Ao terminar de pentear os fios castanhos do Colin, Sean ficou parado na frente dele. Foi quando o Colin começou a levantar os seus olhos e cabeça para poder olhá-lo com os olhos marejando.
Sean pode observar melhor as lágrimas nos olhos do namorado. Colin simplesmente havia voltado a chorar, logo depois abaixou a cabeça rapidamente e levou uma mão aos olhos, tentando evitar as lágrimas despencarem por sua face.
— Eu vou ser sempre assim? — questionou, a voz rouca, por tanto gritar antes, fez o corpo do moreno tremer.
Sean ajoelhou-se na frente do namorado, tocando o rosto de Colin com as duas mãos e enxugando as lágrimas que ainda desciam.
— Já passou, Colin. Eu estou com você. — tentou confortá-lo em um tom ameno, sincero.
— E quando não estiver?
Sean franziu a testa.
— Eu sou fraco, Sean. Meus punhos são você.
— O que são os meus punhos quando se tem sua coragem? A audácia de quem me silenciava apenas com uma palavra. Você é mais forte do que você pensa, um soco não define grau de força, Colin.
— E o que eu poderei fazer pelos meus? E quando eles estiverem em perigo? Você sabe como era o William, ele sempre nos protegeu.
— A proteção vai além da força física. — disse e aproximou o rosto ao do namorado. Colin começou a reprimir o choro. — Você me protegeu de tantos maus sem que sequer usasse dos punhos.
— Eu te amo. — e esfregou o olho esquerdo, dessa vez parecendo uma criança que tinha perdido o seu doce. O seu choro ecoou pelo quarto, a voz sumindo na medida em que ganhava intensidade devido a rouquidão. — E-eu te amo, Sean Ferazza.
Como manter as forças? Questionou-se o moreno. Era difícil não se comover com o choro do seu namorado.
Colin uniu seus lábios ao do namorado em um beijo singelo e rápido, imediatamente o abraçou pelos ombros, afogando o rosto no pescoço do moreno, ainda chorando alto, mais uma vez. Necessitava de todo o conforto.
Sean fechou os olhos, levou a palma da mão à nuca do namorado e a repousou ali, mexendo seus dedos nas pontas dos cabelos castanhos do pequeno.
Foi trágico o que aconteceu com Colin. Mas o trágico resultou no belo o momento em que esses dois se encontravam.
Nenhum dos dois eram mais os velhos Sean e Colin dos dias normais; duros, agressivos e orgulhosos. O que se via naquele momento era um leonino frágil e um tigre rendido à fragilidade.
Às vezes é necessário lembrar que a dor faz parte da vida. O amadurecimento vem por conta dela. As vezes ela é pequena, ganha forma e força, assim como uma avalanche, mas no final, recordando-se dos vários sofrimentos da vida, percebemos que a dor nos torna forte.
Talvez Colin realmente não tivesse a força física que ansiava ter, mas tratando-se da força em personalidade, não tinha ninguém acima dele. A força de vontade de Colin para superar obstáculos, ultrapassava, muito além, as suas limitações.
[...]
Cheiro de cigarro.
Não era segredo de ninguém que Danion Salladric era um fumante. Mas até que ele tinha controlado esse vício. Ele costumava fumar, uma vez por dia e bem longe do namorado, estava chegando à fase de fumar uma vez a cada semana, mas as circunstâncias do dia de hoje o fez fumar compulsivamente cigarro atrás de cigarro.
O branquelo estava sentado numa cadeira da cozinha, o cinzeiro ao seu lado com algumas bitucas de cigarro enquanto segurava um pela metade por entre os dedos. Os olhos vermelhos e inchados revelava que ele chorou por algumas horas.
Os moradores daquela república consideraram deixá-lo sozinho no cômodo, mesmo que parte da casa estivesse fedendo a cigarro. E, aliás, era regra do atual líder proibir o uso do cigarro dentro da república.
