Aquele quarto é sempre meio escuro. Não importa o horário.

Safira senta no chão mais uma vez. Não lembra quando começou, só sabe que virou hábito. Adelaide circula o espaço despretensiosamente. Abre gavetas, fecha portas, pega um copo, larga em outro lugar. Tudo é movimento sem destino. Ela sequer mora lá.

Há palavras pequenas demais pra virarem discussões. Copos esquecidos. Olhares que duram um segundo a mais do que deveriam.

Safira ri sozinha, ela não compartilha seus pensamentos hilários. Adelaide disse certa vez, em um passado não tão distante, que ela deveria ficar calada à expor seus pensamentos supérfluos.

Adelaide observa. Já decorou cada reação. Cada silêncio virou parte do repertório.

Safira tenta se levantar, porém não consegue. Talvez tenha exagerado na dose. Adelaide não ajuda, ela finge que nem está vendo (ela sabe exatamente o que está acontecendo).

Elas dividem o mesmo espaço, mas não o mesmo tempo. Tudo acontece depois. Nada acontece.

O relacionamento já acabou, mas continua sendo ensaiado todos os dias. Um teatro póstumo, sustentado por gestos automáticos e um repertório infindável de pequenas violências.

Nada se resolve.

E é exatamente por isso que continua.

Notas finais
primeira vez que posto sobre elas. Que legal.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!