República de Tigres
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Jovens carregam a ingenuidade de uma criança e a maturidade de um ancião. É nessa fase onde se desenha o seu destino."
Era sempre assim.
Uma semana antes do início das aulas, jovens universitários vagam por todos os lados da tão conhecida Seattle. Tudo se tornava um caos. Os calouros, em sua maioria, eram os que mais sofriam em busca de informações, muita das vezes recebendo respostas rasas e que de nada adiantavam, afinal, na correria do dia a dia, quem se habilitava a ajudar? Parar significa perder tempo, ou perder alguma vaga.
A lanchonete era, geralmente, o ponto de encontro da maioria dos calouros, que logo a avistavam no centro da avenida em frente à universidade. Dessa vez passando por uma bela e gratificante reforma, sendo dentro e fora do estabelecimento.
A temática era retrô: piso xadrez em preto e branco, cadeiras, bancos, e sofás vermelhos, mesa de madeira na cor branca, a parede recebeu quadros também em preto e branco, o balcão era feito de tijolinhos e sua superfície era de granito preto. O painel de atendimento, fixado a uma barra no teto, contradizia o tema por ser digital. A cozinha tinha o típico buraco — dessa vez retangular — de onde os atendentes pegavam o pedido.
Em relação à sobrevivência, muitos dos funcionários da lanchonete eram universitários que precisavam do trabalho para arcar com algumas despesas, tendo que se submeter a jovens mimados que abusavam da paciência de quem apenas queria trabalhar em paz.
Em um canto se podia ouvir alguém reclamando sobre as repúblicas oferecidas pela universidade, o famoso Ninho. “Não me avisaram sobre isso!”. Costumavam dizer. Alguns até choravam em desespero e outros ficavam felizes por voltarem pra casa e não se meterem nessa vida caótica de universitário. Em outro canto os já conhecidos veteranos, que não perdiam a oportunidade de assistir o show de vergonha que os calouros costumavam passar, riam.
Se olhassem através da janela, dava pra ver a grande movimentação indo para dentro da Quadra Nove, zona de guerra, selva de pedra, lugar para testar sua paciência... Uma questão de sobrevivência.
Hugh, assim como boa parte dos que se encontravam ali dentro, não imaginava que seria daquela forma. Até sentia pena de quem encontrava perdido sem saber como seguir dali por diante. Tentava poder ajudar, mas a cada piscar de olhos alguém chamava seu nome, mandando enxugar mesa, anotar pedido, separar confusão... e por aí vai.
Tendo em média 1,75m de altura, Hugh tinha cabelos escuros e cheios que cobriam suas orelhas e caíam sobre sua testa em forma de franja bem próxima de seus olhos. Os fios eram ondulados e suas pontas levantadas. Alguns diziam para ele cortar o cabelo, mas o garoto gostava do que via no espelho. Os seus olhos eram castanhos e claros escondidos atrás dos óculos de grau de hastes pretas que envolviam metade das lentes, conhecido como os óculos de vovó.
Olhar para ele era como olhar para uma criança, era impossível ver maldade em seus olhos e em suas expressões. Hugh era sempre visto como um garoto bom e gentil.
Infelizmente o fato de ser gentil acabava fazendo com que muitos abusassem de sua gentileza ao mandarem realizar trabalhos da qual eram responsáveis, principalmente por Hugh ainda está na fase de estágio. Porém, aquele era seu último dia ali como atendente de lanchonete.
Sairia as 15hrs em ponto. Ele não parava de olhar para o seu relógio insistindo para que o tempo saltasse de dez e dez minutos. Era apenas ilusão, quanto mais ansioso ficava, mais a hora demorava a passar.
— Qual o pedido? — Ele perguntou ao puxar a caneta do bolso e um bloco de notas.
— 143. — respondeu a garota sem olhá-lo.
O pedido 143 era o mais consumido do dia, tratava-se de um combo de hambúrguer duplo, batata frita e refrigerante a sua escolha.
— Mais alguma coisa? — o velho script previsível de um atendente de lanchonete.
— Eu pago a você? — ela perguntou finalmente olhando-o.
— Não. — ele respondeu simpático. — Eu apenas anoto os pedidos e os levo. Te entrego o valor e tudo o que precisa é confirmar o pagamento naquela garota ali. — apontou para a responsável atrás do balcão.