A cabeça do Danion parecia que explodir com tantos pensamentos que o atormentava. Pensamentos esses que trazia lembranças do passado e do presente, todas envolvendo seu namorado e, assombrosamente, Joshua e o espancamento.
Não conseguia vê-lo como um salvador da vida do seu namorado. Não! Pensar em Joshua era pensar no espancamento, das palavras de ofensa e dos tapas e socos recebidos. Até conseguia visualizá-lo com um sorriso macabro no rosto rindo enquanto era espancado. Quase perdeu a vida pelas mãos do ruivo.
Ele tragou o cigarro uma última vez e o largou no cinzeiro, afastou a cadeira e se levantou.
Olhou ao redor.
O primeiro objeto lançado ao chão foi o copo sobre a mesa. Pedaços de vidro voaram pra todos os lados. Em seguida Danion caminhou até um armário, o abriu e fez de pratos e copos objetos pra descarregar sua raiva.
Prato por prato ia sendo lançado ao chão, fazendo barulho ao quebrar-se em diversas partes que feriam os seus pés. Depois ele chutou uma cadeira, em seguida derrubou tudo que tinha sobre a mesa, inclusive o cinzeiro de vidro que também se quebrou.
Nem mesmo a torradeira se livrou das suas mãos. Ele levantou o objeto a sua cabeça e o lançou no chão com tamanha força que se partiu em três partes.
Ele socou a própria geladeira, machucando sua mão, mas sem causar algum dano ao objeto. Danion abriu novos armários e saiu derrubando tudo de dentro.
Em seguida, Danion sentou-se no chão, levando suas duas mãos a cabeça, como se estivesse atormentado pelos próprios pensamentos e pelo que tinha que fazer.
Era bem verdade que Danion costumava descontar a sua raiva em objetos, como ele fez no dia em que descobriu sobre Joshua e Edgar. Não conseguia guardar muita coisa dentro de si e, por isso, extravasava. Quando não descontava em objetos, Danion pegava sua moto e dirigia em alta velocidade rasgando a cidade, vivendo sobre risco. Chegava a ser assustado pra algumas pessoas, embora já sabiam como ele era em situações assim.
Nenhum morador dos águias se atreveu a entrar na cozinha. Nenhum.
Mas então, determinado loiro surgiu na soleira da porta. Danion levantou seus olhos para olhá-lo. O olhar do branquelo deixa explícito o seu ódio consumindo-o.
— Veio defender o seu namorado? — Danion perguntou, sarcástico.
— Eu vim conversar com você. — disse, observando o chão e o quão impossibilitado estava de atravessar a cozinha diante todos os vidros no chão. Ele também observou ao redor e viu tudo revirado, além do forte cheiro de cigarro.
— Não estou com cabeça pra conversar com você.
— Caine pediu.
Caine estava no quarto sobre os cuidados do médico da república: Samuel. Além da ajuda dele, Clara ficou responsável pelo Arthur. Os demais estavam reunidos no quarto do Roy, conversando sobre o ocorrido.
Danion se levantou, olhou os pés descalços com alguns filetes de sangue.
— Eu não vou agradecê-lo.
— Não digo que deve. — Edgar falou, ainda buscando por um caminho em que pudesse se aproximar do branquelo. — Mas fazer o que está fazendo aqui não é a melhor solução. Você pôs abaixo objetos que não pertenciam a você.
— Eu vou resolver isso depois.
— Não importa o que eu vá falar aqui, nada fará você acreditar que o Joshua...
— É dele que você quer falar. — interrompeu o branquelo, tocando a própria nuca e encarando-o.
— É por causa dele que você está assim.
— É por causa dele? — Danion abriu um sorriso largo e assustador. — Eu descobri que meu namorado foi espancado e você acha que eu estou assim exclusivamente por causa dele?
— Dan, eu estou dizendo que...
— Seu namorado quase tirou minha vida!
— Nós já conversamos sobre isso... — tentou lembrá-lo.
