Repleto
1 Você me transborda
Notas iniciais
Todas as vezes em que te pego desprevenido, adormecido sobre uma pilha de documentos infindáveis, penso na sorte que carrego comigo por tê-lo ao meu lado, realizando um sonho que sempre pareceu utópico demais só porque éramos nós, o prodígio do clã Uchiha e aquele que deveria ser o seu exemplo.
Sei que não foi fácil a princípio, que sofremos a dor de uma represália que veio ferrenha por parte do seu pai, mas não do meu, e que contou com a proteção de sua mãe que disse que o amor dela em nada mudava por conta disso.
Ainda lembro dos olhares de repulsa e ódio que tio Fugaku não fazia questão alguma de esconder desde que decidimos assumir o nosso caso perante a família e Konoha, pois não nos esconderíamos pela vergonha. Não mais.
Já bastavam dos encontros furtivos, da dor não poder partilhar o mesmo leito sem que isso fosse feito em segredo. Antes tivessem que suportar os olhares atravessados na rua, os cochichos de julgamento das pessoas que jamais compreenderiam o que nós sentíamos um pelo outro.
No começo foi difícil, é claro, mas como todas as coisas, você enfrentou isso com um sorriso no rosto, sem nunca se deixar abalar.
Você, o prodígio que havia se tornado jounin antes de todos nós, que aos treze era membro da ANBU e, aos dezesseis, foi cogitado como Godaime Hokage ao tornar-se pupilo de Minato-san.
E que havia impedido o massacre do nosso clã por conta de um egoísmo infundado que não poderia ser levado adiante.
Ao seu lado, aprendi o que era amar e ser amado. Aprendi o verdadeiro significado da cumplicidade mesmo quando tínhamos que dividir nossos momentos com o mala do seu irmão. O que poderíamos fazer se ele não descolava de você nas horas em que eu te tinha um pouquinho pra mim?
E continua sendo da mesma forma, agora que ele é o capitão da polícia e seu segurança pessoal ao lado daquele garoto barulhento, filho de Minato-san. Nunca vou entender como, de todas as pessoas, os dois terminaram juntos com toda aquela personalidade tempestiva e oposta. Acho que também nunca vou entender como alguém é capaz de suportar o Sasuke com tamanha chatice, nisso você é melhor do que eu.
Prefiro a sua calmaria, que precede toda e qualquer tempestade, mesmo nos seus piores dias, sempre me dedicando um sorriso doce e gentil. Você, que mesmo sofrendo era capaz de carregar o mundo nas costas sem nunca derramar lágrimas apenas para me poupar, e a todos ao seu redor. Será que foi por isso que Namikaze-sensei o escolheu? Penso que sim.
Mas eu enxergo nos seus olhos a tristeza de quem, tão jovem, descobriu o poder do sharingan, e eu te abraço, e quero tomar essa dor para mim sem nunca conseguir de fato. Acho que é por isso que me enterneço quando te observo adormecido, com as defesas completamente baixadas e a boca entreaberta que derrama um filete de saliva sobre aqueles documentos que já deveriam estar assinados e entregues desde muito tempo.
Sem me conter, toco seu rosto com doçura, meus dedos desenhando os traços perfeitos que parecem ter sido desenhados por um artista antes de esculpi-lo em carne e osso.
Você se remexe um tanto inquieto e vejo suas pálpebras se apertarem com força antes de entreabrir os olhos enevoados e confusos de quem não compreende como terminou adormecendo ali.
− Sui? – Sua voz sai um pouco arranhada, rouca e manhosa. Aqui, somos só nós dois, sem nenhum tratamento formal.
− Você dormiu de novo, Tachi. – digo, uma risada sonora reverberando pelo ambiente. – É a terceira vez essa semana. Será que vou ter que vir te buscar todos os dias agora?
Você sorri um pouco sem jeito, um pouco como quem não sabe o que dizer e se desculpa.
− Trabalho demais?
− Outro acordo finalizado. – Vejo o momento em que deixa as papeladas de lado e limpo seu rosto marcado por um borrão de tinta na bochecha.
− O orgulho da nação. – brinco. – E o meu também. Vamos para casa, já anoiteceu.
É esse momento que precede a minha felicidade quando você sorri e se inclina para frente para tocar meus lábios com os seus, me puxando pela nuca para um beijo suave que nada carrega de malícia, somente amor.
− Obrigado por cuidar tão bem de mim.
− Se eu não fizesse isso, Sasuke me mataria. – Recosto a testa sobre a sua, permitindo me perder no tom ébano de seus olhos.
− Tenho certeza que sim.
Sorrimos, cumplices por mais um momento, antes de nos erguermos e entrelaçarmos os dedos.
− Ichiraku Lamen esta noite? – Você pergunta, com aquele tom divertido de quem aprendeu a gostar daquela comida pelo vício de seu sensei.
− E todas as outras também.
Gargalhamos juntos, caminhando para as ruas de Konoha onde as pessoas te cumprimentam, sem se importar mais com o fato de sermos um casal, afinal, você é o Hokage que impediu a guerra, o salvador da nossa nação que instituiu leis que visavam a igualdade de todos.
Seguimos tranquilos o nosso caminho e carrego comigo a certeza de que meu coração está repleto de amor e carinho porque tenho você.
Notas finais
Gostei de trabalhar a ideia de um Itachi Hokage, quem sabe não me arrisco em mais fics assim? Nos vemos nos comentários!
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