Entendida, a garota retribuiu o sorriso e voltou sua atenção ao mapa.
Hugh era leonino, parente do Connor, que deixou a Quadra há um ano. Como era comum deixarem vagas reservadas, chegou já tendo um lugar para ficar. Não querendo voltar pra casa nas férias, ele acabou decidindo trabalhar por um mês na lanchonete, querendo ter uma grana reserva e também ocuparia os seus dias.
— Caralho, isso aqui tá uma loucura! — Kai disse ao encontrá-lo.
Kai era membro dos tigres. Ambos faziam o mesmo curso, engenharia da computação, embora em períodos diferentes. Enquanto o leonino estava apenas no primeiro período, o tigre estava no segundo. Apesar de que em breve o novo semestre se iniciaria, assim ficando Hugh no segundo e Kai no terceiro.
Kai tinha a pele um pouco escura e lábios carnudos tão chamativos quanto a cor de seus olhos verdes que acabavam entrando em sintonia com a cor de sua pele, tornando-os hipnotizantes. Tinha 1,76m de altura, mas ficou inconformado com isso ao se deparar com pessoas mais altas que ele dentro da Quadra.
— Não vejo a hora de voltar pra república. — Hugh disse, temendo receber gritos de seu gerente. — Colin volta hoje. — olhou para trás, mas até agora ninguém gritava por ajuda.
— Sean já voltou e tá lá na república insultando todo mundo, principalmente com o Brandon, já que o lugar ficou sob a responsabilidade dele. — Kai revirou os olhos e agradeceu quando uma garota desocupou um banco próximo do balcão.
— Tem cerca de um mês que chegou o último membro novo na república. Danion me falou que era primo de um tal de Rickson. Ele até é um cara legal, só não é de conversar muito sobre sua vida e costuma desaparecer pela madrugada.
— Só vi esse Rickson no dia da festa, isso tem um ano. Mas não cheguei a ter contato com ele. Quantas pessoas já bateram na porta da sua república procurando por vaga? Sean fez uma placa dizendo: “não chegue perto, não tem vaga”.
— Danion simplesmente diz que não tem vaga. Eu morro de pena, alguns até choram, mas definitivamente ele não quer tornar aquilo uma loucura. Exigem apenas dois por quarto, tive a sorte de Connor pedir pra guardarem um lugar pra mim. Jamais queria estar no lugar de quem procura por vaga, é terrível.
— Lá na república ninguém desistiu durante esse tempo que passou, ou seja, sem chances de colocar mais alguém. Se dependesse do Sean seria apenas um por quarto, se bem que ele tem um quarto exclusivo... — falou pensativo. — Mas se chegar alguém novo, é capaz de ele expulsar alguém pra encaixar o outro no lugar. Sean é muito rígido.
— Temos apenas quatro quartos, Danion já falou que chegaram a ter três por quarto. Quem dera a Quadra fosse um lugar de repúblicas enormes, irmandades, tipo aquelas de filme, sabe? Só os águias mesmo que tem aquele casarão. Bem, do que tô reclamando? As repúblicas menores têm um ou dois quarto e olhe lá quantas pessoas dividem o mesmo espaço...
Hugh passou a sorrir quando passou a imaginar um quarto com quatro ou mais pessoas, todas se xingando. Seu sorriso foi desfeito ao encontrar os olhos do seu chefe sobre os seus.
— Preciso ver se alguém precisa de ajuda. — Hugh, baixinho, disse para Kai.
— Vou procurar um lugar mais ao fundo. — o tigre falou ao notar que Hugh estava sendo observado. — Vontade de iniciar uma guerra de comida aqui.
Hugh segurou o riso e se afastou. Kai saiu do banco e procurou por algum conhecido para que assim pudesse se juntar a eles.
Os minutos prosseguiam à medida que Hugh trabalhava. Aquele sem sombra de dúvidas foi o dia mais agitado para ele. Sua sorte não foi pegar os dias em que a lanchonete realmente explodia de gente a ponto de sair criando fila do lado de fora. Com o passar dos anos, novas lanchonetes foram abertas, porém essa sempre foi a preferida.
Como o antigo líder dos leões, William, que já havia se formado e estava vivendo sua vida longe da Quadra, Hugh também tinha uma tatuagem no braço, sendo no esquerdo. Não era colorida, muito menos bem desenhada, detalhes não havia senão nos olhos e nariz, fora isso tudo era preto.