— Nós já conversamos sobre isso! — enfatizou. — Mas isso nunca foi apagado da minha memória. Eu não vou esquecer, eu não vou perdoar. Eu não me importo com quem você se deita ou não se deita, isso não é problema meu, mas o seu namorado me espancou. O seu namorado fez o meu namorado assistir toda aquela barbaridade.
— Ele salvou o Caine de uma agressão. E eu sei o quão difícil é você ter que aceitar isso.
Danion se calou.
— Danion, eu te dou razão e te deixo no direito de agir com receio ao se tratar do Joshua. Mas isso sempre vai ser um impasse na minha relação com você. Por mais que tenhamos conversado, eu percebo a indiferença. Ela é imperceptível para os olhares dos morados daqui, mas eu e você sabemos bem o que existe.
— Como você consegue? — Danion perguntou, a expressão era semelhante a de nojo.
— Como consigo o quê?
— Como consegue dormir com ele e não se lembrar dele me espancando? Não ouvir meus gritos ou os gritos de Caine pedindo para parar?
Edgar sentiu uma sensação estranha, ruim, invadir o seu corpo. Danion conseguiu fazer imaginá-lo algo desagradável.
— É difícil, não é? Mas então eu estou aqui tendo que aceitar que aquele monstro salvou o meu namorado.
Não conseguindo responder aos questionamentos do leonino, Edgar deu continuidade ao diálogo.
— O que custa aceitar que ele possa está tentando se redimir?
— Se redimir? — Danion soltou um “ar” audível. — Nem mesmo você conhece seu namorado.
Uma verdade que doeu em Edgar.
Apesar de achar que o conhecia, algo ainda faltava para acrescentar e transformar a frase em “o conhecia muito bem”.
— Você precisa aceitar que a vida segue. Já se passaram dois anos desde que aquilo aconteceu, Danion.
Danion virou as costas, ao final da coluna, uma cicatriz parecendo um triângulo tornou-se visível aos olhos de Edgar.
— Dois anos e isso nunca saiu de mim. — voltou-se a ele.
— Não há nada do que eu diga que vai realmente te fazer aceitar isso. Eu não estou aqui pedindo pra perdoá-lo, na verdade, meu objetivo aqui era apenas te acalmar. Só queria que você se desse uma chance, pois ficar carregando todo esse ódio vai acabar te prejudicando e, consequentemente, prejudicando Caine. Ele mesmo está no quarto contando que se não fosse o Joshua, talvez ele estivesse numa maca de um hospital.
— E você faz questão de me dizer isso?
— Danion! — Edgar exclamou, arregalando os olhos. — Eu estou querendo dizer que o Caine superou!
— Saia daqui, Edgar.
— Danion, eu...
— Saia daqui! — exaltou-se, silenciando-o de imediato.
Assustado, Edgar o encarrou. Em seguida abaixou sua cabeça e saiu.
Danion nunca esteve preocupado com quem Edgar se relacionará, se relaciona ou se relacionou, mas tratando-se do ruivo, Danion apenas agia querendo protegê-lo, mesmo que não percebesse, já que o rancor era maior.
Edgar, por sua vez, tinha a mesma intenção de protegê-lo, entretanto, proteger especialmente sua amizade com o branquelo e seu relacionamento com os demais. Mas ele sabia, ele entendia, por isso aceitou desde o início que não seria fácil. Melhor seria passar uma noite com seu namorado e tentar, em outro momento, conversar com Danion, já que agora percebia que ele estava com os pensamentos confusos e agia diante da raiva e tristeza.
Danion ainda ficou no seu lugar, cada pensamento levando-o de volta ao passado. Há quanto tempo não se sentia daquela forma? Perdido. Tinha sido Caine a fazê-lo se encontrar no caminho, mas nem sempre Caine poderia guiá-lo.
Além de saber que seu namorado foi espancado o seu, ironicamente, melhor amigo, também tinha sido vítima. O que dobrou ainda mais o seu transtorno.
O leonino olhou novamente ao seu redor. A ficha caiu.
