Ela estava do outro lado da rua, pendendo na extremidade da calçada.

Mantinha seus pés balançando para frente e para trás como uma gangorra na borda, amassando os tênis vermelhos. Suas mãos se agarravam às alças de sua mochila ao lado do corpo, e eu podia ditar cada detalhe seu sem sequer olhar. Ali, do outro lado, humildemente a salvo na grama plana, eu podia ver tudo com uma clareza que só é possível em sonhos como aquele. As clavículas acentuadas, os cílios curvilíneos, as maçãs do rosto destacadas. Também havia os seus olhos, uma cor intensa de azul intercaladas com filetes de cores mais escuras. Era extraordinário. Logo acima, sua franja negra escura escondiam suas sobrencelhas cuidadosamente arqueadas, mas não muito. O negro dos cabelos contrastava com a cor pálida da pele. Era familiar para mim, como se tivesse passado a vida toda com ela. Mas não passei. Eu nunca havia visto aquela garota pessoalmente em toda a minha vida, e nem mesmo em fotos. Era familiar pois eu havia a visto nos meus sonhos. A semana inteira.

Depois que tomei consciência de que ela estava ali, logo a minha frente, tomei consciência da segunda verdade. Instantaneamente, a palma de minha mão começou a suar. Meus batimentos cardíacos aceleraram. Tentei me mover em sua direção, mas era uma tentativa falha e tola. Eu já havia tentado aquilo em dias anteriores — eu era somente um expectador. Não podia fazer nenhum ruído e nem alterar nada com as minhas ações.

Por isso, mesmo ainda nervoso, esperei.

O momento da vez não demorou muito a chegar.

Subitamente, a garota gritou. Um grito agudo e desesperado, e de repente a dor estava em seus olhos, espalhando-se por seu rosto e corpo. Um filete vermelho apareceu no lado direito de sua cintura, e se expandiu. Um corte. Não demorou muito para outro aparecer, mas dessa vez logo abaixo de sua clavícula esquerda. Outro em seu braço. A esse ponto, a garota já estava jogada ao chão, debatando-se. Lágrimas escorriam de seu rosto, algumas caindo diretamente para o sangue que se espalhava por seu peitoral. E eu permaneci parado, como em todas as outras quatro vezes em que assisti a mesma garota morrer. Imóvel, mudo, inexpressivo. Por dentro, a sensação era de que eu ia explodir a qualquer instante.

Depois, um barulho ensurdecedor. Próximo, explodindo como se a origem estivesse logo ao meu lado, porém, era inconfundível. Um tiro.

Meus olhos não saíram da garota nem por um instante. Eu tinha certeza de que não havia ninguém atrás dela — estávamos sozinhos em uma rua deserta, com o sol batendo em nossos rostos, embora uma brisa balançasse nosso cabelo — mas, mesmo assim, um buraco se abriu em sua testa. Pequeno, do tamanho de uma bolinha. O sangue se espalhou pelo seu rosto, escorrendo em filetes de tamanho e grossura variáveis. Ela se apoiava em seus cotovelos em um segundo. No outro, estava morta no chão. Recuperei meus sentidos. Era sempre nesse instante em que eu acordava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.