Atendendo em meio a sorrisos e simpatia, acabou desfazendo a expressão quando chamado para atender a mesa dos encrenqueiros. Se antes soubesse disso, talvez teria mandado outro alguém servir, mas como não previu isso, teve que apenas mostrar trabalho.
Era um grupo de cinco pessoas, quatro garotos e uma garota. O primeiro deles tinha vários piercings no rosto e seu cabelo era pontudo em estilo moicano e loiro, o segundo tinha uma cicatriz na bochecha, olhos verdes e cabelos raspados. A garota tinha o cabelo liso e pintado de azul, um piercing no septo, uma tatuagem no pescoço de caveira florida e seus olhos eram tão azuis quanto o cabelo. O terceiro garoto, sentado de forma relaxada, era Andrew. Ele era da mesma altura que Hugh, os olhos azuis e cabelos escuros caídos na altura do pescoço, tinha lábios pequenos e finos e nariz grande. Nada que vinha dele era bom, até mesmo a maneira de olhar causava arrepios.
— Já pediram? — Hugh olhou para quem havia indagado.
O garoto estava de pé, uma mão coçava a cabeça e a outra estava no bolso. O garoto usava short social bege, camisa vermelha e tênis vans preto.
— Não. O babaca ainda vai fazer o pedido. — Andrew disse, dessa vez puxando seu celular do bolso. Hugh não se ofendeu. — Vai ser o mesmo, Pietro?
Pietro vem de uma família de italianos, mas não foi na Itália que nasceu, porém acabou recebendo o nome em homenagem ao falecido avô. Tem cabelos curtos e castanhos, mas suficientes para que forme uma franja pequena. Seus olhos são profundos e claros, em tom semelhante ao cinza, algumas vezes sendo confundidos com um azul, seus lábios eram grandes e revelam um belo sorriso quando ele se permitia.
— Sem a salada. Você sempre se esquece desse detalhe. — Pietro respondeu.
Ele passou por Hugh e o ignorou por completo, parecendo até que não o tinha visto ali.
— Como você pode ser magro se odeia salada? — a garota perguntou, olhando-o.
Pietro puxou a cadeira para se sentar.
— Não se senta, é você quem vai pagar hoje. — Andrew falou e Pietro o olhou. Acatou a ordem e continuou de pé.
Todos eles fizeram o pedido para Hugh que anotou atenciosamente, frisando a observação de Pietro sobre a salada.
— Mais alguma coisa? — finalmente Hugh disse algo.
Pietro dessa vez o olhou, tornando-o existente ali.
Andrew respondeu que não, com isso Hugh deu as costas e foi levar os pedidos. Considerando-se livre daquela mesa de delinquentes, acabou atendendo a outros que aguardavam. Sorriu para conhecidos e recebeu alguns insultos pela demora, mas nada fora do normal, pois os funcionários estavam habituados a isso.
Hugh sentia suas pernas doerem, ainda que fosse receber uma bronca, acabou encostando-se no balcão para descansar. Infelizmente não havia lugar para sentar.
Não deu cinco minutos e ouviu um grito. Quando olhou para trás teve tempo de observar uma cadeira sendo jogada em direção à janela, quebrando o vidro. Por sorte, ninguém havia se machucado, rapidamente se afastaram do lugar que a confusão acontecia. Hugh não precisou pensar muito no que havia acontecido, já sabia exatamente quem eram os envolvidos naquilo. Guardou o bloco de notas no bolso e foi às pressas tentar resolver.
— Eu vou quebrar sua cara! — Kai gritou a ponto de assustar quem estava ao seu lado.
— Vai chamar o Brandon porque você tá precisando. — Andrew provocou, sorridente. Algo que até Hugh odiava, pois seu sorriso era carregado de maldade.
— Eu sozinho consigo quebrar sua cara. — Kai bradou.
— Sério mesmo? — Pietro também provocou, cruzando os braços ao lado de Andrew. — Brandon sempre te livra de tomar uma boa surra. Sem ele você não é nada.
— Então manda me soltarem! Manda! Que eu vou aí e quebro a sua cara também! — continuava a bradar.
O grupo do Pietro começou a gargalhar. Hugh detestava o que via.
— Pode soltá-lo. — Andrew pediu. — Vou deixá-lo sem alguns dentes.