Danion buscou por espaços onde pudesse caminhar sem que se ferisse nas partículas de vidros, sugou o ar quando sentiu que tinha pisado e se machucado, nada grave, mas que começou a carimbar marcas de sangue a cada passo que ele dava.
Ao sair da cozinha, deu de cara mais uma vez com Edgar, dessa vez o menor estava quieto, no sofá, acompanhado dos colegas de república. Danion passou por todos eles em silêncio, ignorando-os por completo.
Ao entrar no quarto do namorado, o viu deitado na cama. Ele estava encostado à cabeceira da cama, as pernas estiradas e o braço esquerdo pendido protegido por um pedaço de pano que estava preso ao seu pescoço.
Clara estava de pé, segurando Arthur e Samuel fazia os últimos curativos no pequeno.
Caine fixou seus olhos no namorado e viu os filetes de sangue nos pés dele. Subiu o olhar para o namorado e conseguiu vê-lo totalmente transtornado, mas nada disse.
Danion foi diretamente para um banheiro e tomou um banho. Saiu de já vestido, usando um moletom branco. Ao voltar pro quarto, Samuel já não mais estava, apenas Clara balançava o bebê adormecido em seu braço.
— Ele pode dormir no meu quarto, se deixarem... — sugeriu a loira, olhando especialmente para Caine.
— Dê-me. — pediu o branquelo.
— Mas donzela...
— Dê-me! — disse mais firme. — Você precisa ir.
Clara olhou para Caine, esperando que ele confirmasse o pedido do leonino. Caine, gentilmente, respondeu com um olhar compreensivo.
A loira aproximou-se do amigo e, delicadamente, entregou Arthurzinho aos braços dele. Se ele estivesse acordado, certamente aquilo não estava acontecendo.
Clara, ainda apreensiva, demorou a sair do quarto, até que finalmente saiu após beijar a testa do bebê e mandar um “fique bem” labial para o seu líder.
Balançando em movimentos leves o “sobrinho” no ar, Danion não retirou os olhos do ruivinho. Caine, encantado, ficou observando-o, apesar de sentir o quão tomado por um sentimento ruim estava seu namorado.
— Estou com medo, Dan. Muito medo. — falou o pequeno.
Caine estava com medo, o mesmo medo que teve após ver Danion ser espancado e então voltar pra universidade.
E Danion transbordou em choro ao ouvir aquelas palavras. Não tinha sido a intenção de Caine fazer aquilo, mas o acumulo de sentimentos no branquelo o transformou em uma fonte d’água.
— Quando vai ser o dia em que eu vou está em algum lugar pra te proteger? — questionou. — Eu sou a pessoa mais estúpida desse lugar. Eu não pude nem mesmo proteger o meu namorado. Me desculpe.
Caine não soube o que dizer. Vê-lo daquela maneira era tão semelhante ao dia em que Danion contou toda a verdade sobre o motivo de odiar seu aniversário, o mesmo dia em que admitiu amá-lo.
— E olha quem te protege? Logo quem... — continuou. — Eu sou realmente um merdinha. Até esse garotinho aqui sabe disso.
— Não fale assim... — falou baixinho.
Era estranho perceber que Danion deveria está consolando o seu namorado, mas os papeis foram invertidos diante toda a situação.
— Tinha que ser ele?
— E se não fosse ele?
O questionamento que pegou Danion de surpresa.
— Eu não sou capaz de perdoá-lo, não sou capaz de agradecê-lo. — confessou e, consequentemente, odiou-se ainda mais.
— É um direito seu. Eu não posso dar conta do que você sente em relação a ele... — evitou pronunciar o nome do ruivo.
Danion não foi capaz de continuar o diálogo. Ele se calou e ficou olhando Arthurzinho adormecido em seu braço, tão sereno e tão aconchegante. O dedo polegar do branquelo mexeu nos fios ruivos do bebê que estavam repousados em sua testa.
— Eu vou eternizar esse momento na minha mente. — disse o Caine, olhando-o.
