O ar estava úmido e abafado. Pesava. A terra molhada e arenosa cheirava à matéria em decomposição. O dia todo ensaiou para que chovesse, mas a chuva ainda não vira. Já era noite e as duas continuavam deitadas na represa.

— Você... acha que... ele vai prum lugar ruim?

Riu — Eu espero que ele já esteja lá.

— Ele não tem que passar prum estágio intermediário?

— Tipo a alfândega?

— Eu imagino mais um julgamento.

— Tipo a Barca do Inferno? Bem chato isso...

— É o que todo mundo fala, acho que tá no inconsciente coletivo.

— Eu imagino ele acordando e vendo que tá num lugar parecido com esse, só que bem pior, mais quente, mais úmido, mais fedorento, mais podre.

— Você acha o inferno é igual aqui?

— Sim... se não for aqui.

— Aqui não pode ser o inferno.

— Por que não?

— Porque senão, todo sofrimento seria justificado, e não teria ninguém inocente, e as pessoas que se dão bem na vida não poderia se dar bem porque, bem elas estariam aqui pra sofrer. O seu sofrimento seria justificado por uma coisa que você fez. Todo mundo estaria pagando coisas ruins que fez. E nisso entra crianças e recém-nascidos...

— Entendi... mas é que é tão aleatório... você encontra vários demônios por aí e só se dá conta muito tarde... às vezes tarde demais. Aeh parece que você passou a vida pagando por uma coisa ruim que você fez e não sabe o que foi. E o sofrimento vem e se repete e você não pode fazer nada. E você fica sem conseguir viver.

— Sim...

Alguns pontos luminosos apareciam e apagavam, insuficientes para clarear a noite.

— Então você acha que ele não vai sofrer pelo que ele fez?

— Hum... mas ele sofreu.

— Espero que sim. Mas parece que não é suficiente.

— Você não tá aliviada?

— Não... parece que meu ódio é infinito.

— Você parece bem calma.

— É porque eu tô cansada... Você tá cansada?

— Sim, mas eu tô meio que em paz.

— Isso é bom.

— Acho que o que a gente fez foi uma coisa boa. Ruim, claro. Mas tinha que ser feito

— Tinha que ser feito.

— E eu tô feliz, acho. Digo, por você.

As pererecas coaxavam e o céu estava escuro, sem estrelas. Talvez chovesse de madrugada.

— As coisas vão melhorar agora.

— Você acha?

— Claro.

— E se ele voltar?

— Ele não vai voltar.

— Não, digo, ele pode aparecer...

— Ah... bem, se isso acontecer, ele não vai poder falar quem foi. — E riu.

— Mas a ciência pode... evidências, provas, investigação.

— Que nada. Ele era um filho da puta, ninguém vai ligar, ainda mais nesse fim de mundo. Ele mereceu.

— Eu sei. Mas e se você for pega.

— Fica tranquila que eu não vou te denunciar.

— Não é isso.

— ...

— Eu vou ficar bem.

— ...

— Depois do que eu passei, eu aguento o que vier. Eu só não podia mais aguentar ele.

— Eu sei... mas eu me preocupo.

— Eu sei... E outra, ele vai virar comida de peixe rapidinho.

— E se alguém pescar ele antes disso?

— Fazer o que? Quem pescar, pescou.

— Dá pra falar que ele caiu, bateu a cabeça e afundou?

Riu — Acho que não. Eu fiz um puta estrago. Tava bem furiosa...

— Eu vi.

Suspirou — Nunca pensei que pudesse sentir tanto ódio...

— Tudo bem. Uma hora isso vai passar.

— E se não passar? E se ele fodeu a minha vida para sempre?

— Acho que... não sei... você não pode deixar isso acontecer...

— Mas e se eu não conseguir? E se eu não conseguir viver a minha vida?

— ... eu posso te ajudar.

— Como?

— Não sei... a gente vê isso depois, tô com sono, não consigo pensar.

Algum pássaro noturno conversava com outro. Nenhum vento refrescava a noite.

— Brigada.

Tateou o escuro a procura a mão da outra. — Não precisa agradecer. Você sabe que eu faria tudo de novo.

Riu — Não vamos precisar.

— É, não vamos.

Se aconchegaram e adormeceram profundamente.

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