Feito isso, Kai foi liberto das mãos daqueles que o seguravam. Com muita raiva, Kai fechou os punhos e se preparou para avançar. Nesse mesmo momento, Hugh saiu do seu lugar e se colocou entre o amigo, espalmando as mãos no peito dele, sem que precisasse pronunciar uma palavra, a ação já dizia o que ele queria.
Hugh infelizmente acabou sendo puxado pelo braço e foi empurrado, porém Andrew o empurrou exatamente para onde Pietro estava. Assim, fez com que Hugh caísse sobre o corpo de Pietro.
— Desculpe. — Hugh, ainda que sem a necessidade, se desculpou enquanto estava sobre o corpo de Pietro.
Pietro sentiu a respiração do leonino em seu nariz e fitou os seus olhos aos de Hugh. Mas a ação durou cinco segundos. Hugh foi novamente pego por Andrew, dessa vez pelo colarinho.
— Deixa que desse eu cuido. Vai se resolver com Kai. — Pietro pedi, arrumando-se enquanto voltava a ficar de pé.
— E-eu não quero brigar. — Hugh, tentava com as mãos afastar Andrew dele.
— Então por que resolveu se meter? — Pietro perguntou.
Hugh diante de Andrew e Pietro não parecia fraco, mas sempre se recusou a bater ou se meter em confusões como essa. Pois seu físico, se comparado ao de Andrew, era igual ou superior. Ele apenas não gostava da violência.
— É melhor largá-lo, Andrew. — era a voz de Brandon.
Quando Hugh olhou para o lado, notou que Brandon estava com os braços envolvidos na cintura de Kai, que a todo custo tentava se soltar, usando do cotovelo também para machucar Brandon.
— Olha ele aí, o salvador da pátria. — Pietro, sorridente e sarcástico, falou. — Demorou a chegar, Kai iria tomar uma bela surra.
— Me larga, Brandon! — Kai gritava, usando das mãos para afastar os braços firmes dele de sua cintura.
Brandon era um dos Ferazzas, sobrenome que o fazia ser respeitado em sua república. Mas diferente dos traços genéticos que sua família carregava, ele era um garoto loiro de olhos tão azuis como safira, herdados do pai. Seu corte de cabelo era em degradê, tendo mais volume em cima e na medida em que ia chegando à nuca e orelhas iam diminuindo. Alto como o primo Sean, porém não tinha tantos músculos, embora isso não tivesse influência sobre sua força e habilidade em luta.
— Eu estou cansado desses seus showzinhos. — Brandon murmurou no ouvido de Kai.
— Eu não preciso da sua ajuda, me larga! — Kai, tendo odiado o que ouviu do loiro, tentava a todo custo se soltar.
Andrew sorria sem parar enquanto assistia Kai se debater no corpo de Brandon. Voltou sua atenção para Hugh e fechou o punho, pronto para soca-lo, mas resolveu atender ao pedido de Pietro e o deixou com ele.
Andrew largou Hugh e foi caminhando em direção a Kai e Brandon.
Pietro deu um passo a frente, mas alguém acabou se colocando entre ele e Hugh.
De pé e encarando Pietro, lá estava outro leonino: Calvin.
Calvin sempre foi motivo de debate entre todos os universitários que não o conhecia, e até mesmo os que o conhece. Ele é um homem de vinte e quatro anos de idade, pai de uma bela garota e calouro. Sim, calouro.
Ele era o mais alto de sua república, chegando a ter 1,90m. Um homem de pele levemente escurecida, olhos pequenos e azuis, nariz fino e lábios grandes. Seus cabelos eram bem curtos sem algum corte exclusivo que de longe achariam que ele tinha a cabeça raspada, e sua barba bem desenhada por fios grossos em seu rosto chamava atenção por deixá-lo ainda mais velho do que aparentava. Tinha tatuagens espalhadas pelo corpo, inclusive em sua mão havia uma cabeça de leão, feita bem antes de entrar na república.
— É melhor que você vá embora. — Calvin falou para Pietro. — Chega de confusão aqui.
Calvin não esboçava sorriso algum. A expressão séria causou medo em Pietro, que recuou um passo achando que iria receber alguma agressão.
— Sempre tem alguém pra atrapalhar. — Pietro disse. — Você é grande, mas não vale por dois. — provocou sem medo.