Danion o olhou.
Em seguida aproximou-se da cama, sentando-se ao lado de Caine. Ele olhou o namorado e alternou o olhar para Arthur.
— É o seu sonho. — falou o branquelo. Caine afirmou.
Danion repousou Arthurzinho ao lado de Caine. O bebê, dormindo, pareceu ameaçou chorar ao sentir o vazio dos braços do branquelo, mas Danion tocou os braços do pequeno e balançou muito delicadamente até que ele se acalmasse.
— E se eu pedir para que não faça o que está pensando em fazer. — Caine o olhou.
Danion abaixou a cabeça.
— Não posso prometer.
— Então por que o odeia tanto se fará a mesma coisa? — Caine persistiu em olhá-lo.
E então, Danion pôde sentir o choque de realidade que havia tomado pelo questionamento do namorado.
Assim como Joshua, Danion faria justiça com as próprias mãos. Talvez não fosse mais forte que os agressores de Caine, na verdade, comparando físicos, o branquelo era bem inferior a todos eles e seu histórico de brigas não era dos maiores, além de que algumas vezes tomou alguma surra ou foi protegido, apesar de nunca recuar numa luta. Mas seus pensamentos giravam em torno do dinheiro que tinha, sendo capaz de pagar para caçarem os agressores.
— Por que você é tão bom? — Danion o olhou. — Por que consegue enxergar o lado bom nas pessoas?
— Eu acredito nas pessoas. Eu acreditei em você. Mas... — Caine não prosseguiu.
— Mas...
— Estou com muito medo. E se...
— Shhh! — o polegar do branquelo foi ao meio dos lábios do namorado.
— Isso nunca mais acontecer. Eu prometo.
— Você não pode prometer isso... É a realidade, Dan. O mundo como ele é.
— Você é meu mundo. — finalizou, finalmente conseguindo silenciar Caine depois de dois questionamentos que o deixou sem palavras.
E Caine sorriu. Talvez ele até pudesse chorar diante uma palavra de conforto e tamanho sentimento existente nela, mas o seu sorriso era um sinal de paz após o espancamento. Uma prova de que tal acontecimento, por mais trágico que tenha sido, fez de Danion e Caine um casal em eterno amadurecimento.
— Destruí sua cozinha. — disse o branquelo, olhando-o.
— Você vai ter que se resolver com eles.
— Compro tudo de novo. — disse despreocupado.
Caine até poderia repreendê-lo, mas deixaria isso pra outro momento.
Danion levou seus olhos ao Arthur que se remexeu na cama e depois voltou a olhar pra o namorado, em seguida, aproximou seus lábios aos dele e, antes mesmo do beijo acontecer, ambos ouviram o som agudo do choro do bebê invadir o quarto.
Arthur berrava entre eles e o branquelo, em via dos cuidados que o namorado deveria receber, tomou a criança nos braços rapidamente e passou a balançá-lo de modo com que pudesse acalmá-lo, caminhando em círculos pelo quarto.
E Arthur dormiu em seu braços.
[...]
Sean, sentado numa cadeira, observava-o dormir sobre sua cama.
Colin estava adormecido; sua perna machucada, protegida com uma tornozeleira, estava repousada sobre um travesseiro. Ele dormiu recebendo carinhos do namorado, inclusive, ainda segurava a mão do mesmo dormindo.
O moreno e líder dos tigres não retirava os olhos dele sobre a penumbra. O quarto estava com as luzes apagadas, exceto o abajur ao lado da cama.
Sean sempre foi acostumado a observar seu namorado dormindo — algo que Colin também adorava fazer. Mas nesse momento, o sono que tomou o seu namorado da realidade o satisfez, afinal, partia-lhe o coração vê-lo ainda triste e preocupado com o amigo Caine. O descanso foi merecido.
Sean mexia nos dedos do namorado, pensativo. Não sabia como ou quando, mas nada tiraria da sua cabeça a ideia de vingança.