— Parece que não é só o Kai que tem super heróis... — Andrew olhou para Hugh, atrás de Calvin.
— Saiam daqui ou eu chamo a polícia! — o gerente finalmente apareceu mostrando o aparelho celular.
Pietro não deixou de encarar Calvin no momento em que todos eles foram ameaçados pelo dono da lanchonete. Sua vontade era realmente agredi-lo, sem se preocupar com a altura dele, mas apenas mostrou o dedo do meio para ele e em seguida fuzilou Hugh com os olhos.
— Você ganhou um novo inimigo. — Pietro disse para Hugh.
— Vem, vamos embora. — Andrew tocou em seu ombro.
Enquanto ainda encarava Hugh, Pietro ia sendo puxado pelos colegas até a saída e dali foi embora.
Ainda dentro do estabelecimento, Hugh, Calvin, Brandon e Kai permaneceram em seus lugares.
Hugh sentou-se em uma cadeira, suado. Calvin caminhou até a porta de entrada da lanchonete para ter certeza de que os encrenqueiros não voltariam. Brandon permaneceu segurando Kai por alguns minutos até que esse se mostrasse mais calmo, e quando isso finalmente aconteceu, o largou.
Kai se virou para socá-lo, mas desistiu da ideia quando viu Brandon o dar as costas. Frustrado com o que acabou de ver, sentou na primeira cadeira que encontrou e abaixou sua cabeça.
— Obrigado. — Hugh agradeceu ao Calvin.
Calvin nada disse, apenas voltou e se posicionou atrás do Kai, pondo a mão em seu ombro.
[...]
O carro estacionou em frente a sua república.
No céu não havia nuvens, estava limpo. O gramado estava mais verde, realmente chamativo, até mesmo o pequeno caminho de concreto até os dois degraus da porta tinha sido moldado. No geral, a república ganhou retoques, revivendo as cores castigadas pelo sol. O bege predominava naquelas paredes.
— Olá, Quadra Nove. — Colin murmurou.
No momento em que pôs os pés pra fora do táxi, Colin retirou os óculos escuros. Depois olhou ao redor e observou o vai e vem de pessoas a todo o momento. Notando agora que o número de moradores havia aumentado, embora não soubesse de fato se todos moravam na Quadra, mas ainda assim era um número maior do que o ano em que chegou ali. Talvez alguns fossem apenas universitários em busca de vagas.
O taxista retirou as duas malas do pequeno da traseira do carro e as colocou na calçada. Agradecido, Colin se despediu do homem e o ouviu buzinar assim que este deu a volta, seguindo em direção à saída da Quadra.
Deveria entrar em sua república, tomar um banho e ir para o seu quarto. Mas suas mãos formigavam para que tomasse outro rumo. Foi quando seus olhos bateram nas janelas da república a sua frente.
Sabia que estava sendo observado por nada mais e nada menos que o líder dos tigres: Sean Ferazza.
Os mesmos olhos frios que penetravam sua alma e que pareciam decifrar seus pensamentos, pertencentes à pessoa que já lhe retirou o ar diversas vezes entre quatro paredes. Não era fácil lidar com o desejo absurdo de tê-lo sobre seu corpo, mesmo odiando suas ações na maior parte do tempo.
Sean fechou as cortinas daquela janela. Colin atravessou a rua e colocou seus pés sobre a calçada daquela república que por muito tempo deu dor de cabeça para os leões, embora atualmente não fosse tão diferente.
Deu mais alguns passos e parou em frente à porta, onde encontrou uma placa com a seguinte mensagem: “não chegue perto, não tem vaga”.
Colin apenas aguardou até que a porta fosse aberta por quem já esperava.
Sean deu um passo à frente e logo trancou a porta atrás dele. Colin o encarou, Sean manteve o semblante sério que causava arrepios em que não o conhecia.
Foi tudo muito rápido como um relâmpago.
Colin franziu a sobrancelha e contraiu os lábios — semblante de raiva. No segundo seguinte todos os que passavam por ali presenciaram Sean segurando a mão de Colin que estava a poucos centímetros do rosto do moreno. Se o líder dos tigres não fosse rápido, certamente teria levado um belo soco.
— Bem vindo, Colin. — Sean, sorrindo em câmera lenta, disse.
Algumas coisas nunca mudam: castanho no negro, negro no castanho.
Olhares.
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