E a reitoria de sua universidade?
Era o melhor pra todos, ele admitia isso.
E a polícia?
Ele também considerava um ótimo recurso para ajudar a descobrir os agressores.
Mas considerado que essa não é a primeira vez que o mundo fecha os olhos pra atos assim, afinal, não é o primeiro e nem último caso de espancamento que ocorre dentro e fora da Quadra e sem qualquer pista dos agressores, ele engavetou a ideia.
Lembrava-se bem de como alguns moradores da Quadra foram obrigados a saírem de lá quando descobriram o que ocorreu com o Colin. Sempre que a polícia era envolvida, na maioria dos casos, universitários eram afetados pelo medo que seus pais tinham que a história se repetisse.
Por isso era regra número um não envolver uma autoridade policial dentro dos problemas da Quadra, entretanto, vale ressaltar que o ocorrido aconteceu dentro da universidade e eles quem deve tomar as ações devidas.
Com tudo isso exposto, se deve lembrar que o Caine mais preocupasse com Sebastian e Lydia, ambos viajavam a trabalho, temendo comprometê-los principalmente por estar cuidado do sobrinho. E, para seus pais, a notícia de que foi espancado era quase que uma carta exigindo a sua saída da Quadra Nove.
Mas apenas abririam os olhos pra uma autoridade quando alguma vida fosse ceifada?
A juventude é cega diante certas circunstâncias.
Sean considerou o ataque ao seu namorado uma espécie de vingança, afinal, Colin e Caine são dois membros visados dentro e fora da universidade quando se trata da Quadra Nove por serem líderes de duas conhecidas repúblicas, destacando-se a República de Leões, que vivia a se meter em confusões.
“Colin”.
Pensar em Colin fazia o moreno se questionar como poderia aquele baixinho ser responsável por tanta coisa dentro da Quadra. O explosivo, atrevido e irritadiço Colin fazia destaque por conta de sua personalidade. Aliás, era a personalidade sua maior marca ali dentro, capaz de roubar o coração do maior rival que os leões já tiveram. Quantos o chamavam de capeta em forma de gente? Quantos não alertavam aos outros sobre ter cuidado com ele? Era incrível o fato de ele ser tão destacado. Colin era popular, não porque quisesse, mas por simplesmente ser quem é: pequeno, ousado e abusado... E corajoso.
Alguém bateu à porta.
Sean pôs a mão do namorado sobre o peito dele, beijou sua testa e seus lábios. Em seguida, ainda odiando ter que sair do quarto, pois se dependesse dele não sairia daqui nem se Colin pedisse, caminhou até a porta.
Ao abrir a porta, encontrou seu primo Brandon.
Brandon, já sabendo de tudo o que tinha acontecido, mantinha num rosto uma expressão de preocupação, mais para com seu primo do que para o líder dos leões.
— A tornozeleira serviu? — questionou.
Sean confirmou com um movimento de cabeça.
— Quer conversar? Sei lá... Talvez fosse bom pra você.
— Quem está lá embaixo? — o interrompeu ao ouvir vozes vindas da sala.
— Os leoninos...
Sean deu um passo a frente e fechou a porta devagar, ignorou o primo e a passos pesados desceu as escadas, questionando de imediato:
— Me digam todos os nomes daqueles que possam ter feito isso a ele. — e parou observando todos.
Os leoninos silenciaram-se quando observaram a expressão do moreno; era tão fria que os olhos pareciam mais profundos que realçavam seu olhar negro.
Brandon, ainda machucado, desceu as escadas para ouvir.
— Não podemos sair acusando todo mundo sem antes termos provas. — Hugh falou, defendendo especialmente alguém que tinha sido posto na lista.
— Eu pedi nomes, suspeitos, com provas ou sem provas, eu quero nomes. — questionou o líder, sua voz era tão fria e dura que fez Hugh pensar duas vezes antes de falar algo.
— Pode ser que tenha sido o Billy, mas ninguém sabe onde ele está. — Patrick sugeriu. — A forma como ele saiu da república e o fato de nem mesmo nos falar para onde iria, o faz um suspeito. Mas concordo com o Hugh, não temos provas.
— E se foi o Pietro? — Marcus perguntou.
— Ele não faria isso. — Hugh se prontificou para defendê-lo.
— Nos dê motivo. — Marcus voltou a martelar.
— Talvez tenha sido o Andrew e seu grupo. — Calvin falou ao perceber que Hugh facilmente se afetaria com as acusações em relação ao Pietro.
— E no grupo do Andrew tem o Pietro. — Julius reafirmou o que o amigo tinha dito.
— Não foi ele. Parem de querer acusá-lo, ele é um dos nossos agora. Vocês que fazem questão de querer acusá-lo, custa dar uma chance ao garoto? — Hugh disse.
— E onde ele está até agora? — Julius, observando o primo, perguntou.
— O que tem de moradores que odeiam o Colin... Mas nós realmente não sabemos quem foram os responsáveis por isso. Se Andrew, Billy ou... — Marcus olhou para o Hugh, porém continuou. — O Pietro.
— E se fosse o Caine o alvo? Colin só estava junto. — Julius levantou uma hipótese.
— Seu primo também o odeia... — Marcus encarou Sean, sentindo que o questionamento o pegou de jeito.
— São informações rasas, nós não temos certeza de nada. Talvez nenhum desses tenham relação com isso. Não lembram que um garoto das repúblicas menores também foi espancado? — Patrick, sabiamente, levantou outra questão.
Quando os leoninos iriam novamente começar uma discussão sobre quem teria feito aquilo, Sean caminhou até a porta e a abriu, bastou um olhar e aquilo significava que ele estava colocando todos para fora.
— Agora saiam daqui.
— Nós queremos saber como o Colin está. — Patrick, sem antes se levantar, perguntou.
— Vai ficar bem. Agora saiam.
— Nós queremos ver ele. — Julius, não compreendendo o olhar de Sean, falou.
— Saiam! — ordenou.
Hugh foi o primeiro a sair, seria mais inteligente fazer isso do que mexer com o namorado do seu líder. Sean apenas queria manter o lugar em silêncio, em perfeita paz, para que Colin pudesse descansar, mas não vale descartar a ideia de que ele detestava, ainda, os leoninos, salve a única exceção o líder deles.
Patrick necessitou puxar Julius, que bateu o pé no chão e não queria sair. Marcus até mesmo ajudou e saiu junto. Calvin foi o último a sair da república, olhando para Sean tão friamente quanto o tigre, em seguida acabou parando quando viu, a sua frente, Charles... Uma péssima hora.
— O que esses inúteis fazem aqui? — Charles questionou, olhando pra trás e para Calvin.
Calvin, ignorando-o, passou por ele e acompanhou seus amigos.
Sean afastou-se da porta e foi até a cozinha, mas no corredor parou quando recordou-se do Marcus tinha dito: “Seu primo também o odeia...”.
— Foi você? — questionou ao ver Charles entrando e resmungando sobre a presença dos leoninos em sua república.
— O quê?
— Foi você? — perguntou mais firme.
— Se me falar do que se trata, posso até dizer que sim.
— Bateram no namorado dele e no líder dos águias. — Brandon respondeu.
— É mesmo? Quem manda...
E não teve tempo de concluir a frase.
Charles assustou-se quando viu Sean partir pra cima dele como um raio, chutar os seus pés e o fazer cair de costas no chão, de repente uma mão firme e forte, pressionou seu pescoço.
— Ti ucciderò se si è coinvolti!* — grunhiu entre dentes, encarando-o. — Lo giuro.*
E o largou no chão, voltando a subir as escadas e, por pouco, não empurrando Brandon escada abaixo por estar em seu caminho.
A ameaça estava feita pelo mais genuíno italiano daquela república.
A meta do líder dos tigres: banhar seus punhos com sangue dos agressores.
Fale com o autor